domingo, 31 de agosto de 2008

"céu que germina o furacão"

Charles-Pierre Baudelaire: (Paris, 9/04/1821 — Paris, 31/08/1867) foi um poeta, crítico e teórico da arte francesa. É considerado um dos grandes precursores do Simbolismo, embora também se tenha relacionado com diversas escolas artísticas. A sua obra teórica veio a influenciar profundamente as artes plásticas do século XIX.

Baudelaire é no entanto considerado sem qualquer dúvida um dos maiores poetas do Século XIX. Do seu estilo de vida "originaram-se" na França os chamados poetas "malditos"

Um revolucionário em seu próprio tempo. Hoje ele ainda é conhecido, não somente como poeta, mas também como crítico literário. Raramente houve alguém tão radical e ao mesmo tempo tão brilhante, apesar da aparente contradição que emana da sua poesia.

Em 1857 é lançado o livro "As flores do mal" contendo 100 poemas. O livro foi acusado no mesmo ano, pelo poder público, de ultrajar a moral pública da sociedade francesa. Os exemplares são apreendidos e o poeta teve de pagar 300 francos de multa.

Afirmou que "Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória" e ainda, "Como foi a imaginação que criou o mundo, ela o governa."

EMBRIAGUEM-SE
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a
única questão. Para não sentirem o fardo horrível
do Tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.
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Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a
escolher. Mas embriaguem-se.
.
E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a
tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: "É hora de
embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se;
embriaguem-se sem descanso". Com vinho,
poesia ou virtude, a escolher.
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Flores del Mal


http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Baudelaire

http://br.geocities.com/edterranova/baudelapoesias2.htm

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Movimentos Perpétuos

Movimentos perpétuos

Na carne odorífica das fábulas

a suave transparência das veias

um hálito de matéria órfica

nas primeiras palavras dos dedos

a floração de sangue aprazível

na cúpula de uma guitarra

o ciclo aceso das sedas e do cio

dobra a medula feérica da pele

até à nudez voraz das águas

sob o silêncio de súbito ecos

de movimentos perpétuos corrente

e nas gárgulas a lâmina ateada,

.

(a ferida sarou sobre a carne morta).

Manuel de Cenaculo



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http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Paredes

sábado, 23 de agosto de 2008

O Limite da Sílaba

Linha sísmica

Embora na primavera inicial já não exista

inocência ou amor ou talvez só as mandíbulas

de um tigre farejem inocência obscura

língua monstruosamente solitária morte,
.

pois é sinistra a dádiva amor e inocência

demoníaca aliança que se abre aos animais

que já não rodeiam o interior das sombras nuas

acúleas no sopro um cipreste branco ardendo

.

e porque se afigura orgânica a sílaba

fixar-mos de frente os olhos da fêmea exposta

porque o amor é um fio de aço. E morremos dele.

João Rasteiro

James Blunt - Same Mistake

terça-feira, 19 de agosto de 2008

QUIMERA

Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5/06/1898 — Granada, 19/08/1936) foi um extraordinário poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras e mais famosas vítimas da sangrenta Guerra Civil Espanhola.
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"Lorca tornou-se o mais notável numa constelação de poetas surgidos durante a guerra, conhecida como "geração de 27", alinhando-se entre os maiores poetas do século XX. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo". - Wikipédia Online.
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Às cinco horas da tarde

