terça-feira, 8 de abril de 2008

"Poema para os companheiros da ilha"

Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 8 de Abril de 1920, tendo falecido em 29 Janeiro de 2001. Escritor português com uma actividade actividade cultural desenvolvida sobretudo a partir da cidade do Porto: foi editor, no domínio do livro de poesia, esteve ligado á direcção de revistas como A Serpente (1951), Árvore (1951-1953), Notícias do Bloqueio (1957 – 1962) ou Limiar (iniciada em 1992), publicou várias traduções de romancistas e poetas estrangeiros, desenvolveu actividades teatrais ligadas ao movimento cineclubista. Como poeta, a sua obra tende para o estabelecimento de um equilíbrio entre duas tendências que se afirmaram nas décadas de 40 e 50: o neo – realismo e o surrealismo. Da primeira destas tendências – muito marcada em Os Arquivos do Silêncio (1963) e na recolha antológica Poemas Políticos (1980). Egito Gonçalves recupera um sentido de intervenção, por vezes desfocado por uma muito viva expressão irónica; da segunda, a maneira como na poesia se pode valorizar a imaginação, sem que, no entanto, a sua linguagem enverede por experiências associativas surrealizantes, pela escrita automática, etc. Quanto a este aspecto, Egito Gonçalves mostrou-se sempre preocupado em construir o poema (“construo os meus poemas, com as imagens adorno-os”), dando-lhes uma configuração bem delineada ou estruturada. Aproximou-se, assim, daqueles poetas que nos anos 50 – o seu primeiro livro, Poema para os Companheiros da Ilha, é de 1950 – começam a revelar uma especial atenção quanto ao papel que a linguagem desempenha na economia da própria criação poética, sobretudo através da utilização da metáfora e da imagem. Isto leva-o a estar atento a uma certa viragem que na poesia portuguesa ocorre durante a década de 60, orientando-se essa viragem para um tipo de escrita poética que reage contra a discursividade – característica esta comum a muitos textos surrealistas e neo-realistas -, contra uma figuração expansiva procurando, antes, uma linguagem o mais depurada possível, elíptica, por vezes fragmentada.(…)
In: Bibllos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa - 1995
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PANFLETO CONTRA O PANFLETO
(sob a forma de conselhos a um jovem poeta)
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Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.
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Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.
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Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.
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Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.
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Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!
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Se recorres às rosas faze que sejam brancas
e elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.
Egito Gonçalves

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Prémio Consagração

Fernando Lemos recebeu ontem, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, (SNBA), em Lisboa, o Prémio de Pintura Banif 2008 - Consagração e inaugura no mesmo espaço uma exposição que abrange várias áreas representativas do seu trabalho (pintura, desenho e fotografia).
O galardão, no valor de 30 mil euros, foi-lhe atribuído por unanimidade por um júri presidido pelo historiador e crítico de Arte José-Augusto França.
A atribuição do prémio ao pintor português a residir em São Paulo, no Brasil, foi justificada "pela capacidade de trabalho multifacetada verificada ao longo do tempo em obras de grande qualidade nos domínios das artes gráficas, da poesia, do desenho, da pintura e da fotografia".
Nascido em Lisboa, em 1926, Fernando Lemos desde muito novo se dedicou às artes gráficas, à poesia, ao desenho, à pintura, à fotografia e à crítica de arte e integrou, nos anos 40 e 50 do século XX o chamado Grupo Surrealista de Lisboa (juntamente com Vespeira e Fernando Azevedo).
Para o júri que lhe atribuiu o prémio por unanimidade, a pintura de Fernando Lemos, "inicialmente informalista, geometrizou-se na série "Signos desmemoriados", e reencontrou, recentemente, certas expressividades do seu início, em composições mais complexas, onde figuras puras e jogos cromáticos ornamentalistas manifestam a fusão do sentido de humor com o do maravilhoso". (Jornal de Notícias, 02/04/08).
Fernando Lemos de quem tenho o prazer e sobretudo a honra de ser amigo, é sem dúvida o que se pode apelidar de "artista global" e como tal, do livro "O silêncio é dos pássaros/El silencio pertenece a los pájaros", Edición y traducción de Perfecto E. Cuadrado, o poema:"Não há tempo"
Não há tempo
..............há horas
Não há um relógio
..............
..............hábitos que
me habitam
.
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O poema dói
o ponteiro corta
a hora queima
a morte simula
.
.
respira
para não me distrair
Fernando Lemos

