sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"A prostituição da palavra" II

Vejam bem / Que não há /Só gaivotas / Em terra /Quando um homem / Se põe /(A surfar!!!)...
(...)
E se houver / Uma praça / De gente / Madura / Ninguém vem / (ao poema / que não seja mar!!!)...
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actualExpresso, 16/2/2008

«Doze Naus» é um grande livro, pela construção e pela absorção de níveis da expressão e do mundo próprio de Manuel Alegre
Como membro do júri que deu o prémio a Doze Naus, confesso que tive uma outra escolha à partida. Mas abri o livro do poeta em causa e li: «Ditoso seja aquele que alcançou/ poder viver na doce companhia/ das mansas ovelhinhas que criou!» O «kitsch» das «mansas ovelhinhas» afligiu-me; mas quando vi o poeta dizer: «Hércules, uma camisa/ de chamas o consumiu», fiquei ainda mais desanimado com tão banal «camisa de chamas». Abri um outro livro deste autor e logo deparei com um «por meio destes hórridos perigos», em que a redundância dos perigos é acentuada pelo hórrido superlativo. O problema ficou resolvido naturalmente, porque o prémio só é dado a autores vivos, e esta alternativa não pertence a este grupo. Eliminado Camões, portanto ficou Manuel Alegre.
Talvez não fosse necessária esta justificação se não tivesse aparecido uma opinião, cuja legitimidade não contesto (tal como o mau gosto, a crítica é livre em Democracia), adversa ao critério desta escolha. Nada mais fácil do que abrir um livro - qualquer que ele seja, de qualquer autor, como se viu pelo exemplo de Camões (e nem preciso de acrescentar a celebérrima cacofonia do «alma minha») - para encontrar momentos a que chamaria lineares, ou simplesmente tonais, que não funcionariam se a obra se limitasse a eles, mas que se integram num todo em que se desenha uma perspectiva que os absorve, e em que esse registo tonal é subvertido ou contrariado por rupturas e sismos melódicos ou temáticos que fazem do livro um complexo de registos que vão dessa tonalidade tópica até à invenção específica de cada linguagem poética. E é isso, precisamente, que faz destas Doze Naus um grande livro, pela construção e pela absorção de níveis da expressão e do mundo próprio de Manuel Alegre que aqui encontram um perfeito jogo de equilíbrio.
Há muitos anos, ainda antes do 25 de Abril, trabalhei com Luísa Neto Jorge no argumento do filme Brandos Costumes, de Alberto Seixas Santos, e nunca esqueci um pormenor que o Alberto pediu para incluir sobre o monólogo do pai moribundo, quando falava do regicídio (agora tão evocado): foi a frase histórica dita pelo Buíça, de acordo com Rocha Martins, antes do ataque à carruagem da família real: «A eles!» A impressão que tenho, quando vejo alguma da actual crítica literária a autores portugueses, é a de críticos que, todas as semanas, depois de gritar «A eles!», se precipitam sobre os livros para desfechar as suas armas de pólvora seca, mas que não deixam de fazer algum ruído. Como se vê por este exemplo, são bem fracos os argumentos que tão fraca gente tem para brandir. E, ao contrário do que sucedeu com a caleche de D. Carlos, a poesia portuguesa continua a seguir o seu caminho.
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Em homenagem sincera ao nosso Zeca Afonso, os links abaixo, com 5 lindíssimas músicas – ai como elas me suavizam a alma e o demónio das palavras.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Lugares











Iniciação

A cidade dobrou-se para o rio
e o seu útero irrompeu
sobre as águas
rosa a rosa
apoiada por bilhas vivas
auríferas
sopro a sopro
prenhes.

Soube-se então que renascia violenta
entre mandíbulas alagadiças
como a inflexibilidade
da borboleta
acerba.

Em agonia precipitaram-se sobre as casas
e coseram-se com a cal
pelo coração irreconhecível da pedra.

Era uma cidade como um sismo
ininterrupto
atada às víboras do milagre
extremo
incandescente e granítico.

A cidade meteu-se toda para dentro
o sexo descoberto
transformada em réptil de hálito branco.

João Rasteiro
2008

P.S. - link anexado em 23/2/08.

http://br.youtube.com/watch?v=o-jLVq2eZBk&feature=related

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Poéticas da língua portuguesa

Wilmar Silva é hoje uma das vozes contemporâneas mais criativas da literatura mineira e brasileira.
Conheci pessoalmente o Wilmar Silva, no dia 09/02/2008, em Coimbra, uma vez que conjuntamente com o poeta Jorge Melícias, participámos nessa tarde em filmagens efectuadas pelo Wilmar, para o projecto "MINAS ENTRE OS POVOS DA MESMA LÍNGUA, ANTROPOLOGIA DE UMA POÉTICA", de autoria do próprio Wilmar Silva.
Trata-se de um projecto de pesquisa em processo de realização nos países que têm a língua portuguesa como idioma de origem oficial, aprovado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, patrocinado pela Usiminas e pelo Consulado de Portugal em Belo Horizonte, entre outros.
Deste projecto/pesquisa resultará a publicação de um livro/antologia, com uma selecção de poemas, biografias e um CD Rom dos autores publicados, além de um ensaio poético híbrido, escrito pelo poeta Wilmar Silva. Esta antologia será lançada e distribuída em todos os países de língua portuguesa.
Wilmar Silva é poeta, actor e performer. Vive actualmente em Belo Horizonte. Publicou diversos livros de poesia e obteve vários prémios, nomeadamente o prémio "Jorge Lima de poesia" da União Brasileira de escritores. Integra a "Antologia da nova poesia brasileira"(Org. Olga Savary) e possui vários poemas publicados em revistas brasileiras, portuguesas, francesas e italianas. Em 2005 organizou a antologia "O achamento de Portugal".
É o curador do projecto "Terças Poéticas", que para além de trazer nomes conhecidos da poesia brasileira, dá também bastante destaque a autores não tão conhecidos do interior de Minas Gerais e de outros estados brasileiros.
Como afirma o ensaísta e poeta Márcio Almeida, "Wilmar Silva está inteirado de que pós-moderno é o que tem raiz e de que essa é a conditio da fragmentação epistêmico-poética a exigir do autor, hoje, a neuedichte – nova densidade na produção do estranhamento. É aí que o poeta esperneia para (se) dizer, donde justificar-se, na produção contemporânea, a pluralidade de diretrizes norteadoras de escolhas também múltiplas".
Pintura de Malangatana

cólera
sem dúvida essa fadiga que entardece
é mais forte do que o vento
o vento que não é da família dos chacais
e me procura com uma lente invisível
.
o vento que racha as paredes
e atravessa a pintura
.
o vento que atravessa a pintura
e diz que os decibéis
das flores que lhe oferto
estão em anomalia

