quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MENSAGEM

O INFANTE
.
Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou creou-te portuguez.
Do mar e nós em ti nos deu signal.
Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
.................................Fernando Pessoa
In, "Mensagem", 10/12/1934, Editora Parceria A. M. Pereira
.


http://faroldasletras.no.sapo.pt/poesia_mensagem.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/pessoa.html

domingo, 29 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VII

Continuando a persistir na publicação dos poetas (7º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Luís Peixoto:
(...)cuja poética não é muito fácil de situar, embora com algumas aproximações a uma poesia do quotidiano, vamos encontrar uma poesia que possui uma espécie de força que é uma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força, não sendo uma poesia que cultive uma forte imagética, mas sim, uma poética que se alimenta de narrativas do dia-a-dia (por vezes é possível encontrar alguma redundância) e da memória. Uma poesia melancólica, quase totalmente despida de esperança, onde os versos roçam a realidade da morte, do amor, da vida, da não vida, do estar estando e do estar sem permanecer. Apontando para um neo-realismo tardio, é uma poesia que procura afincadamente a descrição da realidade de quem se quer livrar dos destinos traçados. Poesia que roça por vezes a prosa, num diálogo permanente com o seu mundo". - João Rasteiro
.
EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.

LIMPAR O PÓ

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens, de novo, numa nuvem.
........................................................J.L.P.
.............AMÁLIA (10 anos de saudade) - Fado Português

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Novos Espaços

................BRUNO PRADO
.
QUANDO não há:
cala!
nem palavra, nem grafia
a mais pura
víscera de poesia —
sangue pelo tato;
embalo —
a vida estrita
é escrita pelo faro
.

A PEDRA BRUTA — atirei-a contra ti
uma floripedra;
cego, as mãos de flamas;
furibundo
a língua árida, irosa
sem aromas,
só espinhos —
a fuga,
périplo de flores
o amor,
na beleza e brutalidade
.

COLAPSO —
uma cidade perdida;
a minha fala
a miséria do dito
pelo fato —
resta a fúria;
o definitivo embate —
quite com o tempo,
entre rito e nada
reergo a fio,
o instinto, a navalha
precipita-se o sangue;
o plural da face —
de fato
o que nos difere,
seres, de mortos
é a carne
.................In, FRATURAS


http://www.triplov.com/poesia/Bruno-Lopes/Liquen/index.htm

http://www.germinaliteratura.com.br/2009/bruno_prado.htm

domingo, 22 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VI

Avançando com a publicação dos poetas (6º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta valter hugo mãe:
(...)"uma poética que de alguma forma se evidencia pela originalidade, em relação a outras poéticas da década de 90. É uma poesia onde sobressai o cuidado colocado em cada palavra, que permite um pleno domínio do poema que se adensa em múltiplos sentidos. Nesta poesia redescobre-se o gosto pelo belo enquanto grotesco. Por vezes, um metaforismo “grotesco” serve de suporte a uma poesia arabesca. Uma poesia de verso contido e lapidar, quase sempre à direita da página e que é um fruto maduro e arrebatador. Como refere Eduardo Pitta, a dimensão conotativa afasta valter hugo mãe de outros novíssimos: nem melancolia programática, nem misticismo (malgré Deus), nem excesso de complacência". - João Rasteiro
.
dois.
.
se te cansares de mim, não me peças que
chore. deixa-me secar lentamente como
pelo tempo, mais me custará, porque mais
lento verterei a alma para a morte. no entanto,
dá-me esperança de que não partirás,
aguardo-te muito quieto, muito quieto
para não atrapalhar os teus planos como quem
não quer assustar a caça. mas sou a presa,
eu sei que sou a presa. e tu podes vir reclamar-me
o couro com toda a violência, já não me importo
.
cinco.
.
deixei sobre a mesa o dinheiro
que necessitas para o dia. espero que te
sirva para o almoço e para qualquer
coisa ao lanche. desculpa. amanhã, como
é domingo, venderei os pães na igreja,
quem sabe me dará deus valor suficiente
para manter o amor. se amanhã houver
mais dinheiro, mais um pouco que seja,
compro o teu prato, os teus talheres,
um copo onde te sirva a água simples.
volta cedo, peço-te, volta cedo, como
não sei nada sobre decisões divinas
quero só não perder-te em tempo
além do impossível. vem comigo ver
o que é feito dos gatos que deitamos ao
campo. achas que estarão gordos ou
terão morrido. eu acho que estão gordos,
se deus quiser
.....................................v. h. m.
....................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Gaivota

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lugares estranhos

...............................Michael Cheval

COLMEIA
..................Ao Gastão Cruz

Na juba da boca quando as palavras
não forem senão a saliva das larvas
há um excesso de língua atravessada
na sombra adolescente de Yanis Ritsos,

no espaço onde a reminiscência é avidez
no sulco mais longínquo da lascívia
alma minha gentil dos espectros viçosos
és a fonte derradeira dos anjos e suplicas:

arrebatam-me de júbilo a íris das abelhas
irrompam-me o coração por bilhas vivas
brotem-me as profundas raízes siderais.

Há um desejo infundido de livros prenhes
jorrando o hipnótico sopro das geografias
sob um céu diluído pela abertura de um deus

e as vozes murcharão de paixão pelos ferrões
espinhadas pela garganta das crianças nuas.

As construtoras ainda ejacularão o puro mel
fendendo altivas sobre a pele o incesto dos lírios.
................................................João Rasteiro

domingo, 15 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - V

Continuando a publicação dos poetas, pela ordem de inserção na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas seleccionados para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta Daniel Faria:
"(...)é, sem dúvida, para a generalidade da crítica, a voz mais importante da “nova poesia portuguesa” surgida na década de 90 e que se afasta de alguma forma dos cânones até aí vigentes, apesar das influências de uma Luiza Neto Jorge e especialmente de Herberto Helder, e que flui torrencialmente, não só, como uma experiência mística, mas como uma mecânica de escrita depurada e em que a metáfora é o corpo de deus ou da natureza, numa consistente prática de questionamento da linguagem. Poesia intimamente interligada com o texto bíblico, concebe e pratica o lirismo da palavra como exegese da elevação do ser humano acima de si. Como refere Luís Adriano Carlos, Daniel Faria, como qualquer grande poeta da modernidade romântica em que vivemos, procura pela exaltação estética uma via de acesso à exaltação do sagrado e ao reino do espírito. É uma poesia de grande beleza e maturidade que representa uma geração". - João Rasteiro
.
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

.
As manhãs

Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs E madrugadas.

..................................D. F.
.................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Estranha forma de vida

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lugares estranhos

Biografia II

E tudo ocorre na melancolia
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto do corpo
no linho que se alinha à mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífaga
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada
ser bardo
é tocar o fogo
é estar no correr das águas
a tempestade.
Os naufrágios são sublimes
sentimo-nos tão acesos
entre as ilhas
das palavras obscuras, acreditas?
O espectro desatando-se
sílaba que afeiçoa às matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu.
...............................João Rasteiro
..................................................Neil Young - Old Man

domingo, 8 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - IV


Progredindo com a publicação dos poetas, pela ordem de inserção na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois poemas seleccionados para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia, que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta Luís Quintais:

"(...) entre os poetas da “sua geração” Luís Quintais é, talvez, o que se mostra pela poética mais alusiva e referencial. É uma poética que se pode situar nos intervalos encantatórios do quotidiano e da imagética. Poesia culta, reflexiva e filosófica, denotando um percurso urbano e o olhar maduro de um etnógrafo à procura do significativo. É uma escrita que normalmente parte do real para a sua transfiguração. Existe em Luís Quintais a perfeita consciência de que a poesia está, obrigatoriamente, dentro da própria linguagem." - João Rasteiro
.
I

O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.
.
III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.
.......................................................L. Q.
......................AMÁLIA (10 anos de saudade) - COIMBRA
.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Refúgios

........................Adília Lopes: poesia reunida

Os cordéis

Passava os dias a dar nós em cordéis
para desfazer os nós a seguir
não tinha ninguém para a aplaudir
nem esperava Ulisses
mas continuava
aquilo não era um passatempo
os cordéis sem nós
serviam para desfazer os nós
enquanto os embrulhos trouxeram cordéis
as sobrinhas não estranharam
mas quando os cordéis se tornaram raros
lembraram-se de que ela na juventude
fora capaz de seguir cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
como Napoleão era capaz de ditar
dez cartas diferentes
ao mesmo tempo
só que a guerra e os bailes no consulado
tinham acabado
antes que ela se tornasse
uma grande espia
as sobrinhas convidavam forasteiros
e faziam cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
para a distraírem dos cordéis
mas os cordéis absorviam-na
nenhuma conversa lhe importava
as sobrinhas deitaram os cordéis fora
irritadas com aquela obstinação
ela passou a arrancar cabelos
e desfazer os nós dos cabelos
exige mais perícia do que desfazer
os nós dos cordéis
se fosse uma questão de vida ou de morte
seria como despoletar granadas
assim ela só podia perguntar
o que é mais fino do que um cabelo
para eu lhe poder dar nós?
Adília Lopes - In, Assírio & Alvim, 688pg., 2009

SITIADOS (1 ano de saudade do João Aguardela): A Noite

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ad%C3%ADlia_Lopes

http://quintasdeleitura.blogspot.com/2009/11/mais-poesia-de-adilia-lopes.html

http://ofuncionariocansado.blogspot.com/2009/01/adilia-lopes-entrevista-de-carlos-vaz.html

domingo, 1 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - III

Prosseguindo com a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, com dois poemas seleccionados para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia, que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é Rui Pires Cabral:
" (...)as coordenadas da sua poética estão metodicamente traçadas. A memória dos lugares, das vozes, das situações, por vezes um certo desassossego existencial, o exercício da poesia como um treino de morrer e de se estar morto, dando-se à poesia, tal como Sócrates se dedicava à filosofia. Não sendo uma poesia propriamente reflexiva, em Rui Pires Cabral, ela é mais uma poesia do presente inquirido pelo vivido, mas suportado por um pendor melancólico que se suspende antes do abismo e que vive de uma tensão entre a elipse do que se rasura pensadamente, as sensações e a mestria da mão contendo o acúmulo do lirismo." - João Rasteiro
.
MARLBOROUGH DRIVE

Se pudermos estar felizes não será mais bela
a voz do trompetista de Oklahoma? Oh, there’s
a lull in my life. Sim, o amor é triste e o mundo
é árduo e nunca nos serviu como convinha. Mas
nas cercanias da vila, no Volkswagen em segunda
mão, vê como resplandecem os vidros de Marlborough
Drive ao entardecer! Uma ambição sentimental

à nossa pequena escala, prados entre castanheiros,
duas onças de tabaco de enrolar. Que importa
que tudo rode para um fim e que a nossa verdadeira
condição seja morrer um pouco mais a cada instante?
A pele reconhece estas canções, sabe que é Junho,
conhece a estrada que devemos escolher. A pele
é sábia. Por uma vez, que valha a pena morrer.


SENHORES PASSAGEIROS

Alguns rapazes avançam mais depressa
para a morte, mas todos se debatem
com a vida que lhes resta. Às voltas
no cimento das cidades, entre
a estrangulada circulação dos veículos,
segredam ao ouvido de um deus
surdo: concede-me um novo amor
igual ao dos meus irmãos. Entretanto
são mais as raparigas que não lêem livros
no venenoso relento das estações
ferroviárias, chupam rebuçados
de menta com fel, suavemente inclinam
a cabeça para ouvir: senhores passageiros
vai dar início à sua marcha o comboio
com destino a Santa Apolónia da escuridão
.
.....................................................R.P.C.
................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Barco Negro

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Achar sem nunca achar o que procuro"

Portugal

1.
Morreu meu país de sol.
A sua própria geometria. Oblíqua. Prostrada e nua.
Sobre a rotação dos sonhos que se resgatam.
Todas as noites sua ausência se repete
unívoca com sua minúcia celeste no corpo
amplo da neve que anseia a lágrima.
Eu questiono,
mais do que a ausência e mais do que desbaratar
o assombro do assombro
nas margens do vento, a luz tem agora a idade
do mundo bebendo o silêncio, a escuridão
dobrada para si em esplêndida violência.
O medo de ansiar reinventar as ínfimas raízes
do sol em seu regaço – assim, o que será
a morte da fantasia?

2.
Questiono-te, meu país: o que será a morte
da fantasia, a clara hegemonia dos corações tristes
sob os gritos das aves, encontraste o precipício
que procuraste em teu perplexo e altivo desvario?
Encontraste a desumana melancolia da concisão
das águas nas virilhas do remorso de Abril
ou repousas suspenso e gemes sobre o solstício
da boca atulhada em sangue primordial,
o verbo imperceptível ao poema,
o nevoeiro que arqueja ainda em Alcácer Quibir?
Onde se perdem as crias da gestação mais dura,
do total desamor dos seres que concebiam
as vozes puras das vísceras fecundas,
uma cobra de cabeça cristalina desposa os quadris
oprimidos e aspergidos de um país ausente,
que já não impulsiona o impetuoso encantamento
da utopia, os sonhos acesos dentro do tempo?

3.
Questiono-te, meu país: agora, se algumas
coisas são os mortos aprisionados nas estrofes
de Camões, cânticos como se só a poesia
fosse estrela de oiro intacta,
ou se só a utopia fosse um desmesurado verbo
numa espécie de batalha silenciosa
que compreende tudo o que os deuses
e as ninfas traiçoeiras no roteiro dos imensos mares
do sul, não podem realizar tudo o que elas
guardaram sob os seios onde os cravos dão flor,
como um oceano fechado secando
o esquecimento que nenhum oceano detém.
E o meu louco desejo é o trilho salgado
que ficou das gaivotas. O uivo de um navio
onde agora o olhar se perde e era o infinito.
Estas esquivas modelações do tempo: os sonhos
selvagens de um país onde começo.

4.
Morreu meu país de sol.
Eu partirei para qualquer pais de sol. Onde não é.
Onde não subsista a infinita solidão da sílaba muda,
o corpo exacto para lhe ser sangue e flor
e aves alucinadas por entre os mastros de bronze.
O sonho do verbo. Um outro sonho de terra,
ténue, o vulto encoberto de outro canto.
Um novo eclipse no âmago do mundo,
ao fundo do coração. Há-de emergir um país
na visão feroz do rosto dos deuses.
Iminente, em insondável ilusão. Onde não é.
..................................................João Rasteiro

domingo, 25 de outubro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - II

Continuando a publicar os poetas que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, com um longo poema seleccionado para a antologia, conjuntamente com uma pequena análise à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é Luís Serguilha:

(...)"Ele expulsa dos seus textos as associações lógicas e a lógica aristotélico-cartesiana, cultivando, como refere Nelson Oliveira, os nexos descabidos e as incongruências sintácticas e semânticas. E. M. de Melo e Castro afirma, ser a poesia de Luís Serguilha um mar de palavras, imagens, metáforas, intermináveis e diferentemente sempre iguais, podendo os poemas começar e terminar em qualquer delas, em qualquer lugar e tempo. É pois, uma escrita que se oculta numa densa floresta de signos e que obriga o leitor perdido a encontrar o caminho dos significados, tendo para isso de seleccionar e combinar as palavras através do seu sentido pessoal, de forma a encontrar um caminho no labirinto. A interminável busca da palavra que tortura e alimenta". - João Rasteiro

..............................Canário-do-mar

O álcool das fábulas faz latejar a inesgotável glande do navio
onde as posses desvairadas das legiões tecem unicamente o regresso agrilhoado das baleias
coleccionadas pelas válvulas mitológicas do horizonte
aqui as redes pequeníssimas das cerejeiras mecânicas expulsam as insustentáveis sombras-alambiques
que ludibriam o fogo inspirador das gôndolas
Furtivamente os pássaros inebriados agasalham-se nas parelhas soníferas dos pomares
onde todos as equivalências das ondas se estilhaçam
como os esquadros sazonados dos pulmões a escorregarem nos projectos assimétricos das crisálidas solares
Os dedais dos astros devastam as armadilhas garatujadas nos figos rudimentares das congeminações
para exaltarem o segredo das raízes assobiadoras entre as lajes estonteantes do alagamento cinematográfico
e as mandíbulas frenéticas respiram o esmo tumefacto da labareda conduzida centralmente
pelas fisionomias aquáticas das guitarras
Os novelos persistentes das águas estreitam a invernia imaculada dos loucos relógios porque a rebentação da claridade dardeja
sossegadamente os favos-bailarinos da memória
O músico está solenemente encurvado na indefinível epopeia
ondulando numa submersão distinta como um ser etéreo na genealogia inquebrantável dum povo
e sobre uma quilha encrespada penteia a sumptuosidade do espaço sonoro com o suor nómada da púrpura melancolia
que alinha a muralha reveladora da consciência aos regaços testamenteiros da essência incendiária
O nenúfar arrebatador do património é a generalização excêntrica dum labirinto cadenciado
é a transferência miraculada das indígenas composições
que enxertam as sequências melódicas dos espectros como se a alma fosse um tigre de esferas lucífugas e doces
Os ecos jazzísticos do cavaleiro nobre oferecem os pórticos constelados das borboletas
entre as crinas preciosas das atmosferas pulmonares
aqui os interstícios desatolados das heranças perseguem os sons rutilantes do sangue
que sucumbem felicíssimos nas invenções químicas da rebelde mestria
é neste berço incomparável de movimentos
que as senhas das gaivotas descortinam a insubordinação da música pura
As baladas da transmutação engolem igneamente as cordas transversais do poema
onde as falésias periféricas do coração missionário balanceiam
sobre os bandos acidentais do Tejo
As guitarras intermitentes das águas lançam os teares luminescentes no tropel inumerável das pulsações
que atravessam as biografias infusas das catedrais
que imaginam o esconderijo convulso das açucenas
na invocação cirúrgica do relâmpago

(...)