quarta-feira, 2 de abril de 2008

POESIA - A casa do sol nascente

Casa Municipal da Cultura - 03/04/2008, 18:00

Pink Floyd - House of the Rising Sun

O novo livro de João Rasteiro - O Búzio de Istambul - estabelece um percurso entre a poesia e a prosa poética que resulta inovador na escrita do poeta, já com considerável obra publicada.
Com um prefácio-poema de Casimiro de Brito, este mais recente livro de João Rasteiro propõe uma incursão nas memórias de uma vivência onde está presente um olhar poético de fina acutilância, e ao mesmo tempo um abarcar sensível e apaixonado pelos lugares físicos do passado.
In, PALIMAGE EDITORES

http://arjentola.blogspot.com/search/label/Jo%C3%A3o%20Rasteiro

http://daedalus-pt.blogspot.com/search/label/livros

http://actaparaviolino.blogspot.com/search/label/po%C3%A9ticas

http://euxz.blogspot.com/

domingo, 30 de março de 2008

Lugares

H. Bosch - O jardim das delícias
Antes ramos e rosas
Ao A. Ramos Rosa

Ter um corpo de branco, um eco
todo silêncio: palavra!
Vozes, céu, terra, linho, o acto desnudo
fresco e fresco, fresco
e mãos acesas de sexos iniciais de imensos universos.
Um eco: uma língua
quase frémito, no coração dos hortos , completa e contínua.

Um corpo que morre no sabor entre as palavras
sobre o rosto incandescente do espanto: deus
nas talhas, no barro, no fresco, no sangue,
pai, filho, sílaba e espírito obscuro
de paragens, sopros, paisagens, círculos e hortos,
a terra branca, límpida nas veias: antes ramos e rosas.

O Corpo?
Um corpo de água?
O animal atónito, inabitado?
Um animal de branco, desejos no interior de constelações
sumptuosas, a terra aberta, silêncios: toda a terra, branca.

Não conheço esse corpo fresco, não fui a esse branco
espaço de todas as palavras, o hálito vivo da inquietação,
a respiração inaudível das formas nuas: antes ramos e rosas.
In, O Búzio de Istambul - 2008
http://br.youtube.com/watch?v=pRV9QCXLtHQ

quinta-feira, 27 de março de 2008

Lugares

(...)Aproximam-se paulatinamente os ciclos finais das cidades, dos lugares com corações de ferro enxuto, embriagados em jogos de nocturnas deambulações com os seus insectos negros, de um negro faiscante. Neste espaço, os sítios da revelação eram as caves, os sótãos e o silêncio que ainda subsistiam como memória de vidas e deuses, cuja posteridade e sombra se deixou reduzir a precários vestígios de granito sombrio, de bocas cozidas na pedra.
Cidades delineadas na incandescência da blasfémia que imagina a linguagem dos campos inaugurados e renovados, dos campos no centro dos homens inquietos. Os campos vibrando nas hastes aguçadas do centeio.
Passou bastante tempo antes que a memória voltasse à sua paisagem. E quando o fez, foi ao encontro dos amieiros e do sabor da terra húmida.
A aldeia, porém, é um corpo de palavras e crianças – e as suas mãos fixam-se de forma enigmática ao tumulto do mel que irrompe do coração da terra, fazendo com que os sonhos despertem e a vida recomece, por essa força que a devora por dentro como uma queimadura polida, restituindo a memória dos gnomos ao sonâmbulo que se fantasiou neste sonho alquímico.
(...)
In, O Búzio de Istambul - 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008

Ressurreição

Retábulo da Capela-mor da Sé de Viseu - RESSURREIÇÃO
A voz solitária do homem
.
Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
José Tolentino Mendonça
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Jos%E9+Tolentino+Mendon%E7a
http://br.youtube.com/watch?v=AXezOzhSUUM&feature=related
http://br.youtube.com/watch?v=QkswwUnqRRU&feature=related

sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia mundial da poesia

O Dia Mundial da Poesia comemora-se a 21 de Março, sexta-feira, por iniciativa da UNESCO, que o proclamou em 1999 com o objectivo de defender a diversidade linguística.
Em forma de homenagem, dois poemas, um, do nosso POETA, Luís de Camões e outro, de Vitorino Nemésio, como forma de "satisfazer" o poeta e amigo, valter hugo mãe.