TURVAÇÃO


o homem sórdido não é feito
de palha e milho — colchões de catre sim
são de palha capim e paina
madeira desenhada a nós

mas o homem sórdido é sorumbático
até o fundo vertiginoso da alma
não toma banho
apenas as mãos os olhos os pés
lava antes do sono

o homem sórdido espantou avoantes
dormiu no pomar e ficou silvestre
e não coloriu as íris de arco-
íris
.
atlas
nem one nem um nem eins nas mãos
nem two nem dois nem zwei nos pés
nem three nem três nem drei nos pés
nem four nem quatro nem vier nos pés
nem five nem cinco nem fünf nos pés
nem six nem seis nem sechs nos pés
nem seven nem sete nem sieben nos pés
nem eight nem oito nem acht nos pés
nem nine nem nove nem neun nos pés
nem ten nem dez nem zehn nos pés
cem eleven cem onze cem elf mil mãos cem mil pés
Wilmar Silva

http://www.germinaliteratura.com.br/wilmar_silva.htm
http://virtualbooks.terra.com.br/entrevistas/wilmar/wilmar1.htm

http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=d67d8ab4f4c10bf22aa353e27879133c&subsec=&id=78780a423398d58cab08dedde945b9df

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dia de São Valentim

Pintura de Marcel Duchamp

As Madrugadas Esculpidas


este era o coração esculpido da chama
compartilhada no lume reaberto da espiral
profanada no gesto obsceno da lâmina
sobre a linha transparente das águas,

no útero da madrugada os espasmos
da finitude das veias que não cessam
como se de pedra negra o amor inicial.
♠♠
a construção é um espaço descoberto
o movimento lapidado das formas
difusas cicatrizes onde o amor flutua
mastigando as águas como unguento,

as crias dormem com as mãos acesas
fogueiras aprendendo a rota do voo
que reúne em si o vazio e a plenitude.
♠♠♠

no esplendor absoluto do silêncio
dobrado lume sobre lágrimas
amadurecidas veias sobre o nome
Inês que traça o seu próprio curso,

eis o crepitar acelerado do assombro
fincado ao centro o êmbolo puro
que quis decifrar o destino da sílaba.
♠♠♠♠
na noite profunda dormem fundidos
corpos uníssonos na unidade mítica
coroação descascada em uivos densos
atravessados reflexos dos ventos alísios,

o corpo sôfrego do amor sobre a terra
fechada a paisagem obstinada acocorada
na miragem das raízes a boca de Pedro.

♠♠♠♠♠

para acender outra vez aqueles olhos
de lava as águas fecundas do Mondego
sublimam a distância fronteira do golpe
cru o espectro entre as paixões da carne,

a memória álgida no excesso das artérias
filiais as bocas no odre do sangue antigo
com uma lâmina felina e subtil de vigor.
João Rasteiro

http://tw.youtube.com/watch?v=30AZF8ZKhnY
http://tw.youtube.com/watch?v=WwqPOkcXrYQ&feature=related

domingo, 10 de fevereiro de 2008

"A prostituição da palavra" I

Desde sempre se assistiu à atribuição de prémios (pelo menos os mais relevantes) na literatura e neste caso específico, na poesia portuguesa, assentes em critérios quase sempre altamente discutíveis. No entanto, neste início de um desencantado século XXI, esses critérios (mesmo existindo algumas excepções) estão a atingir patamares de uma sublime vergonha, de uma troca de favores infectos, pestilentos e inenarráveis (quer sejam devido ao arranhar dos dedos ignóbeis de algumas editoras, ou simplesmente devido a um qualquer código, adaptado provavelmente do "Código de Honra" da Máfia Siciliana, uma vez que agora se tornou prática corrente atribuir o prémio a alguém que na edição anterior foi membro do júri - por coincidência dos deuses, o anterior vencedor é agora júri) que apenas glorificarão as múmias da palavra agonizante, apenas girando e girando e girando num oco espaço - ó vates presumidos do vazio!!!
Inclusive, alguns livros premiados são tão maus, que não só esses prémios envergonham a (infelizmente) pequena comunidade da poesia, mas, em alguns casos, até os primeiros livros do laureado - ai como é(era) bom, independentemente da qualidade poético literária, lapidar a sílaba na honestidade do eco! Penso, sem querer ferir susceptibilidades, que estamos a entrar numa espiral que proporcionará um caminho muito negativo para a poesia e literatura portuguesa em geral, um caminho que apenas se poderá apelidar de desonestidade intelectual.
Como referia o caçador de proxenetas da palavra Luís Pacheco: É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu.//E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...
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Prémio e castigo
O Prémio D. Dinis da Fundação casa de Mateus foi este ano atribuído a Manuel Alegre, pelo livro de poesia Doze Naus, por decisão de um júri constituído por Fernando Pinto do Amaral, Nuno júdice e Vasco da Graça Moura. O prémio tem prestígio, o júri é de peso, o poeta é consagrado, e colocar objecções ao seu processo de canonização passou a ser uma heresi. Mas o livro, esse, é um sério obstáculo à festa prometida e, para não perturbar tão glorioso momento da instituição literária, o melhor seria declará-lo não existente.
Tarefa simpática é, pois, a de dizer que uma das manifestações da existência do livro premiado é este poema de contemplação do “surf”: “De pé na frágil tábua/ onda a onda ele escrevia/ poesia sobre a água// Era uma escrita tão una/ de tão perfeita harmonia/ que o que ficava na espuma// não se poderia apagar;/ era a própria grafia/ do poema do mar”; ou estes versos de um “Requiem”: “Crepita a Madeira na lareira/ crepita a velha ameixieira/ seus veios são as minhas próprias veias/ vejo arder as ameixas e o verão/ crepita aquela que deu sombra e agora dá calor (…)”; ou ainda este “Adeus”: “Quando vieram dizer-me que morres-te/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.” Para o juízo soberano do júri também muito deve ter contado este final de uma “Breve Canção do vento oeste”: “Em cada verso há um naufrágio/ não sei de poema que não seja mar.” E quem se pela por coisas de poesia também não terá ficado indiferente ao mar alegriano, que “traz às praias do dizível/ a musica e a melancolia dos crepúsculos”.
Mar, crepúsculo, vento, aurora, melancolia, viagem, naufrágio e muito mais: Manuel Alegre vai ao arquivo dos significados “poéticos” cristalizados e constrói com eles um edifício de metáforas e símbolos vazios, bem mortos. Esta poeto-metaforização que se quer fazer passar por poesia – mas não passa de mera imitação da poesia – é um logro tão grande como a grandiloquência “kitsch” do vate presumido: “Um peso em mim: a História foi demais./ País do mar. Agora outrora./ e todos os navios a sair do cais/ para outro espaço outro crepúsculo outra aurora.”
Inclinando-se com reverência enfática, a poesia que nos oferece este livro não se satisfaz senão imaginando que é um performativo do inefável ou que é consubstancial ao mundo, como no pensamento mágico: “As aves voam por dentro/ da espingarda e da caneta/ na paisagem nunca vista.” Mas, com meios que não vão além de simbolismos de pacotilha e eufonias de salão, bem pode Manuel Alegre invocar o mar, convocar tempestades e evocar ondas que nem a mais leve brisa por aqui passa, quanto mais “um cheiro de alfazema e de salgema”. A não ser que sejamos tão supersticiosos como o júri deste prémio.
António Guerreiro ( aguerreiro@expresso.pt )
actual – Expresso, 9/2/2008
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Vergonha. Indignidade. Impotência. Ao contemplar tudo isto, advém-me uma enorme sensação de vergonha e raiva como português e poeta face a esta desonestidade, indignidade e vileza permanente. A forma como década após década, ano após ano, prémio após prémio (reafirmo, ao nível de quase todos os prémios mais importantes, porque como sempre, vão germinando excepções), este país poético e literário agiu e age, só me leva a fazer meus os versos de M.Cesariny:
Faz-me o favor...
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

