Se em cima falei de uma antologia, o que pressupõem já obra feita, agora falo do primeiro livro de uma poeta. A poeta Alice M. Campos lançará no próximo dia 10 pelas 16h no Auditório da Casa-Museu Abel Salazar em S. Mamede de Infesta o seu livro de estreia. Esta obra, “o ciclo menstrual da noite”, é um livro, independentemente da minha amizade pela Alice Campos, que já possui um trabalho de linguagem extremamente forte. É um livro onde a metáfora por vezes fere de forma abundante e onde a condição de mulher é abordada com tal pujança, que apenas assistimos ao remexer da sílaba nas entranhas de uma forma tão viva e sem amarras, de uma forma totalmente exposta como a poesia merece e exige.(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
quinta-feira, 8 de maio de 2008
LIVROS
Se em cima falei de uma antologia, o que pressupõem já obra feita, agora falo do primeiro livro de uma poeta. A poeta Alice M. Campos lançará no próximo dia 10 pelas 16h no Auditório da Casa-Museu Abel Salazar em S. Mamede de Infesta o seu livro de estreia. Esta obra, “o ciclo menstrual da noite”, é um livro, independentemente da minha amizade pela Alice Campos, que já possui um trabalho de linguagem extremamente forte. É um livro onde a metáfora por vezes fere de forma abundante e onde a condição de mulher é abordada com tal pujança, que apenas assistimos ao remexer da sílaba nas entranhas de uma forma tão viva e sem amarras, de uma forma totalmente exposta como a poesia merece e exige.terça-feira, 6 de maio de 2008
Sexo e Linguagem
ADÃO e EVA
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há um sexo dentro das palavras
o erro do desejo.
saberás que o amor
não começou ainda,
.
às vezes como uma víbora
o corpo só deixa a pele.
João Rasteiro
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In, "O Reverso do Olhar", CATÁLOGO da Exposição Internacional de Surrealismo Actual - Coimbra, 2008
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Rita Lee - Amor e Sexo
domingo, 4 de maio de 2008
SILVES
..................................as-Shilb....................................................(H)á moira encantada
Já te foi tão próxima essa morada de leões e de gazelas
junto à gafaria, a solidão das fronteiras
onde o sussurro do branco se corrói
exercitando-se horto no coração transmudo
das mulheres níveas e morenas.
Hoje sabes que o mistério da luz açoita os olhos
até que o canto de al-mutamid corra o interior das gusas
que alimentam tendões de colos cortados
batendo por dentro das bocas para ostentar a flor
mas nada te preencherá a cegueira
das fábulas na margem do arade
a taifa rebelde rasgando a intimidade dos deuses
pela insídia da cor da terra e dos espaços ermos.
Frutificarás então artéria sísmica
do amarelo envelhecido e que alumbra ancestral
em opulência de imprevisíveis astros
que irradiam um cheiro a tâmaras nocturnas
sob a sede guardada em casulos abertos nos lábios do sal
um espaço errático igual aos meandros da água
o sulco da pedra como um covil
em que o poeta acúleo tangia cordas de alaúde.
Quem guardará na cozedura sublime dos fornos
a cintilação das pequenas ruas na perfuração das muralhas
que se tornam uma mantilha de ouro sob os céus?
João Rasteiro
In, Antologia poem`arte nas margens da poesia - III Bienal de Poesia de Silves
http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Silves
sexta-feira, 2 de maio de 2008
O Reverso do Olhar
Surrealismo: Duas centenas de obras do movimento internacional em exposição em Coimbra. Três centenas de obras do Surrealismo actual, de autores de duas dezenas de países, estarão patentes numa exposição que a Câmara Municipal de Coimbra inaugura sábado pelas 16h00 na Casa Municipal da Cultura e 17h30 no Edifício Chiado e ficará patente ao público até ao dia 28 de Junho."O Reverso do Olhar" - exposição internacional de Surrealismo Actual, prestará também homenagem aos portugueses que integraram este movimento fundado nos anos 20 do século XX pelo poeta francês André Breton, que tem como figuras cimeiras em Portugal Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, este último falecido há um ano.
