domingo, 16 de novembro de 2008

A VIAGEM

José Saramago (n. Azinhaga - Ribatejo, 16 de Novembro de 1922) é ficcionista, roteirista, dramaturgo e poeta, tendo sido galardoado em 1998 com o Nobel da Literatura. Ganhou vários prémios em Portugal e no estrangeiro, tendo em Portugal também ganho o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. José Saramago é considerado por muita da crítica o principal responsável pelo efectivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Acaba de ser editado o seu último livro, “A Viagem do Elefante”, provavelmente um dos melhores e talvez o melhor livro que escreveu depois de receber o Nobel.
Sobre a epígrafe do livro, o prémio Nobel da Literatura português sustentou que esta "é muito clara quando diz 'sempre acabamos por chegar aonde nos esperam'". "E o que é que nos espera? A morte, simplesmente. Poderia parecer gratuita, sem sentido, a descrição, que não é exactamente uma descrição, porque é a invenção de uma viagem, mas se a olharmos deste ponto de vista, como uma metáfora, da vida em geral mas em particular da vida humana, creio que o livro funciona", explicou. É novamente Saramago no seu máximo esplendor, restando saber se é mais um livro ou o seu último, como o próprio já se questionou. Do seu livro de poesia, “PROVAVELMENTE ALEGRIA", o poema:
Poema para Luís de Camões
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Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.
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Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.
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A flor mais grande do mundo - José Saramago e Emilio Aragón

http://caderno.josesaramago.org/

http://www.secrel.com.br/jpoesia/1saramago.html

http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art270371,0.htm

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

The begining

No princípio era o crime

No princípio era o crime, o crime limpo
que do caos em suas bocas de virgens
extraía todos os corpos da órbita coaxial
e nos ímanes os corações das palavras
que nos sustentam – ele fluiu, originando
os limites nus do mundo, a vida e a morte
nos primeiros caracteres de magia negra,
o êxtase urdido na paixão do sofrimento
e todas as pragas irromperam dos espigões,
os ecos carbónicos da demência, as raízes
que amavam as nascentes dos deuses vivos
toda a terra fervilhando em matéria sublime.
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No princípio era o crime, o crime que da chuva
fornecia a força das lágrimas, espaço de febre
em sua arte de ser flor, o perfume das distinções
da metamorfose do lírio, hoje, apenas, a poesia.
João Rasteiro
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Bob Dylan - Masters of War

sábado, 8 de novembro de 2008

"Ninguém escreve como eu"

Foi recentemente editado o último livro de António Lobo Antunes, "O Arquipélago da Insónia". Trata-se "apenas de mais uma" das obras extraordinárias, talvez de um dos três únicos ficcionistas portugueses (conjuntamente com Saramago e Agustina) merecedor de ganhar o Nobel da literatura na segunda metade do século XX. Em poesia ainda ouso sonhar com o Nobel para o Herberto. Como referiu Mário Santos no Jornal "O Público", é «Um livro magnífico e, ainda por cima, comovente. [...] o virtuosismo de uma escrita eficazmente inclinada para o fôlego e o rigor rítmicos da grande poesia.»
E é também por mais este livro e o seu encantamento, que se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que J.M.G. Le Clézio (Nobel da Literatura de 2008) disse a propósito dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux: «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.» É um livro que nos sufoca e alimenta, porque como se diz no livro, "se uma pessoa não tem mortos não tem vivos também". E para completar de forma emblemática o post de hoje, um poema de António Lobo Antunes, até porque Portugal anda mesmo muito constipado: "A gripe e os homens..."
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Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
"O Arquipélago da Insónia" de António Lobo Antunes

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Anjos e demónios

XII
.sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas aonde se abrem à fortuna as orquídeas. a brecha da pupila. o agudíssimo timbale é um bálsamo pois ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas demasiadamente vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril. a fragmentação do coração. e a ternura dos labirintos são beijos de metáforas como uma trepadeira oferecidos por judas. mais uma vez em nome do criador dos ciclos. os mapas envoltos em sua túnica e asas de ébano límpido.
........................................João Rasteiro
. Sérgio Godinho - Dancemos no mundo

