quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A revisitação dos lúzios

O clarão repercute o movimento
ímpio o trovão batendo por dentro
dos lúzios.ramifica-se a limpidez
imputrescível a luz do instante na
revisitação da ave o lugar sagrado.
os jogos no círculo do presente o
absoluto princípio da construção
ilimitada da memória.na fractura
incisiva a pele em cada espelho no
desejo de excessos.o corpo aberto.
João Rasteiro

PRÉMIOS IX

Pedro Tamen venceu o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava para livros publicados em 2006. Este prémio foi atribuído por unanimidade a Pedro Tamen, por «Analogia e Dedos», da Oceanos, chancela da ASA.O júri foi constituído por Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Paulo Teixeira.
Analogia e Dedos compõe-se de pessoas, de seres que a sua segura mão trouxe aos leitores que com ele caminharem. Protagonistas dos seus poemas são, por um lado, figuras históricas – passadas ou nossas próximas – e, por outro, personagens do mundo da arte (curiosamente, trata-se aqui de uma divisão artificial, uma vez que Pedro Tamen aborda com a mesma firmeza e sobriedade Moisés, Afonso VI, Raskolnikov, a mosca, ou a lagartixa). Estão no primeiro caso, entre outros, Cleópatra, Herodes, Inês de Castro ou Carlos Paredes; no segundo, Romeu, Ivan Illitch ou Madame Butterfly. Conforme sucedia em muitos dos seus anteriores livros, a tradição católica (e, de uma maneira geral, judaico-cristã) está presente em muitos dos nomes eleitos e em muitas das suas reflexões.
Seja na primeira pessoa, seja sob a forma de breves assaltos narrados por interposta pessoa, Analogia e Dedos percorre um panorama multímodo, um retrato firme e, ainda assim, elusivo de um conjunto de seres que são parte de uma tradição que também nos forma. Da sua boca, ouvimos a inviável luzerna do divino, o abismo humano, a sede terrena, o abandonado terreiro da vida. (Hugo Santos).
Críticas de imprensa: "Analogia e Dedos tem, como sempre, jogos verbais, invenções e inversões, rimas e alterações, vocabulário inesperado e sarcasmo contido ou desabrido. Mas o eixo central é formado por umas escassas dezenas de personagens históricas ou literárias, que Tamen homenageia, interroga ou apouca. Quase todos os poemas levam o nome de uma figura real ou imaginada; mas esta não é uma daquelas galerias solenes e fleumáticas. Desde logo, os poderosos deste mundo têm o tratamento que a História lhes conferiu e que o poeta acentua: a depravação em Alexandre VI, a desgraça vergonhosa em em Afonso VI, a traição feita a César pelo seu amado Brutus. Com Cleópatra, símbolo de sedução, Tamen é particularmente mordaz." (Pedro Mexia).
Do livro Analogia e Dedos, o poema HERZOG:

A minha desforra são palavras.
Levanto-me de manhã amarrotado
pelo peso inclemente das mentira
se vazo no real outro real
das letras que ninguém vislumbrará.
O pássaro que canta é uma palavra,
é uma carta escrita a este, àquele,
que me saiu do lápis da amargura;
tudo se refaria se jamais feita fosse
alguma coisa que a minha mão não desse.
Desforro-me sem gosto. Desforro-me sem gasto,
acorrentado ao que me vem de trás
e ao que virá e que não sei se quero.
Pedro Tamen

domingo, 16 de dezembro de 2007

de "Visitação"

Já lentamente sofro a tua água, o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo, a casa
onde acordar o vento, e a terra, e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.

afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.
António Franco Alexandre

LIVROS

A editora COSMORAMA acaba de editar o excelente livro Cabeças de Pedro Marqués de Armas, com tradução do poeta Jorge Melícias. Pedro Marqués de Armas [Havana, 1965]. Poeta e ensaísta. Publicou os livros de poesia Fondo de ojo [1988], Los altos manicomios [1993] e Cabezas [2001] e o ensaio Fascículos sobre José Lezama Lima [1994]. Foi redactor da revista alternativa Diásporas, publicada em Cuba entre 1997 e 2003. Poemas e ensaios seus saíram no Diario de Poesía, Crítica, Tsé-tsé, Encuentro de la Cultura Cubana, Lichtungen ou Oficina de Poesia. Entre 2005 e 2007 residiu em Coimbra, ao abrigo do projecto Rede Internacional de Cidades Refúgio. Actualmente reside em Barcelona onde é médico psiquiatra.
Aquando da sua partida para Barcelona, Pedro Marqués de Armas afirmou que «Coimbra será sempre para mim lugar de escrita», garantindo que na sua mente levaria sempre o sentimento de que estaria «a perder algo, o Mondego, as ruas estreitas da Baixa» e especialmente o contacto com os muitos amigos que fez. De Coimbra, como afirmou, levou as melhores recordações culturais. «É, sem dúvida, uma cidade de cultura, embora lhe falte intensidade a nível cultural», constatou, recordando os escritores portugueses que teve oportunidade de ler, de conhecer e até de viver, inspirando-se neles para enriquecer uma vida literária dividida entre livros sobre a História da Psiquiatria em Cuba e a poesia.
Coimbra inspirou a sua escrita e marcou a sua vida, de tal maneira que promete voltar em breve, e várias vezes. «Barcelona não fica assim tão longe…» e afinal, tal como havia prometido em Abril de 2005, quando chegou, não só fez vários amigos em Coimbra, e especialmente na Oficina da Poesia, na Faculdade de Letras, a que aderiu logo em 2005 e que hoje considera «o lugar mais acolhedor para a minha escrita e para interagir com os poetas da cidade», não só se dedicou a vários projectos culturais da cidade, como também escreveu aqui dois livros que pretende lançar em breve, na cidade que o acolheu durante um período importante da sua história enquanto escritor e pessoa.

