(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»»
"Só existe o tempo único.
Só existe o Deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica,
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único –
entrando pelas fendas, batendo, rebentando
correndo de lado a lado".
__________ Robert Duncan
Assinalam-se hoje os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o no seu livro The Western Canon ("O Cânone Ocidental"), ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX.
Pessoa, foi o primeiro português a figurar na Plêiade (Collection Bibliotèque de la Pléiade), prestigiada colecção francesa de grandes nomes da literatura.Sobre os poetas em geral, Octavio Paz (poeta mexicano), Prémio Nobel da Literatura diz que “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia”; sobre Fernando Pessoa em particular, acrescenta “nada em sua vida é surpreendente — nada, excepto os seus poemas”.
Toda a vida do poeta foi dedicada quase exclusivamente a criar e a criar essencialmente vidas outras através de seus heterônimos, o que foi a principal característica da sua escrita e da sua poesia. foi essa criação em suas múltiplas formas que motiva e desperta o interesse por Pessoa. Alguns críticos questionam mesmo se Pessoa realmente teria alguma vez transparecido o seu verdadeiro eu, ou se tudo não teria passado de mais um produto da sua vasta e extraordinária criação.
Como curiosidade, numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer ao encontro.
Deus Às vezes sou o Deus que trago em mim E então eu sou o Deus e o crente e a prece E a imagem de marfim Em que esse deus se esquece. . Às vezes não sou mais do que um ateu Desse deus meu que eu sou quando me exalto. Olho em mim todo um céu E é um mero oco céu alto. Fernando Pessoa Se Depois de Eu Morrer Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. . Sou fácil de definir. Vi como um danado. Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais. . Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi. Além disso, fui o único poeta da Natureza. Alberto Caeiro.
OS LUSÍADAS CANTO I 1 AS armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;
CANTO III 20 «Eis aqui, quási cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa E onde Febo repousa no Oceano. Este quis o Céu justo que floreça Nas armas contra o torpe Mauritano, Deitando-o de si fora; e lá na ardente África estar quieto o não consente.
21 «Esta é a ditosa pátria minha amada, À qual se o Céu me dá que eu sem perigo Torne, com esta empresa já acabada, Acabe-se esta luz ali comigo. Esta foi Lusitânia, derivada De Luso ou Lisa, que de Baco antigo Filhos foram, parece, ou companheiros, E nela antão os íncolas primeiros.
(…) 96 «Eis despois vem Dinis, que bem parece Do bravo Afonso estirpe nobre e dina, Com quem a fama grande se escurece Da liberalidade Alexandrina. Co este o Reino próspero florece (Alcançada já a paz áurea divina) Em constituições, leis e costumes, Na terra já tranquila claros lumes. . 97 «Fez primeiro em Coimbra exercitar-se O valeroso ofício de Minerva; E de Helicona as Musas fez passar-se A pisar de Mondego a fértil erva. Quanto pode de Atenas desejar-se Tudo o soberbo Apolo aqui reserva. Aqui as capelas dá tecidas de ouro, Do bácaro e do sempre verde louro.
(…)
120 «Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saüdosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas. . 121 «Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus fermosos se apartavam; De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia, em pensamentos que voavam; E quanto, enfim, cuidava e quanto via Eram tudo memórias de alegria. . (…) 132 «Tais contra Inês os brutos matadores, No colo de alabastro, que sustinha As obras com que Amor matou de amores Aquele que despois a fez Rainha, As espadas banhando, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, férvidos e irosos, No futuro castigo não cuidosos.
(…)
134 «Assi como a bonina, que cortada Antes do tempo foi, cândida e bela, Sendo das mãos lacivas maltratada Da minina que a trouxe na capela, O cheiro traz perdido e a cor murchada: Tal está, morta, a pálida donzela, Secas do rosto as rosas e perdida A branca e viva cor, co a doce vida. . 135 «As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram, E, por memória eterna, em fonte pura As lágrimas choradas transformaram. O nome lhe puseram, que inda dura, Dos amores de Inês, que ali passaram. Vede que fresca fonte rega as flores, Que lágrimas são a água e o nome Amores!