"No Centro do Arco"

Só existe o tempo único.
Só existe o deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único -
entrando pelas fendas, batendo, rebentando,
correndo de lado a lado.
ROBERT DUNCAN - "Raízes e Ramos"
http://www.english.uiuc.edu/maps/poets/a_f/duncan/duncan.htm
http://epc.buffalo.edu/authors/duncan/

sábado, 2 de fevereiro de 2008

"Um beijo no centro do coração"

O Instituto Politécnico de Leiria organizou o II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Subordinada ao tema “A escrita e a cidadania”, esta iniciativa que decorreu nos dias 24 e 25 de Janeiro de 2008, no auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão, em Leiria pretendeu acolher autores de expressão portuguesa de várias nacionalidades e continentes, tendo contado contando com a presença de cerca de duas dezenas de prestigiados escritores, não só portugueses, mas também provenientes de países como o Brasil, São Tomé e Príncipe, Angola e Cabo Verde. Destaco entre outros, a participação de António Torrado, Vasco Graça Moura, Ana Maria Magalhães, Rui Zink, Carlos Pinto Coelho ou Nuno Júdice, e no panorama Afro-lusófono, Ana Maria Machado, Ruy Duarte de Carvalho, Olinda Beja ou Corsino Fortes
E foi precisamente com Corsino Fortes, poeta maior da língua portuguesa, e com quem estive pessoalmente pela primeira vez, que confraternizei e sobretudo aprendi. E, sobretudo, fiquei profundamente admirado, por Corsino Fortes me referir o facto de já algum tempo tentar saber quem era este humilde escriva, só pelo facto de ter tido acesso a um pequeno ensaio - "CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO ou OS ARTÍFICES da PALAVRA" - que elaborei para a cadeira de Lietraturas Africanas II, ensaio que logicamente possui determinados "defeitos" e condicionalismos inerentes ao seu objectivo, mas que de alguma forma terá agradado ao poeta, que o leu no site. (www.TRIPLOV.COM).
Corsino Fortes, esposa e João Rasteiro
Corsino Fortes nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1933. Formou-se em Direito (em Lisboa), fez parte de alguns governos de Cabo Verde e foi embaixador em Lisboa. De 2003 a 2006, foi Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Tem vários livros publicados, entre os quais Pão & Fonema, Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância. Em 2002 é editada então a antologia (integra as 3 obras já mencionadas) A cabeça calva de deus.
Como refiro no ensaio, "CORSINO FORTES é sem sombra de dúvidas uma das maiores vozes da poesia em língua portuguesa das últimas décadas. É inegável, que a osmose e a identificação entre o Poeta e a Palavra, entre a Palavra e a consciência nacional, ou sentido de Pátria, é não só um facto, mas o facto capital da sua poesia. Para Corsino, na sua poesia, embora escrita e "cantada" em Português, todo o "material e/ou mobiliário" deverá ser, é, de identificação Cabo-Verdiana, na sua fatia universal, da sua experiência humana, da sua coexistência, do seu conteúdo e podendo-se inclusive afirmar, da sua semântica".
Por isso, reafirmo, de que "é nesse contexto que o primeiro livro, Pão & Fonema, da trilogia A cabeça calva de Deus, que incorpora também Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância, procura de forma emblemática e até de forma telúrica, expressar essa luta titânica de afirmação do homem cabo-verdiano, entre a secura do céu e a cabeça calva da Ilha".
A Cabeça calva de Deus
apresenta-se-nos como uma trilogia fundacional e épica da história do país, e que nos revela com o último livro, fundamentalmente, a vertente arqueológica e cultural, ao executar nos três cantos a substância solar da criatividade cabo-verdiana, nas suas múltiplas vertentes, quer seja ao nível musical, pictórica, literária, política, etc, que ductilizam a dureza mineral das ilhas no paciente requebro nostálgico da morna, na ordem compassada do rondó, ou no ritmo agitado e harmónico da antiga mazurca ou do funaná. (www.TRIPLOV.COM).
"A sua poesia é assim, uma poesia fundacional e da identidade, condensando o universo Cabo-Verdiano, configurado num percurso que vai da anunciação da libertação do país(primeira fase), passando pela sua exaltação(segunda fase) e acabando na sua mitificação". (www.TRIPLOV.COM).(...)
Da antologia, A Cabeça calva de deus, três poemas exemplificativos, não só do que afirmei no ensaio referido, mas e essencialmente o espelho de que Corsino Fortes, que nutre um admiração profunda por outros dois grandes da poesia em língua portuguesa, Cesário Verde e João Cabral de Melo Neto, é o artíficie que trabalha a palavra como o moldador do fogo, é sem qualquer dúvida um dos poetas mais poderosos no trabalho da linguagem poética em língua portuguesa. O poeta em diálogo e interacção perante o mundo (ou o “seu mundo”), perante a palavra, perante o “poder da palavra e da linguagem”, sempre com um objectivo essencial e permanente: FAZER!