Não sei se é exagero, mas o poeta brasileiro Régis Bonvicino afirmou recentemente, ser Pedro Marqués de Armas, não só um belíssimo poeta, mas estar entre os melhores poetas jovens da actual poesia mundial.
Do livro Cabeças (Cabezas, vencedor do prémio UNEAC de Poesia 2001, em Cuba) o poema:

Mandrágora

Na margem interior da fronteira, que outros preferem chamar beco sem saída, - B. matou-se.

Claro que todas as fronteiras são mentais, e no caso de B. melhor seria falar de duas.

De modo que B. se matou entre a margem interior e a crista de um pensamento que já não se desviava dele.

Para capultar-se, tomou aquelas raízes de um alcalóide que tinha classificado, e, lançando-se sobre a enxerga de troços fusiformes, encontrou por fim o que buscava: rua de uma só direcção em que todos os números estão apagados, e os brancos pedúnculos mentais desvanecem-se numa matéria de sonho.

Pedro Marqués de Armas

(Tradução de Jorge Melícias)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Poderias deter as tuas garras

Poderias deter as tuas garras
entre as veias espantadas
dos corpos
quando a morte desce pelas mãos
os gumes do deslumbramento,

a voz fende os olhos
do homem que te escuta
a razão do efémero
no instantâneo beijo do punhal
odores perfumando a despedida
a indómita orgia sísmica e aromática.

Disposto o corpo à sua contrição
só o luar é humano
escasso foi o fulgor das vozes
depois o cheiro do sangue inebria
o abismo irrompendo das têmporas
um turbilhão de sulcos víboras urbanas
como monstros em labaredas genuínas
.

João Rasteiro


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Epístola para Dédalo

Porque deste a teu filho asas de plumagem e ceras
e o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.
Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Rita Dahl vai estar no dia 13 de Dezembro em Coimbra, no TAGV - Teatro Académico de Gil Vicente pelas 18h00, onde falará da sua relação com Portugal, bem como lerá os seus poemas, nomeadamente os poemas sobre Portugal.
A apresentação estará a cargo de Graça Capinha, e a Organização estará a cargo da Oficina de Poesia da FLUC e do Projecto de investigação “Novas Poéticas de Resistência”.
Rita Dahl (n. 1971 - Vantaa, na Finlândia) é uma escritora e organizadora de volumes literários em regime freelancer. Formou-se em Ciências Políticas e tem também uma licenciatura em Literatura Comparada. O seu primeiro livro de poemas, "Kun luulet olevasi yksin", foi publicado em 2004 (Loki-Kirjat), a que se seguiu "Aforismien aika" (Poesia), na primavera de 2007. Foi também publicado, na mesma altura, o seu livro de viagens sobre Portugal, "Tuhansien Portaiden lumo - kulttuurikierroksia Portugalissa"(Avain). Foi responsável pela revista de poesia Tuli & Savu, em 2001 e também da revista cultural Neliö (www.page.to/nelio), que teve um número especial sobre Portugal, cuja versão impressa também esteve a cargo de Rita Dahl. Vai publicar um retrato do poeta finlandês Jyrki Pellinen (Poesia) e está a preparar uma antologia de escritoras da Ásia central e outras regiões do mundo (Like), que inclui também os discursos oficiais e os textos de ficção apresentados no Encontro de Escritoras da Ásia central. O evento é organizado pelo PEN CLUB da Finlândia, do qual Rita Dahl é Vice-Presidente. Prepara ainda uma antologia de poesia portuguesa contemporânea, que será editada em 2008. Em Maio de 2007, Rita Dahl foi poeta convidada dos VI Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra - Grupo de Estudos Anglo-Americanos, FLUC, Universidade de Coimbra.
De Rita Dahl, o poema, O inferno, inserido na revista brasileira "Confraria do Vento".
O inferno
Uma estrutura concreta afunilada, com nove entradas
ao todo. O inferno é a contínua repetição de tudo,
.
sem que seja possível avançar. O inferno é gelado.
Para onde vão todos os gulosos macerados depois da morte?
.
O inferno está solto, um filme de ação ordinário,
os cristais fluindo das almas miseráveis que se agarram pelas mãos.
.
Talvez o inferno seja belo apesar de tudo.
Durante anos cheguei à conclusão
.
de que não há a igualdade nesse país.
Soa a campainha. Atrás da porta
.
dois mórmons bem trajados.
O inferno era gelado sobre a terra.
.
A caixa de comentários foi deslacrada naquele instante.
O inferno da família ou do paraíso, em qual
.
você pretende passar a eternidade? Tentei tolerar
a mim mesma e entender porque tenho saudades do
.
inatingível. O inferno verdadeiro dos anti-capitalistas
foi deixado de lado. O que acontece depois disso?
.
Sacrificamos seis garrafas, nada
acontece e temos de encher lingüiça.
.
Não se esqueça de que para um masoquista o paraíso é o inferno.
E é impossível saber se é quente ou frio.
.
Se o inferno está cheio, é preciso sentar-se e
esperar. Qual o problema com você?
.
Não sabia? Se o inferno é gelado,
a Finlândia ganhou o concurso de música da Eurovision.
Rita Dahl