CANTO X
152 Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados, Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d' exprimentados, Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe, Mais em particular o experto sabe. FIM . O AMORAPORTUGAL - Dulce Pontes
Era um verso com árvores à volta. Tinha o problema de ser norte e dia e tão contrário à natureza. Era um verso sem ar livre mas com árvores em círculo e eu no centro, em baixo, nas escadas de pedra, cheia de verde e de frio e a pensar que continuo a não entender a natureza contrária aos meus olhos. Pois se as árvores são a única paisagem deste verso, a toda a volta, e eu no fundo, em baixo, nas escadas de pedra ainda, se voltando-me, morrendo, serão elas ainda a única paisagem deste verso, como poderei amá-las sem que um raro silêncio ainda me interrompa?
O Problema de Ser Norte é o novo livro de poesia da autoria de Filipa Leal. Trata-se de um livro que revela uma sensibilidade extrema, um sopro em que nenhuma palavra é escolhida ao acaso: todas são pensadas e pesadas com uma subtileza extraordinária. São poemas que nos falam dos medos da vida, da tristeza, da felicidade, do amor, e desse incomensurável caminho que nos leva para o lugar inicial do verbo.
Filipa Leal que integra a micro antologia:"nova poesia portuguesa", por mim idealizada e organizada para um número especial da revista colombiana de poesia, ARQUITRAVE, surge sem qualquer dúvida, como alguém que se demarca de grande parte da chamada "nova poesia portuguesa", uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias de cariz mais confessional, apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica fortíssima na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. É uma poesia que se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema. (João Rasteiro)
Sinopse: A procura do entendimento do mundo na arte poética continua a acompanhar Filipa Leal que neste livro alude, inquieta, aos limites da própria poesia que a assaltam. Linhas ténues de transparências, de água, de vidro, que contrapõem com as palavras forjadas numa interioridade livre. Os medos, os livros, o tempo, a surpresa do mar (o início possível?) constituem a sua procura e afirmação… «Era um verso com árvores à volta/ Tinha o problema de ser norte / e dia e tão contrário à natureza./» Um livro belíssimo. .
Neste dia 01 de Junho, dia em que se comemora o Dia Mundial da Criança e em que começam de forma geral as comemorações dos 120 anos de Fernando Pessoa, a homenagem ao futuro, a esse futuro que serão as nossas crianças, nas palavras geniais do nosso poeta.
A Criança Que Pensa Em Fadas A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas Age como um deus doente, mas como um deus. Porque embora afirme que existe o que não existe Sabe como é que as cousas existem, que é existindo, Sabe que existir existe e não se explica, Sabe que não há razão nenhuma para nada existir, Sabe que ser é estar em algum ponto Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. Alberto Caeiro . Criança, era outro... Criança, era outro... Naquele em que me tornei Cresci e esqueci. Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei
Ganhei ou perdi ? Fernando Pessoa . Liberdade Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. . O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa... . Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. . Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! . Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. . O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa . Pedra Filosofal (António Gedeão) - Manuel Freire
Fêmea II Estarei com as crias à hora em que as fêmeas se transformam fruto entregues ao seu peso de cio. Cada ventre tem um coração aceso no centro da noite inesperada e é o ventre vivo que me atrai intacto. Os morcegos hematófagos dançam em rodopio alucinado de luz delimitando o círculo da batalha até ao prodigioso universo da desordem. In, "A liturgia das amoras-Parte II:morcegos" (inédito) João Rasteiro . Jorge Palma- "Espécie de vampiro" .
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
. Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã. Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano. Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la. Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”. POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12 .
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THE BATH TUB As a bathtub lined with white porcelain
When the hot water gives out or goes tepid,
So is the slow cooling of our chivalrous passion,
O my much praised but-not-altogether-satisfactory lady. . A BANHEIRA Como uma banheira alinha a porcelana branca
Quando a água quente se esgota ou torna-se morna,
Assim é o lento refrescar da nossa paixão cavalheiresca,
Oh minha muito louvada mas-não-de-todo-satisfatória senhora. .
. FRATES MINORES With minds still hovering above their testicles
Certain poets here and in France
Still sigh over established and natural fact
Long since fully discussed by Ovid.