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
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Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não disesse
.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
.
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Luís de Camões

A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
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Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
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A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
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P. S. ---> O dia mundial da poesia também irá ser celebrado através de uma expoemização, (exposição de poemas) intitulada “aranhiças & elefantes”. A exposição será apresentada pelo projecto poético “5 aranhiças” e decorrerá a partir de 21 de Março, no Café com Arte e no Feito Conceito, em Coimbra. É sem dúvida, uma boa oportunidade para se olhar a poesia sob uma outra perspectiva. Da exposição ainda se poderá levar uma pequena lembrança poética.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A rotação do mundo

Herança
............Ao Manuel Rasteiro

Junto às margens impassíveis dos rios da Babilónia
os salgueiros têm fólio espinhos hábeis de silêncios,

o silêncio obriga-me a ouvi-lo e agride sem compaixão
a memória absoluta a chama que se desfibra metálica
entre as cordas a última jangada nas veias da água,

o meu amor é uma navalha na cúmplice garganta
reinventando hoje o retorno da tua voz hálito genuíno
iluminando-te lentamente na cozedura plena das palavras,

agora tu és uno como o tempo despido dos dias robustos
na tua morte floresce a arquitectura nua da minha morte
aves em vigília serena sobre os rebentos dos salgueiros,

quero apreender a semente nas águas puras da Babilónia
acústica sagrada do búzio que cadencia a tua imagem
espelho hibernal que subsistia entre ti e a boca da morte,

emudecido sei que onde as feridas se alojam indolentes
a cria dobra-se do regaço incorruptível e agora sou adulto.
João Rasteiro

http://tw.youtube.com/watch?v=26g1jQG-n4Y&feature=related
http://tw.youtube.com/watch?v=Jek6iP6AuAQ

domingo, 16 de março de 2008

Intradoxos ou a calebração da palavra

márcio-andré nasceu em 1978 no Rio de Janeiro. Formado em letras, e com mestrado em poética, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autor dos livros Movimento Perpétuo, de 2002, Cazas, de 2006, e Intradoxos, de 2007. É co-fundador, editor e ensaísta da revista de arte e literatura Confraria, produzida em parceria com o Sector de Pós-graduação em Letras da UFRJ e a editora Confraria do Vento, da qual é também coordenador editorial. Artista multimídia, desenvolve trabalho performático, no qual toca violino e recita poesia simultaneamente, com o auxílio de sons pré-gravados, projeções de imagens e códigos-fonte, árvores gerativas e plantas baixas. O aprimoramento dessa sua proposta levou-o à criação do projecto-grupo Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais, que, misturando expressão física e oral, projecções, elementos sonoros e cénicos, pesquisa novas formas de leitura da poesia.
A poesia de márcio-andré combina textos de alto teor imagético com partituras, códigos fonte, árvores gerativas, plantas baixa, e se insinua em direcção à interdisciplinaridade, ao fundir poesia escrita com cantatas cénicas e projecções de dança. Recentemente vêm trabalhando no que chama poética das casas, cujo interesse é a investigação de uma hermenêutica do urbano, espécie de geopoética que está sendo publicada sob a forma de ensaios e poemas.
Através de de uma poesia que é essencialmente na sua essência, tensão, confronto e sobretudo "agir", onde nada está fixo e tudo está suspenso na dinâmica do saber e não saber, na ânsia trágica de visionar a ínfíma luz do poema, o lugar, a "casa" onde se situa o poder da linguagem, márcio-andré é hoje, sem dúvida, uma voz maior na poesia contemporânea brasileira.

Os ornamentos
e o homem foi arrancado da casca da noite
e acrescido de dentes e olhos
e foi trançado dia e dotado de ouvido

e ouviu:
o trigo roçando o éter de Galileu
os pés descalços
a grama úmida de hortelã –

e ouviu:
a pele inviolável
de seu corpo inviolável
[germinar lagartas nos arremedos de vértebra]
flanco e dorso
das carcaças de pachiderme
um hipopótamo sonhando entre os girassóis

CAZAS (FRAGMENTOS)

As casas são 30% tijolos e 70% sonhos

......[1] casas-frutas
...........casas-mundos

.....[2] a
..........cidade-mitose
..........cidade aerada [um seu subterrâneo
..........aleatório]


era jovem a mulher na cozinha
.........o cabelo com o dobro da idade

.........fruta-falo em seu ventre

.........na ontologia dos detalhes
.........os utensílios tem parte com os delírios