Eram cinco da tarde em ponto.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.
Um cesto de cal já prevenida
às cinco horas da tarde.
O mais era morte e apenas morte
às cinco horas da tarde.
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O vento arrebatou os algodões
às cinco horas da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco horas da tarde.
Já pelejam a pomba e o leopardo
às cinco horas da tarde.
E uma coxa por um chifre destruída
às cinco horas da tarde.
Os sons já começaram do bordão
às cinco horas da tarde.
As campanas de arsênico e a fumaça
às cinco horas da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
às cinco horas da tarde.
E o touro todo coração ao alto
às cinco horas da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco horas da tarde,
quando de iodo se cobriu a praça
às cinco horas da tarde,
a morte botou ovos na ferida
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Às cinco em ponto da tarde.
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Um ataúde com rodas é a cama
às cinco horas da tarde.
Ossos e flautas soam-lhe ao ouvido
às cinco horas da tarde.
Por sua frente o touro já mugia
às cinco horas da tarde.
O quarto se irisava de agonia
às cinco horas da tarde.
A gangrena de longe já se acerca
às cinco horas da tarde.
Trompa de lis pelas virilhas verdes
às cinco horas da tarde.
As feridas queimavam como sóis
às cinco horas da tarde,
e as pessoas quebravam as janelas
às cinco horas da tarde.
Ai que terríveis cinco horas da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram cinco horas da tarde em sombra!
Tradução:
Oscar Mendes
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Leonard Cohen - take this waltz (F. G. Lorca)

.http://www.garcia-lorca.org/Home/Idioma.aspx

http://perso.wanadoo.es/luisalas/indexfgl.htm

http://www.jornaldepoesia.jor.br/bhfglorca.htm

domingo, 17 de agosto de 2008

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade: (Itabira, 31/10/1902 - Rio de Janeiro, 17/08/1987) foi um contista, cronista e essencialmente um extraordinário poeta. Para muitos é o maior poeta brasileiro.

Drummond, como os modernistas, proclama a liberdade das palavras, uma libertação do idioma que autoriza modelação poética à margem das convenções usuais. Segue a libertação proposta por Mário de Andrade; com a instituição do verso livre, acentua-se a libertação do ritmo, mostrando que este não depende de um metro fixo (impulso rítmico). Se dividirmos o Modernismo numa corrente mais lírica e subjectiva e outra mais objectiva e concreta, Drummond faria parte da segunda, ao lado do próprio Mário de Andrade.

Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estreias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De facto herda a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre, as temáticas quotidianas. Mas vai além. "A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi (1994). (Wikipédia online)

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
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Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
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Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
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Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
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Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
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Deus triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.

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Dorival Caymmi
(Salvador, 30/04/1914 — Rio de Janeiro, 16/08/2008):
Dorival Caymmi e Chico Buarque




http://br.geocities.com/edterranova/drummondpoe.htm

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O vírus do amor

Os VALORES da Democracia e Justiça: AMÉRICA ---> O País da liberdade!!!<---
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Censurado livro sobre Maomé:

Sherry Jones, jornalista americana, de 46 anos, acaba de ver recusada a publicação do seu romance de estreia, alegadamente por "incitação à violência".

A alegação é da Random House, editora norte-americana que se comprometera a lançar amanhã o livro ‘The Jewel of Medina’ (no original), que conta a história de amor de Maomé e Aisha, esposa dilecta com quem contraiu matrimónio ainda ela não tinha dez anos.

Os primeiros contratempos surgiram em Maio, quando Sherry Jones soube que o lançamento do livro podia ser adiado e a digressão promocional suspensa.

"Escrevi deliberada e conscientemente com respeito pelo Islão e por Maomé [...]. Pensei que o meu livro pudesse ser uma ponte", sustenta a autora.

O mesmo não terá pensado a editora, que na pessoa do seu subeditor, Thomas Perry, fez saber que a empresa havia sido aconselhada a não publicar.

"Não apenas a publicação deste livro poderia ser ofensiva para alguns membros da comunidade muçulmana como também podia incitar à violência", afirma-se em comunicado. "Decidimos recusar a publicação para segurança do autor, dos funcionários da editora, dos livreiros e de qualquer outra pessoa que esteja envolvida com a distribuição e a segurança do romance", conclui-se.

Alheia aos tentáculos da censura sobre a sua obra de estreia, a autora tem já pronta a sequela. Desta vez, com a vida de Aisha após a morte de Maomé, mas nenhum dos livros será publicado pela Random House... "Pode sempre vender a outra editora", sugere Perry.

As reacções à censura da Random House não se fizeram esperar e na internet multiplicam-se os comentários e os blogues temáticos. Há quem recorde as caricaturas do profeta no jornal dinamarquês ‘Jyllands-Posten’ (2005) ou ‘Os Versículos Satânicos’ (1988), que puseram a cabeça a prémio do autor, Salman Rushdie, e depois há um depoimento que é um exemplo de bom senso... "Olá, sou Mariah, a filha de Sherry Jones, tenho 14 anos, e acho tudo isto vergonhoso. Li o livro e é tudo menos lixo. O que mais me aborrece nisto tudo é haver quem o condene sem o ler!" - Dina Gusmão com agências: CORREIO da MANHÃ
Simon and Garfunkel- America

domingo, 10 de agosto de 2008

O Despertar...da palavra!


««-----clikar
João Manuel Vilela Rasteiro, 43 anos
Natural do Ameal, reside em Coimbra
Func.Público/Poeta
Casado, 1 filho
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O Despertar
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O Despertar
CW: Zilda Monteiro - 10/07/2008
17 Perguntas a...

Melhores recordações da infância:
Com tão pouco ter o mundo nas mãos.

O que mais aprecia nos seres humanos?
Apesar de tudo, o que ainda acabamos por fazer pelos outros, quando algo ou alguém nos coloca no limite das nossas fragilidades.

E o que mais detesta?
Egocentrismo e Traição.

Coimbra em três palavras:
Hoje ainda é.

O Governo em três palavras:
Fé Desilusão Resignação.

Portugal tem futuro?
Pela memória que construiu, o futuro terá necessariamente Portugal.

O melhor do mundo é (são):
As crianças sem dúvida. A minha filha demonstra-o.

Onde está o mal deste mundo?
Na descoberta plena da sua desumanidade pela raça humana.

Três títulos para uma primeira página ideal:
1 – Portugal foi galardoado pela Comissão Europeia com o prémio “Direitos e Garantias” devido ao facto de ter reduzido em 50% o fosso entre ricos e pobres. Para além disso as pessoas no limiar da pobreza estão reduzidas a 1,5% e porque estas ainda têm vergonha de mostrar na comunidade que passam fome.

2 – A Academia Sueca decide extinguir o Prémio Nobel da Paz em virtude do fim de todos os conflitos existentes entre povos e nações. O prémio será substituído pelo Prémio Nobel da Amizade.

3 – Depois de dois anos de saudade de José Saramago, Portugal conquista o 3.º Nobel. A Academia Sueca atribui hoje o Nobel da Literatura a Herberto Helder.

A fórmula do sucesso:
Citando D. Pedro, Duque de Coimbra: “Vontade de fazer bem”, mas, contrariamente ao pensamento habitual – sem pisar ninguém.

Desporto favorito:
Futebol.

Filme que gostaria de rever 10 vezes:
“Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder.

Uma data marcante (a nível pessoal):
Terão que ser duas: 19/03/1995 (nascimento da minha filha) e hoje (porque ainda julgo estar vivo).

Uma data marcante (país):
1179, ano em que o Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum, reconhece Portugal como país independente e único.

Uma data marcante (mundo):
Duas: A revolução Francesa e o 11 de Setembro.

Um sonho por concretizar:
Todos os sonhos que ainda não concretizei, nomeadamente, ter a convicção de que ainda não escrevi um POEMA.

Um pesadelo que o atormente:
Talvez… o não ser suficientemente sábio e lúcido para aproveitar da melhor forma tudo o que a vida nos pode dar. Resumindo, talvez por natureza da raça humana, desperdiçar a possibilidade de ser feliz nesta nossa breve passagem.
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"O que faz de você é a soma de todas as representações que você faz dos outros e do seu ambiente, que podem se expandir a cada dia, desde que você mantenha sua consciência".
Rodrigo Cavalcante

Delfins - Nasce selvagem



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http://www.odespertar.com.pt/sartigo/index.php?x=2926
http://www.odespertar.com.pt/seccao/index.php?x=110

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Viagens, rotas e destinos VII - [ The End ].

(...)
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
*

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
*

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
(...)
Herberto Helder - O Amor em Visita

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Viagens, rotas e destinos VI

homenagem a cesário verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
.
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
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Mário Cesariny

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Viagens, rotas e destinos V

Seguindo o meu olhar até aos lábios de Bach, há sempre
um espaço subterrâneo, uma fala que perscruta a sua
boca aberta.
Baixo os olhos sobre as claridades cintilantes,
enamoradas, visualizo um volume que, na minha língua,
deve ter um nome. Procuro então um outro volume
para que não encontro palavras, ou superfície e
imagem:
água livre, nem de rio, nem de mar, nem
de lago, nem de nevoeiro, água repleta de silêncio no momento do
fogo, ou talvez clima vulcânico no centro das terras.
Designações sobrepostas de múltiplas línguas voltam à
unidade, é a explosão do nascimento do tempo; é o seu
princípio de fuga estelar no seio das criaturas; (levanta-
se uma brisa, sua descrição é impensável para além
de uma meditação de neblina).
.
É uma visão de deleite tão intenso que fios de água
escorrem por entre o fogo, que é circundante e leve.
Ali estão compreendidos os seres vivos desde o início
dos séculos ao fim das carreiras mortais e, sobre eles, os
seres mortos não se distinguem da palpitação
consumitiva: meus companheiros vêem por mim,
a quem eu cerro as pálpebras; acordo abrindo os olhos.
Maria Gabriela Llansol, in Um Falcão no Punho

terça-feira, 29 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos IV

MAR
Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!
António Ramos Rosa

sábado, 26 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos III

A casa do mundo
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Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
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Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
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Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
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Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
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Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
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É a casa do mundo: desaparece em seguida.
Luiza Neto Jorge, "O seu a seu tempo"

terça-feira, 22 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos II

Mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no "Zanzi-Bar", julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grebo. Mas não, o marulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar - fechado, calmo - propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vinho.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: "onde te vi despir regresso agora / para adormecer ou chorar" e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca da vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
- Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar. Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.
Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.
Nunca mais o lembraremos
Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.
Depois, não lhe agradou saber que o mundo, apesar da sua morte, conservaria por muito tempo os vestígios da sua passagem. Desejou, uma vez mais, que tudo o que escrevera até àquele instante se apagasse também, e que do seu nome não restasse uma sílaba.
Pensou em tudo isto sem amargura, porque havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvedar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluiam-se uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, oturas trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando- lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talendo da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação - e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade.
Al Berto, "O Esconderijo do Homem Triste", O Anjo Mudo.

sábado, 19 de julho de 2008

Viagens, rotas e destinos I

Sumário Lírico
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Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.

Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes

caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.

Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.

Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.

A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 14 de julho de 2008

LIVROS

É Verão. As férias destabilizam-nos os sentidos e todos os espigões do corpo. Mas os livros continuam a sua incomensurável loucura de nos procurar mostrar uma forma outra da palavra inicial. E eu que me preparo para dentro de algumas horas partir uns dias à procura da descoberta de alguns territórios de Portugal, mas, essencialmente, à descoberta de mim e do caminho de espinhos que preciso percorrer para alcançar o cume das árvores, quero só chamar a atenção para dois livros, um que me acompanhará em viagem e outro que mais tarde espero ler.
O primeiro é o novo livro de valter hugo mãe, hoje já uma presença importante na ficção portuguesa contemporânea. No seu novo livro, "O Apocalipse dos trabalhadores", já a determinar que os dedos o aprisionem e apertem nas livrarias e Fnacs do país, apenas constatamos os predicados que lhe propiciaram em 2006 o prémio "José Saramago" com o romance "o remorso de baltazar serapião". Como é referido na contracapa do livro: "o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.»
O segundo livro é "O Polvo não sabia que o Mexilhão tinha asas". Este livro de contos de Maria João de Oliveira, que será apresentado na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, sábado, dia 19/07/2008, pelas 15h30, é um livro de alguém que afirma tratar-se de "uma viagem interior que não pode ser adiada" e para quem escrever é tão necessário como respirar, numa relação absolutamente visceral com a escrita e os problemas do mundo que nos rodeia e asfixia. Como refere no prefácio, o poeta José Félix, "a autora serve-se da memória como acepipe para a construção da trama, ficcionando a realidade, e fazendo da ficção uma coisa real. (...) para tear, palavra a palavra, frase a frase, os ardis da vida, servindo-se quer da ficção feita realidade quer da realidade feita ficção".
Na mesma sessão, e porque os livros emergem como o dilúvio, será lançado ainda o livro "A força de um sonho" de Maria Rita Romão.
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Resistência - Amanhã é sempre longe demais

sábado, 12 de julho de 2008

PABLO NERUDA

Pablo Neruda - (Parral, 12 de Julho de 1904 Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno premiado com o Nobel de Literatura de 1971 e um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Tinha obrigatoriamente como lema de vida: "A verdade é que não há verdade".
Uma leitura
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entre as orquídeas e o trigo
que preferência confere
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a uma só flor tanto luxo
e ao trigo (cal) ouro sujo?
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se é doce a água dos rios
de onde tira sal o mar?
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e não naufraga o navio
vogando em vogais demais?
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quem fornece nomes-numes
ao inocente inumerável?
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a intradução dos idiomas
conciliará pari pássaros?
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é possível florescer
sobre um deserto de sal?
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quando já se foram os n(ossos
quem vive no pó final?
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terei meus cheiros-o-dores
quando dormir destru... ido?
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quem era (hera?) te amando
que o sonho encampa dormindo?
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será uma estrela-in-visível
(talvez?) o céu dos suicidas?
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e por que o céu-in-vestidos
se encerra com suas neblinas?

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como se chama a tristeza
numa ovelha sol-it-ária?
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moscas fabricando mel
ofenderiam as abelhas?
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há espaço para uns espinhos?
(alguém pergunta à roseira)
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por que é tão dura a doçura
do coração das cerejas?
Pablo Neruda
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http://www.neruda.uchile.cl/
http://www.fundacionneruda.org/
http://br.geocities.com/edterranova/nerudapoe.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pablo_Neruda

quarta-feira, 9 de julho de 2008

VERBO

O Mito da Criação

O poeta criou um Deus,
criou-o lentamente
à imagem do barro ancestral,
ele os criou deus e poema:
arrasai todos os peixes do mar,
todas as aves dos céus e
todos os animais sem dentes
e criai sem blasfémia um verbo
outro, excêntrico.
De madrugada, nu e alucinado
sobre o orvalho comeu-se a
si mesmo
e ressuscitou inteiro.

João Rasteiro

Luciano Pavarotti
- Nessun Dorma

domingo, 6 de julho de 2008

"A terra dos sonhos"


A trompete de Bagdad

....................................Ao Ehren Watada

A tua crença estava só na morte e tocava. E

continuava sonhando e tocando. E a garganta

era inútil como a garra de um leopardo murado

na cidade sagrada onde se perdiam as sombras.

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A morte não conseguirá abraçá-la. Como a pele

de um tigre de Bagdad perfumando as lágrimas

cheio de crias recentes. Eu era um corpo diáfano

incluído no exílio sempre aniquilado dos proscritos.

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E a tua crença de trompetista puxou pelas mãos

a morte de Chang a morte como todos os mortos

que se esquecem. Como se a povoassem opulentos

olhos de animais que te aguardam em Central Park.

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Há um oásis tumular dentro da terra. Um cadáver

insepulto sob uma salva divina de crenças e gélidas

promessas. Ouve-se apenas o gemido dos mortos

perfeitamente mortos em Bagdad sobre o orvalho.

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Restam ainda os cânticos doídos do trompetista nu

iluminado agora por fulminantes súplicas putrefactas.

João Rasteiro

New York New York - Frank sinatra

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Na geografia do tempo


Biografia

E tudo ocorre na melancolia
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto do corpo
no linho que se alinha à mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífaga
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada
ser bardo
é tocar o fogo
é estar no correr das águas da tempestade
O espectro desatando-se
sílaba que afeiçoa os matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu.
João Rasteiro - 03/07/2008

HUMANOS - Quero é Viver

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http://fotoseliteratura.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"H/Á" geografia do tempo (***)


(A)ntera
.......Pra ti...

16.
eu (itinerá)rio
da loucura do verbo ousar(-te)
o meu desejo lírico e alquímico
(n)o espaço dos animais
cheios de luxúria
a palavra (che)ia do seu espaço
a partir do deserto das violetas
civilizei a língua
e foi reposta em cada língua

que perdura na boca
a saliva que se move na língua
metamorfose(Ada) em sua raiz visível
porção terminal do estame da(s) flor(es)
(e o desejo é monstruoso no desejo
de te ousar ousada?)
João Rasteiro - 02/07/2008
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.(***)
http://www.youtube.com/watch?v=Glnm3aKwIwg&feature=related

domingo, 29 de junho de 2008

PONTES

PAULA REGO
Alegoria da palavra ausente
..........................Pro meu AMIGO Carlos Saraiva

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As torres do tamanho do deserto
caíram. Mastiguem-se as palavras
de Creta. Sem ar sem ninguém…


........................para ver a luz é preciso
..............................arriscar as trevas.


A blasfémia da memória dos lúzios
....................................o lugar sitiado,


.....................................amor e morte,


.....................................a palavra nua.
João Rasteiro
. Quem me leva os meus fantasmas - Pedro Abrunhosa

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http://www.idt.pt/id.asp?id=p1
http://www.antidrogas.com.br/
http://europa.eu/scadplus/glossary/fight_against_drugs_pt.htm

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ESPAÇOS

Sebastiano RICCI - Fall Phaeton
O desconcerto de deus
IX
todos os machos farão de forma metódica o luto e no entanto cada um deles será um corpo anómalo e irredutível no principio das noites enquanto as lágrimas continuam brancas e indecisas. mas é certo que os céus arranjarão outras têmporas para recolherem os pássaros que habitam as bocas das mulheres fechadas sobre estacas divinas. sob a contínua obscuridade a contorção benigna da raiva e do abstruso corpo maravilhosamente efémero até à oblíqua exactidão das gargantas. e em cada estertor floresce um indício de bem-querer atravessando a extremidade dos ganchos onde se delonga a geometria dos aromas e os sulcos do sangue. sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas onde se abrem à fortuna a brecha da pupila e o agudíssimo timbale porque ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril.
João Rasteiro
Placido Domingo - Granada

domingo, 22 de junho de 2008

ESPAÇOS

O desconcerto de deus

I
.a lâmina arfou sobre a dicção do seu canto no flanco disponível da fêmea ungida em sua extremidade viva. alumbrado o seu sangue esguicha nas minhas mãos acesas nos prumos nocturnos do estio. e não rastejas ainda no pó sedutor da terra redimida nas esporas do ocidente. a carne sem vida e misericórdia excita-se dobrando o verbo contra o barro como um feixe de ardósias negras. agora sabe apenas à coalescência dos líquidos e há uma flor demasiado hirta e mulheres como varas espavoridas e risos aterrorizantes de animais com cio. e o céu brilha sumptuoso em suas cabeças de víboras admiravelmente impuras e sublimes. dirás as paisagens como os especados anjos que despojam crianças dos sonhos dos besouros escondendo-lhes as conchas das lágrimas. a profecia das mulheres adúlteras e das concubinas com fala revelou-se como os frutos que flutuam sobre o bojo inclinado das auroras embebido entre os sexos alegóricos e o fuso alucinado da divindade. as vísceras escorrem da boca umas das outras como cobras de cabeças voluptas e contemplativas em seu útero. o desejo das mãos iluminado por todos os outros desejos das garras dementes na ruína das coisas sem dimensão amou as arestas das carótides na indivisa cópula dos corpos inquietos. é o equilíbrio monstruoso.
João Rasteiro
L. Pavarotti - Ave Maria - Schubert

