sábado, 25 de outubro de 2008

Nas margens do Tormes

Agora que o Francisco Curate anda por terras do Tormes, sorrio lembrando-me da minha estadia em Salamanca em 2005, no âmbito do lançamento da bela antologia "Cánticos de la frontera", coordenada pelos poetas e amigos Alfredo Pérez Alencart e António Salvado e das memoráveis leituras efectuadas por todos os poetas na Casa de las Conchas, coloco hoje no blogue um poema publicado por mim na revista "Papeles del Novelty", revista que é editada pelo mais antigo e famoso café de Salamanca, situado na Plaza Mayor, homenageando os Miguéis e naturalmente a extraordinária e mágica Salamanca e a frescura divina do Tormes. A música também é de um amigo Salmantino, o trovador Gabriel Calvo.

Na rota dos faunos
......................A Unamuno e Torga
1.

Em Agosto, a cidade tem o nome acorrentado
à pedra acesa que vislumbra a luz dos poetas,
vieram dos trilhos onde os animais respiram
as juras sagradas da liberdade que aprisiona.
.
2.
Pela tarde, o sol rasga a ferocidade da muralha
obstinada, Tormes cerca, lentamente, enquanto
se vai cerrando o coração das aves e as bocas
da Plaza Mayor. O que as cores embrionárias
alienavam só a palavra alteia nas veias, agora.
Todos os lugares regressam sísmicos, mesmo
a noite que conjectura os olhos das serpentes
com sede. A cidade cega persiste junto à cal.
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3.
De puro oiro é a cidade, e de pedras que ferem
adornadas as estirpes da Casa de las Muertes, só
o sangue aflora das cânulas dos ancestrais livros
que abrigam o sopro dos sete poemas revelados
pelas fábulas, pela quimera opulenta dos Migueis.
.
4.
E a noite brota a blasfémia das pedras arrosadas,
o assombro das águas, o augúrio das vozes nuas,
o universo absoluto percorrendo a peleja do verbo.
.
5.
Têm agora a idade das pedras, a paixão da sílaba
na arquitectura dos sulcos, aberta sobre o mundo.
...................................................João Rasteiro
In, Papeles del Novelty - Revista de creación y mantenimiento, nº 17, Salamanca, 2008
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Gabriel Calvo

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Antropofagia

Oswald de Andrade: São Paulo, 11/01/1890 - São Paulo 22/10/1954, foi um poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Foi um dos grandes promotores da Semana de Arte Moderna de 1992 em São Paulo, tornando-se um dos nomes fundamentais do modernismo literário brasileiro. É considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo e o autor de dois incontornáveis manifestos modernistas:O Manifesto da Poesia Pau Brasil e o Manifesto Antropófago. As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também de forma intensa diversas áreas da criação artística: na música o tropicalismo, na poesia o movimento dos concretistas e na área teatral, grupos como Teatro Oficina e Cia.

Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela

E perguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

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Minha terra tem palmares
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

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Erro de português
Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
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Há poesia


Há poesia na dor
na flor
no beija-flor
no elevador
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sábado, 18 de outubro de 2008