O Surrealismo nas artes plásticas portuguesas estará ainda representado através das obras de Carlos Silva, Santiago Ribeiro, Seixas Peixoto, Raul Perez, Carlos Martins, Pedro Medeiros, Luís Nogueira, Fernando Lemos, Alfredo Luz, Eurico Gonçalves, Miguel de Carvalho, etc.(...)
"O Reverso do Olhar - exposição internacional de Surrealismo", a decorrer de 3 de Maio a 28 de Junho em Coimbra, é uma co-produção da Câmara Municipal de Coimbra e da editora portuguesa DEBOUT SUR L`OEUF.Esta exposição mostra os novos protagonistas, e os mais representativos, do Movimento Surrealista Internacional, através de trabalhos de 130 autores, em "collage", desenho, escultura, fotografia, gravura, "montagens objectuais", pintura e poesia (na qual colaboro com alguns textos).
DOORS - Waiting for the sun
http://pt.wikipedia.org/wiki/Surrealismo
http://www.mundosites.net/artesplasticas/surrealismo.htm http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/S/surrealismo.htm
quinta-feira, 1 de maio de 2008
1º de Maio
Entre duas memórias;.
já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
Carlos Oliveira
.
In, Entre Duas Memórias
http://naperiferiadoimperio.blogspot.com/2007/03/quando-ernesto-che-guevara-decidiu.html
terça-feira, 29 de abril de 2008
POEM`ARTE - III Bienal de Poesia de Silves
SILVES - Foto tirada da varanda do hotel Colina dos Mouros
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Para além da justa homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, que foi assinalada na tarde de domingo, três mesas redondas muitíssimo interessantes. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação da Teresa Tudela, bem como os poemas de Aida Monteiro, manuel a. domingos, Maria Estela Guedes, Porfírio Al Brandão e Eduardo Pitta. O Eduardo, embora não concordando com alguns dos seus apontamentos, conseguiu agitar o diálogo com os presentes, que era logicamente o que as mesas tinham por objectivo. No sábado à noite, durante o lançamento da antologia, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um magnífico poema de homenagem ao grande Luiz Pacheco.
Da Maria Gabriela, só para realçar o tremendo esforço, dedicação e perseverança em conseguir mais uma vez projectar esta Bienal de Poesia de Silves. Quero ainda chamar a atenção para um dos mais belos blogs que últimamente descobri, o blog da poeta Gabriela R. Martins: canto.chão (http://cantochao.blogspot.com/)..jpg)
no ondular das vagas
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ir e voltar?
.
o caminho de retorno
é vário
suspende-se
no respirar
profundo
de uma nova
.
brisa .
Ailéh
Experiment` Arte
terça-feira, 22 de abril de 2008
A palavra acesa
Amanhã partirei para Silves para participar na III Bienal de Poesia -“Poem’Arte // Nas Margens da Poesia”A Câmara Municipal de Silves levará a efeito, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 2008, a III Bienal de Poesia – “Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” – a fim de comemorar o 25 de Abril, homenagear Urbano Tavares Rodrigues e inaugurar a novelíssima Biblioteca Municipal.
Até um dia destes e desejos sinceros de cravos e sol - e já agora de alguma dignidade de que os portugueses andam tão necessitados últimamente. Dignidade que este país terá esquecido!!!