domingo, 9 de dezembro de 2007

Ah! não ser eu toda a gente e toda a parte...

Poema
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

sábado, 8 de dezembro de 2007

Dezembro
Tem sol adentro tem a voz semente,
como se a sílaba pudesse desassombrar a luz
o cheiro espesso e biófilo das coisas esquecidas
bocas como abóbadas sitiando as luminárias
no eixo do relâmpago os rebentos viçosos
perfumes de todos os bálsamos de Jerusalém
vozes em silício dentro do rosto das águas
a paixão do fogo numa última saudação ao sol.

João Rasteiro

Prémios VIII

O poeta argentino Juan Gelman foi o galardoado com o Prémio Cervantes 2007, o mais importante prémio literário concedido a autores de língua espanhola, em reconhecimento do conjunto da sua obra (no ano passado, o galardoado foi Antonio Gamoneda). O prémio, no valor de 90.450 euros é atribuído pelo ministério da Cultura espanhol. Juan Gelman, de 77 anos, já recebeu o Prémio Nacional de poesia, na Argentina, o Prémio de Literatura Latino-Americana e do Caribe Juan Rulfo, o Prémio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americano. Autor de mais de 20 livros desde 1956, quando se estreou com "Violín y otras cuestiones" (violino e outras questões), o escritor concentrou-se primordialmente nos temas do amor, da morte e da dor. A sua poesia foi fortemente marcada pela perseguição que sofreu na ditadura argentina (1976-83). Ameaçado pela Aliança Anticomunista, exilou-se na Itália em 1975. No ano seguinte, o filho e a nora foram seqüestrados pelo regime; ele foi morto e ela desapareceu. Mais de 20 anos depois, Gelman veio a descobriu uma neta no Uruguai. As obras do poeta argentino incluem "Bajo la Lluvia Allena" (debaixo da chuva alheia) e "Amor que Serena Termina.
Em Portugal, poi publicada pela Quetzal Editores, em 1998, uma antologia com poemas de Gelman com o título «No avesso do mundo».
Em Janeiro de 2008 a "A edium editores" procederá ao lançamento do trabalho inédito do recente galardoado pelo prémio Cervantes, da obra "DIBAXU".
Esta obra será apresentada numa edição trilíngue, Sefardita, Castelhano e e traduzida para o Português pelo poeta e ensaísta brasileiro, Andityas Soares de Moura, que em 2007 traduziu(publicação no Brasil) o livro "Com/posiciones".
Do livro "Isso", o seguinte poema:
CHUVA
hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem
e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/
Juan Gelman

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Texto 1

A nodosidade sónica da cidade limítrofe é flanqueada geograficamente

pela salsa-dos-pântanos

onde a mecânica das especiarias liberta as acrobacias do fogo de artificio

sobre os cronómetros das

crises alérgicas

Os cineastas fundadores das espreguiçadeiras de

néons isolam as bandeiras das povoações

nos bastidores mediterrânicos das colheitas

onde as escaladas da coreógrafa coleccionam as dramaturgias das

chuvas que electrificam a basculante da claridade

Os mosaicos-anémonas dos hóspedes desintegram-se nas

sonoridades das máscaras equatoriais

parecem canais de irrigação aos solavancos

entre os

adereços indígenas que radiografam os sismógrafos das fertilizações das comédias

A desdobragem óptica da cronologia estilhaça a quadrícula dos miradouros

e os comboios gráficos computorizam os atlas dos antologiadores

como se encadeassem

copiosamente as colisões do circo botânico

onde os báculos hidromecânicos aperfeiçoam

o borrifo ignescente do mineral

angulómetro sobre as oficinas das homenagens das trompetas

que urdem as ataduras do sul do amendoal dos

pulmões

As fitas dos vídeos arqueiam na marginalidade cerâmica dos emissários

e o resgatamento cartográfico do fotojornalista é liminarmente entoado

entre as papoilas dos

tenores

onde as teclas equestres das partituras julgam

as gralhas das montanhas russas

que as malas das alegorias colonizaram

sobre a nidificação dos ícones do elenco das

paleontólogas.