Divindades

Deus por deus
.................A Eduardo Lourenço
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Mas o poeta, o alucinado e incandescente poeta,
revestido de sílabas – poucas – aparentando o tempo,
uma breve autoridade, poeta preso nas cidades vastas,
mostrando as suas habilidades perante a ânsia dos céus
dentro de muralhas que devaneiam o diacrítico do mar,
o exacerbado poeta, ingenuamente concebe o sussurro
das pétalas de rosa azul que nunca ninguém ousou criar
porque os deuses julgam-se imutáveis na luz do espelho.
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Os antigos trovadores invocavam as musas sob as luas
Shakespeare, o pequeno e terno irmão de Deus, aquele
imortal que viu a obra duplicar fantasmagoricamente no
oitavo dia da criação, rogava diariamente a seu irmão,
ele, o poeta da cidade, o que amplia criação à realidade,
à criação urbana, renovando o mundo em suas nuas leis
do circo urbano, a arena onde nos digladiamos no desejo
nós, os mais altivos e singulares leões de nós mesmos,
invoca-se a si próprio, deus díspar da única criação, a
obra da ironia da linguagem e da melancolia do verbo,
mas como sei que não aparecerá nas rotações do poema,
em raro ensejo de lucidez irrompe os espaços e conceitos
deita fogo a todas as suas recentes e geniais criações
de pétalas de rosas azuis e galáxias de cristalina garganta.
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Quando as muralhas se abrirem ao mar e aos raios do sol
o poeta da cidade, não se invocará omnipotente em vão
e descansando entre divinos anjos e animalescos humanos
contemplará a absoluta redenção do caos por si criado
e cantará a devastação das lágrimas da tristeza e da alegria
onde floresce o dialecto assimétrico das novas gramáticas
porque a purificação do caos é tão assombrosa e excitante
como o paraíso primordial de onde nos julgámos expulsos
devido à linguagem da única arca de Noé que sobreviveu.
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Hoje, o poeta da cidade emprega artifícios e não magia
tentando tornar visível a efémera ostentação de si mesmo
no manto doirado da poesia – esse trama em que o mundo
se construiu – e repudiando Cavafis, quando este cantava
os acúleos bárbaros em seus lamentos – "aquela gente era
uma solução"
– porque das guelras um anzol trepava ao céu.
João Rasteiro
Pedro Abrunhosa - A cada não que dizes

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Anotação do Mal

Na semana passada, ficou a saber­‑se que o prémio de ficção do PEN Clube foi este ano atribuído a Jaime Rocha, com o livro: Anotação do Mal. Foram ainda atribuídos os seguintes prémios:
Poesia, Helder Moura Pereira, com Segredos do Reino Animal e Daniel Jonas, com, Sonótono.
Ensaio, José Vitorino de Pina Martins, com, História de Livros para a História do Livro e António M. Machado Pires, com, Luz e Sombras no Século XIX em Portugal.
Primeira Obra, Francisco Camacho, com, Niassa e Maria Helena Santana, com, Literatura e Ciência na Ficção do Século XIX.
Jaime Rocha, hoje sem qualquer dúvida, uma das vozes mais importantes do nosso meio literário, quer seja ao nível do teatro, poesia, ficção ou ensaio. No domínio da poesia, obras como Os Que Vão Morrer, (2000), Zona de Caça (2002), Do Extermínio (2003), Lacrimatória (2005), Homem Branco Homem Negro (2005) Anotação do Mal(2007), só para enunciar as mais recentes, fazem de Jaime Rocha já um nome marcante da poesia e literatura portuguesa em geral. Do livro Lacrimatória (2005), o poema Lacrimatória 41:
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Depois, o guerreiro vai à sua procura caminhando
por um fosso, enquanto a mulher, meio estátua,
meio visão, o aguarda para lhe entregar os venenos,
despindo-se, atraindo os morcegos. Um fio de cobre
ilumina-lhe os ombros, o mesmo fio que traz o vento
e a música para dentro do seu corpo, mas o desejo
dela é ficar emparedada, presa a um castanheiro,
longe dos ruídos das fogueiras. O homem uiva no
pequeno pátio à entrada do mausoléu. Sabe que a
memória da mulher é como um véu que cai do tecto
para o abrigar. Ele é o único homem que habita a
ilha onde jaz o seu corpo. Por isso, a sua dor é oculta,
aproxima-se do frio coberto de lágrimas vazias. Já
não lhe interessam os anjos, nem a dança dos peixes.
Só o mármore e os pássaros negros.
Jaime Rocha
Madredeus - Não muito distante

sábado, 11 de outubro de 2008

O CÂNTICO das PRAGAS (Vídeo e poema):


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O Cântico das Pragas

É das palavras
que irradia a morte soberana
os lugares sitiados, a blasfémia do silêncio.
Todos morrem nas palavras disponíveis
apenas os corvos tristes
a quem soldaram o bico com prata
suspendem a morte
no branco das túnicas da água visível.
É nesse espaço
onde antes iam os homens sedentos
alimentar a fractura das vísceras
comendo de rastos com as cobras
que a chuva cai geométrica
estilhaçando o alastro das gargantas
que guardam as sílabas com aroma de tílias.
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O homem está morto dentro do poema
como a linguagem das antigas escrituras
e é o seu corpo que brilha através do branco.
As cobras emergem do chão
abrigam-se nas túnicas álgidas
e aproximam-se do corpo do homem exposto
iluminadas em sua própria loucura.
Engolem os restos da carne corrompida - mas,
inexplicavelmente poupam-lhe os olhos -, depois,
saboreiam o que lhes vai consumir
para sempre a língua, o coração das entranhas.