sábado, 19 de abril de 2008
FOREVER YOUNG
Bob Dylan, n.24/5/1941(Robert Allen Zimmerman) distinguido muito recentemente com um Pulitzer Prize pelo seu trabalho na área musical, ele que é o primeiro artista de música rock a ser premiado com um Pulitzer, um dos mais prestigiados galardões no mundo do jornalismo e cultura - «O impacto profundo na música popular e na cultura norte-americana, marcadas pela composição lírica de um extraordinário poder poético» foi a razão pela qual o conselho do Pulitzer Prize escolheu o autor de «The Times They Are a-Changin'» - vai publicar um livro baseado na extraordinária música "Forever Young", de 1974. O cantor e compositor Bob Dylan, eternizou em livro infantil ilustrado pelo premiado artista Paul Rogers (últimamente vocalista do grupo Queen).Dirigido a crianças de 3 anos ou mais, Forever Young é "uma história comovente sobre a importância de fazer o bem", de acordo com um press release da editora, a Simon & Schuster. O livro com cerca de 40 páginas será lançado no dia 6 de outubro no Reino Unido e ou muito me engano e não serão só as criancinhas a adquirir o livro!
E que como canta Dylan:
Forever young
May God bless and keep you always,/May your wishes all come true,/May you always do for others/And let others do for you./May you build a ladder to the stars/And climb on every rung,/May you stay forever young,/Forever young, forever young,/May you stay forever young.(...)
Que Deus te abençoe e te acompanhe sempre,/Que seus desejos se tornem realidade,/Que você sempre faça para os outros/E deixe que os outros façam por você./Que você construa uma escada para as estrelas/E suba cada degrau,/Que você fique jovem para sempre,/Jovem para sempre, jovem para sempre,/Que você fique jovem para sempre.(...)http://www.bobdylan.com/moderntimes/home/main.html
http://www.foreveryoungbook.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bob_Dylan
http://www.letraselivros.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=337&Itemid=53
quinta-feira, 17 de abril de 2008
LUGARES
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Hoje sei como se exprime o último fôlego
o estrídulo da terra agonizante
com o espanto acúleo da primeira fala
o perfil imperceptível da morte
com que a demência fecunda os animais.
Aprendi as formas fictícias dos pulmões
bebendo o visível e o invisível
de todos os corpos do ângulo mais agudo
na memória que sustenta o cérebro
recolhido na brutal inocência das crias.
Através dos golpes do carniceiro
a purificação talhada da carne
como os vermes que devoram os anjos crus
e deles se alimentam extasiados.
A loucura do besouro sobre as cidades nuas
alastra pela rasura o ludíbrio da língua
o coração ofertando-se espasmo e cântico
só ecos da última heresia brotando as vozes.
João Rasteiro
http://br.youtube.com/watch?v=CV3DPm3bZ-I&feature=related
http://br.youtube.com/watch?v=FX5Cn7J-h6Y&feature=related
domingo, 13 de abril de 2008
A metamorfose do sonho
Maria João Pires apresenta-se pela primeira vez na Casa da Música num concerto inteiramente preenchido com obras de Fryderyck Chopin, um dos seus compositores predilectos.Na primeira parte do concerto, Maria João Pires interpreta Nocturno em Si maior e a Sonata para piano n.º 3, em Si menor. Para a segunda parte está reservada uma outra obra de Chopin, a Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, composta por quatro andamentos.
Para além da magia das suas mãos sobre o piano, Maria João Pires escolheu o sonho e a aventura de BELGAIS (Belgais - Centro para o estudo das artes) e só quem como eu já se fundiu com o espírito e a alma de Belgais,se apercebe da "medida certa da heroicidade de Belgais". O reconhecimento pela UNESCO desse projecto de vida de Maria João Pires foi só uma questão de justiça (que Portugal ainda não lhe prestou!). Como afirma a pianista - "as opções que tomo transformam-se, por vezes, num combate".
Da minha inesquecível passagem por Belgais em 2001 e 2002, integrado na OFICINA de POESIA da Universidade de Coimbra, a minha modesta homenagem, não só a BELGAIS, mas sobretudo a essa mulher, repito, a quem Portugal enredado na sua permanente pequenez, para não dizer mesquinhez, ainda não prestou o devido valor e admiração: Maria João Pires.
O som e a seiva
a solidão consome a carne lúcida
no que resta das feridas silenciosas
o som e a seiva interpenetram-se
ou enlouquecem sob as mãos acesas
o sopro que pelos dedos desliza
em tubos de pedra onde o som ferve
e a mulher está como um fole inicial
todos os sonhos sugeridos em pulsações
de um piano raso com odor a fêmea.