Luís Serguilha

http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/luis_serguilha.html


domingo, 2 de dezembro de 2007

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/daniel_faria/poetas_danielfaria01.htm

sábado, 1 de dezembro de 2007

Caos

Labirinto


Agora o corpo fala de pássaros
anunciando a erosão rente à língua
o presságio que rasga o linho
o derrame da semente ao morrer.

Assusta-me o vidro dos olhos
esmagando-se no vértice da linha
a dormência ávida das águas
na rotação da última palavra.

Esta é a nudez intacta da luz
o ar na vibração do corpo
o cheiro agreste e puro da cânfora
o peso dos dedos sob o espanto.

João Rasteiro

PRÉMIOS VII

Fernando Guimarães vence prémio de poesia APE

O escritor Fernando Guimarães, de 79 anos, venceu o Grande Prémio de Poesia de 2006 da Associação Portuguesa de Escritores (APE) pela obra "Na voz de um nome".Segundo a APE, o poeta portuense foi escolhido por unanimidade pelo júri. Esta é a segunda vez que a APE distingue Fernando Guimarães com o Grande Prémio de Poesia depois de ter sido galardoado em 1992 por conta da obra "O anel débil". Este galardão tem um valor monetário de cinco mil euros. O autor publica regularmente desde a década de 50, sobretudo poesia e ensaio sobre literatura e filosofia da arte. O prémio da APE junta-se a várias distinções que Fernando Guimarães recebeu já pela sua obra poética, entre os quais Prémio D. Dinis (1985), da Fundação Casa de Mateus, Pen Clube (1988) e Fundação Luís Miguel Nava (2003).
Colaborador de algumas publicações estrangeiras, como o Courrier du Centre International d' Études Poétiques, Tijdschript voor Poezie, ou Europe, podem encontrar-se textos seus, de ensaio e crítica de poesia, avulsamente publicados em revistas e jornais portugueses dos últimos quarenta anos. Actualmente é colaborador permanente do Jornal de Letras.
A sua obra entende-a como necessária – “Não para os outros, mas para mim. Mas se ela puder dizer qualquer coisa aos outros, se abrir um caminho de comunicação, então sentir-me-ei feliz. Mais nada”. No entanto, considera que a linguagem poética da poesia contemporânea não tem um reflexo imediato, como teve a poesia do século XIX, talvez por esta ser mais densa e hermética. No seu entender, a poesia é uma “experiência” – “uma experiência da linguagem, naturalmente, e também da imaginação. Realiza-se, assim, um encontro que não é propriamente com os leitores, mas com o espaço literário, com situações de leitura.”

Acerca do sentido [2]

Que limites existem para a luz? Veio alguém acender
esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama
principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva
perto de nós, quando abrimos devagar as leves
páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depois
sem esperança, como se fosse este o seu destino no interior
da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar
uma outra luz, maior, que as permita ler.
Lições de Trevas, Quasi Edições, 2002
Fernando Guimarães

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

À beira das salinas os homens declinam

À beira das salinas os homens declinam,
as cabeças como cometas fulminantes.

De longe a longe vêm os filhos,
trazem a solidão como um metal aceso nas costas
trazem um enxame de dardos.
E a memória é um pulso atravessado.

Quando partem fecham atrás de si as portas,
e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas
e brilham.
Jorge Melícias

domingo, 25 de novembro de 2007

SALAMANCA


Aguarela do pintor Miguel Elías
Ressurreição
A Antonio Colinas

A ascensão das vozes a cada pancada hirta do sangue
transborda como cântaros de mel à beira do Tormes
os pássaros regressam aos abrigos das cópulas do sol
e os homens voltam a repousar nas estacas e brilham,

no leito incansável da pedra o último choro dos mortos
todos os germes oprimidos eclodindo como açucenas
o espaço da construção em feroz fulgor pois é inacabado,

ressuscita-se hoje das chagas e escreve-se o nome terra
na língua de fogo que abraça os livros que não sonharei.
João Rasteiro


PRÉMIOS VI


O poeta, ficcionista e editor valter hugo mãe (na escrita do autor as maiúsculas estão ausentes) venceu a edição de 2007 do Prémio Literário José Saramago com a obra “o remorso de baltazar serapião”.No anúncio a presidente do júri, Guilhermina Gomes, revelou a unanimidade da decisão de um júri "especial e dificilmente alcançável": Maria de Santa Cruz, Nazaré Gomes dos Santos, Manuel Frias Martins, Nélida Piñon, Pilar del Rio, Vasco Graça Moura e Ana Paula Tavares. Ao receber o prémio, valter hugo mãe afirmou: “Estou muito aflito. É profundamente chocante receber este prémio desta forma. Estou habituado a pensar na escrita como um exercício de solidão e hoje sinto-me muito acompanhado”. O escritor que dá o nome ao galardão, José Saramago, classificou o livro como um “tsunami”. Saramago acrescentou que o adjectiva assim “no sentido total, linguístico, estilístico, semântico e sintáctico. Não no sentido destrutivo, mas no sentido do ímpeto e da força”. O premiado garante que a sua “forma de protestar é expôr, e o livro manifesta de uma forma asquerosa o que alguns homens pensam sobre as mulheres”.A obra premiada conta a história de uma família na Idade Média, onde o protagonista, baltazar, que vive entre a pobreza e a violência, descobre que a vaca, animal de estimação, tem tanta importância como a sua mãe. Porém, no meio da escuridão, baltazar vê a luz: Chama-se ermesinda e é a mais bela e ajuizada da aldeia. Os protagonistas casam-se e, pouco tempo depois, o senhor exige a ermesinda que o visite todos os dias pela manhã, antes da sua mulher acordar. O que se passa nos encontros ninguém sabe, mas é o suficiente para baltazar enlouquecer.Escrito numa linguagem que pretende representar a língua arcaica e rude do povo ignorante medieval, “o remorso de baltazar serapião” é um livro sobre o poder sinistro do amor e uma metáfora da violência doméstica.
Alguns dos seus poemas estão traduzidos e editados em espanhol, francês, inglês, checo e árabe.
poema
o conjunto de todos os
nomes é o nome de
deus, enumeramos o diabo
e as suas questões como
dobra do nosso pecado, e não
desperdiçamos palavra alguma,
somos os mais silenciosos
súbditos, uma oferenda
débil como um peixe
ainda turvo fora de água
valter hugo mãe