.....[3]

.........a estrutura óssea da casa
.........não suporta vibrações de realejo
márcio-andré
http://www.marcioandre.com/marcioandre.htm
http://www.germinaliteratura.com.br/mandre.htm
http://tw.youtube.com/watch?v=7I_gISGJZek

quinta-feira, 13 de março de 2008

Lugares

Marc Chagall
Bebeste o sangue dos animais
os teus voos amadureceram
ao longo dos lugares.
Os ninhos acolhedores do morcego.
Mas não descestes às cavernas
onde estão os leprosos
com as fábulas e os líquidos sagrados.
Os poderes da noite já se esgotam
e as pupilas procuram a luz
que regressa dos labirintos da escuridão.
João Rasteiro

terça-feira, 11 de março de 2008

"Uma Pedra ao Lado da Evidência "

"em surdina me preparo para morrer" é um verso de Sebastião Alba (Braga, 11/03/1940 - 14/10/2000).
Cedo foi para Moçambique, aí, foi desertor do Exército português, esteve ligado à Frelimo, foi preso, versos seus saíram na revista Caliban, dirigida por João Pedro Grabato Dias (António Quadros) e Rui Knopfli. Já depois da independência frequentou um curso de formação da Frelino e chegou a ser nomeado administrador da província da Zambézia, além de dar aulas de formação politica. Mas o poeta, que José Craveirinha qualificou como "um dos grandiosos deuses humildes da palavra", foi-se desiludindo com a evolução da situação politica e da Frelimo, e em 1983 regressou, com a mulher e as duas filhas, à sua terra natal, Braga. Separa-se, bebe muito, passa a viver em quartos de aluguer e a procurar sucessivos empregos, faz tentativas de desintoxicação. A partir de 1994 refugia sobretudo no álcool e no tabaco. Como referiu Virgílio Alberto Vieira, "Um dia chateou-se com tudo e optou por viver sob um texto de estrelas".
Muitas vezes, metia poemas manuscritos debaixo das portas ou na caixa do correio dos poucos amigos, sobretudo poemas dedicados a animais.
Publicou vários poemas e alguns livros, em 1996, é publicada pela Editora Assírio e Alvim, através da colaboração do poeta Herberto Hélder, "A Noite Dividida", que tenta recuperar o conjunto da sua obra poética, embora incompleta.
Sebastião Alba, faleceu com 60 anos, atropelado numa rodovia. Deixou um bilhete dirigido ao irmão: «Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá»
"O vagabundo pôde por fim habitar a eterna morada do comum dos mortais; o poeta, esse, ainda anda por aí", como referiu Fernando Pinheiro.
Em forma de homenagem e de descoberta deste nome da poesia e literatura em língua portuguesa, que precisa de ser "destapado" e valorizado com urgência, dois belos textos:
A UM FILHO MORTO

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.
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A ORELHA DE VAN GOGH
"Era em Tete – parece a abetura de “ Salambô “, de Flaubert, deixa lá isso. Tete, uma vila colonial, em Moçambique, tinha dois clubes onde se dançava, em certas datas. Mas, nos outros dias, funcionários jogavam cartas, ouviam música.Uma noite eu ia de nossa casa ao encontro de meu pai que era professor ali, em 1950. Só, por um passeio térreo, sob as acácias comecei a ouvir música. Eu tinha dez anos. Vinha até mim de um dos clubes, pelas janelas abertas. Sabes o que fiz? Corri, com medo que aquilo acabasse. Era a 4a Sinfonia, de Brahms, soube-o depois.Ainda hoje, oiço os primeiros acordes da 4a Sinfonia , de Brahms, e fico arrepiado. É um arrepio físico. Poderás vê-lo na pele dos meus braços quando, um dia, a ouvirmos em qualquer parte os dois.Lembrou-me, ontem, um mito grego. A minha flecha crava-se no teu rosto cego, não falho. Ele também não, desde que se deixe “ guiar “; lê essa frase de Van Gogh. É uma carta estranha esquece-a; esquece-a.Um pintor que sempre me alucinou foi este. Teve no meu destino uma influência decisiva. E nada sei de pintura!Nunca acreditei naquela história da orelha oferecida numa folha de couve a qulquer prostituta. Ele estava com uma alucinação auditiva e à beira da loucura – era o sol de Arles, o Kamesin, o vento do deserto; saía todas as manhãs com o cavalete às costas. Não faltava nada a esse holandês. Só a esperança nos homens do seu tempo e no dos outros".
Sebastião Alba
http://boticelli.no.sapo.pt/sebastiao_alba.htm
http://www.macua.org/livros/sebalba.html