João Rasteiro
In,OFICINA de POESIA - nº2, Série II, 2002
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Charneca em Flor
"FANATISMO" - (Raimundo Fagner canta Florbela Espanca):
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."
Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade (1923)
terça-feira, 8 de abril de 2008
"Poema para os companheiros da ilha"
Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 8 de Abril de 1920, tendo falecido em 29 Janeiro de 2001. Escritor português com uma actividade actividade cultural desenvolvida sobretudo a partir da cidade do Porto: foi editor, no domínio do livro de poesia, esteve ligado á direcção de revistas como A Serpente (1951), Árvore (1951-1953), Notícias do Bloqueio (1957 – 1962) ou Limiar (iniciada em 1992), publicou várias traduções de romancistas e poetas estrangeiros, desenvolveu actividades teatrais ligadas ao movimento cineclubista. Como poeta, a sua obra tende para o estabelecimento de um equilíbrio entre duas tendências que se afirmaram nas décadas de 40 e 50: o neo – realismo e o surrealismo. Da primeira destas tendências – muito marcada em Os Arquivos do Silêncio (1963) e na recolha antológica Poemas Políticos (1980). Egito Gonçalves recupera um sentido de intervenção, por vezes desfocado por uma muito viva expressão irónica; da segunda, a maneira como na poesia se pode valorizar a imaginação, sem que, no entanto, a sua linguagem enverede por experiências associativas surrealizantes, pela escrita automática, etc. Quanto a este aspecto, Egito Gonçalves mostrou-se sempre preocupado em construir o poema (“construo os meus poemas, com as imagens adorno-os”), dando-lhes uma configuração bem delineada ou estruturada. Aproximou-se, assim, daqueles poetas que nos anos 50 – o seu primeiro livro, Poema para os Companheiros da Ilha, é de 1950 – começam a revelar uma especial atenção quanto ao papel que a linguagem desempenha na economia da própria criação poética, sobretudo através da utilização da metáfora e da imagem. Isto leva-o a estar atento a uma certa viragem que na poesia portuguesa ocorre durante a década de 60, orientando-se essa viragem para um tipo de escrita poética que reage contra a discursividade – característica esta comum a muitos textos surrealistas e neo-realistas -, contra uma figuração expansiva procurando, antes, uma linguagem o mais depurada possível, elíptica, por vezes fragmentada.(…).
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Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.
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Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.
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Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.
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Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.
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Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!
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Se recorres às rosas faze que sejam brancas
e elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.
Egito Gonçalves
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Prémio Consagração
Fernando Lemos recebeu ontem, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, (SNBA), em Lisboa, o Prémio de Pintura Banif 2008 - Consagração e inaugura no mesmo espaço uma exposição que abrange várias áreas representativas do seu trabalho (pintura, desenho e fotografia).quarta-feira, 2 de abril de 2008
POESIA - A casa do sol nascente
Pink Floyd - House of the Rising Sun
O novo livro de João Rasteiro - O Búzio de Istambul - estabelece um percurso entre a poesia e a prosa poética que resulta inovador na escrita do poeta, já com considerável obra publicada.
Com um prefácio-poema de Casimiro de Brito, este mais recente livro de João Rasteiro propõe uma incursão nas memórias de uma vivência onde está presente um olhar poético de fina acutilância, e ao mesmo tempo um abarcar sensível e apaixonado pelos lugares físicos do passado.
In, PALIMAGE EDITORES
http://arjentola.blogspot.com/search/label/Jo%C3%A3o%20Rasteiro
http://daedalus-pt.blogspot.com/search/label/livros
http://actaparaviolino.blogspot.com/search/label/po%C3%A9ticas
domingo, 30 de março de 2008
Lugares
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Antes ramos e rosas
Ao A. Ramos Rosa
Ter um corpo de branco, um eco
todo silêncio: palavra!
