sexta-feira, 13 de junho de 2008

FERNANDO PESSOA - O Poeta é um fingidor...

Assinalam-se hoje os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o no seu livro The Western Canon ("O Cânone Ocidental"), ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX.
Pessoa, foi o primeiro português a figurar na Plêiade (Collection Bibliotèque de la Pléiade), prestigiada colecção francesa de grandes nomes da literatura.Sobre os poetas em geral, Octavio Paz (poeta mexicano), Prémio Nobel da Literatura diz que “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia”; sobre Fernando Pessoa em particular, acrescenta “nada em sua vida é surpreendente — nada, excepto os seus poemas”.
Toda a vida do poeta foi dedicada quase exclusivamente a criar e a criar essencialmente vidas outras através de seus heterônimos, o que foi a principal característica da sua escrita e da sua poesia. foi essa criação em suas múltiplas formas que motiva e desperta o interesse por Pessoa. Alguns críticos questionam mesmo se Pessoa realmente teria alguma vez transparecido o seu verdadeiro eu, ou se tudo não teria passado de mais um produto da sua vasta e extraordinária criação.
Como curiosidade, numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer ao encontro.

Deus
Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
.
Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.
Fernando Pessoa
Se Depois de Eu Morrer
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.
.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro .

Mar Português - Fernando Pessoa

http://www.revista.agulha.nom.br/pessoa.html

http://pessoa.mdaedalus.com/index.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

P.S. - LANÇAMENTO: solicita-se a visualização do seguinte link:

http://www.euxz.blogspot.com/

terça-feira, 10 de junho de 2008

10 de Junho - Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas


OS LUSÍADAS
CANTO I
1
AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

CANTO III
20
«Eis aqui, quási cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

21
«Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela antão os íncolas primeiros.

(…)
96

«Eis despois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Co este o Reino próspero florece
(Alcançada já a paz áurea divina)
Em constituições, leis e costumes,
Na terra já tranquila claros lumes.
.
97
«Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

(…)

120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
.
121
«Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
.
(…)

132

«Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

(…)

134
«Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
.
135

«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!

CANTO X

152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d' exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.
FIM
.
O AMOR A PORTUGAL - Dulce Pontes

.
http://www.vidaslusofonas.pt/luis_de_camoes.htm
http://lusiadas.gertrudes.com/

sábado, 7 de junho de 2008

O Problema de Ser Norte

O PROBLEMA DE SER NORTE

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
O Problema de Ser Norte é o novo livro de poesia da autoria de Filipa Leal. Trata-se de um livro que revela uma sensibilidade extrema, um sopro em que nenhuma palavra é escolhida ao acaso: todas são pensadas e pesadas com uma subtileza extraordinária. São poemas que nos falam dos medos da vida, da tristeza, da felicidade, do amor, e desse incomensurável caminho que nos leva para o lugar inicial do verbo.
Filipa Leal que integra a micro antologia:"nova poesia portuguesa", por mim idealizada e organizada para um número especial da revista colombiana de poesia, ARQUITRAVE, surge sem qualquer dúvida, como alguém que se demarca de grande parte da chamada "nova poesia portuguesa", uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias de cariz mais confessional, apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica fortíssima na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. É uma poesia que se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema. (João Rasteiro)
Sinopse:
A procura do entendimento do mundo na arte poética continua a acompanhar Filipa Leal que neste livro alude, inquieta, aos limites da própria poesia que a assaltam. Linhas ténues de transparências, de água, de vidro, que contrapõem com as palavras forjadas numa interioridade livre. Os medos, os livros, o tempo, a surpresa do mar (o início possível?) constituem a sua procura e afirmação… «Era um verso com árvores à volta/ Tinha o problema de ser norte / e dia e tão contrário à natureza./» Um livro belíssimo.
.
Pronuncia do Norte - GNR e Isabel Silvestre

.
http://paristexas2.blogspot.com/2008/02/alguns-poemas-de-filipa-leal.html
http://www.vozdapovoa.com/noticia.asp?idEdicao=117&id=5197&idSeccao=1089&Action=noticia

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Rotas

Destino - S. Dali
Ciclos completos

Entretanto
é Primavera de novo
e crescem os hortos
no que foi um vasto campo vermelho
de batalhas abençoadas.

Um espaço consagrado fora do mundo.

Entretanto
é Verão de novo
e acende-se a carne
no que foi um profundo corpo negro
de guerras amaldiçoadas.

Qualquer coisa diferente de viver.