sábado, 8 de março de 2008

Dia Internacional da Mulher

PORQUÊ O DIA 8 DE MARÇO
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Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.
Em homenagem a todas as mulheres, principalmente à da fotografia, uma ligação ao youTube, com a extraordinária canção de Chico César: "Mulher eu sei".
Pablo Picasso - A mulher e o livro

"Mas, não "parece" possível - não sei como ainda consegues
escrever - diz uma mulher que irrompe súbita e
desestruturante como surgem as mulheres oráculos, peixes
vermelhos, talvez negros. A mulher de boca vermelha diante
dos punhos de um homem impaciente pelos astros. O homem
espantado com a sua própria ignorância - habituado a dizer
rudemente, contra a neve, eu quero; os seus punhos
descreviam círculos no ar e a mulher afiava punhais de amor,
enquanto se aproximavam de uma encruzilhada; a partir daí,
que os dados sinuosos decidissem sobre o futuro sorriso das
aves, das crianças, os dados que desde as antigas assembleias
dos bosques foram lançados contra a erva fofa e verde da carne
- e a mulher não entendia como era possível que ele
continuasse a escrever com a tempestade. Porque se fizera
silêncio, silêncio grave como num balanço da vida. E a violência
dos seus corpos era grandiosa e danificadora. Subterráqueos,
diziam que se amavam, em segredo. Mas as pequenas vilas não
perdoavam: o homem devia ser crucificado nas falas quotidianas
das tabacarias. Na última noite ficaram sentados, virados para
ocidente, num silêncio de meses, como se estivessem de novo
sentados, calados, com saladas e um copo de vinho".
Herberto Helder
.
Mulheres
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando as suas crianças adoecem
e alegram-se quando as suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
Pablo Neruda
.
FRUTO
Camélia branca
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios
.
Este é o dia que ninguém te nega

.................
que acende a sílaba como um sol

.................que não fenece(s)
..............................os olhos.

João Rasteiro
http://br.youtube.com/watch?v=peT6w9zxKjo


quarta-feira, 5 de março de 2008

ANNA AKHMATOVA

(Горенко, 23 de Junho de 1889 - 5 Março 1966)
COMO PEDRA BRANCA
Como pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.

Julgo que quem olhar-me bem de perto
dentro em meus olhos logo pode vê-la.
E ficará mais triste e pensativo
que alguém que escute uma anedota obscena.

Eu sei que os deuses metamorfoseavam
os homens em coisas sem tirar-lhes alma.
Para que o espante da tristeza dure sempre,
em coisa da memória te mudei.
Tradução de Jorge de Sena
A MULHER DE LOT
E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.
Tradução de Lauro Machado Coelho
Anna Akhmatova
http://anaprs.blogs.sapo.pt/arquivo/400439.html
http://64.233.183.104/search?q=cache:d_Gxfve-pMkJ:br.geocities.com/jerusalem_13/anaakhmatova.html+poemas+de+anna+akhmatova,+recanto+das+poesias&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=1&gl=pt

segunda-feira, 3 de março de 2008

"Um falcão no punho"