Vozes, céu, terra, linho, o acto desnudo
fresco e fresco, fresco
e mãos acesas de sexos iniciais de imensos universos.
Um eco: uma língua
quase frémito, no coração dos hortos , completa e contínua.
Um corpo que morre no sabor entre as palavras
sobre o rosto incandescente do espanto: deus
nas talhas, no barro, no fresco, no sangue,
pai, filho, sílaba e espírito obscuro
de paragens, sopros, paisagens, círculos e hortos,
a terra branca, límpida nas veias: antes ramos e rosas.
O Corpo?
Um corpo de água?
O animal atónito, inabitado?
Um animal de branco, desejos no interior de constelações
sumptuosas, a terra aberta, silêncios: toda a terra, branca.
Não conheço esse corpo fresco, não fui a esse branco
espaço de todas as palavras, o hálito vivo da inquietação,
a respiração inaudível das formas nuas: antes ramos e rosas.
In, O Búzio de Istambul - 2008
http://br.youtube.com/watch?v=pRV9QCXLtHQ
quinta-feira, 27 de março de 2008
Lugares
(...)Aproximam-se paulatinamente os ciclos finais das cidades, dos lugares com corações de ferro enxuto, embriagados em jogos de nocturnas deambulações com os seus insectos negros, de um negro faiscante. Neste espaço, os sítios da revelação eram as caves, os sótãos e o silêncio que ainda subsistiam como memória de vidas e deuses, cuja posteridade e sombra se deixou reduzir a precários vestígios de granito sombrio, de bocas cozidas na pedra.Cidades delineadas na incandescência da blasfémia que imagina a linguagem dos campos inaugurados e renovados, dos campos no centro dos homens inquietos. Os campos vibrando nas hastes aguçadas do centeio.
Passou bastante tempo antes que a memória voltasse à sua paisagem. E quando o fez, foi ao encontro dos amieiros e do sabor da terra húmida.
A aldeia, porém, é um corpo de palavras e crianças – e as suas mãos fixam-se de forma enigmática ao tumulto do mel que irrompe do coração da terra, fazendo com que os sonhos despertem e a vida recomece, por essa força que a devora por dentro como uma queimadura polida, restituindo a memória dos gnomos ao sonâmbulo que se fantasiou neste sonho alquímico.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Ressurreição
A voz solitária do homem.
Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
José Tolentino Mendonça
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Jos%E9+Tolentino+Mendon%E7a
http://br.youtube.com/watch?v=AXezOzhSUUM&feature=related
http://br.youtube.com/watch?v=QkswwUnqRRU&feature=related
sexta-feira, 21 de março de 2008
Dia mundial da poesia
O Dia Mundial da Poesia comemora-se a 21 de Março, sexta-feira, por iniciativa da UNESCO, que o proclamou em 1999 com o objectivo de defender a diversidade linguística.Em forma de homenagem, dois poemas, um, do nosso POETA, Luís de Camões e outro, de Vitorino Nemésio, como forma de "satisfazer" o poeta e amigo, valter hugo mãe.
Enquanto quis Fortuna que tivesseEnquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não disesse
.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
.
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Luís de Camões
A ConchaA minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
quarta-feira, 19 de março de 2008
A rotação do mundo
Herança............Ao Manuel Rasteiro
Junto às margens impassíveis dos rios da Babilónia
os salgueiros têm fólio espinhos hábeis de silêncios,
o silêncio obriga-me a ouvi-lo e agride sem compaixão
a memória absoluta a chama que se desfibra metálica
entre as cordas a última jangada nas veias da água,
o meu amor é uma navalha na cúmplice garganta
reinventando hoje o retorno da tua voz hálito genuíno
iluminando-te lentamente na cozedura plena das palavras,
agora tu és uno como o tempo despido dos dias robustos
na tua morte floresce a arquitectura nua da minha morte
aves em vigília serena sobre os rebentos dos salgueiros,
quero apreender a semente nas águas puras da Babilónia
acústica sagrada do búzio que cadencia a tua imagem
espelho hibernal que subsistia entre ti e a boca da morte,
emudecido sei que onde as feridas se alojam indolentes
a cria dobra-se do regaço incorruptível e agora sou adulto.