A cabana oca de vocábulos
I
Agosto arranca as âncoras do deserto
Depondo-as
....................................Às portas do povoado
Setembro cresce ossos & ventre
E da barriga de Outubro
................................Ouvia-se
O crocitar das sementes da erosão
Aqueles que sem embargos do sétimo dia
Partem do umbigo das três ribeiras
Trazem no enlaço dos destinos
A cana-de-açúcar como oxiúros
Quem não ama? os navios loucos da minha aldeia
Abalroam na planura! nos baixios
..................................Os casebres da vizinhança
À procura de mastro & oceano no olho das salinas
De Boca a Barlavento I
Esta
.........a minha mão de milho & marulho
Este
.........o sól a gema E não
.........o esboroar do osso na bigorna
.....................................................E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
..........................esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que.g
......................................o
......................................t
......................................e
......................................j
......................................a
.............................De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
...................para dentro das violas
ILHA
Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som
Que floresce
A cabeça calva de Deus.
Corsino Fortes

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Esquírolas

Os cães eram mudos e deu com eles por
acaso, farejando relógios de areia.
Naquela terra árdua havia ainda o enigma
dos homens e do seu alfabeto traído.

Podia pensar-se num simulacro. Era apenas
método. A obstinada construção de uma vontade
sem objecto.
Teria voltado fosse como fosse.

Antes de nós outros tentaram.
Muitos não sabem que viagem alguma
se repetirá. Toda a demanda é vã.
Aquele muro não está ali


por acidente. Sequer a gosto de qualquer
feitor com inclinações pré-rafaelitas.
A manhã tinha ficado parecida com um pedaço
de vidro e era nítida a evidência de desastre.

Toda a noite a luz multiplicou
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.


Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

Doloroso compasso de espera
este de auscultar
os dias que nos ficaram
para habitar.


Somos uma fauna inóspita,
uma raiz tentacular
árida e seca
como a sede.
Eduardo Pitta
http://www.eduardopitta.com/Poemas.html

sábado, 26 de janeiro de 2008

A educação pela pedra I

João Cabral de Melo Neto é um dos maiores nomes da história da literatura brasileira. João Cabral, apresenta-nos uma poesia que é um marco dentro da poesia em língua portuguesa. A sua obra desencadeou uma revolução formal das mais importantes na história da poesia brasileira e até da poesia em língua portuguesa. Ela representa a maturidade das conquistas estéticas mais radicais do século XX. Em 1980, o poeta afirmava: "A poesia funciona como um pêndulo. Numa hora oscilou para o rigor e eu coloco aí o concretismo e a práxis. Agora o relógio vai noutra direcção (...). Parece que as pessoas criam em dois minutos, de um só jacto, e que não têm paciência de ler". João Cabral, opondo-se ao principal curso da poesia brasileira, sempre sentimental, retórica e ornamental, constrói uma poesia "não-lírica", não confessional, presa à realidade que o cerca e essencialmente dirigida ao intelecto.(...)Para João Cabral, o acto de escrever consistiu sempre, num trabalho imenso de depuração, as palavras sempre saboreadas e seleccionadas pelo seu "sabor" e "peso", não podendo "boiar" sem norma e/ou reflexão(...) - CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO ou OS ARTÍFICES da PALAVRA, João Rasteiro - http://www.triplov.com/
Tecendo a manhã
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
QUESTÃO DE PONTUAÇÃO
1.
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);
2.
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):
3.
o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
João Cabral de Melo Neto
http://triplov.com/poesia/joao_rasteiro/Corsino-Fortes/Joao-Cabral-busca.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cabral_de_Melo_Neto
http://www.casadobruxo.com.br/poesia/j/joao.htm

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Entidade Superior

Explicação de deus enquanto pedra

Fulmina-me, atravessa o meu corpo com as tuas lâminas
o amor não és tu, nunca o serás no mundo das rupturas!
Não te compadeças de mim, escuta o meu desafio justo
que vai subindo irado no reverso corpóreo das bocas,
olha-me nos olhos húmidos dos cães raivosos de frechas.

Ao pé do teu divino reflexo a tua covarde indiferença,
olha estas incisões esquivas como monstros em chamas
entre as cidades invisíveis e a morte discerne da sílaba.

Já contra a carne para embeber as tuas dúvidas, a loucura,
a mentira, a injúria, vozes num espaço opaco, cuja traição
só tu serias capaz de moldar como tributo em todos nós
- digo que todo o teu santo nome é repudiado sob as algas.

Se as tuas generosas dádivas se fincassem como ofício puro
a tua memória seria amaldiçoada esconjurada entre o pó
como um eco, pesadelo longínquo dos homens primitivos.


Ergue-se por fim a nuvem a melancolia intangível do verbo
a hegemonia transitória da sombra que te oculta dos mortos.
E agora é o aperto dos dedos que abatidos se acorrentam.

A pedra está dobrada sobre si mesma, transbordante de luz
como se desabrochasse nos abismos profusos da cegueira.