Entretanto
é poema de novo
e morrem as palavras
no que foi um imenso desejo branco
de saber apenas morrer.

O silêncio, um silêncio em suas escoras.
João Rasteiro
.
Pedro Abrunhosa - LUA

domingo, 1 de junho de 2008

O Futuro é hoje

Neste dia 01 de Junho, dia em que se comemora o Dia Mundial da Criança e em que começam de forma geral as comemorações dos 120 anos de Fernando Pessoa, a homenagem ao futuro, a esse futuro que serão as nossas crianças, nas palavras geniais do nosso poeta.

A Criança Que Pensa Em Fadas
A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Alberto Caeiro
.
Criança, era outro...
Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei

Ganhei ou perdi ?
Fernando Pessoa
.
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
.
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
.
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
.
Pedra Filosofal (António Gedeão) - Manuel Freire

.
http://web.educom.pt/pr1305/crianca.htm
http://pessoa.mdaedalus.com/

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Espaços

Fêmea II
Estarei com as crias à hora
em que as fêmeas se transformam fruto
entregues ao seu peso de cio.
Cada ventre tem um coração aceso
no centro da noite inesperada
e é o ventre vivo que me atrai intacto.
Os morcegos hematófagos
dançam em rodopio alucinado de luz
delimitando o círculo da batalha
até ao prodigioso universo da desordem.
In, "A liturgia das amoras - Parte II:morcegos" (inédito)
João Rasteiro
.
Jorge Palma - "Espécie de vampiro"
.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ezra Pound - A arte da poesia

O poeta - P.Picasso (1911)
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã. Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano. Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la. Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.
POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12 .
.
THE BATH TUB
As a bathtub lined with white porcelain
When the hot water gives out or goes tepid,
So is the slow cooling of our chivalrous passion,
O my much praised but-not-altogether-satisfactory lady.
.
A BANHEIRA
Como uma banheira alinha a porcelana branca
Quando a água quente se esgota ou torna-se morna,
Assim é o lento refrescar da nossa paixão cavalheiresca,
Oh minha muito louvada mas-não-de-todo-satisfatória senhora.
.
.
FRATES MINORES
With minds still hovering above their testicles
Certain poets here and in France
Still sigh over established and natural fact
Long since fully discussed by Ovid.
They howl. They complain in delicate and exhausted metres
That the twitching of three abdominal nerves
Is incapable of producing a lasting Nirvana.
.
FRATES MINORES
Com mentes ainda pairando sobre seus testículos
Certos poetas aqui e na França
Ainda suspiram sobre o fato estabelecido
Há muito esgotado por Ovídio.
Eles uivam. Queixam-se em metros delicados e exaustos.
Que o espasmo de três nervos abdominais
É incapaz de produzir um Nirvana duradouro.
Tradução: Virna Teixeira
.
Carmina Burana O Fortuna - Carl Orff

.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ezra_Pound
http://www.culturapara.art.br/opoema/ezrapound/ezrapound.htm

domingo, 25 de maio de 2008

Rotas


Trovador
Estranha é a indizível mísula
......................................irrealista
que reflectes nos olhos o olfacto
para auscultar a síntese das asas
que me fecunda verbo alienado
........................................primitivo.
.

Ecoa único sob a boca do clarão
............................................úbere
plena vertigem da terra esguia
para a qual já nada representas
pois habito um espaço de fogo
............................................árido.
.

Apenas me amparas em formas
...........................................sedentas
de palavras cosidas à respiração
pacientemente perfurando bocas
de sementes em bilhas de incenso
..............................................mágico.

João Rasteiro

.

Madredeus - Coisas Pequenas

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A construção do (corpo) mundo

Ao Carlos e à Luísa (eu sei que eles me escutam) - Beijo.
A tecedeira
..........."A tecedeira criou o mundo"
............-Ana Paula Tavares-
.
A tecedeira reduziu a memória seca
a nada, como as mãos depois da alegria
do pânico. Nos arcos negros de espaço
o branco da solidão. Movimentos lascados
de sol, ao anoitecer. A carne opaca.