sábado, 24 de novembro de 2007

O tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.

Luís Miguel Nava

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Em cada pedra, um epitáfio

À Fiama H.P.Brandão

Enquanto quis Fortuna
que tivesse
um monólogo de fogo voluteando
o frágil labirinto das vozes,
partilhou as fábulas do louvadeus.

Agora, o rosto puro da água
perdeu a casta do sangue
o subtil cortejo da sílaba a queda
contínua a ferocidade de uma outra rosa
no fundo da cabeça do hóspede.

Não te conformaste com este mundo.
Sob a película do ventre cintilante da luz
os ávidos sentidos a chama cortante
voltada outra vez aos primórdios
do sopro mais extenso do que o eco.

E hoje, é este o lugar a branca flor que fulge
.
João Rasteiro
É amanhã, dia 22 de Novembro, pelas 18h00, na Sala de Conferências da Casa Municipal da Cultura (Rua Pedro Monteiro), em Coimbra, que se realiza a sessão de apresentação do último livro do poeta Xavier Zarco: "Variações sobre tema de Vítor Matos e Sá: Invenção de Eros", que foi distinguido com o Prémio de Poesia Vítor Matos e Sá - 2007, certame organizado pelo Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Esta obra é editada pela edium editores. A apresentação da obra será feita pelo escritor António Vilhena.
Como referiu no prefácio José Félix, "O poema de Xavier Zarco é um corpo textual que permite uma viagem de gestos numa relação amorosa onde a palavra, o verso, inicia o canto musical que o tempo compõe na partitura da "Invenção de Eros".
Este ciclo nasce, tal como o próprio título indicia, de um tema, um poema de Vítor Matos e Sá intitulado “Invenção de Eros”.
1.
Há um lago no rosto da casa
aberta
na face das tuas mãos.
O
Talvez
somente os teus olhos
o desvendem.
O
Talvez o vento
de passagem
em ti recolha
O
a Invenção de Eros.
Xavier Zarco

terça-feira, 20 de novembro de 2007

O POEMA
Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem do
oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.
Casimiro de Brito

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Amanhã, 20 de Novembro pelas 15h00 estarei no programa VIA CENTRO do Rádio Clube de Coimbra para falar do meu modesto percurso literário. Dos livros publicados, ao livro a editar e denominado ISTAMBUL, da literatura em geral, da cultura em Coimbra e sobretudo falar de poesia. Aos que não possuírem mais nada para ocupar o tempo…então, só têm de ligar a rádio na frequência 98.4…e boa sorte e paciência para todos!!!
João Rasteiro
Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo

domingo, 18 de novembro de 2007

O desejo

Antera

o teu corpo
uma seta
acordada em chegadas
mande-o ainda em poemas perversos
de antilira, feito em antiverso

(ou será ele
o meu sopro de metal
que me alimenta
e decepa?)
é natural
poetas e poetas que buscam
o requinte das orquídeas
e também o teu sopro
era a perfeição
e todos os que entravam
te roubavam
um pouco de mim
o frenesim de olhar-te espanto
raiz poema
sobretudo isso – o respirar-te.
João Rasteiro