João Rasteiro
http://tw.youtube.com/watch?v=26g1jQG-n4Y&feature=related
http://tw.youtube.com/watch?v=Jek6iP6AuAQ
domingo, 16 de março de 2008
Intradoxos ou a calebração da palavra
márcio-andré nasceu em 1978 no Rio de Janeiro. Formado em letras, e com mestrado em poética, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autor dos livros Movimento Perpétuo, de 2002, Cazas, de 2006, e Intradoxos, de 2007. É co-fundador, editor e ensaísta da revista de arte e literatura Confraria, produzida em parceria com o Sector de Pós-graduação em Letras da UFRJ e a editora Confraria do Vento, da qual é também coordenador editorial. Artista multimídia, desenvolve trabalho performático, no qual toca violino e recita poesia simultaneamente, com o auxílio de sons pré-gravados, projeções de imagens e códigos-fonte, árvores gerativas e plantas baixas. O aprimoramento dessa sua proposta levou-o à criação do projecto-grupo Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais, que, misturando expressão física e oral, projecções, elementos sonoros e cénicos, pesquisa novas formas de leitura da poesia. e o homem foi arrancado da casca da noite
e acrescido de dentes e olhos
e foi trançado dia e dotado de ouvido
e ouviu:
o trigo roçando o éter de Galileu
os pés descalços
a grama úmida de hortelã –
e ouviu:
a pele inviolável
de seu corpo inviolável
[germinar lagartas nos arremedos de vértebra]
flanco e dorso
das carcaças de pachiderme
um hipopótamo sonhando entre os girassóis
CAZAS (FRAGMENTOS)
As casas são 30% tijolos e 70% sonhos
......[1] casas-frutas
...........casas-mundos
.....[2] a
..........cidade-mitose
..........cidade aerada [um seu subterrâneo
..........aleatório]
era jovem a mulher na cozinha
.........o cabelo com o dobro da idade
.........fruta-falo em seu ventre
.........na ontologia dos detalhes
.........os utensílios tem parte com os delírios
.....[3]
.........a estrutura óssea da casa
.........não suporta vibrações de realejo
márcio-andré
http://www.marcioandre.com/marcioandre.htm
http://www.germinaliteratura.com.br/mandre.htm
http://tw.youtube.com/watch?v=7I_gISGJZek
quinta-feira, 13 de março de 2008
Lugares
Bebeste o sangue dos animaisos teus voos amadureceram
ao longo dos lugares.
Os ninhos acolhedores do morcego.
Mas não descestes às cavernas
onde estão os leprosos
com as fábulas e os líquidos sagrados.
Os poderes da noite já se esgotam
e as pupilas procuram a luz
que regressa dos labirintos da escuridão.
João Rasteiro
terça-feira, 11 de março de 2008
"Uma Pedra ao Lado da Evidência "
"O vagabundo pôde por fim habitar a eterna morada do comum dos mortais; o poeta, esse, ainda anda por aí", como referiu Fernando Pinheiro.
Em forma de homenagem e de descoberta deste nome da poesia e literatura em língua portuguesa, que precisa de ser "destapado" e valorizado com urgência, dois belos textos:
Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre
E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida
Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures
Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra
É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.
http://www.macua.org/livros/sebalba.html
sábado, 8 de março de 2008
Dia Internacional da Mulher
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando as suas crianças adoecem
e alegram-se quando as suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
Pablo Neruda
.
FRUTO
Camélia branca
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios.
Este é o dia que ninguém te nega
.................que acende a sílaba como um sol
.................que não fenece(s)
..............................os olhos.
João Rasteiro
http://br.youtube.com/watch?v=peT6w9zxKjo
quarta-feira, 5 de março de 2008
ANNA AKHMATOVA
COMO PEDRA BRANCAComo pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.
Julgo que quem olhar-me bem de perto
dentro em meus olhos logo pode vê-la.
E ficará mais triste e pensativo
que alguém que escute uma anedota obscena.
Eu sei que os deuses metamorfoseavam
os homens em coisas sem tirar-lhes alma.
Para que o espante da tristeza dure sempre,
em coisa da memória te mudei.
Tradução de Jorge de Sena
A MULHER DE LOT
E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.
Tradução de Lauro Machado Coelho
Anna Akhmatova
http://anaprs.blogs.sapo.pt/arquivo/400439.html
http://64.233.183.104/search?q=cache:d_Gxfve-pMkJ:br.geocities.com/jerusalem_13/anaakhmatova.html+poemas+de+anna+akhmatova,+recanto+das+poesias&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=1&gl=pt
segunda-feira, 3 de março de 2008
"Um falcão no punho"
Faleceu hoje aos 76 anos, talvez, uma das mais reservadas e extraordinárias escritoras portuguesas do século XX, MARIA GABRIELA LLANSOL. E como refere, Eduardo Pitta, "provavelmente a maior prosadora portuguesa do século XX", alguém que terá inaugurado uma nova escrita na literatura portuguesa.sábado, 1 de março de 2008
"no inclinar da clepsydra"
Faz hoje exactamente 82 anos que faleceu Camilo de Almeida Pessanha, poeta nascido em Coimbra no ano de 1867. O mais singular e original poeta simbolista português, aliás, o "único verdadeiro simbolista da literatura portuguesa e, em absoluto, um dos maiores intérpretes do Simbolismo europeu", nas palavras de Barbara Spaggiariapenas, viu publicado em vida o livro Clepsydra (1920), que reuniu o essencial da sua produção poética. Colaborador fugaz de vários jornais e revistas, viveu os últimos anos da sua vida afastado do convívio dos seus principais companheiros de letras, em Macau, repetindo os seus melhores versos "de memória", como gostava de sublinhar. Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro contaram-no entre os seus mestres, estabelecendo-se, através da sua obra, a ponte que em Portugal ligou simbolismo e modernismo.
Exª., lamentável mas explicável. O que se dá, porém não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos [...], eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda. [...] sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte contínua de exaltação estética. [...] é porque muito admiro esses poemas, e porque muito lamento o seu actual carácter de inéditos (quando, aliás, correm, estropiados, de boca em boca nos cafés), que ouso endereçar a V. Exª. esta carta, com o pedido que contém." O pedido era para que alguns poemas pudessem ser publicados na edição de Orpheu 3.De onde vem este perfume de flores, embalsa-
mando a noite puríssima?
Entre bouças e fragas, uma cabana de ola, perto
da qual um arroio murmura...
Como de costume, o eremita parte ao surgir
a lua.
Em um covão do monte, um pássaro, poisado
ininterruptamente gorjeia.
Não lhe importa que as ervas, impregnadas do
orvalho, lhe encharquem as alpercatas de junça.
As suas vestes de ligeiro cânhamo, soergue-as,
enviezando, a brisa primaveril...
À borda da torrente, intento fazer versos ao
viço das orquídeas.
Embargam-mo as saudades, violentas empolgan-
do-me, do Kiang-pei e do Kiang-nan.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
III Bienal de poesia de silves - 2008
Saúda, por mim, Abû Bakr,os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande como a minha.
(...)
Mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.
Al-Mutamid - o rei poeta
poem`art A III Bienal de Poesia de Silves que, este ano, se realizará, nos dias de 25, 26 e 27 Abril p.f., começa a ter o seu lado visível. Inicia os primeiros [ se bem que ainda muito tímidos ] passos, mas inicia-os. E como nesta edição tenho a honra de participar conjuntamente com poetas amigos como Maria Azenha, Eduardo Pitta, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Rui Mendes, etc, a convite da querida amiga gabriela rocha martins, convido-os todos a acompanharem esta edição da Bienal, seja em Silves, seja através do Blogue inserido em baixo..jpg)
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