Quero emergir sob a glória da minha guerra. Mas a pedra
está despida por dentro, o coração – então morrerei solitário.
João Rasteiro





sábado, 19 de janeiro de 2008

As mãos e os frutos

Faz hoje 85 anos que nasceu José Fontinhas, conhecido no meio literário como Eugénio de Andrade.
Eugénio de Andrade (Fundão, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005) foi um poeta português que, em 2001, ganhou o Prémio Camões, o nobel para a língua portuguesa.
Estudou no Liceu Passos Manuel e na Escola Técnica Machado de Castro, tendo escrito os seus primeiros poemas em 1936, o primeiro dos quais, intitulado "Narciso", publicou três anos mais tarde.
Em 1943 mudou-se para Coimbra, onde regressa depois de cumprido o serviço militar convivendo com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. Tornou-se funcionário público em 1947, exercendo durante 35 anos as funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde. Uma transferência de serviço levá-lo-ia a instalar-se no Porto em 1950, numa casa que só deixou mais de quatro décadas depois, quando se mudou para o edifício da Fundação Eugénio de Andrade, na Foz do Douro.
A sua consagração já acontecera dois anos antes, em 1948, com a publicação de "As mãos e os frutos", que mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio. Entre as dezenas de obras que publicou encontram-se, na poesia, "Os amantes sem dinheiro" (1950), "As palavras interditas" (1951), "Escrita da Terra" (1974), "Matéria Solar" (1980), "Rente ao dizer" (1992), "Ofício da paciência" (1994), "O sal da língua" (1995) e "Os lugares do lume" (1998).
A sua poesia caracteriza-se pela importância dada à palavra, quer no seu valor imagético, quer rítmico, sendo a musicalidade um dos aspectos mais marcantes da poética de Eugénio de Andrade, aproximando-a do lirismo primitivo da poesia galego-portuguesa ou, mais recentemente, do simbolismo de Camilo Pessanha. O tema central da sua poesia é a figuração do Homem, não apenas do eu individual, integrado num colectivo, com o qual se harmoniza (terra, campo, natureza - lugar de encontro) ou luta (cidade - lugar de opressão, de conflito, de morte, contra os quais se levanta a escrita combativa).
A figuração do tempo é, assim, igualmente essencial na poesia de Eugénio de Andrade, em que os dois ciclos, o do tempo e o do Homem, são inseparáveis, como o comprova, por exemplo, o paralelismo entre as idades do homem e as estações do ano. A evocação da infância, em que é notória a presença da figura materna e a ligação com os elementos naturais, surge ligada a uma visão eufórica do tempo, sentido sempre, no entanto, retrospectivamente. A essa euforia contrapõe-se o sentimento doloroso provocado pelo envelhecimemto, pela consciência da aproximação da morte (assumido sobretudo a partir de Limiar dos Pássaros), contra o qual só o refúgio na reconstituição do passado feliz ou a assunção do envelhecimento, ou seja, a escrita, surge como superação possível. Ligada à adolescência e à idade madura, a sua poesia caracteriza-se pela presença dos temas do erotismo e da natureza, assumindo-se o autor como o «poeta do corpo». Os seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade, e aparentemente simples, privilegiam a evocação da energia física, material, a plenitude da vida e dos sentidos.
Em prosa, publicou "Os afluentes do silêncio" (1968), "Rosto precário" (1979) e "À sombra da memória" (1993), além das histórias infantis "História da égua branca" (1977) e "Aquela nuvem e as outras" (1986). Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis (1988), Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(1989), atribuído a O Outro Nome da Terra (1988), e com o Prémio de Poesia Jean Malrieu, por Branco no Branco (1984). Recebeu ainda, em 1996, o Prémio Europeu de Poesia. Em 2001 obteve o Prémio Camões. Foi criada, no Porto, uma fundação com o seu nome.
Em prosa, publicou "Os afluentes do silêncio" (1968), "Rosto precário" (1979) e "À sombra da memória" (1993), além das histórias infantis "História da égua branca" (1977) e "Aquela nuvem e as outras" (1986).
Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com "essa debilidade do coração que é a amizade". Obteve sem dúvida um lugar destacado na poesia portuguesa contemporânea.A respiração entre as mãos e os frutos. As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Eugénio de Andrade

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

AMOR ETERNO

A Bela Acordada
Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para
sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.
Adília Lopes
http://www.germinaliteratura.com.br/alopes.htm

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Do livro dos Salmos Hereges, Cântico dos Líquidos II

....................... Quadro de Fernando Lemos............................................
Precedo o alastro das mãos sob a incandescência das frísias.
Desses-me os três beijos do crime a tua saliva purificação do dilúvio
maior do que a da água.
Pelo rizoma de teus pântanos acúleos pântano perfurado o teu murmúrio
feras confusas apaziguam-te.
O
Prolonga-me na tua pele renasceremos enlouqueceu-me o búzio nas suas insónias
ressuscitaremos irromperemos
sob tua pele beberemos tua saliva na purificação contornos nós
puros antíscios que te apaziguam.
Vermelho e belíssimo ó sangue do sagrado ser igual oceano primordial
raízes de caminhos de azulíneo e pérgulas de mãos atravessadas.
Não me sufoqueis desenvolto envolveu-me o voo os opiáceos
meus reflexos fracturados
contra o corpo me ordenaram laminar os loucos a minha insidiosa loucura
que não laminei desenvolto
em sete camadas de áleas de roseiras e bruma azul.


O

Tu aquela que perfurou minhas sílabas indica-me onde corres duende
a imolar ou permaneces
nas vigílias. Porque hei-de sugar as seivas puras ignotas fendas
sobre os filamentos do fogo?
Se não fecundas em ti a borboleta o corpo será das rochas ávidas vai
regressar à água torrencial
das lavas imolar tuas feridas próximo das gargantas vulneráveis faíscas
os quatro vulcões.
Tu meu presságio da asfixia das áscuas te experimentei limpo dobrado
nos presságios meu peregrino
das sete camadas sobre os sulcos da água sulco maternal da terra e do fogo
na boca prenhe dos quatro rios.

O

Ah que benévola a minha morte que benévola artrópodes e hulhas
hulhas da linfa.
Ah que benévolo o meu destino também aprazível também o nosso
acto de sangue sem água.
Romper o tecido da memória a construção entre as sementes
do crime purificador
as forças outrora a unidade originária o alastro múrmur da água
saliva purificando a queda.
João Rasteiro