PRÉMIOS V

O poeta Nuno Júdice, foi o vencedor do Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, com o livro "As coisas mais simples". O poeta afirmou-se "satisfeito", tanto mais que distingue um livro de que "gosta particularmente". Nuno Júdice, citado pela agência Lusa, evocou três razões pelo facto de estar "satisfeito" com a distinção. "Antes de mais por ser um livro de que gosto particularmente, depois por ser um prémio da minha terra, e por ter o nome de um poeta tão importante". Referindo-se à sua poesia, qualificou-a de "narrativa, com muitas ligações a objectos, coisas concretas, histórias, personagens". Nuno Júdice contesta a ideia de que a poesia vende pouco em Portugal, considerando que "relativamente a outros países com hábitos de leitura mais sólidos, como Espanha ou França, temos um público muito importante, o que é um estímulo muito forte".
Segundo o júri, Nuno Júdice mereceu o prémio"pela concisão e elegância da sua linguagem que, com despojada narratividade, percorre os mais vastos domínios da Arte Poética em constante diálogo com o quotidiano de "As Coisas Mais Simples".
Na área da poesia, Nuno Júdice referiu ainda a experiência "muito interessante" de ter escrito para um fado tradicional respondendo a um desafio que lhe foi lançado por Carlos do Carmo. Para o próximo ano, Nuno Júdice promete editar um novo livro de poesia. O Prémio Nacional de Poesia, com o valor de 5000 euros, foi entregue na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, em Faro, durante um recital integrado em "Faro, Capital dos Poetas e da Poesia".
Sinopse( LivrosNet):
"O regresso a uma linha de poema narrativo, tratando os grandes problemas da poesia desde a era clássica até hoje. Mas há também um ponto de partida nas “coisas mais simples“ do quotidiano e da realidade, que são o motor do imaginário destes poemas".

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
Nuno Júdice
Ver Ensaio da minha autoria sobre a poesia de Nuno Júdice:
http://triplov.com/poesia/Nuno-Judice/Bios/index.htm

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A ROSA

THE SICK ROSE REVISITED AGAIN

Rosa, rosa indolente,
o invisível verbo
que agride na enferma
sílaba do corpo e do branco

entrou nas minhas entranhas
ensandecidas de agonia
e o seu odor dissimulado
preparou a minha morte.


JOÃO RASTEIRO

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O Centro do Mundo

Camões dirige-se aos seus Contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

WILLIAM BLAKE

Os 250 anos de William Blake celebrados com criações de teatro, música, cinema, pintura exposições e multimédia assinalam no Teatro Académico de Gil Vicente em Coimbra, entre 06 e 28 de Novembro, as comemorações dos 250 anos do nascimento de William Blake, poeta e pintor visionário inglês.
O projecto concebido pelo professor universitário e tradutor Manuel Portela, hoje apresentado em conferência de imprensa, desenvolve um diálogo entre diversas disciplinas artísticas com as criações de Blake para destacar a obra de um dos grandes artistas da humanidade, ainda pouco conhecida em Portugal.
O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), que tem como director Manuel Portela, é o palco escolhido para as realizações programadas e também o produtor desta homenagem, em dois espectáculos, com a colaboração dos grupos de teatro Camaleão e Marionet e a Orquestra Clássica do Centro (OCC).
Entre as várias iniciativas (algumas já realizadas ou inauguradas) amanhã dia 13 realiza-se a segunda mesa-redonda, "Blake poeta", com a presença de Gastão Cruz e Manuel Portela, dois dos principais tradutores para português de William Blake.
Além de versões de William Blake que incorpora nos seus próprios poemas, Gastão Cruz traduziu Doze Canções de Blake (1980), antologia que inclui poemas de Canções da Inocência (1789), Canções da Experiência (1794) e Poemas do Manuscrito Pickering (1803).
O Tigre
Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos ?
Sobre que asas se atreveu a ascender ?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração ?

E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui ?
Que martelo te forjou ? Que cadeia ?
Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?

Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação ?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?

Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?
Tradução de Ângelo Monteiro
Versão Original:[Leia a versão original desta Poesia: The Tiger, de William Blake - em inglês]

domingo, 11 de novembro de 2007

Criação


Morte significa corpo áureo
umbilical

se

a palavra é uma cicatriz
perfeita
sob o branco aberto do sangue
lúcido
demasiado cru na língua
oferecida

se

a garganta é um fole
chumbado
sob a lava visível da boca
elíptica
sucessivamente árida nos dentes
castrados

se

os animais se cosem ao corpo
insurrecto
mergulhando nas vísceras alquímicas
vozes
sob todos os solos auríferos
ventres

se

em seu cortejo o corpo principia
absoluto
nesse espaço único de tímpano e pupila
vagas
onde a luz não difere da escuridão
o corpo ileso