O segredo absoluto e divino do extermínio do verbo.
João Rasteiro
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http://www.ces.uc.pt/novaspoeticas/pages/portugues/homepage.php
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/search/label/Jo%C3%A3o%20Rasteiro
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A sílaba de fogo

Herberto Helder, considerado um dos maiores poetas portugueses vivos, (para mim, sem dúvida o mais original e perturbador) publicou esta quinta-feira um novo livro, intitulado "A Faca não Corta o Fogo -- súmula & inédita", com a chancela da Assírio & Alvim.

O volume, que reúne uma parte de reescrita da sua obra anterior e alguns inéditos, possui 207 páginas de poesia e uma extraordinária capa ilustrada por Ilda David, em tons de azul e amarelo.

De Herberto Helder, um poeta que deu a última entrevista em 1968, ("o poeta obscuro") e que recusou o Prémio Pessoa em 1994, vive em auto-reclusão e de si pouco se sabe, para além de que se chama Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, tendo nascido no Funchal, a 23 de Novembro de 1930, e residindo actualmente em Cascais, com a mulher, Olga.

De 1954, data a publicação do seu primeiro poema, em Coimbra, na "Cabra", tendo posteriormente publicado também em Coimbra, na revista "Êxodo", talvez o seu primeiro ensaio literário.

Em 1958, publicou o seu primeiro livro "O amor em visita" e em 1961 e 1962, editou os livros "A Colher na Boca", "Poemacto" e "Lugar". Em 1973, publicou "Poesia Toda", reunindo a sua produção poética até à data, e fez uma tentativa falhada de publicar "Prosa Toda".

Depois de "mundear" por países como a Bélgica, França, Holanda, Angola ou Estados Unidos, volta a Portuga depois do 25 de Abril e depois de voltar a publicar, nos anos seguintes, mais algumas obras, entre as quais "Cobra" (1977), "O Corpo, o Luxo, a Obra" (1978) e "Photomaton & Vox" (1979), remeteu-se ao silêncio, a um silêncio avassalador, mas simultâneamente mítico.

E dele falou, numa carta enviada em 1977 à revista Abril, endereçada a Eduardo Prado Coelho: "O que é citável de um livro, de um autor? Decerto a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio".

Por isso, pediu aos amigos que não falassem dele num documentário que António José de Almeida pretendia realizar para a RTP2, em 2007.

O documentário, "Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro", acabou por ser feito, mas apenas adensou o mistério em torno da figura do poeta, já que 17 das 29 pessoas contactadas pela produção se recusaram a dar o seu testemunho.

Da sua poesia, escreveu algo deslumbrado, o crítico literário Jorge Henrique Bastos, no livro " O corpo O lucho A obra" e responsável pela primeira edição brasileira da poesia de Herberto Helder publicada no Brasil, em 2000, que o poeta "impulsiona a viva encantação das palavras [e que] o abalo que a sua poesia provoca é um dos mais profundos que a literatura de língua portuguesa já sofreu".

Mistério, que por vezes é quebrado da forma mais surpreendente, quando sem ninguém esperar, escreve, essencialmente respondendo, a cartas de amigos, mas, também de desconhecidos, aqueles absolutos e eternos admiradores da sua poesia, e do qual este escriva é testemunha de tal facto na primeira pessoa.

Sobre o novo livro de Herberto Helder, disse o poeta Gastão Cruz à Lusa: "Não sei o que espero, somente que se situe, como decerto acontecerá, no nível da sua restante obra poética".

(...)

Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça

olha a loucura com seu nome: indecifrável cego.