They howl. They complain in delicate and exhausted metres
That the twitching of three abdominal nerves
Is incapable of producing a lasting Nirvana. . FRATES MINORES Com mentes ainda pairando sobre seus testículos
Certos poetas aqui e na França
Ainda suspiram sobre o fato estabelecido
Há muito esgotado por Ovídio.
Eles uivam. Queixam-se em metros delicados e exaustos.
Que o espasmo de três nervos abdominais
É incapaz de produzir um Nirvana duradouro. Tradução: Virna Teixeira
Trovador Estranha é a indizível mísula ......................................irrealista que reflectes nos olhos o olfacto para auscultar a síntese das asas que me fecunda verbo alienado ........................................primitivo. .
Ecoa único sob a boca do clarão ............................................úbere plena vertigem da terra esguia para a qual já nada representas pois habito um espaço de fogo ............................................árido. .
Apenas me amparas em formas ...........................................sedentas de palavras cosidas à respiração pacientemente perfurando bocas de sementes em bilhas de incenso ..............................................mágico.
Ao Carlos e à Luísa (eu sei que eles me escutam) - Beijo. A tecedeira ..........."A tecedeira criou o mundo" ............-Ana Paula Tavares- . A tecedeira reduziu a memória seca a nada, como as mãos depois da alegria do pânico. Nos arcos negros de espaço o branco da solidão. Movimentos lascados de sol, ao anoitecer. A carne opaca. . A tecedeira criou o lume absoluto de fogo, como dedos de sofrimento da água. Nada fermenta na sílica límpida do carvão. As fibras mutáveis da terra, sob líquidos. A língua espelhada. . A tecedeira mastigou o liço obsceno da luz, como a carne excelsa do céu das vozes. Nas metamorfoses eólicas uma ígnea linha. Na mecânica nocturna da viagem, as cores. Os olhos alquímicos. Inédito - 2005 João Rasteiro . Chico Buarque - CONSTRUÇÃO
João Vário (1937-2007), estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi investigador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Ao jubilar-se, regressou à sua Mindelo natal. Deixou uma obra poética extensa, mas ainda pouco conhecida do grande público. Foi muito influenciado pela cultural ocidental, tendo como referências Saint-John Perse, T. S. Eliot, Ezra Pound, Aimé Césaire, Dante e a própria Bíblia. Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público em geral - as agruras da escrita. A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros: Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade. É uma das vozes em língua portuguesa mais injustiçada no reconhecimento público. Sem dúvida uma das vozes maiores a descobrir urgentemente.
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Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo
concede
fim de novo e reconhecimento de novo,
e tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
criminosissimamente crime,
quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
e sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
são os desígnios da medida e, divididos
em dois por eles, com eles indo, se por eles
ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
de indagar que vamos morrer e, um dia, se
o tempo for deles e a memória, de outros,
havemos de ser úteis como mortos há muito,
sem que a causa, o delírio, a designação,
o julgamento nossa medida abandonem,
dividida em duas por eles, e ganhando constância.
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Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Nenhuma voz dilacera a loucura Nenhuma voz dilacera a loucura não há fúria ou alimento maduro nem outro canto negro é o reflexo do coração ou um felino devorando a primavera.
Pomares acesos entre destroços na margem dos anjos o nevoeiro boca a boca a escuta do sangue.
Durante o sopro dos solstícios escuto os pomares entre escombros é o lado exterior da luz dilatada a luta demoníaca das vozes o sopro da loucura dentro do fogo.
O inferno no centro aberto do labirinto induzindo um halo de lava nos açudes da pele a visão fincada do paraíso sob a insídia dos ecos. João Rasteiro .