.
A tecedeira criou o lume absoluto
de fogo, como dedos de sofrimento
da água. Nada fermenta na sílica
límpida do carvão. As fibras mutáveis
da terra, sob líquidos. A língua espelhada.
.
A tecedeira mastigou o liço obsceno
da luz, como a carne excelsa do céu
das vozes. Nas metamorfoses eólicas
uma ígnea linha. Na mecânica nocturna
da viagem, as cores. Os olhos alquímicos.
Inédito - 2005
João Rasteiro
.
Chico Buarque - CONSTRUÇÃO

terça-feira, 20 de maio de 2008

O estado impenitente da fragilidade

João Vário (1937-2007), estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi investigador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Ao jubilar-se, regressou à sua Mindelo natal. Deixou uma obra poética extensa, mas ainda pouco conhecida do grande público. Foi muito influenciado pela cultural ocidental, tendo como referências Saint-John Perse, T. S. Eliot, Ezra Pound, Aimé Césaire, Dante e a própria Bíblia. Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público em geral - as agruras da escrita.
A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros: Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade. É uma das vozes em língua portuguesa mais injustiçada no reconhecimento público. Sem dúvida uma das vozes maiores a descobrir urgentemente.
.
Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo
concede
fim de novo e reconhecimento de novo,
e tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
criminosissimamente crime,
quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
e sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
são os desígnios da medida e, divididos
em dois por eles, com eles indo, se por eles
ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
de indagar que vamos morrer e, um dia, se
o tempo for deles e a memória, de outros,
havemos de ser úteis como mortos há muito,
sem que a causa, o delírio, a designação,
o julgamento nossa medida abandonem,
dividida em duas por eles, e ganhando constância.
.
Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.
João Vário
.



Cesária Évora - SODADE

http://memoria-africa.ua.pt/Digital-JoaoVario.aspx

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=25663

http://www.triplov.com/letras/exodo/vario_1.htm

http://www.confrariadovento.com/revista/numero18/phantascopia.htm

sábado, 17 de maio de 2008

Rotas


Nenhuma voz dilacera a loucura
Nenhuma voz dilacera a loucura
não há fúria ou alimento maduro
nem outro canto negro
é o reflexo do coração
ou um felino devorando a primavera.

Pomares acesos entre destroços
na margem dos anjos
o nevoeiro boca a boca a escuta do sangue.

Durante o sopro dos solstícios escuto
os pomares entre escombros
é o lado exterior da luz dilatada
a luta demoníaca das vozes
o sopro da loucura dentro do fogo.

O inferno no centro aberto do labirinto
induzindo um halo de lava nos açudes da pele
a visão fincada do paraíso sob a insídia dos ecos.
João Rasteiro
.


NEY MATOGROSSO - Balada do Louco
http://letras.terra.com.br/ney-matogrosso/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ney_Matogrosso

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O AMOR

À A....
de profundis amamus
(...)Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso.
Mário Cesariny - Pena Capital

Jorge Palma - Encosta-te a Mim
.
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/cesariny.html

terça-feira, 13 de maio de 2008

Lugares

A porta - S. Dali

A partir de um fragmento do texto “The literal World” (1998) de Jean Day – Tradução de Manuel Portela.
Desfloramento
1.
.as ironias da soberania
a mãe parcial
caprichos que desabrocham
................outra
................invisível à sua...............garra
...........................................são precisas duas
questão de acumulação.........oiço-os
acabei de cantar
.................
uma criança privilegiada,
2.
.pediram-me.........que fosse.............................específica
...............................sou como..............o artista
..........temem que eu possa.............................destruir
.......o original......................................os pontos negros
.......compreendo
......................o relógio....................uma espécie de lesma
...........................o meu olhar...........................ontem
alguém tentou uma aranha
................................a morte.........................tecia
................................o fim........................um ser capaz
na primeira pessoa
.................................que se diga........................
fala,
3.
.se mente
o seu sujeito
.....................entre
...sou o único mundo..................................único
................esqueci................................estou apenas
maravilhada pelo sol................................a esbranquiçar
.....................................no outro..........outro mundo
..............................fictício................lugar de variação infinita
tendem a imaginá-lo
..............................se me visse
..............................poderia perguntar......me vejo
eu não escrevo prosa
....................................ensinar...................
me,
João Rasteiro
.
TITÃS - Epitáfio

domingo, 11 de maio de 2008

LUGARES

POEMA
Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
......................................se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó
- dos - andes,
...............bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
..........morrem comigo.
.
Ou não:
.........o sol voltará a marcar
.........este mesmo ponto do assoalho
.........onde esteve meu pé;
............................................deste quarto
.........ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
..............uma nova cidade
..............surgirá de dentro desta
..............como a árvore da árvore.
.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.
Ferreira Gullar
.
Pink Floyd - Dark Side Of The Moon


.