quarta-feira, 18 de junho de 2008

ESPAÇOS

Delimitação da lágrima

Cada morte tem um corpo flor dentro da boca
das primaveras que pulsam o movimento do voo
e em toda a sua dilatação uma garganta alagada
com outra morte no centro do coração centrípeto
porque a vida ascende o seu útero entre espaços
que ferem os tímpanos dos desmemoriados lírios
e dos lábios aguçados como o fruto nu e mastiga-o,


a morte conquistadora tem um potencial infinito
de criação e ébrios desabrochamentos de pomares
quando a pulsação súbita sob os alcantis da lágrima
se esmaga sobre todos os fluidos onde urde o amor
e os dentes ainda são a majestosa nudez dos líquidos
a sede do gole ajustada no sexo dilatado dos corpos,


quando aqui amares sabereis o paladar do relâmpago
aprendereis a cintilação do sangue eriçado às golfadas
abrindo-se casulo que se permite vida pelo sopro único.


As restantes epístolas oblíquas são as crias do coração.
João Rasteiro
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CÁLICE - Chico Buarque & Milton Nascimento

domingo, 15 de junho de 2008

Rotas

Geografia dos anjos

Quando um coração escalda secreto em lava
o interior dos animais prodigiosos fica distendido
como metástases na extensão do gelo – e então
abre-se uma geografia de vozes de anjos genuínos
alucinados antes da primeira utopia trémula de cio
irromper como girassol.
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Os líquidos confundindo-se
profecia na intimidade da criação em seu testamento
tóxico – o amor como corpo enxameado às bocas
cozidas desses lábios únicos de granito contra o regaço
da chuva que apazigua a fúria dos relâmpagos floridos
pelo poder único:
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assim repudiaram-se em sangue nos rasgões subtis
da sílaba.
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Negaram-se tensos nas manhãs infundidas
de pétalas alquímicas sob céus cérvicos - a felicidade
é uma cabeça voluta que na periferia dos corpos
reúne os predadores de todas as coisas que se alimentam
na compaixão das vísceras – desde então os pássaros
desprezam a porta das árvores porque neva ferozmente
dentro dos frutos.
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O eterno bolor das paisagens é um odor
demoníaco sob o silêncio ensimesmado de memórias.
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O amor renova-se em si mesmo, na sua íntima escuridão:
o lugar fá-lo vermelho.
João Rasteiro
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Amy Winehouse- You Know I'm no good

sexta-feira, 13 de junho de 2008

FERNANDO PESSOA - O Poeta é um fingidor...

Assinalam-se hoje os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o no seu livro The Western Canon ("O Cânone Ocidental"), ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX.
Pessoa, foi o primeiro português a figurar na Plêiade (Collection Bibliotèque de la Pléiade), prestigiada colecção francesa de grandes nomes da literatura.Sobre os poetas em geral, Octavio Paz (poeta mexicano), Prémio Nobel da Literatura diz que “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia”; sobre Fernando Pessoa em particular, acrescenta “nada em sua vida é surpreendente — nada, excepto os seus poemas”.
Toda a vida do poeta foi dedicada quase exclusivamente a criar e a criar essencialmente vidas outras através de seus heterônimos, o que foi a principal característica da sua escrita e da sua poesia. foi essa criação em suas múltiplas formas que motiva e desperta o interesse por Pessoa. Alguns críticos questionam mesmo se Pessoa realmente teria alguma vez transparecido o seu verdadeiro eu, ou se tudo não teria passado de mais um produto da sua vasta e extraordinária criação.
Como curiosidade, numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer ao encontro.

Deus
Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
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Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.
Fernando Pessoa
Se Depois de Eu Morrer
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
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Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.
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Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro .

Mar Português - Fernando Pessoa

http://www.revista.agulha.nom.br/pessoa.html

http://pessoa.mdaedalus.com/index.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

P.S. - LANÇAMENTO: solicita-se a visualização do seguinte link:

http://www.euxz.blogspot.com/