À A.... de profundis amamus (...)Não faz mal abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis vai ser assim durante muito tempo decorrerão muitos séculos antes de nós mas não te importes não te importes muito nós só temos a ver com o presente perfeito corsários de olhos de gato intransponível maravilhados maravilhosos únicos nem pretérito nem futuro tem o estranho verbo nosso. Mário Cesariny -Pena Capital
A partir de um fragmento do texto “The literal World” (1998) de Jean Day – Tradução de Manuel Portela. Desfloramento 1. .as ironias da soberania a mãe parcial caprichos que desabrocham................outra ................invisível à sua...............garra ...........................................são precisas duas questão de acumulação.........oiço-os acabei de cantar .................uma criança privilegiada, 2. .pediram-me.........que fosse.............................específica ...............................sou como..............o artista ..........temem que eu possa.............................destruir .......o original......................................os pontos negros .......compreendo ......................o relógio....................uma espécie de lesma ...........................o meu olhar...........................ontem alguém tentou uma aranha ................................a morte.........................tecia ................................o fim........................um ser capaz na primeira pessoa .................................que se diga........................fala, 3. .se mente o seu sujeito.....................entre ...sou o único mundo..................................único ................esqueci................................estou apenas maravilhada pelo sol................................a esbranquiçar .....................................no outro..........outro mundo ..............................fictício................lugar de variação infinita tendem a imaginá-lo ..............................se me visse ..............................poderia perguntar......me vejo eu não escrevo prosa ....................................ensinar...................me, João Rasteiro . TITÃS - Epitáfio
POEMA Se morro universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto ......................................se apago a lâmpada: os sapatos - da - ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó - dos - andes, ...............bilhões de quatrilhões de seres e de sóis ..........morrem comigo. . Ou não: .........o sol voltará a marcar .........este mesmo ponto do assoalho .........onde esteve meu pé; ............................................deste quarto .........ouvirás o barulho dos ônibus na rua; ..............uma nova cidade ..............surgirá de dentro desta ..............como a árvore da árvore. . Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido. Ferreira Gullar . Pink Floyd - Dark Side Of The Moon
LIVROS: uma antologia e um primeiro livro. A poesia nas suas formas nuas. A força da palavra e da poesia em suas múltiplas veias.
A editora COSMORAMA acaba de editar o livro escrito em osso do poeta brasileiro Claudio Daniel. Este livro é uma pequena antologia de um dos nomes mais interessantes e promissores da nova poesia brasileira. Como refere Ernesto M de Melo e Castro no prefácio do livro: "(...)Leia-se, portanto esta antologia de Claudio Daniel como um marco desta re-nova estética e da intervenção da poesia, tão urgente como necessária, nas nossas vidas trucidadas pelos universos da sobre-informação pateticamente vulgar e tragicamente redundante". Claudio Daniel que é também tradutor e ensaísta, publicou o seu primeiro livro - SUTRA - em 1992 e o último - PERSPECTIVA - em 2005. É o editor da revista electrónica de poesia e debates ZUNÁI.
Se em cima falei de uma antologia, o que pressupõem já obra feita, agora falo do primeiro livro de uma poeta. A poeta Alice M. Camposlançará no próximo dia 10 pelas 16h no Auditório da Casa-Museu Abel Salazar em S. Mamede de Infesta o seu livro de estreia. Esta obra, “o ciclo menstrual da noite”, é um livro, independentemente da minha amizade pela Alice Campos, que já possui um trabalho de linguagem extremamente forte. É um livro onde a metáfora por vezes fere de forma abundante e onde a condição de mulher é abordada com tal pujança, que apenas assistimos ao remexer da sílaba nas entranhas de uma forma tão viva e sem amarras, de uma forma totalmente exposta como a poesia merece e exige.
Como refere no prefácio, Joaquim Fernando Fonseca: "No tempo em que as palavras estavam carregadas de magia, et deus erat verbum, talvez até tenha havido um tempo em que a palavra noite pareceu escura e em que a palavra mulher sabia a leite e cheirava a sangue e a sexo, e à hora do pombo sucedia a hora do corvo saeculis saeculorum enquanto as palavras não se tornaram moeda do comércio da vida de todos os dias e quando língua e realidade talvez até se confundissem numa relação natural.Nesse tempo, em que as palavras estavam carregadas de magia e poder e em que a felicidade não tinha ainda algo de trivial, e em que os outros não eram ainda casas de e onde se ia sofrer, tornou-se evidente que o que era próprio do homem, mais que o silêncio, era a palavra".
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sabes, mãe. os camelos atravessam o deserto desde o meu antebraço
sabes, mãe. os camelos atravessam o deserto desde o meu antebraço.