http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/
http://www.culturapara.art.br/opoema/ferreiragullar/ferreiragullar.htm
http://www.culturapara.art.br/opoema/opoema.htm

quinta-feira, 8 de maio de 2008

LIVROS

LIVROS: uma antologia e um primeiro livro. A poesia nas suas formas nuas. A força da palavra e da poesia em suas múltiplas veias.
A editora COSMORAMA acaba de editar o livro escrito em osso do poeta brasileiro Claudio Daniel. Este livro é uma pequena antologia de um dos nomes mais interessantes e promissores da nova poesia brasileira. Como refere Ernesto M de Melo e Castro no prefácio do livro: "(...)Leia-se, portanto esta antologia de Claudio Daniel como um marco desta re-nova estética e da intervenção da poesia, tão urgente como necessária, nas nossas vidas trucidadas pelos universos da sobre-informação pateticamente vulgar e tragicamente redundante". Claudio Daniel que é também tradutor e ensaísta, publicou o seu primeiro livro - SUTRA - em 1992 e o último - PERSPECTIVA - em 2005. É o editor da revista electrónica de poesia e debates ZUNÁI.
"Pequeno Sermão aos Peixes"
a
água
é luz, a água
é sêmen, prata, mercúrio
espelho esférico de imagens trêmulas
que brotam, flutuam e cessam
oh esplêndidas carpas!
entre rajados cardumes, coroas de branca espuma
e radiantes medusas
- lâminas prismáticas de uma vasta geografia -
vi o galho curvo da cerejeira
uma nuvem, meu rosto
e a rã
Claudio Daniel
---------------------------------------------------------------------------------
Se em cima falei de uma antologia, o que pressupõem já obra feita, agora falo do primeiro livro de uma poeta. A poeta Alice M. Campos lançará no próximo dia 10 pelas 16h no Auditório da Casa-Museu Abel Salazar em S. Mamede de Infesta o seu livro de estreia. Esta obra, “o ciclo menstrual da noite, é um livro, independentemente da minha amizade pela Alice Campos, que já possui um trabalho de linguagem extremamente forte. É um livro onde a metáfora por vezes fere de forma abundante e onde a condição de mulher é abordada com tal pujança, que apenas assistimos ao remexer da sílaba nas entranhas de uma forma tão viva e sem amarras, de uma forma totalmente exposta como a poesia merece e exige.
Como refere no prefácio, Joaquim Fernando Fonseca: "No tempo em que as palavras estavam carregadas de magia, et deus erat verbum, talvez até tenha havido um tempo em que a palavra noite pareceu escura e em que a palavra mulher sabia a leite e cheirava a sangue e a sexo, e à hora do pombo sucedia a hora do corvo saeculis saeculorum enquanto as palavras não se tornaram moeda do comércio da vida de todos os dias e quando língua e realidade talvez até se confundissem numa relação natural.Nesse tempo, em que as palavras estavam carregadas de magia e poder e em que a felicidade não tinha ainda algo de trivial, e em que os outros não eram ainda casas de e onde se ia sofrer, tornou-se evidente que o que era próprio do homem, mais que o silêncio, era a palavra".
.
sabes, mãe. os camelos atravessam o deserto desde o meu antebraço
sabes, mãe. os camelos atravessam o deserto desde o meu antebraço.
é difícil suportar a lonjura a que os meus pés estão da sua vontade.
a catarina escreveu um livro feito desta matéria invisível que nunca li.
mas nenhuma ave levanta o seu nome como ela. só sei que a voz é um
objecto meramente fálico. um homem que não diz um beijo, saberá beijar?
e a palavra dita na carne exposta, é já um lampejo de serenidade?
não sei, mãe.
tenho, aliás, fotografias que comprovam a incerteza destes últimos dias.
o tempo faz paragens a meio das dunas, quando a curva rói o grito.
há barulhos entrelinhas que não entre dentes.
tenho medo de cair no vácuo do desentendimento e ainda mais de não cair.
será o amor uma aventura dromedária?
um homem que não tem cara, será uma duna árida?
se eu fosse de areia, teria sido útil à coragem.
como sou de vidro, deixo que me partam.
eu era capaz de amar um homem invisível.
é por isso, mãe.
tenho de lhe escrever. para não o odiar.
alice macedo campos

terça-feira, 6 de maio de 2008

Sexo e Linguagem


ADÃO e EVA

há um sexo dentro das palavras
.
há um sexo dentro das palavras
o erro do desejo.
saberás que o amor
não começou ainda,
.
às vezes como uma víbora
o corpo só deixa a pele.
João Rasteiro
.
In, "O Reverso do Olhar", CATÁLOGO da Exposição Internacional de Surrealismo Actual - Coimbra, 2008
.
Rita Lee - Amor e Sexo

domingo, 4 de maio de 2008

SILVES

..................................as-Shilb
....................................................(H)á moira encantada

Já te foi tão próxima essa morada de leões e de gazelas
junto à gafaria, a solidão das fronteiras
onde o sussurro do branco se corrói
exercitando-se horto no coração transmudo
das mulheres níveas e morenas.