domingo, 13 de janeiro de 2008

Literatura Mundial

James Augustine Aloysius Joyce (Dublin, 2 de Fevereiro de 1882 — Zurique, Suíça, 13 de Janeiro de 1941). Faz hoje 67 anos que faleceu aquele que é amplamente considerado um dos autores de maior relevância do século XX. As suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939) - o que se poderia considerar um "cânone joyceano".
Embora Joyce tenha vivido fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta, as suas experiências irlandesas são essenciais para a sua obra e forneceram-lhe toda a ambientação e muito da temática das sua geniais obras. O seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin e reflecte a sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade. Desta forma, ele é ao mesmo tempo um dos mais cosmopolitas e um dos mais particularista dos autores modernistas de língua inglesa.
Sendo certo que Ulisses (Ulysses no original), se tornou na sua obra de marca, composta entre 1914 e 1921 em Trieste, Zurique e Paris e publicado no ano seguinte nesta cidade - por descrever, em diversos pontos, aspectos da fisiologia humana então considerados impublicáveis, o livro foi amplamente censurado em diversos países, como nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, não nos podemos esquecer dessa fabulosa obra que é Finnegans Wake (Finnicius Revém), que veio a ser o último romance de James Joyce. Publicado em 1939, é sem dúvida um dos grandes marcos da literatura experimental por ter sido escrito em uma linguagem composta pela fusão de outras palavras, em inglês e outras línguas, buscando uma multiplicidade de significados. A sua tradução para qualquer língua é complicadíssima, e qualquer tentativa é um acto de ousadia desde a primeira palavra do romance.
Joyce também veio a publicar poesia, escrevendo os seus primeiros poemas na Universidade, expressando estados de espírito de júbilo e melancolia, que reuniu nos livros manuscritos: Ânimus e Luz e Escuridão.
"Em 1927 James Joyce publica o segundo volume de poesias, Pomes Penyeach pela Shakeaspeare and Company, editora que havia publicado em 1922 o seu livro mais polêmico, Ulysses, e que era composto de uma dúzia de poemas": (Gilfrancisco Santos - CRONÓPIOS)

Ele viaja guiando-se pelo sol invernal,
Tocando o gado por uma estrada fria e vermelha,
Aboiando para eles, uma voz que conhecem,
Guia seus animais pelas colinas de Cabra.

A voz lhe diz que em casa há calor.
Eles mugem e fazem rude música com os cascos.
Ele os guia empunhando um galho florido,
Vapor emplumando-lhes as frontes

Campônio, elo de rebanho,
Esta noite, estica-se junto ao fogo!
Eu sangro a beira do negro regato
Pelo meu ramo arrancado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Novas Vozes

-----------------João Rasteiro e Andityas Soares de Moura----------------------
No próximo dia 14 de Janeiro pelas 19h na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, proceder-se-á ao lançamento da antologia de poesia Algo Indecifravelmente Veloz, do poeta ANDITYAS SOARES DE MOURA, hoje já um dos nomes mais representativos da nova vaga da poesia brasileira. Autor e obra serão apresentados pela Dra. Graça Capinha da Universidade de Coimbra, no âmbito da Oficina de Poesia da FLUC e do Projecto de investigação "Novas Poéticas de Resistência".
Andityas Soares de Moura, mineiro de Barbacena, é poeta, tradutor e ensaísta, além de professor universitário e Mestre em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, instituição onde atualmente cursa o Doutorado em Direito.
Publicou: Ofuscações (Barbacena, edição do autor, 1997), Lentus in umbra (Barbacena, edição do autor, 2001), OS enCANTOS (Belo Horizonte, in vento, 2003) e FOMEFORTE (Belo Horizonte, in vento/Crisálida, 2005). Lentus in umbra foi traduzido para o castelhano pelo poeta e professor Francisco Álvarez Velasco e lançado na Espanha (Gijón, Trea, 2002).
No campo da crítica literária publicou em Portugal o estudo A letra e o ar: palavra-liberdade na poesia de Xosé Lois García (Lisboa, Universitária, 2004) e organizou uma edição da Lírica de Camões (Belo Horizonte, Crisálida, 2004).
Selecionou, introduziu, traduziu e anotou os poemas da escritora galega Rosalía de Castro reunidos em A rosa dos claustros (Belo Horizonte, Crisálida, 2004). Traduziu vários livros do poeta argentino Juan Gelman, a exemplo de Isso (em parceria com Leonardo Gonçalves, Brasília, UnB, 2004) e Com/posições (Belo Horizonte, Crisálida, 2007). Traduziu também À boa teta e outros quatro licenciosos poemas da França renascentista (Belo Horizonte, Crisálida, 2005). Tem traduções inéditas do catalão Joan Brossa e do galego Manuel Antonio.
Um breve comentário/análise da minha parte, a convite (que muito me honrou) do Andityas Soares de Moura e incluido na badana/orelha do livro.
"Não se nasce poeta. No entanto acredito que alguns nascem com algumas propensões para poderem vir a emboscar-se no acto poético. Contudo, a leitura, o estudo, a prática, o intenso exercício de oficina, escrevendo e reescrevendo, são essenciais para talvez se vir a ser um excelente poeta. E é tudo isso que Andityas Soares de Moura é, fez e continua a fazer. Conjuntamente com nomes como Iacyr Anderson de Freitas, Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo, Claudio Daniel, Fabrício Carpinejar ou Márcio André, é, sem dúvida, hoje, um dos mais expressivos poetas da poesia contemporânea brasileira.
Soares de Moura possui a capacidade de conjugar a sua alta erudição (ao grande domínio da língua e cultura latinas, alia um tratamento de grande intimidade com os poetas provençais e escreve com a mesma facilidade e docilidade com que fala mineiro) com a realidade que o cerca como espigões acesos, um/som//:o do peito sendo aberto/.
Em Soares de Moura encontramos uma poesia quase sempre espalhada no branco da página, assente em formas rebeldes, mas ajustadas numa escrita concisa, onde a preocupação extrema com a estética das palavras é reflectida na sua sonoridade. Sendo um poeta virado para o real, para quem a poesia é a arte do fazer, é a arte e faculdade poética, mas sempre como poiesis – criação, cri(ação) sob todas as arestas- a sua poesia é tudo que respira/canta a glória de estar/por enquanto,//e só por enquanto,//vivo/.
Soares de Moura não concebe a arte poética, se esta não questionar constantemente o real, como se a poesia fosse o último guerreiro atento à tirania do poder, à tirania da própria linguagem. A arte e a poesia ao serviço do carpe diem, do ensejo único, o nosso.
Como refere o poeta Glauco Mattoso, a poesia de Andityas Soares de Moura, oscila entre o moderno e o arcaico, com traços concretistas namoriscando o mais arrevesado latinório, que embebida numa alta tensão lírica, fará decerto de Andityas Soares de Moura um dos nomes maiores da poesia brasileira deste desencorajado início de século". (João Rasteiro)
Incluidos na antologia, os poemas: Epitáfio para as ilhas e Procissão
EPITÁFIO PARA AS ILHAS
no alto,
o cansaço, o
espasmo