Resistência - "Chamaram-me Cigano"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A recordação imaginada: Mito e Poesia

(…) Só duas experiências tornam os seres humanos capazes de participar na verdade-ficção, na metáfora pragmática de eternidade, da libertação dos decretos de dissolução do tempo biológico e histórico, ou por outras palavras, da morte. O primeiro caminho é o das crenças religiosas autênticas para os que a elas se encontram abertos. O outro é a via estética.
São a produção e a recepção de obras de arte, no sentido mais amplo, que nos permitem participar na experiência da duração, do tempo libertado. Sem a arte, a psique humana teria de enfrentar na nudez a extinção pessoal, dando lugar a uma lógica de loucura e de desespero.
É a poeisis (a par, uma vez mais, da transcendência da fé religiosa, e muitas vezes de algum modo em ligação com ela) que autoriza a desrazão da esperança.
Neste sentido de um alcance imenso, as artes são mais indispensáveis aos homens e às mulheres que o melhor da ciência e da tecnologia (são inumeráveis as sociedades que longamente perduraram sem elas). A criação nas artes e na actividade filosófica é, no que se refere à sobrevivência da consciência, de uma ordem diferente da da invenção nas ciências. Somos animais cujo sopro vital é a dos sopros contados, pintados, esculpidos ou cantados.
Não há, não pode haver, nesta terra uma comunidade, por mais rudimentar que sejam os seus meios materiais, sem música, sem uma outra espécie de arte gráfica, sem essas narrativas da recordação imaginada a que chamamos mito e poesia. Há, de facto, verdade na equação e no axioma; mas é uma verdade menor. Estará, porém, a verdade maior das artes segura na maneira como a conhecemos e vivemos até hoje? Terá a poeisis o seu futuro clássico?
In, George Steiner – “Gramáticas da Criação” (pg. 287, 288), Relógio D`Água Editores
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Chopin Nocturne Op 27 No 1 - Maria Joao Pires

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Desatino

Quero um poema tão real quanto o Colosso de Rodes

O silencio metamorfoseou-se assim de luz:
por um lado, a sílaba da magnólia virgem,
por outro, orquídea azul de cetim genuíno,
espaços de deuses em labirintos fossilizados.
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Poema, morte e vida desejando-se bilingues
de bocas e sexos, a proliferação barroca, vozes
em módulos acesos de vocabulários, graciosas
estátuas escorriam mudas dos cabelos de hélio.
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Língua: por um lado, enxurrada incandescente,
garganta atravessada; por outro, pássaro contíguo.
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Corpo: também é trovão, temporal de primaveras,
fingimento, verbo, criação (refúgio no tímpano).
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Recriar a língua em seu aguçado silêncio
será sempre desrecriar-se biografia imperfeita
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do eu, estar desnudo: estátuas, estátuas, poesia,
o eco, tudo o que aniquila a inflorescência da voz.
João Rasteiro
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Pink Floyd- Comfortably Numb

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http://fotoseliteratura.blogspot.com/
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/

domingo, 28 de setembro de 2008

A experiência existencial da sílaba

André Breton (Tinchebray, 19/2/1893 - Paris, 28/9/1966), foi um escritor francês, poeta e teórico do surrealismo.
Vive a aventura do surrealismo como uma profunda experiência existencial. Em Valéry descobre o poder subversivo da inteligência pura. Por volta de 1920 adere ao grupo Dadá, mas logo de seguida se opõe a Tzara. Descobre o automatismo como meio de renovar e inovar a arte e lê com desmesurada paixão Rimbaud e Lautréamont. Em 1924 lança o Manifesto do Surrealismo, um marco e uma profunda revolução, na forma de olhar a arte em geral
Animado por uma imensa e ardente vontade de acção, a sua rebeldia inata leva-o a posturas revolucionárias. Publica as revistas La Révolution Surrealiste e Le Surréalisme au Service de la Révolution. Mas como o surrealismo não pode submeter-se de todo, as suas relações com a política e o Partido Comunista em especial, são sempre delicadas.
O encontro amoroso com Najda e a experiência vivida com esta jovem mulher inspiram-lhe a escrita de Nadja, que é a única obra verdadeiramente grande de Breton. Peça interessante e característica do surrealismo é também O Amor Louco.
(THE TRIUMPH OF ANDRE BRETON and SURREALISM by SHAHLA ROSA)
Um homem e uma mulher absolutamente brancos

Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se
nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas
onde elas caminham Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas
banham a sombra dos seus bicos
A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem

Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo
que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul.
In,(tradução de Antônio Ramos Rosa)
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Ne Me Quitte Pas - Jacques Brel



http://www.nodo50.org/insurgentes/biblioteca/manifesto_surrealista.pdf

http://kirjasto.sci.fi/abreton.htm

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=5&p=130

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Blowin' In the Wind


Alma
.................não sossegues o homem, deixa

................deus aterrorizá-lo

.................mas vender-lhe a alma, nunca

........................
.valter hugo mãe
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Há poetas mortos na sílaba dos cães raivosos.