é difícil suportar a lonjura a que os meus pés estão da sua vontade.
a catarina escreveu um livro feito desta matéria invisível que nunca li.
mas nenhuma ave levanta o seu nome como ela. só sei que a voz é um
objecto meramente fálico. um homem que não diz um beijo, saberá beijar?
e a palavra dita na carne exposta, é já um lampejo de serenidade?
não sei, mãe.
tenho, aliás, fotografias que comprovam a incerteza destes últimos dias.
o tempo faz paragens a meio das dunas, quando a curva rói o grito.
há barulhos entrelinhas que não entre dentes.
tenho medo de cair no vácuo do desentendimento e ainda mais de não cair.
há um sexo dentro das palavras . há um sexo dentro das palavras o erro do desejo. saberás que o amor não começou ainda, . às vezes como uma víbora o corpo só deixa a pele. João Rasteiro . In,"O Reverso do Olhar", CATÁLOGO da Exposição Internacional de Surrealismo Actual - Coimbra, 2008 . Rita Lee - Amor e Sexo
Já te foi tão próxima essa morada de leões e de gazelas junto à gafaria, a solidão das fronteiras onde o sussurro do branco se corrói exercitando-se horto no coração transmudo das mulheres níveas e morenas.
Hoje sabes que o mistério da luz açoita os olhos até que o canto de al-mutamid corra o interior das gusas que alimentam tendões de colos cortados batendo por dentro das bocas para ostentar a flor mas nada te preencherá a cegueira das fábulas na margem do arade a taifa rebelde rasgando a intimidade dos deuses pela insídia da cor da terra e dos espaços ermos.
Frutificarás então artéria sísmica do amarelo envelhecido e que alumbra ancestral em opulência de imprevisíveis astros que irradiam um cheiro a tâmaras nocturnas sob a sede guardada em casulos abertos nos lábios do sal um espaço errático igual aos meandros da água o sulco da pedra como um covil em que o poeta acúleo tangia cordas de alaúde.
Quem guardará na cozedura sublime dos fornos a cintilação das pequenas ruas na perfuração das muralhas que se tornam uma mantilha de ouro sob os céus? João Rasteiro In, Antologiapoem`arte nas margens da poesia- III Bienal de Poesia de Silves
Surrealismo: Duas centenas de obras do movimento internacional em exposição em Coimbra. Três centenas de obras do Surrealismo actual, de autores de duas dezenas de países, estarão patentes numa exposição que a Câmara Municipal de Coimbra inaugura sábado pelas 16h00 na Casa Municipal da Cultura e 17h30 no Edifício Chiado e ficará patente ao público até ao dia 28 de Junho. "O Reverso do Olhar" - exposição internacional de Surrealismo Actual, prestará também homenagem aos portugueses que integraram este movimento fundado nos anos 20 do século XX pelo poeta francês André Breton, que tem como figuras cimeiras em Portugal Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, este último falecido há um ano. O Surrealismo nas artes plásticas portuguesas estará ainda representado através das obras de Carlos Silva, Santiago Ribeiro, Seixas Peixoto, Raul Perez, Carlos Martins, Pedro Medeiros, Luís Nogueira, Fernando Lemos, Alfredo Luz, Eurico Gonçalves, Miguel de Carvalho, etc.(...)
"O Reverso do Olhar - exposição internacional de Surrealismo", a decorrer de 3 de Maio a 28 de Junho em Coimbra, é uma co-produção da Câmara Municipal de Coimbra e da editora portuguesa DEBOUT SUR L`OEUF. Esta exposição mostra os novos protagonistas, e os mais representativos, do Movimento Surrealista Internacional, através de trabalhos de 130 autores, em "collage", desenho, escultura, fotografia, gravura, "montagens objectuais", pintura e poesia (na qual colaboro com alguns textos).
A mostra internacional será exibida em simultâneo em três galerias de exposições do município. No histórico e secular Edifício Chiado (um dos pólos do Museu da Cidade de Coimbra), e em duas salas da Casa Municipal da Cultura.