Faleceu hoje aos 76 anos, talvez, uma das mais reservadas e extraordinárias escritoras portuguesas do século XX, MARIA GABRIELA LLANSOL. E como refere, Eduardo Pitta, "provavelmente a maior prosadora portuguesa do século XX", alguém que terá inaugurado uma nova escrita na literatura portuguesa.
"Voz das mais secretas e discretas na literatura portuguesa contemporânea de difícil classificação porquanto a sua escrita quebra constantemente as fronteiras - em cada um dos seus livros ou no Livro único que pareceu escrever ao longo dos anos - entre prosa e poesia, ficção e diário, romance e novela. É de resto uma autora que poderíamos colocar sob o signo da fronteira"(IPLB).
Falecida esta madrugada, Maria Gabriela Llansol destacou-se na ficção contemporânea pela originalidade de obras como Um Falcão no Punho (1985, Prémio Dom Dinis), Os Pregos na Erva, O Livro das Comunidades, A Restante Vida, Um Beijo Dado mais Tarde(1987, Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e Prémio da Crítica), Amigo e Amiga (2006, Grande Prémio de Romance e Novela da APE) e Lisboaleipzig.
Autora de uma poética extraordinária e muito singular, Maria Gabriela Llansol, era possuidora de uma escrita de grande qualidade, quer ao nível estético, quer filosófico, o que sem favor a coloca como um dos nomes mais marcantes da literatura portuguesa das últimas décadas. Alguém que, como disse Eduardo Prado Coelho, está no ponto em que «a escrita salva, redime, sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho, e a literatura, essa, já começou a ficar para trás».
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"(...)bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real
bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano
bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível
bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança
bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos
bem-aventurada sejas tu, ó Terra, porque tua será a explosão que levará o vivo a todo o Universo."
In, Ardente texto Joshua - Maria Gabriela Llansol

sábado, 1 de março de 2008

"no inclinar da clepsydra"

Faz hoje exactamente 82 anos que faleceu Camilo de Almeida Pessanha, poeta nascido em Coimbra no ano de 1867. O mais singular e original poeta simbolista português, aliás, o "único verdadeiro simbolista da literatura portuguesa e, em absoluto, um dos maiores intérpretes do Simbolismo europeu", nas palavras de Barbara Spaggiariapenas, viu publicado em vida o livro Clepsydra (1920), que reuniu o essencial da sua produção poética. Colaborador fugaz de vários jornais e revistas, viveu os últimos anos da sua vida afastado do convívio dos seus principais companheiros de letras, em Macau, repetindo os seus melhores versos "de memória", como gostava de sublinhar. Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro contaram-no entre os seus mestres, estabelecendo-se, através da sua obra, a ponte que em Portugal ligou simbolismo e modernismo.
Refira-se a carta que Fernando Pessoa lhe escreveu por volta de 1916, solicitando-lhe publicação de poemas: "Se estivessem inteiramente escondidos da publicidade, [...] seria, da parte de V. Exª., lamentável mas explicável. O que se dá, porém não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos [...], eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda. [...] sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte contínua de exaltação estética. [...] é porque muito admiro esses poemas, e porque muito lamento o seu actual carácter de inéditos (quando, aliás, correm, estropiados, de boca em boca nos cafés), que ouso endereçar a V. Exª. esta carta, com o pedido que contém." O pedido era para que alguns poemas pudessem ser publicados na edição de Orpheu 3.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, Camilo Pessanha é hoje considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa.
A Morte, no Pego-Dragão
De onde vem este perfume de flores, embalsa-
mando a noite puríssima?
Entre bouças e fragas, uma cabana de ola, perto
da qual um arroio murmura...
Como de costume, o eremita parte ao surgir
a lua.
Em um covão do monte, um pássaro, poisado
ininterruptamente gorjeia.
.
Não lhe importa que as ervas, impregnadas do
orvalho, lhe encharquem as alpercatas de junça.
As suas vestes de ligeiro cânhamo, soergue-as,
enviezando, a brisa primaveril...
À borda da torrente, intento fazer versos ao
viço das orquídeas.
Embargam-mo as saudades, violentas empolgan-
do-me, do Kiang-pei e do Kiang-nan.
Camilo Pessanha

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

III Bienal de poesia de silves - 2008

Saúda, por mim, Abû Bakr,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande como a minha.
(...)
Mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.
Al-Mutamid - o rei poeta
poem`art A III Bienal de Poesia de Silves que, este ano, se realizará, nos dias de 25, 26 e 27 Abril p.f., começa a ter o seu lado visível. Inicia os primeiros [ se bem que ainda muito tímidos ] passos, mas inicia-os. E como nesta edição tenho a honra de participar conjuntamente com poetas amigos como Maria Azenha, Eduardo Pitta, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Rui Mendes, etc, a convite da querida amiga gabriela rocha martins, convido-os todos a acompanharem esta edição da Bienal, seja em Silves, seja através do Blogue inserido em baixo.
Nesta edição, será homenageado o escritor Urbano Tavares Rodrigues.
João Rasteiro