Hoje sabes que o mistério da luz açoita os olhos
até que o canto de al-mutamid corra o interior das gusas
que alimentam tendões de colos cortados
batendo por dentro das bocas para ostentar a flor
mas nada te preencherá a cegueira
das fábulas na margem do arade
a taifa rebelde rasgando a intimidade dos deuses
pela insídia da cor da terra e dos espaços ermos.

Frutificarás então artéria sísmica
do amarelo envelhecido e que alumbra ancestral
em opulência de imprevisíveis astros
que irradiam um cheiro a tâmaras nocturnas
sob a sede guardada em casulos abertos nos lábios do sal
um espaço errático igual aos meandros da água
o sulco da pedra como um covil
em que o poeta acúleo tangia cordas de alaúde.

Quem guardará na cozedura sublime dos fornos
a cintilação das pequenas ruas na perfuração das muralhas
que se tornam uma mantilha de ouro sob os céus?
João Rasteiro
In, Antologia poem`arte nas margens da poesia - III Bienal de Poesia de Silves



http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Silves

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Reverso do Olhar

Surrealismo: Duas centenas de obras do movimento internacional em exposição em Coimbra. Três centenas de obras do Surrealismo actual, de autores de duas dezenas de países, estarão patentes numa exposição que a Câmara Municipal de Coimbra inaugura sábado pelas 16h00 na Casa Municipal da Cultura e 17h30 no Edifício Chiado e ficará patente ao público até ao dia 28 de Junho.
"O Reverso do Olhar" - exposição internacional de Surrealismo Actual, prestará também homenagem aos portugueses que integraram este movimento fundado nos anos 20 do século XX pelo poeta francês André Breton, que tem como figuras cimeiras em Portugal Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, este último falecido há um ano.
O Surrealismo nas artes plásticas portuguesas estará ainda representado através das obras de Carlos Silva, Santiago Ribeiro, Seixas Peixoto, Raul Perez, Carlos Martins, Pedro Medeiros, Luís Nogueira, Fernando Lemos, Alfredo Luz, Eurico Gonçalves, Miguel de Carvalho, etc.(...)
"O Reverso do Olhar - exposição internacional de Surrealismo", a decorrer de 3 de Maio a 28 de Junho em Coimbra, é uma co-produção da Câmara Municipal de Coimbra e da editora portuguesa DEBOUT SUR L`OEUF.
Esta exposição mostra os novos protagonistas, e os mais representativos, do Movimento Surrealista Internacional, através de trabalhos de 130 autores, em "collage", desenho, escultura, fotografia, gravura, "montagens objectuais", pintura e poesia (na qual colaboro com alguns textos).
A mostra internacional será exibida em simultâneo em três galerias de exposições do município. No histórico e secular Edifício Chiado (um dos pólos do Museu da Cidade de Coimbra), e em duas salas da Casa Municipal da Cultura.
In, LUSA e DN Oline.

DOORS - Waiting for the sun


http://pt.wikipedia.org/wiki/Surrealismo
http://www.mundosites.net/artesplasticas/surrealismo.htm http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/S/surrealismo.htm

quinta-feira, 1 de maio de 2008

1º de Maio

Entre duas memórias;
.
já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
Carlos Oliveira
.
In, Entre Duas Memórias

http://naperiferiadoimperio.blogspot.com/2007/03/quando-ernesto-che-guevara-decidiu.html