murmúrios travam
conhecimento conosco

que solos negros!
duros como as orações
de antigos capatazes

sabor de milho
no pescoço

enfim, a porteira aberta

cercada
de musgos
doces
-----ooo-------------
PROCISSÃO
é uma névoa bisonha

dedos debaixo
da língua

eu vi o incenso roxo
brotar como feijão

ladainhas fervorosas
de sexos
aduncos
sérios mesmo

esta agremiação

de interior mais fundo
que
a raiva
Andityas Soares de Moura

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

(...)
Quebrada está a memória, podia ser Janeiro já que a geada e as laranjas se agarravam às árvores como um amor híbrido que juntas se amam à distância. O amor é feito contra todos, e por um só, e depois pelo outro, ainda só; de cada vez, sempre em círculos azuis, um jogo sob as árvores, só. E nos ramos e folhas aquecidas surge o enigma das mágoas.
Os pomares não voltarão a ver acariciados os antigos cachos de ouro e marfim. Bebia-se o vinho e a água da aldeia dos homens. E a sede era o coração tecendo as ramadas de um sangue mais salgado e campestre, de um sangue profundo e sumptuoso que por vezes cheirava a rosmaninho. E nas tardes de trovoada, no eco venerável das trindades, os corpos entontecidos regeneravam-se na ternura das ribeiras que lavavam a solidão dos corpos.
É assim quando se vem de longe, dos espaços cegos por entre ramadas de pedra e granito impuro, de constelações de fluxos e refluxos alucinados de linguagens geladas, de corações espalhados sob depósitos de larvas à procura das aldeias lácteas, lugares ateados na limpidez do seu desesperado exercício de ecos. Nem centro, nem berma, apenas a incisão das arestas.
(...)
Fecha-se a paisagem na direcção dos campos inaugurados. A memória levanta-se. Cada imagem é o segredo de outra imagem – e eu abro-me a cada uma delas em oferenda. É preciso reinventar de novo a paisagem e demarcar os campos onde os amieiros são retalhados, refulgindo luz. O que procuro é a árvore que fica quando a longa tempestade se afasta pela insídia.
In, O Búzio de Istambul - 2008
João Rasteiro

domingo, 6 de janeiro de 2008

LUÍS PACHECO

Morreu Luiz Pacheco.
Luíz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008) foi um escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura português.
Desde cedo manifestou enorme talento para a escrita. Chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno, mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. (Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima.) Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista.
A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, Luís Pacheco é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.
Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2007, Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de Cruzeiro Seixas. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela RTP, encontrando-se num lar do Montijo.
A sua última intervenção terá sido na entrevista para o documentário que a RTP passou no final de 2007 sobre outro grande da literatura: Herberto Helder.
Com uma vida atribulada, por vezes sem meios de subsistência para sustentar a família, Luiz Pacheco chegou a viver situações de miséria que ia ultrapassando à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. Foi nesse período difícil da sua vida que se terá inspirado para escrever o conto "Comunidade" (1964), que muitos consideram ser a obra-prima de Luiz Pacheco.
A "Carta-Sincera a José Gomes Ferreira" (1958), "O Teodolito" (1962), "Crítica de Circunstância" (1966), "Textos Locais" (1967), “Exercícios de Estilo” (1971), “Literatura Comestível” (1972) e "Pacheco versus Cesariny” (1974), são apenas algumas das muitas obras publicadas por Luiz Pacheco.
Ontem à noite, Luiz Pacheco, nascido a 7 de Maio de 1925, em Lisboa, a contar 82 anos, chegou já sem vida ao Hospital do Montijo. O óbito do escritor foi registado às 22h17, adianta a Lusa. O resto anda por aí, em bibliotecas e nas bocas dos amigos e das entrevistas nas revistas e nos jornais, também disseminadas pela Internet.
Na poesia, campo onde poderia ter sido a querer, um supra-Pessoa, afirmou o próprio, pode ser lido na Antologia da poesia erótica e satírica (1966), organizada por Natália Correia. Quis ser crítico feroz, denunciando a desonestidade intelectual. Vítima mediática dessa vontade foi Fernando Namora, a quem Luiz Pacheco acusou de plagiar algumas passagens de Aparição (1959), de Vergílio Ferreira, em Domingo à Tarde (1961).
Morreu Luiz Pacheco. Parece-me óbvio que se aguentou até 2008 para não ter que morrer no mesmo ano que Mário Cesariny.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Surrealismo II

Legenda: João Rasteiro, Fernando Lemos e Régis Bonvicino - Universidade de Coimbra, 2004.
Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o curso livre da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Com um percurso profissional ligado às artes gráficas e à publicidade, Fernando Lemos circula por muitos territórios da arte ao longo do seu percurso. A sua obra multifacetada estende-se ao domínio da poesia, pintura, do desenho, da ilustração e à fotografia, campo que alcançou maior visibilidade pública nos últimos anos. Foi Prémio Nacional de fotografia, 2001, Centro portugês de Fotografia, Porto.
O Surrealismo Português no olhar de Fernando Lemos:
"Não me sinto um fotógrafo. Sou um derivado das artes plásticas e da poesia, afirma Fernando Lemos".
Naquele dia, Alexandre O'Neill falava em suicidar-se mas os amigos deram-lhe, literalmente, a volta à cabeça. O momento ficou registado na câmara fotográfica Flexaret de Fernando Lemos eis o poeta de cachimbo no canto da boca, a gravata sob o pulôver e o cabelo em desalinho devido às mãos amigas e mexeriqueiras. Lavagem Cerebral é uma das 117 fotografias de Fernando Lemos que incorporaram recentemente a Colecção Berardo e foi em volta delas que se organizou a exposição "Fernando Lemos e o Surrealismo" no Museu de Arte Moderna de Sintra.
Artista plástico, dedicou--se à fotografia "por curiosidade". "No nosso grupo, a fotografia não era muito utilizada, só como experiência. E eu decidi experimentar para ver se conseguia dar uma imagem compatível com o nosso país e com as nossas gentes que não fosse apenas paisagem. Queria fazer uma coisa mais ligada à psicologia humana", recordou em entrevista ao DN, sentado na cadeira de rodas, quando visitou a exposição.