Entre duas memórias; . já separadas como estratos, mas recordando-se uma à outra; subimos pelo frio: paredes altas de água a condensar-se no ar ainda azul;com a transparência sem som a suavizá-lo; perguntamos indecisamente: neve mais silêncio igual ao fim do azul? ou a fórmula do esquecimento; onde passam gelos vagarosos; deduz-se doutro modo? seja como for, nenhuma sombra nos prolonga por este chão de vidro; e o ar boreal reflecte-nos os olhos, tão limpos,que os extingue. Carlos Oliveira . In, Entre Duas Memórias
SILVES - Foto tirada da varanda do hotel Colina dos Mouros
O regresso depois de vários dias no Algarve, devido à III Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade única para reencontrar amigos, conhecer gente nova, poesias outras, descobrir vocações e novos sentimentos. Um tempo extraordinário e a hospitalidade generosa de Maria Gabriela RochaMartins e de todo o staff da autarquia, com especial realce para a querida Hélia Coelho, não só "pau para toda a obra", como foi conjuntamente com Silvestre Raposo responsável pelo Design da antologia e naturalmente do "poem´arte". Para além disso, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, a maravilhosa actuação do grupo Experiment´arte, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente, onde a poesia e os sentimentos estiveram à flor da pele.
Para além da justa homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, que foi assinalada na tarde de domingo, três mesas redondas muitíssimo interessantes. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação da Teresa Tudela, bem como os poemas de Aida Monteiro, manuel a.domingos,Maria Estela Guedes, Porfírio Al Brandão eEduardo Pitta. O Eduardo, embora não concordando com alguns dos seus apontamentos, conseguiu agitar o diálogo com os presentes, que era logicamente o que as mesas tinham por objectivo. No sábado à noite, durante o lançamento da antologia, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um magnífico poema de homenagem ao grande Luiz Pacheco.
Da Maria Gabriela, só para realçar o tremendo esforço, dedicação e perseverança em conseguir mais uma vez projectar esta Bienal de Poesia de Silves. Quero ainda chamar a atenção para um dos mais belos blogs que últimamente descobri, o blog da poeta Gabriela R. Martins: canto.chão (http://cantochao.blogspot.com/).
Da Hélia Coelho, apenas para realçar o facto de também escrever, e bem(e fotografar), e por isso, um texto seu que simboliza todo o ambiente que se viveu na III Bienal de Poesia de Silves. A expectativa do chegar, a alegria do estar e a tristeza (profunda) do partir. Retirado do seu blog: (http://sonhoasul.blogspot.com/)
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ecoa o silêncio no ondular das vagas .
ir e voltar? .
o caminho de retorno é vário suspende-se no respirar profundo de uma nova . brisa . Ailéh Experiment` Arte
Amanhã partirei para Silves para participar na III Bienal de Poesia -“Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” A Câmara Municipal de Silves levará a efeito, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 2008, a III Bienal de Poesia – “Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” – a fim de comemorar o 25 de Abril, homenagear Urbano Tavares Rodrigues e inaugurar a novelíssima Biblioteca Municipal.
Amanhã também é comemorado o dia mundial do livro. Apenas darei a sugestão de leitura de um livro - livro que para mim talvez seja aquele que mais me marcou neste século XXI. Um livro extraordinário, um livro que terá passado um pouco inobservado, para mim o livro maior do autor maior que é Umberto Eco. E esse livro chama-se: "A Misteriosa Chama da Rainha Loana". No meio de discos, livros e jornais, entre personagens de ficção - Mickey, Flash Gordon, Conde de Monte Cristo, Cyrano de Bérgerac e Sandokan, - entre personagens reais - Mussolini, a Resistência antifascista, a literatuta e a sua história e o primeiro amor, - vai-se avivando a Misteriosa Chama da Rainha Loana. Um romance absolutamente Inesquecível.
E porque o 25 de Abril será por mim passado e comemorado em Silves, uma pequena prenda em jeito de homenagem, em jeito de alerta para a necessária actualização do 25 de Abril neste mísero e apático país à beira mar alucinado!!! Bom diameuirmão Zeca - como tens passado?
Até um dia destes e desejos sinceros de cravos e sol - e já agora de alguma dignidade de que os portugueses andam tão necessitados últimamente. Dignidade que este país terá esquecido!!!