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Cesário Verde

Faz hoje 153 anos que nasceu em Lisboa um dos maiores poetas portugueses e um dos grandes nomes da história da literatura portuguesa - Cesário Verde.
Poeta falecido com apenas 31 anos, deixou-nos uma obra (O Livro de Cesário Verde, 1887) onde emerge de forma bastante original o sentimento da modernidade oitocentista, ao modo de Baudelaire e dos parnasianos, perceptível na expressão lírica acompanhada da crítica poética dos seus exageros sentimentais e dos lugares comuns da sua retórica, tendo como objectivo detectar e revelar a poesia da matéria trivial e corrente, e assentando numa elaboração formal cuidada e cheia de inovações uma poesia que veio a ser admirada, entre outros, por Fernando Pessoa.
Para Cesário Verde ver é perceber o que se esconde na realidade, é captar as impressões que as coisas lhe deixam e, por isso, percepcionar o real minuciosamente através dos sentidos e refletir essa mesma impressão que o exterior deixa no interior do sujeito poético. Ou seja, o real exterior é apreendido de forma absoluta e directo pelo mundo interior que o interpreta e recria com profunda nitidez, numa atitude de captação do real pelos sentidos, com predominância dos dados da visão: a cor, a luz, a sombra, o recorte e o movimento . É essencialmente uma poetização do real na sua plena essência.
"A sucessiva actualidade da sua poesia deve-se, por um lado, à intemporalidade própria de toda a grande poesia (se a intemporalidade da arte não é uma ilusão) e, por outro lado, à forte originalidade que a caracteriza, em parte procurada intencionalmente ou resultante de influências assimiladas de forma muito pessoal (de Baudelaire, por exemplo), noutra parte, e sobretudo, devido à própria índole poética do autor, "frio, pausado, calculista, como todas as organizações criadas [no] meio comercial", refractário à abstracção e às expansões líricas, pouco espontâneo como artista, escrevendo mesmo com dificuldade ("não sei executar o que concebo e para o meu pulso a coisa mais pesada é uma pena") e ao mesmo tempo dotado de um "gosto literário muito exigente". Tais predicados fizeram dele um "artista muito lúcido, com invulgar consciência crítica" (Jacinto do Prado Coelho - in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990).
DE TARDE
Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Cesário Verde

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Antologia "Palavra do mundo"

Corsino Fortes na antologia Palavra do Mundo:
O poema “Não há fonte que não beba da fronte deste homem”, de Corsino Fortes acaba de ser publicado em Havana (Cuba), numa cerimónia que teve lugar na sede da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), como parte da antologia de poesia Palavra do Mundo, um dos mais representativos da poesia vanguardista e contemporânea.
Conforme noticia a agência noticiosa AngolaPress, que cita os organizadores, o livro, editado sob a chancela da Colecção Sul, traz obras de poetas de diversas línguas, geografias e culturas, tendências estéticas e filosóficas, dinâmicas geracionais e maneira de assumir a poesia e o acto poético.
São os porta-vozes do mais genuíno pensamento literário contemporâneo em defesa da humanidade, tais como Ernesto Cardenal (Nicarágua), Thiago de Melo (Brasil) Miguel Barnet (Cuba)), Eugeni Entushenko (Rússia), Dario Alvisio (Itália) Elena L. Popescu (Roménia), Fernando Aguiar (Portugal), Benjamím Prado (Espanha), Tito Alvarado (Chile), António Gonçalves (Angola).
Corsino Fortes nasceu em São Vicente, em 1933. Formou-se em Direito em Lisboa em 1966. Ali, após a independência de Cabo Verde em 1975, tornou-se Embaixador por certo tempo. De 2003 a 2006 foi presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde.
Tem vários livros publicados: “Pão & Fonema”, “Árvore & Tambor”, “Pedras de Sol” e “Substância”, reunidos na trilogia “A Cabeça Calva de Deus”. Os seus textos fazem parte de várias outras antologias em língua inglesa, brasileira, francesa, italiana, holandesa, entre outras.
De acordo com o poeta português João Rasteiro, na poesia de Corsino Fortesa insularidade de Cabo Verde aflora numa sintaxe fragmentária e em síncopes”. Nisso, continua Rasteiro, “há a expressão directa e o coloquialismo, ao lado, às vezes, de um tom alto, sempre contrastado por inflexão brutal, vigorosa”. E assim, conclui o poeta luso, Corsino Fortes consegue que nos seus poemas habitem “os arquipélagos por fora e por dentro
”.
TSF
A semana online - Cabo Verde