terça-feira, 29 de abril de 2008

POEM`ARTE - III Bienal de Poesia de Silves


SILVES - Foto tirada da varanda do hotel Colina dos Mouros

O regresso depois de vários dias no Algarve, devido à III Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade única para reencontrar amigos, conhecer gente nova, poesias outras, descobrir vocações e novos sentimentos. Um tempo extraordinário e a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Martins e de todo o staff da autarquia, com especial realce para a querida Hélia Coelho, não só "pau para toda a obra", como foi conjuntamente com Silvestre Raposo responsável pelo Design da antologia e naturalmente do "poem´arte". Para além disso, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, a maravilhosa actuação do grupo Experiment´arte, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente, onde a poesia e os sentimentos estiveram à flor da pele.
Para além da justa homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, que foi assinalada na tarde de domingo, três mesas redondas muitíssimo interessantes. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação da Teresa Tudela, bem como os poemas de Aida Monteiro, manuel a. domingos, Maria Estela Guedes, Porfírio Al Brandão e Eduardo Pitta. O Eduardo, embora não concordando com alguns dos seus apontamentos, conseguiu agitar o diálogo com os presentes, que era logicamente o que as mesas tinham por objectivo. No sábado à noite, durante o lançamento da antologia, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um magnífico poema de homenagem ao grande Luiz Pacheco.
Da Maria Gabriela, só para realçar o tremendo esforço, dedicação e perseverança em conseguir mais uma vez projectar esta Bienal de Poesia de Silves. Quero ainda chamar a atenção para um dos mais belos blogs que últimamente descobri, o blog da poeta Gabriela R. Martins: canto.chão (http://cantochao.blogspot.com/).
Da Hélia Coelho, apenas para realçar o facto de também escrever, e bem(e fotografar), e por isso, um texto seu que simboliza todo o ambiente que se viveu na III Bienal de Poesia de Silves. A expectativa do chegar, a alegria do estar e a tristeza (profunda) do partir. Retirado do seu blog: (http://sonhoasul.blogspot.com/)
.
ecoa o silêncio
no ondular das vagas
.

ir e voltar?
.

o caminho de retorno
é vário
suspende-se
no respirar
profundo
de uma nova
.
brisa .
Ailéh
Experiment` Arte

terça-feira, 22 de abril de 2008

A palavra acesa

Amanhã partirei para Silves para participar na III Bienal de Poesia -“Poem’Arte // Nas Margens da Poesia”
A Câmara Municipal de Silves levará a efeito, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 2008, a III Bienal de Poesia – “Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” – a fim de comemorar o 25 de Abril, homenagear Urbano Tavares Rodrigues e inaugurar a novelíssima Biblioteca Municipal.
Serão todos bem vindos. Para todos os interessados e amantes da poesia, o blog: http://margensdapoesia.blogspot.com/
Amanhã também é comemorado o dia mundial do livro. Apenas darei a sugestão de leitura de um livro - livro que para mim talvez seja aquele que mais me marcou neste século XXI. Um livro extraordinário, um livro que terá passado um pouco inobservado, para mim o livro maior do autor maior que é Umberto Eco. E esse livro chama-se: "A Misteriosa Chama da Rainha Loana". No meio de discos, livros e jornais, entre personagens de ficção - Mickey, Flash Gordon, Conde de Monte Cristo, Cyrano de Bérgerac e Sandokan, - entre personagens reais - Mussolini, a Resistência antifascista, a literatuta e a sua história e o primeiro amor, - vai-se avivando a Misteriosa Chama da Rainha Loana. Um romance absolutamente Inesquecível.
E porque o 25 de Abril será por mim passado e comemorado em Silves, uma pequena prenda em jeito de homenagem, em jeito de alerta para a necessária actualização do 25 de Abril neste mísero e apático país à beira mar alucinado!!! Bom dia meu irmão Zeca - como tens passado?


Até um dia destes e desejos sinceros de cravos e sol - e já agora de alguma dignidade de que os portugueses andam tão necessitados últimamente. Dignidade que este país terá esquecido!!!

sábado, 19 de abril de 2008

FOREVER YOUNG

Bob Dylan, n.24/5/1941(Robert Allen Zimmerman) distinguido muito recentemente com um Pulitzer Prize pelo seu trabalho na área musical, ele que é o primeiro artista de música rock a ser premiado com um Pulitzer, um dos mais prestigiados galardões no mundo do jornalismo e cultura - «O impacto profundo na música popular e na cultura norte-americana, marcadas pela composição lírica de um extraordinário poder poético» foi a razão pela qual o conselho do Pulitzer Prize escolheu o autor de «The Times They Are a-Changin'» - vai publicar um livro baseado na extraordinária música "Forever Young", de 1974. O cantor e compositor Bob Dylan, eternizou em livro infantil ilustrado pelo premiado artista Paul Rogers (últimamente vocalista do grupo Queen).
Dirigido a crianças de 3 anos ou mais, Forever Young é "uma história comovente sobre a importância de fazer o bem", de acordo com um press release da editora, a Simon & Schuster. O livro com cerca de 40 páginas será lançado no dia 6 de outubro no Reino Unido e ou muito me engano e não serão só as criancinhas a adquirir o livro!
Será bom lembrar que Bob Dylan é um dos cabeças-de-cartaz do festival Optimus Alive!08, actuando no dia 11 de Julho no Passeio Marítimo de Algés. Se eu puder lá estarei, porque Bob Dylan será sempre um dos meus ídolos da música e da palavra - não esquecer que Dylan escreveu esse livro fabuloso que se chama Tarântula em 1966 e publicado em Portugal em 2007. Para além disso, Bob Dylan também pinta e desenha, tendo lançado um livro de desenhos "Drawn Blank" em 1994. Fez a sua primeira exposição denominada "The Drawn Blank Series" no Museu Kunstsammlungen em Chemnitz - Alemanha (onde há obras de Munch e Picasso) entre Outubro de 2007 e 3 de Fevereiro de 2008 com 175 aquarelas e guaches. Por tudo isto, Bob Dylan é sem dúvida uma das maiores figuras da cultura ocidental das últimas décadas, um ícone quase sem igual, já uma lenda, até porque sem Bob Dylan toda a música pop seria bem diferente.



E que como canta Dylan:


Forever young
May God bless and keep you always,/May your wishes all come true,/May you always do for others/And let others do for you./May you build a ladder to the stars/And climb on every rung,/May you stay forever young,/Forever young, forever young,/May you stay forever young.(...)

Que Deus te abençoe e te acompanhe sempre,/Que seus desejos se tornem realidade,/Que você sempre faça para os outros/E deixe que os outros façam por você./Que você construa uma escada para as estrelas/E suba cada degrau,/Que você fique jovem para sempre,/Jovem para sempre, jovem para sempre,/Que você fique jovem para sempre.(...)http://www.bobdylan.com/moderntimes/home/main.html

http://www.foreveryoungbook.com/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bob_Dylan

http://www.letraselivros.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=337&Itemid=53

quinta-feira, 17 de abril de 2008

LUGARES


Hoje sei como se exprime o último fôlego
o estrídulo da terra agonizante
com o espanto acúleo da primeira fala
o perfil imperceptível da morte
com que a demência fecunda os animais.

Aprendi as formas fictícias dos pulmões
bebendo o visível e o invisível
de todos os corpos do ângulo mais agudo
na memória que sustenta o cérebro
recolhido na brutal inocência das crias.

Através dos golpes do carniceiro
a purificação talhada da carne
como os vermes que devoram os anjos crus
e deles se alimentam extasiados.

A loucura do besouro sobre as cidades nuas
alastra pela rasura o ludíbrio da língua
o coração ofertando-se espasmo e cântico
só ecos da última heresia brotando as vozes.
João Rasteiro
http://br.youtube.com/watch?v=CV3DPm3bZ-I&feature=related
http://br.youtube.com/watch?v=FX5Cn7J-h6Y&feature=related

domingo, 13 de abril de 2008

A metamorfose do sonho

Maria João Pires apresenta-se pela primeira vez na Casa da Música num concerto inteiramente preenchido com obras de Fryderyck Chopin, um dos seus compositores predilectos.
Na primeira parte do concerto, Maria João Pires interpreta Nocturno em Si maior e a Sonata para piano n.º 3, em Si menor. Para a segunda parte está reservada uma outra obra de Chopin, a Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, composta por quatro andamentos.
Intérprete de excelência (sem dúvida uma das maiores intérpretes da actualidade) de compositores tanto do período clássico como do romântico, Maria João Pires já foi aplaudida em toda a Europa, no Canadá, no Japão, em Israel e nos Estados Unidos. No concerto que encerra as comemorações do 3º aniversário da instituição, Maria João Pires é acompanhada pelo violoncelista russo Pavel Gomziakov, também ele uma das figuras mais proeminentes do violoncelo a nível internacional. Maria João Pires e Pavel Gomziakov realizaram uma série de concertos na Ásia e fizeram parte do projecto «Art Impressions» juntamente com Ricardo Castro.