Bob Dylan, n.24/5/1941(Robert Allen Zimmerman) distinguido muito recentemente com um Pulitzer Prize pelo seu trabalho na área musical, ele que é o primeiro artista de música rock a ser premiado com um Pulitzer, um dos mais prestigiados galardões no mundo do jornalismo e cultura - «O impacto profundo na música popular e na cultura norte-americana, marcadas pela composição lírica de um extraordinário poder poético» foi a razão pela qual o conselho do Pulitzer Prize escolheu o autor de «The Times They Are a-Changin'» - vai publicar um livro baseado na extraordinária música "Forever Young", de 1974. O cantor e compositor Bob Dylan, eternizou em livro infantil ilustrado pelo premiado artista Paul Rogers (últimamente vocalista do grupo Queen). Dirigido a crianças de 3 anos ou mais, Forever Young é "uma história comovente sobre a importância de fazer o bem", de acordo com um press release da editora, a Simon & Schuster. O livro com cerca de 40 páginas será lançado no dia 6 de outubro no Reino Unido e ou muito me engano e não serão só as criancinhas a adquirir o livro!
Será bom lembrar que Bob Dylan é um dos cabeças-de-cartaz do festival Optimus Alive!08, actuando no dia 11 de Julho no Passeio Marítimo de Algés. Se eu puder lá estarei, porque Bob Dylan será sempre um dos meus ídolos da música e da palavra - não esquecer que Dylan escreveu esse livro fabuloso que se chama Tarântula em 1966 e publicado em Portugal em 2007. Para além disso, Bob Dylan também pinta e desenha, tendo lançado um livro de desenhos "Drawn Blank" em 1994. Fez a sua primeira exposição denominada "The Drawn Blank Series" no Museu Kunstsammlungen em Chemnitz - Alemanha (onde há obras de Munch e Picasso) entre Outubro de 2007 e 3 de Fevereiro de 2008 com 175 aquarelas e guaches. Por tudo isto, Bob Dylan é sem dúvida uma das maiores figuras da cultura ocidental das últimas décadas, um ícone quase sem igual, já uma lenda, até porque sem Bob Dylan toda a música pop seria bem diferente.
E que como canta Dylan:
Forever young May God bless and keep you always,/May your wishes all come true,/May you always do for others/And let others do for you./May you build a ladder to the stars/And climb on every rung,/May you stay forever young,/Forever young, forever young,/May you stay forever young.(...)
Que Deus te abençoe e te acompanhe sempre,/Que seus desejos se tornem realidade,/Que você sempre faça para os outros/E deixe que os outros façam por você./Que você construa uma escada para as estrelas/E suba cada degrau,/Que você fique jovem para sempre,/Jovem para sempre, jovem para sempre,/Que você fique jovem para sempre.(...)http://www.bobdylan.com/moderntimes/home/main.html
Hoje sei como se exprime o último fôlego o estrídulo da terra agonizante com o espanto acúleo da primeira fala o perfil imperceptível da morte com que a demência fecunda os animais.
Aprendi as formas fictícias dos pulmões bebendo o visível e o invisível de todos os corpos do ângulo mais agudo na memória que sustenta o cérebro recolhido na brutal inocência das crias.
Através dos golpes do carniceiro a purificação talhada da carne como os vermes que devoram os anjos crus e deles se alimentam extasiados.
Maria João Pires apresenta-se pela primeira vez na Casa da Música num concerto inteiramente preenchido com obras de Fryderyck Chopin, um dos seus compositores predilectos. Na primeira parte do concerto, Maria João Pires interpreta Nocturno em Si maior e a Sonata para piano n.º 3, em Si menor. Para a segunda parte está reservada uma outra obra de Chopin, a Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, composta por quatro andamentos.
Intérprete de excelência (sem dúvida uma das maiores intérpretes da actualidade) de compositores tanto do período clássico como do romântico, Maria João Pires já foi aplaudida em toda a Europa, no Canadá, no Japão, em Israel e nos Estados Unidos. No concerto que encerra as comemorações do 3º aniversário da instituição, Maria João Pires é acompanhada pelo violoncelista russo Pavel Gomziakov, também ele uma das figuras mais proeminentes do violoncelo a nível internacional. Maria João Pires e Pavel Gomziakov realizaram uma série de concertos na Ásia e fizeram parte do projecto «Art Impressions» juntamente com Ricardo Castro.