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"A prostituição da palavra" II

Vejam bem / Que não há /Só gaivotas / Em terra /Quando um homem / Se põe /(A surfar!!!)...
(...)
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / Ninguém vem / (ao poema / que não seja mar!!!)...
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actualExpresso, 16/2/2008

«Doze Naus» é um grande livro, pela construção e pela absorção de níveis da expressão e do mundo próprio de Manuel Alegre
Como membro do júri que deu o prémio a Doze Naus, confesso que tive uma outra escolha à partida. Mas abri o livro do poeta em causa e li: «Ditoso seja aquele que alcançou/ poder viver na doce companhia/ das mansas ovelhinhas que criou!» O «kitsch» das «mansas ovelhinhas» afligiu-me; mas quando vi o poeta dizer: «Hércules, uma camisa/ de chamas o consumiu», fiquei ainda mais desanimado com tão banal «camisa de chamas». Abri um outro livro deste autor e logo deparei com um «por meio destes hórridos perigos», em que a redundância dos perigos é acentuada pelo hórrido superlativo. O problema ficou resolvido naturalmente, porque o prémio só é dado a autores vivos, e esta alternativa não pertence a este grupo. Eliminado Camões, portanto ficou Manuel Alegre.
Talvez não fosse necessária esta justificação se não tivesse aparecido uma opinião, cuja legitimidade não contesto (tal como o mau gosto, a crítica é livre em Democracia), adversa ao critério desta escolha. Nada mais fácil do que abrir um livro - qualquer que ele seja, de qualquer autor, como se viu pelo exemplo de Camões (e nem preciso de acrescentar a celebérrima cacofonia do «alma minha») - para encontrar momentos a que chamaria lineares, ou simplesmente tonais, que não funcionariam se a obra se limitasse a eles, mas que se integram num todo em que se desenha uma perspectiva que os absorve, e em que esse registo tonal é subvertido ou contrariado por rupturas e sismos melódicos ou temáticos que fazem do livro um complexo de registos que vão dessa tonalidade tópica até à invenção específica de cada linguagem poética. E é isso, precisamente, que faz destas Doze Naus um grande livro, pela construção e pela absorção de níveis da expressão e do mundo próprio de Manuel Alegre que aqui encontram um perfeito jogo de equilíbrio.
Há muitos anos, ainda antes do 25 de Abril, trabalhei com Luísa Neto Jorge no argumento do filme Brandos Costumes, de Alberto Seixas Santos, e nunca esqueci um pormenor que o Alberto pediu para incluir sobre o monólogo do pai moribundo, quando falava do regicídio (agora tão evocado): foi a frase histórica dita pelo Buíça, de acordo com Rocha Martins, antes do ataque à carruagem da família real: «A eles!» A impressão que tenho, quando vejo alguma da actual crítica literária a autores portugueses, é a de críticos que, todas as semanas, depois de gritar «A eles!», se precipitam sobre os livros para desfechar as suas armas de pólvora seca, mas que não deixam de fazer algum ruído. Como se vê por este exemplo, são bem fracos os argumentos que tão fraca gente tem para brandir. E, ao contrário do que sucedeu com a caleche de D. Carlos, a poesia portuguesa continua a seguir o seu caminho.
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Em homenagem sincera ao nosso Zeca Afonso, os links abaixo, com 5 lindíssimas músicas – ai como elas me suavizam a alma e o demónio das palavras.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Lugares











Iniciação

A cidade dobrou-se para o rio
e o seu útero irrompeu
sobre as águas
rosa a rosa
apoiada por bilhas vivas
auríferas
sopro a sopro
prenhes.

Soube-se então que renascia violenta
entre mandíbulas alagadiças
como a inflexibilidade
da borboleta
acerba.

Em agonia precipitaram-se sobre as casas
e coseram-se com a cal
pelo coração irreconhecível da pedra.

Era uma cidade como um sismo
ininterrupto
atada às víboras do milagre
extremo
incandescente e granítico.

A cidade meteu-se toda para dentro
o sexo descoberto
transformada em réptil de hálito branco.

João Rasteiro
2008

P.S. - link anexado em 23/2/08.

http://br.youtube.com/watch?v=o-jLVq2eZBk&feature=related