toda a queimadura intrínseca do eixo dos animais.
João Rasteiro

Prémios IV

João Rasteiro e António Lobo Antunes

Prémio Camões 2007
Antonio Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Médico psiquiatra, foi convocado pelo exército português para servir na guerra em Angola. É considerado por vários críticos em todo o mundo como o mais importante romancista português depois de Eça de Queirós. António Lobo Antunes tornou-se um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo. Pouco a pouco, a sua escrita concentrou-se, adensou-se, ganhou espessura e eficácia narrativa. De um modo impiedoso e obstinado, esta obra traça um dos quadros mais exaustivos e sociologicamente pertinentes do Portugal do século XX.Em Setembro, no 7.º Festival de Literatura de Berlim, António Lobo Antunes foi longamente aplaudido por centenas de centenas de pessoas que assistiram a uma leitura das suas obras, em Português e Alemão. António Lobo Antunes foi apresentado pelos responsáveis do festival de Berlim 2007 como «o maior escritor lusitano da actualidade». O seu ultimo romance «O Meu Nome é Legião» é já considerado outra das grandes obras do autor. Em 2007 foi galardoado com o Prémio Camões, na sua 19ª edição.Para quem gosta de A. Lobo Antunes aqui fica a entrevista integral no Diário de Notícias, da semana passada. Pode ler-se “alguma coisa” aqui >>.
Este é o novo romance de António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, o mais importante prémio literário de língua portuguesa. Num livro mais pequeno e de menor complexidade do que os anteriores, segue a vida dos jovens de um bairro social da periferia de uma grande cidade, descrita através de um relatório de polícia, o que aproxima a escrita do registo das crónicas. Com este novo romance, António Lobo Antunes inova a sua técnica narrativa de forma muito perceptível, sendo surpreendente a forma como o faz.
«O livro equaciona o problema do mal, manifestando nessa meninice irresponsável a indecidível culpa ou inocência, imputável ao vazio cultural e ao viver carenciado, que mescla consequências demoníacas numa aura de edénica ambiguidade. E com a qualidade de escrita ímpar a que Lobo Antunes nos habituou.»
Maria Alzira Seixo, JL
«"O Meu Nome É Legião" narra-nos um universo povoado de seres dilacerados e estilhaçados, que vivem um conflito interior travado entre as várias facetas das suas personalidades, em luta contra os fantasmas e as obsessões que teimam em surgir e põem a nu fragilidades inconfessáveis e sofrimentos inomináveis.»
Agripina Carriço Vieira, JL
«Não será, porém, a beleza, antes a “palavra justa” que o move. Nessa busca vem António Lobo Antunes construindo uma obra na qual, apesar da crueza das temáticas e da claustrofobia instalada, a compaixão pelas personagens se imprime na sua capacidade para as compreender a todas no desespero comum aos deserdados, que somos todos – aqui: polícias, filhos, putas ou criminosos – , “possessos de vários demónios” que cabe ao escritor dar a ver mas não julgar. À maneira de Tolstoi, porventura, o maior de sempre.»
Ana Cristina Leonardo, Expresso
Excerto da obra:
" (...) e não tenho medo dela, não tenho medo de vocês, não tenho medo de nada, os plátanos do pátio mil plátanos de berma de estrada que vou ultrapassando um a um neste carro roubado com a velha no outro banco a dizer-me- Menino (...)
IN, Webboom.pt

sábado, 10 de novembro de 2007



A magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
Luiza Neto Jorge

O Juízo Final


O território dos anjos


esta é a nascente o horto
dos anjos
a luz interrompida do espigão
velhas falas do jardim do éden
Hebrom entrançado
talhado em línguas de delírio torrente espraiada
o milagre em ti sedento ser rupestre
das acácias tenras no golpe
coroas vermelho-cereja geografias
um jardim flor as entranhas do casulo
florindo o desastre
a reincidência das cobras
a terra do júbilo o sémen demoníaco
sob as luas da velha cidade esférula
tanta chuva vermelha manhãs ausentes de vozes concêntricas

O

o dia os dias das preces
sílabas dos lábios do Mediterrâneo raiado
o metal despojado dobrado fundente
brilho do mar o sal nas veias abertas
os antigos corpos fendas à saída de Khan Yunis
vulcões de roseiras bravas
animais cegos
vagueando em círculos a verdade
na convulsão dos anjos
a extracção do ferrão

O


toda a cegueira os olhos de pedra numa cidade de chumbo feroz
na hora das silhuetas o metal irrompemdo fresco
o coração dos sábios
o sísmico fascínio
do crime indistinto
procurando o equilíbrio sagrado da estocada
no monte das tentações
corpos anjos demónios a respiração
o hálito carnívoro das raízes do mel
um rasgão de asas na súplica do verbo.

João Rasteiro

PRÉMIOS III

O Prémio PEN Clube ficção foi atribuido ao romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, editado em 2006 pelas Publicações Dom Quixote. Esta é a segunda vez que Mário Cláudio obtém o referido prémio. Em 1997, com O Pórtico da Glória, o escritor já havia sido galardoado com o prémio PEN Club. O júri não teve dúvidas em premiar a obra que retracta a história da família e antepassados de Camilo Castelo Branco.Mário Cláudio foi galardoado com o Prémio Pessoa em 2004.

Como foi mencionado por José Manuel Mendes aquando do lançamento do romance "Camilo Broca" em 2006 no Centro de Estudos Camilianos, em Vila Nova de Famalicão, "Camilo Broca, reúne um conjunto de traços que afirmam Mário Cláudio como um ficcionista inconfundível"."A modelação das personagens; a reconstituição de épocas com uma enorme precisão; o esplendor de uma prosa que não se verga à voga que parece ter tomado conta da nossa praça", foram apenas algumas das características lisonjeiras apontadas pelo presidente da APE ao romance. Citando o poeta Miguel Torga, José Manuel Mendes confessou que enquanto lia "Camilo Broca" sentiu "o coice da literatura", isto é, "um momento em que o livro nos toca". E acrescentou: "Sinto isto de cada vez que leio Mário Cláudio, não só o ficcionista, mas também o poeta, o autor, o ensaísta".A terminar José Manuel Mendes disse ainda que "Camilo Broca é uma obra que pode ser interpretada de várias formas por cada leitor", deixando no ar a questão: "E se este Camilo fosse cada um de nós?"
Mas Mário Cláudio, para além de ter um percurso profissional rico, é professor universitário, ensaista, dramaturgo, romancista e poeta e a sua extensa obra talvez fale por si mais do que qualquer biografia convencional.
Do seu livro de 1996, Dois Equinócios, saboreemos o poema Feles:

FELES

Por todo um Inverno,
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.

E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.

Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.

Mário Cláudi0







terça-feira, 6 de novembro de 2007

POESIA

Oráculo
Deixa que chegue a ti o que não tem nome: o que é o fogo.
Tocaste a luz, a quietude da luz, e inventaste a blasfémia,
a respiração: retrocedeste em círculos: desceste ao pântano
das madrugadas que se acolhem largadas sob as chuvas:
cerziste a fronte das fábulas ilibadas: penetraste no corpo
na pele viscosa: prosperou o múltiplo: a raiz engendrada:
tu és e não és mortal. O enxerto a luz testificada. Para que
continues e te perpetues: para que o útero te engendre e
multiplique: para que só acordes com os olhos comidos,
como os mortos depois de desenterrados. Ressuscita puro.
Para seres a sílaba em seu gume e ferir o sangue e gerar as
águas. O repouso exacto das vísceras o sémen predilecto.

João Rasteiro

LEITURAS

Na próxima terça-feira, dia 7 de Novembro, pelas 10 horas, o poeta e crítico de arte John Mateer vai estar no Departamento de Línguas e Culturas (Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra) para uma palestra intitulada “Poems and the Secret (Portuguese) Australia”, onde discutirá a pouco explorada relação entre Portugal e a Austrália.

John Mateer
vai ler e falar sobre os poemas incluídos em Southern Barbarians, um livro que contempla o legado do Império Português a partir do outro lado do espelho, do mundo colonizado e por descobrir. Os poemas desta colecção foram começados quando Mateer esteve em Portugal em 2004, como poeta convidado para o V Encontro Internacional de Poetas, em Coimbra, e o livro inclui poemas escritos no Japão, em Macau, em Veneza e na Austrália.



Pelas 18h00 no Teatro Académico de Gil Vicente, John Mateer irá ler uma selecção de poemas incluídos em Elsewhere, livro a ser editado no início do próximo ano.A apresentação estará a cargo de Graça Capinha coordenadora da Oficina de Poesia da FLUC a quem pertencerá a organização da leitura, conjuntamente com o Projecto de investigação “Novas Poéticas de Resistência”.

John Mateer nasceu em Joanesburgo, África do Sul, presentemente vive na Austrália e viaja frequentemente. Mateer publicou vários livros de poesia, incluindo o premiado Barefoot Speech, um relato da vida na Sumatra e em Java. O seu trabalho já foi traduzido para várias línguas europeias e asiáticas. Foi convidado para ler a sua poesia no 62º Congresso Mundial PEN, na Poetry Africa e no Festival de Humanidades de Chicago, bem como em eventos na Indonésia, Japão, Singapura, Eslovénia, Áustria Portugal e Austrália. Foi recipiente da Australia’s Centenary Medal pelo seu contributo para a literatura e em 2005 participou no prestigiado Iowa International Writing Program.
Depois de voltar de uma viagem de exploração

Na almofada a cabeça sonolenta de John Mateer
é um aquário às voltas com água veneziana
e naquele galeão, aquele brinquedo luminoso,
ele está ao leme, de telescópio no olho,
jurando que não consegue ver a Austrália.

E quando a sua caravela desliza Tejo adentro,
tão colocada e cerebral como um cisne negro,
ele pede um copo de porto e um pastel de nata,
depois recolhe ao quarto num calmo hotel em Alfama,

e sonha o sonho:
que um dia haverá um poeta
chamado John Mateer, tal como houve uma vez,
para além dos limites dos mapas, um monstro
chamado Austrália.
JOHN MATEER




segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Prémios II

Gastão Cruz e João Rasteiro
O poeta Gastão Cruz foi o vencedor da 28.ª edição do Prémio literário do P.E.N. Clube Português relativo a obras editadas em 2006, na modalidade de poesia. O livro distinguidos foi A Moeda do Tempo. O júri da Poesia foi constituído por Maria João Reynaud, Fernando J. B. Martinho e Manuel Simões.
(fonte: Diário Digital)
"Um conjunto de poemas nocturnos onde paira, mesmo se fugidia, a sombra da morte ¿ entre insónia e acédia. Além de evocações pessoais (Abelaira, Ramos Rosa, Fiama), regressam os temas recorrentes: a casa, o silêncio, a matéria difusa do amor, a música, o cinema ou as memórias de infância que ressuscitam um Algarve mítico (com a ria ao fundo). É uma poesia austera, subtilmente lírica, complexa e densa, feita de versos que `transformam em realidade as sílabas que os formam."
JMS, Diário de Notícias

O poema que segue pertence ao livro CRATERAS, 2000

Árvores

São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde
no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende
na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu
que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado
Gastão Cruz