Para além da magia das suas mãos sobre o piano, Maria João Pires escolheu o sonho e a aventura de BELGAIS (Belgais - Centro para o estudo das artes) e só quem como eu já se fundiu com o espírito e a alma de Belgais,se apercebe da "medida certa da heroicidade de Belgais". O reconhecimento pela UNESCO desse projecto de vida de Maria João Pires foi só uma questão de justiça (que Portugal ainda não lhe prestou!). Como afirma a pianista - "as opções que tomo transformam-se, por vezes, num combate". Da minha inesquecível passagem por Belgais em 2001 e 2002, integrado na OFICINA de POESIA da Universidade de Coimbra, a minha modesta homenagem, não só aBELGAIS, mas sobretudo a essa mulher, repito, a quem Portugal enredado na sua permanente pequenez, para não dizer mesquinhez, ainda não prestou o devido valor e admiração: Maria João Pires. O som e a seiva a solidão consome a carne lúcida no que resta das feridas silenciosas o som e a seiva interpenetram-se ou enlouquecem sob as mãos acesas o sopro que pelos dedos desliza em tubos de pedra onde o som ferve e a mulher está como um fole inicial todos os sonhos sugeridos em pulsações de um piano raso com odor a fêmea.
João Rasteiro In,OFICINA de POESIA - nº2, Série II, 2002
Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 8 de Abril de 1920, tendo falecido em 29 Janeiro de 2001. Escritor português com uma actividade actividade cultural desenvolvida sobretudo a partir da cidade do Porto: foi editor, no domínio do livro de poesia, esteve ligado á direcção de revistas como A Serpente (1951), Árvore (1951-1953), Notícias do Bloqueio (1957 – 1962) ou Limiar (iniciada em 1992), publicou várias traduções de romancistas e poetas estrangeiros, desenvolveu actividades teatrais ligadas ao movimento cineclubista. Como poeta, a sua obra tende para o estabelecimento de um equilíbrio entre duas tendências que se afirmaram nas décadas de 40 e 50: o neo – realismo e o surrealismo. Da primeira destas tendências – muito marcada em Os Arquivos do Silêncio (1963) e na recolha antológica Poemas Políticos (1980). Egito Gonçalves recupera um sentido de intervenção, por vezes desfocado por uma muito viva expressão irónica; da segunda, a maneira como na poesia se pode valorizar a imaginação, sem que, no entanto, a sua linguagem enverede por experiências associativas surrealizantes, pela escrita automática, etc. Quanto a este aspecto, Egito Gonçalves mostrou-se sempre preocupado em construir o poema (“construo os meus poemas, com as imagens adorno-os”), dando-lhes uma configuração bem delineada ou estruturada. Aproximou-se, assim, daqueles poetas que nos anos 50 – o seu primeiro livro, Poema para os Companheiros da Ilha, é de 1950 – começam a revelar uma especial atenção quanto ao papel que a linguagem desempenha na economia da própria criação poética, sobretudo através da utilização da metáfora e da imagem. Isto leva-o a estar atento a uma certa viragem que na poesia portuguesa ocorre durante a década de 60, orientando-se essa viragem para um tipo de escrita poética que reage contra a discursividade – característica esta comum a muitos textos surrealistas e neo-realistas -, contra uma figuração expansiva procurando, antes, uma linguagem o mais depurada possível, elíptica, por vezes fragmentada.(…)
In: Bibllos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa - 1995 .
PANFLETO CONTRA O PANFLETO
(sob a forma de conselhos a um jovem poeta) . Se uma imagem te surge no lance de um poema usa-a para o amor – jamais para a política. . Há sempre a pôr em verso duas coxas; há sempre um coito, real ou imaginado, com que esquives armadilhas panfletárias. . Os campos de concentração, as guerras, os estados de angústia, não abundam a arte em que propões engrandecer-te. . Fala do teu exílio, da infância perdida, do castelo em que vives após o escritório. . Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre longe da campa de inúteis fuzilados. Desabrocha-as no orvalho. Elas servem para iluminar o quarto… aquele… tu sabes! . Se recorres às rosas faze que sejam brancas e elimina as papoilas por motivo igual. Não despistes a caneta em perigos inglórios: os caçadores de símbolos são graves e desconfiados. Egito Gonçalves