Para além da magia das suas mãos sobre o piano, Maria João Pires escolheu o sonho e a aventura de BELGAIS (Belgais - Centro para o estudo das artes) e só quem como eu já se fundiu com o espírito e a alma de Belgais,se apercebe da "medida certa da heroicidade de Belgais". O reconhecimento pela UNESCO desse projecto de vida de Maria João Pires foi só uma questão de justiça (que Portugal ainda não lhe prestou!). Como afirma a pianista - "as opções que tomo transformam-se, por vezes, num combate".
Da minha inesquecível passagem por Belgais em 2001 e 2002, integrado na OFICINA de POESIA da Universidade de Coimbra, a minha modesta homenagem, não só a BELGAIS, mas sobretudo a essa mulher, repito, a quem Portugal enredado na sua permanente pequenez, para não dizer mesquinhez, ainda não prestou o devido valor e admiração: Maria João Pires.

O som e a seiva
a solidão consome a carne lúcida
no que resta das feridas silenciosas
o som e a seiva interpenetram-se
ou enlouquecem sob as mãos acesas
o sopro que pelos dedos desliza
em tubos de pedra onde o som ferve
e a mulher está como um fole inicial
todos os sonhos sugeridos em pulsações
de um piano raso com odor a fêmea.

João Rasteiro
In,OFICINA de POESIA - nº2, Série II, 2002

http://www.belgais.org/

http://www.citi.pt/belgais/

http://chumani.paginas.sapo.pt/belgais.htm

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Charneca em Flor


"FANATISMO" - (Raimundo Fagner canta Florbela Espanca):

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !


E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

Florbela Espanca
Livro de Soror Saudade (1923)

terça-feira, 8 de abril de 2008

"Poema para os companheiros da ilha"

Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 8 de Abril de 1920, tendo falecido em 29 Janeiro de 2001. Escritor português com uma actividade actividade cultural desenvolvida sobretudo a partir da cidade do Porto: foi editor, no domínio do livro de poesia, esteve ligado á direcção de revistas como A Serpente (1951), Árvore (1951-1953), Notícias do Bloqueio (1957 – 1962) ou Limiar (iniciada em 1992), publicou várias traduções de romancistas e poetas estrangeiros, desenvolveu actividades teatrais ligadas ao movimento cineclubista. Como poeta, a sua obra tende para o estabelecimento de um equilíbrio entre duas tendências que se afirmaram nas décadas de 40 e 50: o neo – realismo e o surrealismo. Da primeira destas tendências – muito marcada em Os Arquivos do Silêncio (1963) e na recolha antológica Poemas Políticos (1980). Egito Gonçalves recupera um sentido de intervenção, por vezes desfocado por uma muito viva expressão irónica; da segunda, a maneira como na poesia se pode valorizar a imaginação, sem que, no entanto, a sua linguagem enverede por experiências associativas surrealizantes, pela escrita automática, etc. Quanto a este aspecto, Egito Gonçalves mostrou-se sempre preocupado em construir o poema (“construo os meus poemas, com as imagens adorno-os”), dando-lhes uma configuração bem delineada ou estruturada. Aproximou-se, assim, daqueles poetas que nos anos 50 – o seu primeiro livro, Poema para os Companheiros da Ilha, é de 1950 – começam a revelar uma especial atenção quanto ao papel que a linguagem desempenha na economia da própria criação poética, sobretudo através da utilização da metáfora e da imagem. Isto leva-o a estar atento a uma certa viragem que na poesia portuguesa ocorre durante a década de 60, orientando-se essa viragem para um tipo de escrita poética que reage contra a discursividade – característica esta comum a muitos textos surrealistas e neo-realistas -, contra uma figuração expansiva procurando, antes, uma linguagem o mais depurada possível, elíptica, por vezes fragmentada.(…)
In: Bibllos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa - 1995
.
PANFLETO CONTRA O PANFLETO
(sob a forma de conselhos a um jovem poeta)
.
Se uma imagem te surge no lance de um poema
usa-a para o amor – jamais para a política.
.
Há sempre a pôr em verso duas coxas;
há sempre um coito, real ou imaginado,
com que esquives armadilhas panfletárias.
.
Os campos de concentração, as guerras,
os estados de angústia, não abundam
a arte em que propões engrandecer-te.
.
Fala do teu exílio, da infância perdida,
do castelo em que vives após o escritório.
.
Não te é vedado o rumo das flores, mas sempre
longe da campa de inúteis fuzilados.
Desabrocha-as no orvalho. Elas servem
para iluminar o quarto… aquele… tu sabes!
.
Se recorres às rosas faze que sejam brancas
e elimina as papoilas por motivo igual.
Não despistes a caneta em perigos inglórios:
os caçadores de símbolos
são graves e desconfiados.
Egito Gonçalves