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Uma criança atravessa a cidade entre poemas

e a paixão há-de alastrar como chumbo aceso.

A boca do coração explodindo esquírolas.

E coloca o sexo perto da traqueia do mendigo

..........................................vermelho – o sol

das raízes-de-cobra libertando-se do casulo urbano.

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Duas crianças contornam a boca das máscaras

sob um cântico de besouro no sonho obscuro

..............................................E acordam

com o seu próprio milagre – ele

a erupção das ancoras-crias-língua de sangue.

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Três crianças dobram os dedos dos girassóis azuis

curvam-se corpos como pontuação viva

na linguagem da terra

......................a cânula-esquife da sílaba E

desenraízam do poema

....................Os cavalos da nudez do mármore

....................Os líquidos da colmeia curvada

....................Os espelhos do linho dos vermes

....................Os homens que têm o sol pendurado nos olhos

...........................................................a

............................................................l

...........................................................a

...........................................................v

...........................................................r

...........................................................a

..................Do desejo perante o vazio – o barro

da árvore E o fruto e o seu fugaz percurso de paixão.

..................O corpo e a Alma

..................................A unidade originária da borboleta

......consumida em seu centro explosivo - eu estou nesse lugar nu.

....................................................................João Rasteiro

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Bob Dylan - Blowin' In the Wind




domingo, 21 de setembro de 2008

Publius Vergilius Maro

Foi em 2003 que me foi atribuída pela Accademia Internazionale IL CONVIVIO a Segnalazione di Merito, na área de poesia, no Concurso do Premio Internazionale Il Convivio "Publio Virgilio Marone". Este prémio que foi entregue na Sala do Cenáculo, da Câmara dos Deputados do Parlamento Italiano, será, logicamente, algo que ficará para sempre na minha memória.
Públio Virgílio Marão (em latim Publius Vergilius Maro), às vezes chamado de Virgílio, (Andes, 15 de Outubro de 70 a.C. - Brindisi, 21 de Setembro de 19 a. C..

Foi precisamente há 2078 anos (se as contas tradicionais não estiverem erradas) que nasceu um dos grandes poetas e pensadores da Antiguidade, aquele que Paul Claudel, fascinado pela obra e pela figura do poeta, apelidou de o maior génio produzido pela humanidade e que mais do que um poeta, um profeta de Roma, um "vate", um poeta-profeta. Virgílio foi o cantor da tradição, criadora e conservadora da grandeza de Roma. Fez em verso aquilo que Tito Lívio (Pádua, 59 a.C. - ib. 17 d.C.), com o seu Ab Vrbe Condita, tinha feito em prosa. Considerado o maior poeta latino, a sua obra mais famosa, provavelmente uma das obras eternas da literatura e da linguagem, é a Eneida. A obra de Virgílio compreende, além de poemas menores, compostos na força da juventude, as Bucólicas ou Éclogas, em número de dez, em que reflecte nitidamente a influência do género pastoril criado por Teócrito. Literariamente, as Geórgicas são consideradas a sua obra mais perfeita. E finalmente, a Eneida, que o poeta considerou inacabada, a ponto de pedir, no leito de morte, que fosse queimada, e que constitui a epopeia nacional de um povo e de um território. Epopeia erudita, a Eneida tinha como objectivo proporcionar aos romanos uma ascendência não-grega, formulando a cultura latina como original e não tributária da cultura helénica. A sua estrutura serviu de modelo definitivo às grandes epopéias do renascimento, nomeadamente para Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

O poema que se segue é uma poesia muito ao gosto dos alexandrinistas, é uma poesia cheia de fina ironia.

Ide-vos daqui, ide, ocos empolamentos de retórica
palavras inchadas com estalhadarço não ático
E vós, o Célio, ó Tarquício, ó Varrão
Corja de pedantes a pingar de gordura
Ide-vos daqui, címbalo louco da minha juventude.
E tu, ó Sexto Sabino, cuidado dos meus cuidados
fica bem: ficai bem meus caros
Nós levantamos ferro em direcção aos pontos prósperos
Procurando doutas doutrinas do grande Sirão
E libertaremos a vida de todos os cuidados.
Ide-vos daqui, Musa; apre! Vós também ide já
Doces Musas (confessaremos a verdade,
fostes doces): e contudo no futuro
visitai de novo os meus escritos,
mas discretamente e poucas vezes.
(*) - Poema retirado do Blog:
Humanae Litterae


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

THE RIGHT OF WAY

William Carlos Williams (17/9/1883 - 4/3/1963). É um dos mais importantes poetas americanos, normalmente associado ao modernismo e imagismo.

O POEMA

Tudo está
no som. Uma toada.
Raramente uma canção. Devia

ser uma canção - feita de
minúcias, vespas,
uma genciana - algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de uma dama - despertando
centrífuga, centrípeta.

(tradução: José Lino Grünewald)

UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO

Que a cobra fique à espera sob
suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir.

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- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor (Idéias
só nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

(tradução: José Paulo Paes)


Simon & Garfunkel - Homeward Bound

http://www.culturapara.art.br/opoema/williamcarloswilliams/williamcarloswilliams.htm

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000100006

http://en.wikipedia.org/wiki/William_Carlos_Williams

sábado, 13 de setembro de 2008

O Silêncio

Vozes

Desejo entranhar a eternidade

maldita das vozes iniciais aves

ressurgindo lembrança acúlea

o fogo da memória fecunda pele

de pequenas bocas outra águas

misturando ecos epílogo exicial

na blasfémia sublime do engano.

João Rasteiro



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

"Resmungos"

Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, MA, 10 de Setembro de 1930) é um poeta, crítico de arte, biógrafo, memorialista e ensaísta brasileiro.
Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

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Arte poética

Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz

e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte -

some-se aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado, múmia
de flor
dentro do livro

e o que da noite volte
volte em chamas

ou em chaga

vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só

ilumina a cidade inteira

Adriana Calcanhoto - "Traduzir-se" (F. Gullar)

http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/index.htm

http://www.releituras.com/fgullar_bio.asp

http://www.jornaldepoesia.jor.br/gula.html

domingo, 7 de setembro de 2008

Sílaba e Verbo


Plenitude

.............Deus não é a palavra Deus (…)

..................E Deus é tudo isso.

.............................Carlos Nejar

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Nazaré não é a palavra Nazaré

e amieiro

a palavra amieiro.

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O amor, na palavra amor.

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Há uma utopia

que não entra

na palavra utopia.

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Nazaré não é a sílaba de Nazaré

e andorinha

a sílaba de andorinha.

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A luz, na sílaba luz.

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Há uma árvore

que não entra

na sílaba de árvore .

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Nazaré não é o verbo Nazaré

e pomba

o verbo pomba.

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O sonhar, no verbo sonhar.

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Há um caminhar

que não entra

no verbo caminhar.

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E Nazaré é simplesmente tudo isso.


PUCCINI - MADAME BUTTERFLY

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A voz dos espelhos

Inaugura-se no próximo dia 6 de Setembro, pelas 18 horas, na Galeria Municipal Artur Bual, a exposição A Voz dos espelhos, uma mostra colectiva que congrega 17 artistas do melhor surrealismo internacional actual, integrada nas comemorações do 29.º aniversário do Município da Amadora. Lá estarei , honrado naturalmente pelo convite, para efectuar uma pequena leitura de poesia. Aos amigos que já confirmaram a presença, um até já e um forte abraço.


".é urgente que alguém defina o modelo purificador das arquitecturas e traga a peçonha dentro de um cortiço de peles de cabra. e nas auroras o exiba santificado de forma permanente frente ao sexo exposto das leoas de mármore. dos limites dos campos virá então a soldadura dos hortos arrastando-se como víbora em plena sesta em direcção aos nevoeiros das cidades. o novo espaço será então irreversivelmente consagrado terra de pecado e revivescência. e ali se plantarão outra vez as putrefactas tábuas onde um dia se alojaram as palavras como pólen embrionário alternativo à possível redenção de um deus. as novas poéticas de jaba e euphoria lastram a ressurreição da criatura de aço florífero. civitas terrena." - João Rasteiro