sábado, 1 de novembro de 2008

UM ANO

Faz precisamente hoje um ano que o blogue "No Centro do Arco" começou a respirar. Tempo curto, mas simultaneamente tempo longo na blogosfera. No entanto, ainda se mantêm os gumes e as labaredas do fogo que sustentaram a sua criação. Por isso, o diacrítico das palavras continuará por mais algum tempo por aqui., mesmo se com uma ligeira "roupa" nova. Por outro lado, terminado que foi este percurso de um ano, também terminou a votação do poeta mais importante das últimas décadas em Portugal. Da luta acesa no início, entre Herberto Helder e Mário Cesariny, este veio a ser o mais votado, daí a justa homenagem com os poemas " Faz-me o favor..." e " Onan dos outros" - a pintura também é sua. E porque o seu modo de saborear a vida, foi idêntico ao de Cesariny, uma música de um dos grandes músicos portugueses das últimas décadas - António Variações. Chamo a atenção de uma nova votação ao fundo da página - Qual o livro de poesia mais marcante do século XX em Portugal? Estes foram a minha escolha, mas, se quiserem sugerir outros, ou pelo Email, ou nos comentários, eu passado algum tempo, introduzirei mais dois livros na votação. Obrigado a todos os que passaram pelo blogue, mesmo não concordando com o que publiquei ou afirmei, mas é sempre nas diferenças que se constroem as igualdades e o futuro. Porque como afirma e canta A Ramos Rosa: "Apenas quero escrever/ o que não precisa de ser escrito/ para que possa acontecer". Obrigado.
Faz-me o favor...
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Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
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É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
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Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
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Onan dos outros!...
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Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou garça mão que se ansa
Varonil e vazia.
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O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram
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Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sóis.
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In, Mário Cesariny - "O Virgem Negra"
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António Variações - É P´Ra Amanhã

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/cesariny.html

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Marcas de urze

A editora Cosmorama acaba de editar a primeira obra de Catarina Costa, "Marcas de urze". Este livro é o resultado do Primeiro Prémio de Poesia Guilherme de Faria, 2007/2008, promovido pela Cosmorama. Catarina Costa que já publicou vários poemas e efectuou imensas leituras públicas no âmbito da "Oficina de Poesia" da Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra, que integra já a alguns anos, apresenta-nos uma primeira obra, que embora ainda possua ligeiros desiquilíbrios, já possui aquela "força" que nos atrai para o/um livro, para os poemas, para as palavras e o seu diacrítico.
Penso que poderá ser uma boa surpresa este livro de poesia, inclusive, como já foi referido, porque se trata de um primeiro livro. Do livro que se divide em quatro partes: "o que enterras", "aquele que pesa o ábaco", "não sabemos quem ela foi" e "esses que se arrastam", seguem-se os seguintes os poemas:
.......................................................................................
o que enterras é ainda deste lado da abundância
.
sobre os túmulos articula-se a percepção das vigílias
enquanto a ampulheta deixa cair a pérola corrediça
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nas regiões que moem prosódias
a numeração das covas já não é a única arte que conheces
e por fórmulas que vertem interiormente
meditas a gnomónica
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ao pasaares pelos meteoritos
descobres onde os ferreiros escondem o relógio de sol
que clarifica tua partida para o segundo acampamento
..........................................///.................................
rastejam numa cena bíblica
com estábulos que se abrem ao lúmen
e vacas que se adensam
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a terra está em pose prodigiosa
porém nada se transfigura
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-a palha empalidece verídica
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não é um fresco
mas sim um fotograma
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embora olhem para nós desde a adoração
rastejam com a veemência deste século
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Madredeus - O Pastor

sábado, 25 de outubro de 2008

Nas margens do Tormes

Agora que o Francisco Curate anda por terras do Tormes, sorrio lembrando-me da minha estadia em Salamanca em 2005, no âmbito do lançamento da bela antologia "Cánticos de la frontera", coordenada pelos poetas e amigos Alfredo Pérez Alencart e António Salvado e das memoráveis leituras efectuadas por todos os poetas na Casa de las Conchas, coloco hoje no blogue um poema publicado por mim na revista "Papeles del Novelty", revista que é editada pelo mais antigo e famoso café de Salamanca, situado na Plaza Mayor, homenageando os Miguéis e naturalmente a extraordinária e mágica Salamanca e a frescura divina do Tormes. A música também é de um amigo Salmantino, o trovador Gabriel Calvo.

Na rota dos faunos
......................A Unamuno e Torga
1.

Em Agosto, a cidade tem o nome acorrentado
à pedra acesa que vislumbra a luz dos poetas,
vieram dos trilhos onde os animais respiram
as juras sagradas da liberdade que aprisiona.
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2.
Pela tarde, o sol rasga a ferocidade da muralha
obstinada, Tormes cerca, lentamente, enquanto
se vai cerrando o coração das aves e as bocas
da Plaza Mayor. O que as cores embrionárias
alienavam só a palavra alteia nas veias, agora.
Todos os lugares regressam sísmicos, mesmo
a noite que conjectura os olhos das serpentes
com sede. A cidade cega persiste junto à cal.
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3.
De puro oiro é a cidade, e de pedras que ferem
adornadas as estirpes da Casa de las Muertes, só
o sangue aflora das cânulas dos ancestrais livros
que abrigam o sopro dos sete poemas revelados
pelas fábulas, pela quimera opulenta dos Migueis.
.
4.
E a noite brota a blasfémia das pedras arrosadas,
o assombro das águas, o augúrio das vozes nuas,
o universo absoluto percorrendo a peleja do verbo.
.
5.
Têm agora a idade das pedras, a paixão da sílaba
na arquitectura dos sulcos, aberta sobre o mundo.
...................................................João Rasteiro
In, Papeles del Novelty - Revista de creación y mantenimiento, nº 17, Salamanca, 2008
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Gabriel Calvo

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Antropofagia

Oswald de Andrade: São Paulo, 11/01/1890 - São Paulo 22/10/1954, foi um poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Foi um dos grandes promotores da Semana de Arte Moderna de 1992 em São Paulo, tornando-se um dos nomes fundamentais do modernismo literário brasileiro. É considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo e o autor de dois incontornáveis manifestos modernistas:O Manifesto da Poesia Pau Brasil e o Manifesto Antropófago. As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também de forma intensa diversas áreas da criação artística: na música o tropicalismo, na poesia o movimento dos concretistas e na área teatral, grupos como Teatro Oficina e Cia.

Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela

E perguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

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Minha terra tem palmares
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

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Erro de português
Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
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Há poesia


Há poesia na dor
na flor
no beija-flor
no elevador
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sábado, 18 de outubro de 2008

Divindades

Deus por deus
.................A Eduardo Lourenço
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Mas o poeta, o alucinado e incandescente poeta,
revestido de sílabas – poucas – aparentando o tempo,
uma breve autoridade, poeta preso nas cidades vastas,
mostrando as suas habilidades perante a ânsia dos céus
dentro de muralhas que devaneiam o diacrítico do mar,
o exacerbado poeta, ingenuamente concebe o sussurro
das pétalas de rosa azul que nunca ninguém ousou criar
porque os deuses julgam-se imutáveis na luz do espelho.
.

Os antigos trovadores invocavam as musas sob as luas
Shakespeare, o pequeno e terno irmão de Deus, aquele
imortal que viu a obra duplicar fantasmagoricamente no
oitavo dia da criação, rogava diariamente a seu irmão,
ele, o poeta da cidade, o que amplia criação à realidade,
à criação urbana, renovando o mundo em suas nuas leis
do circo urbano, a arena onde nos digladiamos no desejo
nós, os mais altivos e singulares leões de nós mesmos,
invoca-se a si próprio, deus díspar da única criação, a
obra da ironia da linguagem e da melancolia do verbo,
mas como sei que não aparecerá nas rotações do poema,
em raro ensejo de lucidez irrompe os espaços e conceitos
deita fogo a todas as suas recentes e geniais criações
de pétalas de rosas azuis e galáxias de cristalina garganta.
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Quando as muralhas se abrirem ao mar e aos raios do sol
o poeta da cidade, não se invocará omnipotente em vão
e descansando entre divinos anjos e animalescos humanos
contemplará a absoluta redenção do caos por si criado
e cantará a devastação das lágrimas da tristeza e da alegria
onde floresce o dialecto assimétrico das novas gramáticas
porque a purificação do caos é tão assombrosa e excitante
como o paraíso primordial de onde nos julgámos expulsos
devido à linguagem da única arca de Noé que sobreviveu.
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Hoje, o poeta da cidade emprega artifícios e não magia
tentando tornar visível a efémera ostentação de si mesmo
no manto doirado da poesia – esse trama em que o mundo
se construiu – e repudiando Cavafis, quando este cantava
os acúleos bárbaros em seus lamentos – "aquela gente era
uma solução"
– porque das guelras um anzol trepava ao céu.
João Rasteiro
Pedro Abrunhosa - A cada não que dizes

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Anotação do Mal

Na semana passada, ficou a saber­‑se que o prémio de ficção do PEN Clube foi este ano atribuído a Jaime Rocha, com o livro: Anotação do Mal. Foram ainda atribuídos os seguintes prémios:
Poesia, Helder Moura Pereira, com Segredos do Reino Animal e Daniel Jonas, com, Sonótono.
Ensaio, José Vitorino de Pina Martins, com, História de Livros para a História do Livro e António M. Machado Pires, com, Luz e Sombras no Século XIX em Portugal.
Primeira Obra, Francisco Camacho, com, Niassa e Maria Helena Santana, com, Literatura e Ciência na Ficção do Século XIX.
Jaime Rocha, hoje sem qualquer dúvida, uma das vozes mais importantes do nosso meio literário, quer seja ao nível do teatro, poesia, ficção ou ensaio. No domínio da poesia, obras como Os Que Vão Morrer, (2000), Zona de Caça (2002), Do Extermínio (2003), Lacrimatória (2005), Homem Branco Homem Negro (2005) Anotação do Mal(2007), só para enunciar as mais recentes, fazem de Jaime Rocha já um nome marcante da poesia e literatura portuguesa em geral. Do livro Lacrimatória (2005), o poema Lacrimatória 41:
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Depois, o guerreiro vai à sua procura caminhando
por um fosso, enquanto a mulher, meio estátua,
meio visão, o aguarda para lhe entregar os venenos,
despindo-se, atraindo os morcegos. Um fio de cobre
ilumina-lhe os ombros, o mesmo fio que traz o vento
e a música para dentro do seu corpo, mas o desejo
dela é ficar emparedada, presa a um castanheiro,
longe dos ruídos das fogueiras. O homem uiva no
pequeno pátio à entrada do mausoléu. Sabe que a
memória da mulher é como um véu que cai do tecto
para o abrigar. Ele é o único homem que habita a
ilha onde jaz o seu corpo. Por isso, a sua dor é oculta,
aproxima-se do frio coberto de lágrimas vazias. Já
não lhe interessam os anjos, nem a dança dos peixes.
Só o mármore e os pássaros negros.
Jaime Rocha
Madredeus - Não muito distante

sábado, 11 de outubro de 2008

O CÂNTICO das PRAGAS (Vídeo e poema):


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O Cântico das Pragas

É das palavras
que irradia a morte soberana
os lugares sitiados, a blasfémia do silêncio.
Todos morrem nas palavras disponíveis
apenas os corvos tristes
a quem soldaram o bico com prata
suspendem a morte
no branco das túnicas da água visível.
É nesse espaço
onde antes iam os homens sedentos
alimentar a fractura das vísceras
comendo de rastos com as cobras
que a chuva cai geométrica
estilhaçando o alastro das gargantas
que guardam as sílabas com aroma de tílias.
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O homem está morto dentro do poema
como a linguagem das antigas escrituras
e é o seu corpo que brilha através do branco.
As cobras emergem do chão
abrigam-se nas túnicas álgidas
e aproximam-se do corpo do homem exposto
iluminadas em sua própria loucura.
Engolem os restos da carne corrompida - mas,
inexplicavelmente poupam-lhe os olhos -, depois,
saboreiam o que lhes vai consumir
para sempre a língua, o coração das entranhas.

O segredo absoluto e divino do extermínio do verbo.
João Rasteiro
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http://www.ces.uc.pt/novaspoeticas/pages/portugues/homepage.php
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/search/label/Jo%C3%A3o%20Rasteiro
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A sílaba de fogo

Herberto Helder, considerado um dos maiores poetas portugueses vivos, (para mim, sem dúvida o mais original e perturbador) publicou esta quinta-feira um novo livro, intitulado "A Faca não Corta o Fogo -- súmula & inédita", com a chancela da Assírio & Alvim.

O volume, que reúne uma parte de reescrita da sua obra anterior e alguns inéditos, possui 207 páginas de poesia e uma extraordinária capa ilustrada por Ilda David, em tons de azul e amarelo.

De Herberto Helder, um poeta que deu a última entrevista em 1968, ("o poeta obscuro") e que recusou o Prémio Pessoa em 1994, vive em auto-reclusão e de si pouco se sabe, para além de que se chama Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, tendo nascido no Funchal, a 23 de Novembro de 1930, e residindo actualmente em Cascais, com a mulher, Olga.

De 1954, data a publicação do seu primeiro poema, em Coimbra, na "Cabra", tendo posteriormente publicado também em Coimbra, na revista "Êxodo", talvez o seu primeiro ensaio literário.

Em 1958, publicou o seu primeiro livro "O amor em visita" e em 1961 e 1962, editou os livros "A Colher na Boca", "Poemacto" e "Lugar". Em 1973, publicou "Poesia Toda", reunindo a sua produção poética até à data, e fez uma tentativa falhada de publicar "Prosa Toda".

Depois de "mundear" por países como a Bélgica, França, Holanda, Angola ou Estados Unidos, volta a Portuga depois do 25 de Abril e depois de voltar a publicar, nos anos seguintes, mais algumas obras, entre as quais "Cobra" (1977), "O Corpo, o Luxo, a Obra" (1978) e "Photomaton & Vox" (1979), remeteu-se ao silêncio, a um silêncio avassalador, mas simultâneamente mítico.

E dele falou, numa carta enviada em 1977 à revista Abril, endereçada a Eduardo Prado Coelho: "O que é citável de um livro, de um autor? Decerto a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio".

Por isso, pediu aos amigos que não falassem dele num documentário que António José de Almeida pretendia realizar para a RTP2, em 2007.

O documentário, "Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro", acabou por ser feito, mas apenas adensou o mistério em torno da figura do poeta, já que 17 das 29 pessoas contactadas pela produção se recusaram a dar o seu testemunho.

Da sua poesia, escreveu algo deslumbrado, o crítico literário Jorge Henrique Bastos, no livro " O corpo O lucho A obra" e responsável pela primeira edição brasileira da poesia de Herberto Helder publicada no Brasil, em 2000, que o poeta "impulsiona a viva encantação das palavras [e que] o abalo que a sua poesia provoca é um dos mais profundos que a literatura de língua portuguesa já sofreu".

Mistério, que por vezes é quebrado da forma mais surpreendente, quando sem ninguém esperar, escreve, essencialmente respondendo, a cartas de amigos, mas, também de desconhecidos, aqueles absolutos e eternos admiradores da sua poesia, e do qual este escriva é testemunha de tal facto na primeira pessoa.

Sobre o novo livro de Herberto Helder, disse o poeta Gastão Cruz à Lusa: "Não sei o que espero, somente que se situe, como decerto acontecerá, no nível da sua restante obra poética".

(...)

Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça

olha a loucura com seu nome: indecifrável cego.

Resistência - "Chamaram-me Cigano"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A recordação imaginada: Mito e Poesia

(…) Só duas experiências tornam os seres humanos capazes de participar na verdade-ficção, na metáfora pragmática de eternidade, da libertação dos decretos de dissolução do tempo biológico e histórico, ou por outras palavras, da morte. O primeiro caminho é o das crenças religiosas autênticas para os que a elas se encontram abertos. O outro é a via estética.
São a produção e a recepção de obras de arte, no sentido mais amplo, que nos permitem participar na experiência da duração, do tempo libertado. Sem a arte, a psique humana teria de enfrentar na nudez a extinção pessoal, dando lugar a uma lógica de loucura e de desespero.
É a poeisis (a par, uma vez mais, da transcendência da fé religiosa, e muitas vezes de algum modo em ligação com ela) que autoriza a desrazão da esperança.
Neste sentido de um alcance imenso, as artes são mais indispensáveis aos homens e às mulheres que o melhor da ciência e da tecnologia (são inumeráveis as sociedades que longamente perduraram sem elas). A criação nas artes e na actividade filosófica é, no que se refere à sobrevivência da consciência, de uma ordem diferente da da invenção nas ciências. Somos animais cujo sopro vital é a dos sopros contados, pintados, esculpidos ou cantados.
Não há, não pode haver, nesta terra uma comunidade, por mais rudimentar que sejam os seus meios materiais, sem música, sem uma outra espécie de arte gráfica, sem essas narrativas da recordação imaginada a que chamamos mito e poesia. Há, de facto, verdade na equação e no axioma; mas é uma verdade menor. Estará, porém, a verdade maior das artes segura na maneira como a conhecemos e vivemos até hoje? Terá a poeisis o seu futuro clássico?
In, George Steiner – “Gramáticas da Criação” (pg. 287, 288), Relógio D`Água Editores
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Chopin Nocturne Op 27 No 1 - Maria Joao Pires

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Desatino

Quero um poema tão real quanto o Colosso de Rodes

O silencio metamorfoseou-se assim de luz:
por um lado, a sílaba da magnólia virgem,
por outro, orquídea azul de cetim genuíno,
espaços de deuses em labirintos fossilizados.
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Poema, morte e vida desejando-se bilingues
de bocas e sexos, a proliferação barroca, vozes
em módulos acesos de vocabulários, graciosas
estátuas escorriam mudas dos cabelos de hélio.
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Língua: por um lado, enxurrada incandescente,
garganta atravessada; por outro, pássaro contíguo.
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Corpo: também é trovão, temporal de primaveras,
fingimento, verbo, criação (refúgio no tímpano).
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Recriar a língua em seu aguçado silêncio
será sempre desrecriar-se biografia imperfeita
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do eu, estar desnudo: estátuas, estátuas, poesia,
o eco, tudo o que aniquila a inflorescência da voz.
João Rasteiro
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Pink Floyd- Comfortably Numb

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http://fotoseliteratura.blogspot.com/
http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/

domingo, 28 de setembro de 2008

A experiência existencial da sílaba

André Breton (Tinchebray, 19/2/1893 - Paris, 28/9/1966), foi um escritor francês, poeta e teórico do surrealismo.
Vive a aventura do surrealismo como uma profunda experiência existencial. Em Valéry descobre o poder subversivo da inteligência pura. Por volta de 1920 adere ao grupo Dadá, mas logo de seguida se opõe a Tzara. Descobre o automatismo como meio de renovar e inovar a arte e lê com desmesurada paixão Rimbaud e Lautréamont. Em 1924 lança o Manifesto do Surrealismo, um marco e uma profunda revolução, na forma de olhar a arte em geral
Animado por uma imensa e ardente vontade de acção, a sua rebeldia inata leva-o a posturas revolucionárias. Publica as revistas La Révolution Surrealiste e Le Surréalisme au Service de la Révolution. Mas como o surrealismo não pode submeter-se de todo, as suas relações com a política e o Partido Comunista em especial, são sempre delicadas.
O encontro amoroso com Najda e a experiência vivida com esta jovem mulher inspiram-lhe a escrita de Nadja, que é a única obra verdadeiramente grande de Breton. Peça interessante e característica do surrealismo é também O Amor Louco.
(THE TRIUMPH OF ANDRE BRETON and SURREALISM by SHAHLA ROSA)
Um homem e uma mulher absolutamente brancos

Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se
nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas
onde elas caminham Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas
banham a sombra dos seus bicos
A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem

Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo
que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul.
In,(tradução de Antônio Ramos Rosa)
.
Ne Me Quitte Pas - Jacques Brel



http://www.nodo50.org/insurgentes/biblioteca/manifesto_surrealista.pdf

http://kirjasto.sci.fi/abreton.htm

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=5&p=130

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Blowin' In the Wind


Alma
.................não sossegues o homem, deixa

................deus aterrorizá-lo

.................mas vender-lhe a alma, nunca

........................
.valter hugo mãe
.

Há poetas mortos na sílaba dos cães raivosos.

.

Uma criança atravessa a cidade entre poemas

e a paixão há-de alastrar como chumbo aceso.

A boca do coração explodindo esquírolas.

E coloca o sexo perto da traqueia do mendigo

..........................................vermelho – o sol

das raízes-de-cobra libertando-se do casulo urbano.

.

Duas crianças contornam a boca das máscaras

sob um cântico de besouro no sonho obscuro

..............................................E acordam

com o seu próprio milagre – ele

a erupção das ancoras-crias-língua de sangue.

.

Três crianças dobram os dedos dos girassóis azuis

curvam-se corpos como pontuação viva

na linguagem da terra

......................a cânula-esquife da sílaba E

desenraízam do poema

....................Os cavalos da nudez do mármore

....................Os líquidos da colmeia curvada

....................Os espelhos do linho dos vermes

....................Os homens que têm o sol pendurado nos olhos

...........................................................a

............................................................l

...........................................................a

...........................................................v

...........................................................r

...........................................................a

..................Do desejo perante o vazio – o barro

da árvore E o fruto e o seu fugaz percurso de paixão.

..................O corpo e a Alma

..................................A unidade originária da borboleta

......consumida em seu centro explosivo - eu estou nesse lugar nu.

....................................................................João Rasteiro

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Bob Dylan - Blowin' In the Wind




domingo, 21 de setembro de 2008

Publius Vergilius Maro

Foi em 2003 que me foi atribuída pela Accademia Internazionale IL CONVIVIO a Segnalazione di Merito, na área de poesia, no Concurso do Premio Internazionale Il Convivio "Publio Virgilio Marone". Este prémio que foi entregue na Sala do Cenáculo, da Câmara dos Deputados do Parlamento Italiano, será, logicamente, algo que ficará para sempre na minha memória.
Públio Virgílio Marão (em latim Publius Vergilius Maro), às vezes chamado de Virgílio, (Andes, 15 de Outubro de 70 a.C. - Brindisi, 21 de Setembro de 19 a. C..

Foi precisamente há 2078 anos (se as contas tradicionais não estiverem erradas) que nasceu um dos grandes poetas e pensadores da Antiguidade, aquele que Paul Claudel, fascinado pela obra e pela figura do poeta, apelidou de o maior génio produzido pela humanidade e que mais do que um poeta, um profeta de Roma, um "vate", um poeta-profeta. Virgílio foi o cantor da tradição, criadora e conservadora da grandeza de Roma. Fez em verso aquilo que Tito Lívio (Pádua, 59 a.C. - ib. 17 d.C.), com o seu Ab Vrbe Condita, tinha feito em prosa. Considerado o maior poeta latino, a sua obra mais famosa, provavelmente uma das obras eternas da literatura e da linguagem, é a Eneida. A obra de Virgílio compreende, além de poemas menores, compostos na força da juventude, as Bucólicas ou Éclogas, em número de dez, em que reflecte nitidamente a influência do género pastoril criado por Teócrito. Literariamente, as Geórgicas são consideradas a sua obra mais perfeita. E finalmente, a Eneida, que o poeta considerou inacabada, a ponto de pedir, no leito de morte, que fosse queimada, e que constitui a epopeia nacional de um povo e de um território. Epopeia erudita, a Eneida tinha como objectivo proporcionar aos romanos uma ascendência não-grega, formulando a cultura latina como original e não tributária da cultura helénica. A sua estrutura serviu de modelo definitivo às grandes epopéias do renascimento, nomeadamente para Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

O poema que se segue é uma poesia muito ao gosto dos alexandrinistas, é uma poesia cheia de fina ironia.

Ide-vos daqui, ide, ocos empolamentos de retórica
palavras inchadas com estalhadarço não ático
E vós, o Célio, ó Tarquício, ó Varrão
Corja de pedantes a pingar de gordura
Ide-vos daqui, címbalo louco da minha juventude.
E tu, ó Sexto Sabino, cuidado dos meus cuidados
fica bem: ficai bem meus caros
Nós levantamos ferro em direcção aos pontos prósperos
Procurando doutas doutrinas do grande Sirão
E libertaremos a vida de todos os cuidados.
Ide-vos daqui, Musa; apre! Vós também ide já
Doces Musas (confessaremos a verdade,
fostes doces): e contudo no futuro
visitai de novo os meus escritos,
mas discretamente e poucas vezes.
(*) - Poema retirado do Blog:
Humanae Litterae


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

THE RIGHT OF WAY

William Carlos Williams (17/9/1883 - 4/3/1963). É um dos mais importantes poetas americanos, normalmente associado ao modernismo e imagismo.

O POEMA

Tudo está
no som. Uma toada.
Raramente uma canção. Devia

ser uma canção - feita de
minúcias, vespas,
uma genciana - algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de uma dama - despertando
centrífuga, centrípeta.

(tradução: José Lino Grünewald)

UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO

Que a cobra fique à espera sob
suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir.

.

- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor (Idéias
só nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

(tradução: José Paulo Paes)


Simon & Garfunkel - Homeward Bound

http://www.culturapara.art.br/opoema/williamcarloswilliams/williamcarloswilliams.htm

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000100006

http://en.wikipedia.org/wiki/William_Carlos_Williams