Os ourives nocturnos das marés abobadadas os ímans secretos dos astros
e as esporas fulgurantes do guitarrista suturam juntamente
as rotações das silhuetas dos visitantes
Os desaguadouros recíprocos das águias os solitários parágrafos dos mondadores e os antelóquios musicais das maças
aceram a infância heráldica das vinhas
As orações sazonais dos embarcadouros enclausuram as lendas ciclónicas dos navegadores
para dilatarem os delineamentos hesitantes das constelações
Os sinónimos árcticos dos veleiros-parábolas as coincidências dos periscópios das torrentes e os meteoros intemporais do guitarrista soldam demoradamente
a curvatura fértil do outono na fidelidade equestre da tempestade

Os caçadores de espelhos eternos emolduram a arqueologia das locomoções no desassossego da notabilidade nas ânforas póstumas dos aluviões
e na eremitagem rebelde do guitarrista onde o tear mutante do oceano restaura a verdadeira morada dos
amantes.

........................................................................L. S.
.................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Com que voz

http://www.intensidez.com/AutorLuisSerguilha.htm

http://www.germinaliteratura.com.br/luis_serguilha.htm

http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2009/04/02/luis-serguilha-por-jairo-pereira/

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"Rosa, Minha Irmã Rosa"

A escritora Alice Vieira foi nomeada para o prémio Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA). Trata-se do mais importante prémio internacional para uma personalidade ou instituição no campo da literatura infanto-juvenil.
Alice Vieira, que nasceu em 1943 em Lisboa, é licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e comemora actualmente 30 anos de carreira literária.
É uma, se não a mais importante escritora portuguesa para jovens, tendo ganho grande projecção nacional e internacional. Em 1994 foi-lhe atribuído o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. Já anteriormente tinha sido nomeada para o ALMA.
Recebeu em 1979, o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa, em 1983, com Este Rei que Eu Escolhi, o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil, e em 1994 o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra, como já referi.
Os seus livros estão traduzidos e editados nos seguintes idiomas: Alemão. Búlgaro, Basco, Castelhano, Galego, Francês, Húngaro, Neerlandês, Russo e Servo-Croata.
.
De referir que Alice Vieira também é uma excelente poeta. Aqui fica um dos seus poemas, do livro "Dois corpos tombando na água":
.
8.
“havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer
.
e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas
.
e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar
.
mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios".
................................................Alice Vieira
Pedra Filosofal (António Gedeão) - Manuel Freire

http://www.spautores.pt/PageMembros.aspx?UserCod=0&UserID=822

http://alicevieira.net/bibliografia/bibliografia.htm

domingo, 18 de outubro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - I

Cumprindo o prometido, começo hoje a publicar os poetas que inclui na antologia que organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html). E hoje começo pelo poeta José Tolentino Mendonça, com dois dos poemas seleccionados para a antologia e uma pequena análise à sua poesia, que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje":

(...)"José Tolentino Mendonça aporta uma linguagem pura e cristalina, em que se procura a precisão do vocábulo. Possuidora de uma intertextualidade com os textos clássicos e sagrados, a sua poesia reveste-se de um tom quase eloquente que aporta ao sagrado. Poesia que reflecte um certo neo-romantismo de cariz órfico, através de um registo elíptico e atento aos enigmas e abismos do cosmos, desvendando uma imensa sabedoria sobre o caos do mundo. É uma poesia por vezes profundamente jubilatória". - JOÃO RASTEIRO

.
A INfÂNCIA de HERBERTO HELDER

No princípio era a ilha
embora se diga
o espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra
.
O SILÊNCIO

Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas

Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
«a moda substituiu o luxo
pela elegância»

João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes

para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior
a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.

..................................................................J. T. M.

AMÁLIA - (10 anos de saudade): Povo que lavas no rio

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Tolentino_Mendon%C3%A7a

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/jose_tolentino_mendonca/poetas_josetolentinomendonca01.htm

http://www.assirio.pt/autor.php?i=J&id=1353

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A terra das ameixas verdes

Este ano o Prémio Nobel da literatura foi atribuido à escritora alemã de origem romena Herta Müller (n. 1953). Müller nasceu em Nitchidorf, na Roménia, tendo começado a publicar em 1982. Em 1987 foi viver para a Alemanha, onde se consagrou como escritora: vinte e dois títulos, sendo o mais recente "Atemschaukel" (2009). Proibida de publicar na Roménia por ter criticado publicamente o regime de Ceausescu, a escritora emigrou em 1987 para a Alemanha com o marido, o poeta Richard Wagner. Desde que, em 1984 foi distinguida com o Prémio Aspekte, Herta Müller tem acumulado galardões em verdadeira catadupa, sobretudo na Alemanha. Em 1995, recebeu o prémio europeu de literatura Aristeion e foi eleita para a Academia Alemã para Língua e Poesia. Em 1998, recebeu o prémio irlandês IMPAC, no ano seguinte o Prémio Franz Kafka. Em 2003, o prémio Joseph Breitbach de literatura alemã, em 2004. Em 2006, o Prémio Würth de literatura europeia. Em Portugal estão publicados "O homem é um grande faisão sobre a terra" (1993, Cotovia) e "A terra das ameixas verdes" (1999, Difel). Além de romancista, Müller é poetisa e ensaísta. A sua obra está associada ao conceito de Weltliteratur. Um poema seu que nos situa e defíne sobre a terra, sobre esta terra de ameixas verdes:

A coisa mais estúpida é

A coisa mais estúpida é que, desde há várias horas, a erva corre à volta do meu novo vestido, e eu encontro-me sentada no banco de betão, uma das cinco, à espera, em frente do salão de cabeleireiro. A primeira é tola, a segunda tem olhos grandes, a terceira é manhosa, a quarta e a quinta sou eu, pois por baixo de mim há uma poça de água na qual eu me vejo, e tenho de fazer caretas porque senão uma das duas, que eu sou, pode não ser capaz de distinguir entre a boina de pêlo na cabeça da outra e o pássaro que se encontra morto na poça da água.
.....................................................Tradução: Luís Costa

sábado, 10 de outubro de 2009

Revista ARQUITRAVE: "A poesia portuguesa hoje"

A revista colombiana Arquitrave acaba de publicar o seu nº 44, uma edição especial inteiramente dedicada a uma antologia de poesia portuguesa intitulada "A poesia portuguesa hoje", que eu organizei a convite do seu director, Harold Alvarado Tenorio.
A antologia que organizei integra os poetas José Tolentino Mendonça, Daniel Faria, Rui Pires Cabral, Luís Quintais, Filipa Leal, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, José Rui Teixeira, Catarina Nunes de Almeida e Luís Serguilha. Refira-se ainda o facto de que a revista contém inicialmente um pequeno ensaio onde procurei fazer uma análise da poesia das últimas décadas em Portugal, dividindo-a em dois "campos poéticos" - a poesia a que chamo "do quotidiano ou do real" e a poesia "essencialmente da imagética" - e relacionando com essas duas áreas os poetas contemplados na edição, fazendo também uma pequena apreciação individual à sua poesia.
Destaco ainda o facto de a Arquitrave apenas ter dedicado números especiais à poesia espanhola, peruana, palestiniana e argentina, chegando agora a vez da poesia portuguesa. A revista, porém, já publicou trabalhos de outros poetas portugueses, como Jorge de Sena, Amadeu Baptista, Eugénio de Andrade, José Carlos Ary dos Santos, Nuno Júdice. Eu também tive a oportunidade de publicar em 2005.
A revista é publicada bimensal, tendo publicação simultânea, online e em papel.
Assim, uma vez por semana (10) publicarei aqui 2/3 poemas e um pequeno excerto da análise que fiz a cada poeta.
E como faz agora 10 anos que a nossa diva da música nos deixou, em sua homenagem, colocarei sempre um fado de Amália Rodrigues em cada post relativo à antologia publicada pela revista Arquitrave ( http://www.arquitrave.com/principal.html ).
.
.
Hoje contudo, é dia de festa no Coliseu dos Recreios, com esse fantástico concerto de despedida dos Delfins, isto apesar de Miguel Ângelo definir o concerto como «um espectáculo que, visualmente, se serve de muitas memórias da nossa carreira, mas é uma celebração daquelas canções e daqueles refrões e não uma despedida saudosista ou triste». O facto é que devido a problemas familiares, não poderei estar presente no concerto, para o qual tinha convite do Correio da Manhã (mais uma vez o meu obrigado ao Leonardo Ralha, Editor de Cultura & Multimédia do Correio da Manhã) para o seu camarote e ainda tendo igualmente acesso ao backstage para conhecer os músicos da banda. Como seria um grande momento para mim, fã há muito tempo dos Delfins, só poderei lamentar os percalços que a vida por vezes nos prega e mandar um grande abraço aos Delfins por tudo o que fizeram pela música portuguesa.

http://www.agencialusa.com.br/index.php?iden=27367

sábado, 3 de outubro de 2009

Escrituras



..............Eu, Mário Lúcio Sousa, Carlos F. Moisés e Ricardo Aleixo

O cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, poeta, ficcionista, pintor e músico, foi o vencedor da II Edição do Prémio Literário Carlos de Oliveira, concurso promovido pela Câmara Municipal de Cantanhede e ainda pela Fundação Carlos de Oliveira, com a obra que se intitula O Novíssimo Testamento.
O júri justificou a atribuição do prémio, uma vez que “a obra se distingue de todas as outras apresentadas a concurso”, assinalando ainda “a grande originalidade da abordagem que faz ao religioso (…), o que evidencia um vasto conhecimento sobre o tema”, sublinhando ainda “a notável capacidade de escrita que se encontra bem patente na riqueza e vastidão do léxico utilizado”.
Na fundamentação apresentada à atribuição do prémio a O Novíssimo Testamento foi ainda aludida “uma efabulação poderosa, rica em imaginação e temperada por acentos de humor, que recorre muitas vezes à ironia e ao picaresco”. Segundo a perspectiva do júri, Mário Lúcio Sousa retoma em O Novíssimo Testamento as Escrituras Sagradas, “reinventa-as por meio do recurso a um contrafactual herdado da teologia medieval, colocando a hipótese de Jesus ter sido mulher e explorando as vastas implicações e consequências dessa hipótese”.
O valor do Prémio Literário Carlos de Oliveira é de 5.000 euros, verba totalmente suportada pelo Município de Cantanhede, ficando também assegurada a publicação da obra pela autarquia. Obra, que desde já proporciona alguma expectativa, especialmente a mim, que essencialmente conhecia o Mário Lúcio de Sousa da poesia (estive com ele em Maio de 2004 em Coimbra, em excelentes convívios, durante os "V Encontro Internacional de Poetas"), apesar de já ter publicado romances e teatro, da pintura e naturalmente da música, especialmente com o seu grupo Simentera.
Não esquecer que devido à sua actividade e importância para e pela cultura, Mário Lúcio Sousa foi condecorado pelo Presidente da República de Cabo Verde em 2006 com a Ordem do Vulcão, ao lado de Cesária Évora, tendo sido o artista mais novo a receber tal distinção.
Da antologia Poesia do Mundo 5 alguns extractos:
.
Poemas de Ilustração
.
1
Cabo
Verde se chamou-
-não tem nome de fruta
mas o estado dela enverga.
.
2
Queiram ou não
Têm de acenar umas às outras
As ilhas, pois,
Fingem que zarpam sempre.
.
6
As frutas que neste chão não caem
À lua vão beber
Certamente.
.
10
Não me falem de grandeza, não
Nem de infinito, nem de mim
Eu, homem e pretensa imensidão
Frente ao eco que a voz me devolve.
.
12
Se ao subirem
o vento, as pedras, as nuvens e o som caíssem
as ilhas teriam montes a
seus pés.
.
27
Têm um fundo falso
Os vulcões
Onde os deuses confabulam as gestações.
.
28
O mar tudo à terra devolve
Até mesmo as ilhas.
.................Mário Lúcio Sousa

sábado, 26 de setembro de 2009

Los Perros Románticos

Agora que já viu a luz do dia (e que aliás eu já adquiri esta tarde na FNAC), "2666", a póstuma obra-prima do chileno Roberto Bolaño (1953-2003) - o livro já está nas livrarias, com tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, começará a contagem decrescente para que as expectativas (essencialmente as minhas) não saiam mais uma vez "furadas", quando se trata de um tão grande e antecipado alvoroço em volta de um livro.
Dividido em cinco partes e concebido para publicação em igual número de volumes, com vista a garantir o futuro económico dos filhos, 2666 acabou por ser publicado num único tomo, por decisão conjunta de Ignacio Echevarría e dos herdeiros.
O New York Times Book Review fala mesmo de 2666 como a «câmara de ressonância da angústia humana». Assim seja.
Para já, um poema (sim, com isso aumentaram as minhas expectativas, Bolaño também era poeta) em tradução do poeta Tiago Nené.
.

Não importa até onde te leva o vento
(Sim. Mas gostaria de ver Séneca neste lugar)
A sabedoria consiste em manter os olhos abertos
durante a queda (Blocos sónicos
de desespero?) Estudar nas esquadras
de polícia Meditar durante os fins-de-semana
sem dinheiro (Tópicos que hás-de repetir, disse
a voz em off, sem te considerar um infeliz)
Cidades supermercados fronteiras
(Um Séneca pálido? Um bife sobre o mármore?)
Da angústia ainda não falámos
(Basta já. Dialéctica obscena)
Esse vigor irreversível que abrasará as tuas rotas.
.
De cadeiras, de entardeceres extra,
de pistolas que acariciam
os nossos melhores amigos
está feita a morte.
...........................................................Roberto Bolaño

.GRUPO LAYA (Musica Andina) "Paloma del alma mia"

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3488

http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Bola%C3%B1o

http://www.youtube.com/watch?v=ozYIJpBDd8Q

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Espaços sagrados

Asa de anjo
.................A Mestre José Rodrigues


Todas as asas de anjo se contrafazem memória
todas têm anzóis fungíveis
e a boca desinquieta por presságios maduros
por despojos do arco-íris cintilando nas gotas de chuva
mais temíveis do que o dobrado coito do sangue
a única forma de amar sem lascívia
o coração desnudado da fímbria do bronze,


como de todos os lugares onde ousaremos o pecado
escuta-se um obsessivo galope de martelos em cio
como se o abismo tivesse músculos brancos,


e uma ágil asa a quem pesa ser a sua própria estirpe
o curso iludido das entranhas
em que se consumiu a nudez do dorso da alma
uma travessia de veias imprecisas
em seu secreto canto de aves e paisagens hagiográficas,


por esses céus atravessam as matrizes do profano
fúrias e perfeições angustiadas
às vezes a incandescente melancolia de pássaros de carícias
como Ícaro no desinquieto voo do sol
pois não há sonho senão do sonho
e há a metamorfose da sílaba que se sacraliza verbo
a fundição que amamenta até consumir o nome,


no cimo de si própria
essa asa assemelha-se a um corpo de ressurreição
quando irrompe o seu útero como cutelos
tentando da criação a criação
a sua sorte como sudários febris e sombriamente brancos.


Depois chegará o anjo tutelar com a máscara do eremita
a repetida subtileza que as mãos em seu pneuma concebem
à promessa forjada – como se florissem o coração dos sismos.
.............................................................João Rasteiro

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

PORTUGUESIA II

Depois do lançamento em Portugal, mais concretamente em Vila Nova de Famalicão, em 10 de Julho, na Casa de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Seide, chegou a vez de ser lançada no Brasil, mais concretamente no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Minas Gerais, amanhã, 11 de Setembro, a contraantologia “PORTUGUESIA – Minas entre os povos da mesma língua / antropologia de uma poética”, organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva.
Esta enorme, extraordinária e ambiciosa obra, que congrega 485 poemas de 101 poetas de Portugal, Brasil (Minas Gerais), Cabo Verde e Guiné-Bissau e na qual tive o grande prazer de participar e ser incluído e onde encontramos uma inovadora forma de fazer valer os textos/poemas por si mesmo, continua, embora lentamente, a conquistar o caminho e o espaço que um projecto destes merece (não sei é se a lusofonia "merece" esta portuguesia) em absoluto.
Um dos meus poemas seleccionados pelo Wilmar Silva, foi "Os Cílios Maternos":
.
Há um animal adormecido nos pulmões
que desabrocham as sementes da fêmea.
Moviomenta-se de rastos sobre o enxofre
reduzindo a efémeros passos em declive.
Da agonia à purificação da língua
as palavras límpidas pela boca adentro.
Por entre os alvéolos os dentes ardendo
no seu silêncio indecifrável no arco cru
o corpo rasga em círculo o ventre embrionário.
................................In, Os Cílios Maternos, 2005
.
.........................................Tudo vira bosta - Rita Lee

http://nocentrodoarco.blogspot.com/search/label/Poesia%20da%20l%C3%ADngua%20portuguesa
http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=1081