Não lhe interessava o lado documental, antes a procura de uma certa "poética lúdica" "A gente tinha liberdade para brincar. Nem a realidade a gente tomava a sério, quanto mais a nossa arte." E o desafio era também tecnológico - fotografava duas e três vezes sobre o mesmo negativo, apostando no "acaso", recorria à solarização, produzia efeitos que depois descobria na revelação. "Sente-se o pintor na fotografia de Fernando Lemos", escreveu em 1953 Manuel Bandeira. "Não retoca nunca. Tudo o que ele obtém é exclusivamente por meio da máquina."
Entre as suas imagens, encontramos a abstracção total, o olhar inusitado sobre o quotidiano (paisagens pouco convencionais, como as obtidas em Moledo, quando visitava o amigo António Pedro), o erotismo dos nus e os retratos, porventura as suas imagens mais conhecidas. Fernando Lemos fotografou os seus pais, os amigos e os familiares dos amigos. Lá está Vespeira e ao lado Maria Albertina, a mulher. Lá está Fernando Azevedo, mas também Maria Emília Azevedo. Nora Mitrani, a quem O'Neill disse adeus. Sophia de Mello Breyner (numa foto a que chamou A Guerreira) e os seus filhos (A Prole). Jorge de Sena, Vieira da Silva e Arpad Szenes, José Augusto França, Casais Monteiro, Augusto de Figueiredo (de mãos sobre o rosto na famosa Recusa de Identidade). "É o retrato de uma vivência, da minha juventude, todo um percurso com um grupo de pessoas. Porque eu só retratava pessoas com quem tinha contacto. Eles não só respeitavam o meu trabalho como se tornaram cúmplices das minhas experiências", explica o autor. "Eu não me sinto um fotógrafo", declara sem espanto Fernando Lemos. "Sou um derivado das artes plásticas e da poesia, mexo-me noutras áreas", diz, explicando assim o facto de a sua obra fotográfica se concentrar em apenas quatro anos, de 1949 a 1952.
Quando partiu para o Brasil, onde vive até hoje, fugindo das pressões políticas e das vistas curtas do país de Salazar, Fernando Lemos iniciou uma nova etapa da sua carreira, participou dos movimentos que então cresciam no Brasil (o país estava entusiasmado com o desenvolvimento tecnológico, surgiram o concretismo, as primeiras bienais e galerias de arte) e deixou de lado a máquina fotográfica. "Tenho fotografado, mas não necessariamente com os mesmo objectivos, fiz muitas coisas com os meus filhos. E cheguei a ter uma empresa de fotografia de moda, que foi um fiasco", ri-se. (maria joão caetano - Diário de noticias).
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Representado em diversas antologias e revista de poesia, dos seus livros, destacam-se: Teclado Universal (1952), Líricas Portuguesas (1985), Cá & Lá: Poesias (1985). Em 2004 Fernando Lemos integrou o programa dos 4º Encontro Internacional de Poetas - Universidade de Coimbra.
OBJETIROU
um instrumento precursor do industrial
design.
Foi dos primeiros objectos seriados
designados pelo
homem.
Espécie prioritária.
Uma bala puxa a outra.
Com aspectos semânticos e morais
definidos.
Faz a guerra e faz a paz.
Ataca e defende.
Proposta de tiro sem impressão digital.
Indispensável no desenvolvimento de
qualquer sociedade.
Fernando Lemos
http://blografiascomluz.blogspot.com/2005/04/biografia-01-fernando-lemos.html

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

2008 - A "Realidade" Futura

A Teoria das Cores

«Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás de uma cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro, onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente que assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas, como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou o peixe amarelo.»
Herberto Helder

domingo, 30 de dezembro de 2007

Surrealismo I

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

ANTÓNIO MARIA LISBOA
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/antonio_maria_lisboa/poetas_antoniomarialisboa01.htm

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Traduções para o Finlandês


Acabam de ser traduzidos alguns poemas meus para o Finlandês pela poeta Rita Dahl e publicados no seu Blog: ARGENTOLA. Brevemente serão publicados alguns poemas meus na revista literária "Tuli & Savu".
Em homenagem ao POETA o poema (com tradução Finlandesa de Rita Dahl): Encontro com Herberto Helder


Há algures uma cidade interrompida onde a luz
já se vai perdendo prostrada entre as âncoras
como estiletes arejados enjaulados nas palavras,

deves ir pela tarde mágica das trovoadas ávidas
quando Cascais vai morrendo um pouco menos
apesar de o miolo da carne infindável ser sangue
emergindo como fungos atiçados junto à pele
em ciclos de intempéries e migrações filicídias,

vai procurá-lo nos jardins embora não te fale
(esquecerás que transportas o contágio das dores
as manhãs ressuscitarão secas sobre os espigões
ao longo das vozes aguçadas a cidade coagulada
ardendo nas candeias sob o ritual dos êmbolos),

pergunta na praça das súplicas enxutas dos velhos
por aquele homem que menstruou a sílaba nua
quando na cidade passava o ar odorífero das ilhas
ele que lutou nos campos da cal contra as cobras
para que a escassa estria ainda se ouça torrencial,

no absurdo da busca na casa do espectro da areia
reside a transparência materna os últimos dias
senta-te sob os salgueiros com a cabeça inclinada
ouve o vento e cheira as entranhas certas da morte
o corpo estilhaçando-se em múltiplas direcções,

pára não digas nada ao ouvido das nascentes
(enquanto escutas as patas frágeis da magnólia
bebe a cidade pelo sexo aberto das fêmeas azuis
guelras por onde resfolega toda a luz preambular
como se fosse a redentora faísca o corpo vegetal),

aí, junto à água, o engenho das bigornas brancas
o fogo das mãos sagazes ardendo como ofício puro
casulo entre as bilhas onde habita o bafo do poeta.
João Rasteiro

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Pós-Natal

Algum dia o teu corpo alastrará

Algum dia o teu corpo alastrará
como cães sem boca e olhos esboroados
serás escondido em toalhas de musgo
um embrulho de carnes malditas
onde os indesejados pernoitam velados
nas noites em que os ecos se dissolvem nus.

Os teus irmãos esquecerão o teu aroma
como no principio divino dos abutres
no silêncio acercará alguém à cidade
para apagar os vestígios desnecessários
nas vozes que habitam os íntimos pomares
os frutos rutilantes nas escoras urbanas

nesse lugar tu estarás na dilatada blasfémia.
João Rasteiro

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Dia de Natal

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

NATAL da Vida

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes