terça-feira, 29 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos IV

MAR
Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!
António Ramos Rosa

sábado, 26 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos III

A casa do mundo
.
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
.
Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
.
É a casa do mundo: desaparece em seguida.
Luiza Neto Jorge, "O seu a seu tempo"

terça-feira, 22 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos II

Mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no "Zanzi-Bar", julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grebo. Mas não, o marulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar - fechado, calmo - propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vinho.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: "onde te vi despir regresso agora / para adormecer ou chorar" e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca da vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
- Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar. Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.
Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.
Nunca mais o lembraremos
Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.
Depois, não lhe agradou saber que o mundo, apesar da sua morte, conservaria por muito tempo os vestígios da sua passagem. Desejou, uma vez mais, que tudo o que escrevera até àquele instante se apagasse também, e que do seu nome não restasse uma sílaba.
Pensou em tudo isto sem amargura, porque havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvedar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluiam-se uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, oturas trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando- lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talendo da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação - e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade.
Al Berto, "O Esconderijo do Homem Triste", O Anjo Mudo.

sábado, 19 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos I

Sumário Lírico
.
Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.

Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes

caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.

Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.

Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.

A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 14 de julho de 2008

LIVROS

É Verão. As férias destabilizam-nos os sentidos e todos os espigões do corpo. Mas os livros continuam a sua incomensurável loucura de nos procurar mostrar uma forma outra da palavra inicial. E eu que me preparo para dentro de algumas horas partir uns dias à procura da descoberta de alguns territórios de Portugal, mas, essencialmente, à descoberta de mim e do caminho de espinhos que preciso percorrer para alcançar o cume das árvores, quero só chamar a atenção para dois livros, um que me acompanhará em viagem e outro que mais tarde espero ler.
O primeiro é o novo livro de valter hugo mãe, hoje já uma presença importante na ficção portuguesa contemporânea. No seu novo livro, "O Apocalipse dos trabalhadores", já a determinar que os dedos o aprisionem e apertem nas livrarias e Fnacs do país, apenas constatamos os predicados que lhe propiciaram em 2006 o prémio "José Saramago" com o romance "o remorso de baltazar serapião". Como é referido na contracapa do livro: "o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.»
O segundo livro é "O Polvo não sabia que o Mexilhão tinha asas". Este livro de contos de Maria João de Oliveira, que será apresentado na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, sábado, dia 19/07/2008, pelas 15h30, é um livro de alguém que afirma tratar-se de "uma viagem interior que não pode ser adiada" e para quem escrever é tão necessário como respirar, numa relação absolutamente visceral com a escrita e os problemas do mundo que nos rodeia e asfixia. Como refere no prefácio, o poeta José Félix, "a autora serve-se da memória como acepipe para a construção da trama, ficcionando a realidade, e fazendo da ficção uma coisa real. (...) para tear, palavra a palavra, frase a frase, os ardis da vida, servindo-se quer da ficção feita realidade quer da realidade feita ficção".
Na mesma sessão, e porque os livros emergem como o dilúvio, será lançado ainda o livro "A força de um sonho" de Maria Rita Romão.
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Resistência - Amanhã é sempre longe demais

sábado, 12 de julho de 2008

PABLO NERUDA

Pablo Neruda - (Parral, 12 de Julho de 1904 Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno premiado com o Nobel de Literatura de 1971 e um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Tinha obrigatoriamente como lema de vida: "A verdade é que não há verdade".
Uma leitura
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entre as orquídeas e o trigo
que preferência confere
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a uma só flor tanto luxo
e ao trigo (cal) ouro sujo?
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se é doce a água dos rios
de onde tira sal o mar?
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e não naufraga o navio
vogando em vogais demais?
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quem fornece nomes-numes
ao inocente inumerável?
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a intradução dos idiomas
conciliará pari pássaros?
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é possível florescer
sobre um deserto de sal?
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quando já se foram os n(ossos
quem vive no pó final?
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terei meus cheiros-o-dores
quando dormir destru... ido?
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quem era (hera?) te amando
que o sonho encampa dormindo?
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será uma estrela-in-visível
(talvez?) o céu dos suicidas?
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e por que o céu-in-vestidos
se encerra com suas neblinas?

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como se chama a tristeza
numa ovelha sol-it-ária?
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moscas fabricando mel
ofenderiam as abelhas?
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há espaço para uns espinhos?
(alguém pergunta à roseira)
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por que é tão dura a doçura
do coração das cerejas?
Pablo Neruda
.

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http://www.neruda.uchile.cl/
http://www.fundacionneruda.org/
http://br.geocities.com/edterranova/nerudapoe.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pablo_Neruda

quarta-feira, 9 de julho de 2008

VERBO

O Mito da Criação

O poeta criou um Deus,
criou-o lentamente
à imagem do barro ancestral,
ele os criou deus e poema:
arrasai todos os peixes do mar,
todas as aves dos céus e
todos os animais sem dentes
e criai sem blasfémia um verbo
outro, excêntrico.
De madrugada, nu e alucinado
sobre o orvalho comeu-se a
si mesmo
e ressuscitou inteiro.

João Rasteiro

Luciano Pavarotti
- Nessun Dorma

domingo, 6 de julho de 2008

"A terra dos sonhos"


A trompete de Bagdad

....................................Ao Ehren Watada

A tua crença estava só na morte e tocava. E

continuava sonhando e tocando. E a garganta

era inútil como a garra de um leopardo murado

na cidade sagrada onde se perdiam as sombras.

.

A morte não conseguirá abraçá-la. Como a pele

de um tigre de Bagdad perfumando as lágrimas

cheio de crias recentes. Eu era um corpo diáfano

incluído no exílio sempre aniquilado dos proscritos.

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E a tua crença de trompetista puxou pelas mãos

a morte de Chang a morte como todos os mortos

que se esquecem. Como se a povoassem opulentos

olhos de animais que te aguardam em Central Park.

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Há um oásis tumular dentro da terra. Um cadáver

insepulto sob uma salva divina de crenças e gélidas

promessas. Ouve-se apenas o gemido dos mortos

perfeitamente mortos em Bagdad sobre o orvalho.

.

Restam ainda os cânticos doídos do trompetista nu

iluminado agora por fulminantes súplicas putrefactas.

João Rasteiro

New York New York - Frank sinatra

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Na geografia do tempo


Biografia

E tudo ocorre na melancolia
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto do corpo
no linho que se alinha à mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífaga
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada
ser bardo
é tocar o fogo
é estar no correr das águas da tempestade
O espectro desatando-se
sílaba que afeiçoa os matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu.
João Rasteiro - 03/07/2008

HUMANOS - Quero é Viver

.

http://fotoseliteratura.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"H/Á" geografia do tempo (***)


(A)ntera
.......Pra ti...

16.
eu (itinerá)rio
da loucura do verbo ousar(-te)
o meu desejo lírico e alquímico
(n)o espaço dos animais
cheios de luxúria
a palavra (che)ia do seu espaço
a partir do deserto das violetas
civilizei a língua
e foi reposta em cada língua

que perdura na boca
a saliva que se move na língua
metamorfose(Ada) em sua raiz visível
porção terminal do estame da(s) flor(es)
(e o desejo é monstruoso no desejo
de te ousar ousada?)
João Rasteiro - 02/07/2008
.

.(***)
http://www.youtube.com/watch?v=Glnm3aKwIwg&feature=related

domingo, 29 de junho de 2008

PONTES

PAULA REGO
Alegoria da palavra ausente
..........................Pro meu AMIGO Carlos Saraiva

.
As torres do tamanho do deserto
caíram. Mastiguem-se as palavras
de Creta. Sem ar sem ninguém…


........................para ver a luz é preciso
..............................arriscar as trevas.


A blasfémia da memória dos lúzios
....................................o lugar sitiado,


.....................................amor e morte,


.....................................a palavra nua.
João Rasteiro
. Quem me leva os meus fantasmas - Pedro Abrunhosa

.
http://www.idt.pt/id.asp?id=p1
http://www.antidrogas.com.br/
http://europa.eu/scadplus/glossary/fight_against_drugs_pt.htm

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ESPAÇOS

Sebastiano RICCI - Fall Phaeton
O desconcerto de deus
IX
todos os machos farão de forma metódica o luto e no entanto cada um deles será um corpo anómalo e irredutível no principio das noites enquanto as lágrimas continuam brancas e indecisas. mas é certo que os céus arranjarão outras têmporas para recolherem os pássaros que habitam as bocas das mulheres fechadas sobre estacas divinas. sob a contínua obscuridade a contorção benigna da raiva e do abstruso corpo maravilhosamente efémero até à oblíqua exactidão das gargantas. e em cada estertor floresce um indício de bem-querer atravessando a extremidade dos ganchos onde se delonga a geometria dos aromas e os sulcos do sangue. sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas onde se abrem à fortuna a brecha da pupila e o agudíssimo timbale porque ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril.
João Rasteiro
Placido Domingo - Granada

domingo, 22 de junho de 2008

ESPAÇOS

O desconcerto de deus

I
.a lâmina arfou sobre a dicção do seu canto no flanco disponível da fêmea ungida em sua extremidade viva. alumbrado o seu sangue esguicha nas minhas mãos acesas nos prumos nocturnos do estio. e não rastejas ainda no pó sedutor da terra redimida nas esporas do ocidente. a carne sem vida e misericórdia excita-se dobrando o verbo contra o barro como um feixe de ardósias negras. agora sabe apenas à coalescência dos líquidos e há uma flor demasiado hirta e mulheres como varas espavoridas e risos aterrorizantes de animais com cio. e o céu brilha sumptuoso em suas cabeças de víboras admiravelmente impuras e sublimes. dirás as paisagens como os especados anjos que despojam crianças dos sonhos dos besouros escondendo-lhes as conchas das lágrimas. a profecia das mulheres adúlteras e das concubinas com fala revelou-se como os frutos que flutuam sobre o bojo inclinado das auroras embebido entre os sexos alegóricos e o fuso alucinado da divindade. as vísceras escorrem da boca umas das outras como cobras de cabeças voluptas e contemplativas em seu útero. o desejo das mãos iluminado por todos os outros desejos das garras dementes na ruína das coisas sem dimensão amou as arestas das carótides na indivisa cópula dos corpos inquietos. é o equilíbrio monstruoso.
João Rasteiro
L. Pavarotti - Ave Maria - Schubert

quarta-feira, 18 de junho de 2008

ESPAÇOS

Delimitação da lágrima

Cada morte tem um corpo flor dentro da boca
das primaveras que pulsam o movimento do voo
e em toda a sua dilatação uma garganta alagada
com outra morte no centro do coração centrípeto
porque a vida ascende o seu útero entre espaços
que ferem os tímpanos dos desmemoriados lírios
e dos lábios aguçados como o fruto nu e mastiga-o,


a morte conquistadora tem um potencial infinito
de criação e ébrios desabrochamentos de pomares
quando a pulsação súbita sob os alcantis da lágrima
se esmaga sobre todos os fluidos onde urde o amor
e os dentes ainda são a majestosa nudez dos líquidos
a sede do gole ajustada no sexo dilatado dos corpos,


quando aqui amares sabereis o paladar do relâmpago
aprendereis a cintilação do sangue eriçado às golfadas
abrindo-se casulo que se permite vida pelo sopro único.


As restantes epístolas oblíquas são as crias do coração.
João Rasteiro
.
CÁLICE - Chico Buarque & Milton Nascimento

domingo, 15 de junho de 2008

Rotas

Geografia dos anjos

Quando um coração escalda secreto em lava
o interior dos animais prodigiosos fica distendido
como metástases na extensão do gelo – e então
abre-se uma geografia de vozes de anjos genuínos
alucinados antes da primeira utopia trémula de cio
irromper como girassol.
.
Os líquidos confundindo-se
profecia na intimidade da criação em seu testamento
tóxico – o amor como corpo enxameado às bocas
cozidas desses lábios únicos de granito contra o regaço
da chuva que apazigua a fúria dos relâmpagos floridos
pelo poder único:
.
assim repudiaram-se em sangue nos rasgões subtis
da sílaba.
.
Negaram-se tensos nas manhãs infundidas
de pétalas alquímicas sob céus cérvicos - a felicidade
é uma cabeça voluta que na periferia dos corpos
reúne os predadores de todas as coisas que se alimentam
na compaixão das vísceras – desde então os pássaros
desprezam a porta das árvores porque neva ferozmente
dentro dos frutos.
.
O eterno bolor das paisagens é um odor
demoníaco sob o silêncio ensimesmado de memórias.
.
O amor renova-se em si mesmo, na sua íntima escuridão:
o lugar fá-lo vermelho.
João Rasteiro
.
Amy Winehouse- You Know I'm no good

sexta-feira, 13 de junho de 2008

FERNANDO PESSOA - O Poeta é um fingidor...

Assinalam-se hoje os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o no seu livro The Western Canon ("O Cânone Ocidental"), ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX.
Pessoa, foi o primeiro português a figurar na Plêiade (Collection Bibliotèque de la Pléiade), prestigiada colecção francesa de grandes nomes da literatura.Sobre os poetas em geral, Octavio Paz (poeta mexicano), Prémio Nobel da Literatura diz que “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia”; sobre Fernando Pessoa em particular, acrescenta “nada em sua vida é surpreendente — nada, excepto os seus poemas”.
Toda a vida do poeta foi dedicada quase exclusivamente a criar e a criar essencialmente vidas outras através de seus heterônimos, o que foi a principal característica da sua escrita e da sua poesia. foi essa criação em suas múltiplas formas que motiva e desperta o interesse por Pessoa. Alguns críticos questionam mesmo se Pessoa realmente teria alguma vez transparecido o seu verdadeiro eu, ou se tudo não teria passado de mais um produto da sua vasta e extraordinária criação.
Como curiosidade, numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer ao encontro.

Deus
Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
.
Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.
Fernando Pessoa
Se Depois de Eu Morrer
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.
.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro .

Mar Português - Fernando Pessoa

http://www.revista.agulha.nom.br/pessoa.html

http://pessoa.mdaedalus.com/index.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

P.S. - LANÇAMENTO: solicita-se a visualização do seguinte link:

http://www.euxz.blogspot.com/

terça-feira, 10 de junho de 2008

10 de Junho - Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas


OS LUSÍADAS
CANTO I
1
AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

CANTO III
20
«Eis aqui, quási cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

21
«Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela antão os íncolas primeiros.

(…)
96

«Eis despois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Co este o Reino próspero florece
(Alcançada já a paz áurea divina)
Em constituições, leis e costumes,
Na terra já tranquila claros lumes.
.
97
«Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

(…)

120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
.
121
«Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
.
(…)

132

«Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

(…)

134
«Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
.
135

«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!

CANTO X

152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d' exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.
FIM
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O AMOR A PORTUGAL - Dulce Pontes

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http://www.vidaslusofonas.pt/luis_de_camoes.htm
http://lusiadas.gertrudes.com/

sábado, 7 de junho de 2008

O Problema de Ser Norte

O PROBLEMA DE SER NORTE

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
O Problema de Ser Norte é o novo livro de poesia da autoria de Filipa Leal. Trata-se de um livro que revela uma sensibilidade extrema, um sopro em que nenhuma palavra é escolhida ao acaso: todas são pensadas e pesadas com uma subtileza extraordinária. São poemas que nos falam dos medos da vida, da tristeza, da felicidade, do amor, e desse incomensurável caminho que nos leva para o lugar inicial do verbo.
Filipa Leal que integra a micro antologia:"nova poesia portuguesa", por mim idealizada e organizada para um número especial da revista colombiana de poesia, ARQUITRAVE, surge sem qualquer dúvida, como alguém que se demarca de grande parte da chamada "nova poesia portuguesa", uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias de cariz mais confessional, apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica fortíssima na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. É uma poesia que se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema. (João Rasteiro)
Sinopse:
A procura do entendimento do mundo na arte poética continua a acompanhar Filipa Leal que neste livro alude, inquieta, aos limites da própria poesia que a assaltam. Linhas ténues de transparências, de água, de vidro, que contrapõem com as palavras forjadas numa interioridade livre. Os medos, os livros, o tempo, a surpresa do mar (o início possível?) constituem a sua procura e afirmação… «Era um verso com árvores à volta/ Tinha o problema de ser norte / e dia e tão contrário à natureza./» Um livro belíssimo.
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Pronuncia do Norte - GNR e Isabel Silvestre

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http://paristexas2.blogspot.com/2008/02/alguns-poemas-de-filipa-leal.html
http://www.vozdapovoa.com/noticia.asp?idEdicao=117&id=5197&idSeccao=1089&Action=noticia

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Rotas

Destino - S. Dali
Ciclos completos

Entretanto
é Primavera de novo
e crescem os hortos
no que foi um vasto campo vermelho
de batalhas abençoadas.

Um espaço consagrado fora do mundo.

Entretanto
é Verão de novo
e acende-se a carne
no que foi um profundo corpo negro
de guerras amaldiçoadas.

Qualquer coisa diferente de viver.

Entretanto
é poema de novo
e morrem as palavras
no que foi um imenso desejo branco
de saber apenas morrer.

O silêncio, um silêncio em suas escoras.
João Rasteiro
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Pedro Abrunhosa - LUA

domingo, 1 de junho de 2008

O Futuro é hoje

Neste dia 01 de Junho, dia em que se comemora o Dia Mundial da Criança e em que começam de forma geral as comemorações dos 120 anos de Fernando Pessoa, a homenagem ao futuro, a esse futuro que serão as nossas crianças, nas palavras geniais do nosso poeta.

A Criança Que Pensa Em Fadas
A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Alberto Caeiro
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Criança, era outro...
Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei

Ganhei ou perdi ?
Fernando Pessoa
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Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
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O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
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Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
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Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
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Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
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O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
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Pedra Filosofal (António Gedeão) - Manuel Freire

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http://web.educom.pt/pr1305/crianca.htm
http://pessoa.mdaedalus.com/