domingo, 17 de janeiro de 2010

ECOS

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, 12/08/1907 — Coimbra, 17/01/1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX e da literatura portuguesa em geral.


Elegia do esquecimento

..................................Ao Miguel Torga

Não te conhecerá a víbora ou as oliveiras
nem os cães e os escorpiões da tua carne
nem as renovadas crias ou a sílaba álgida.

Não te conhecerá a fêmea nem a aurora
porque como cometa fulminante já só és pó.

Não te conhecerá o dorso da argila viva
nem o linho onde assentou o sangue aceso
nem a memória mutilada da primeira labareda.

A memória é espessa de sangue nas arestas
e até ao gume só homens da torre de Babel.

As trovoadas em breve cantarão as chuvas
o pó subirá às árvores abrigar-se-á nos lúzios
a noite onde te habituarás a fruir a única noite.

O espaço em que se finge ter tido um destino
as constelações palpáveis dos dias dos animais.

Não te recordará ninguém nas pérfidas vozes
como todos os mortos que se olvidam perdoados
entre as vísceras orgulhosas de abutres apagados.

Em ti começa o descanso dos odoríficos pomares
onde as candeias resguardam o silêncio indecifrável.

Minha ânsia de voz está diante de tua voz possessa
mesmo que não trespasse as lascas da minha garganta
a nua saliva sobre a terra dos inundáveis actos de deus.

Está diante de ti no esquecimento que embevece o sonho
de que as palavras vivas ainda bordam um coração outro.

Os poetas dormem, o esquecimento é um bálsamo sagrado,
e toda a ilusão é cruel porque se dilui voz na musa herdada.
......................João Rasteiro (In, Comemorações Miguel Torga 2005-2007, CMC, 2008)

http://www.astormentas.com/torga.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Miguel_Torga&op=7&author=1360

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HAITI (desígnios?)

Explicação de deus enquanto pedra


Fulmina-me, atravessa o meu corpo com as tuas lâminas
o amor não és tu, nunca o serás no mundo das rupturas!
Não te compadeças de mim, escuta o meu desafio justo
que vai subindo irado no reverso corpóreo das bocas,
olha-me nos olhos húmidos dos cães raivosos de frechas.

Ao pé do teu divino reflexo a tua covarde indiferença,
olha estas incisões esquivas como monstros em chamas
entre as cidades invisíveis e a morte discerne da sílaba.

Já contra a carne para embeber as tuas dúvidas, a loucura,
a mentira, a injúria, vozes num espaço opaco, cuja traição
só tu serias capaz de moldar como tributo em todos nós
- digo que todo o teu santo nome é repudiado sob as algas.

Se as tuas generosas dádivas se fincassem como ofício puro
a tua memória seria amaldiçoada esconjurada entre o pó
como um eco, pesadelo longínquo dos homens primitivos.

Ergue-se por fim a nuvem a melancolia intangível do verbo
a hegemonia transitória da sombra que te oculta dos mortos.
E agora é o aperto dos dedos que abatidos se acorrentam.

A pedra está dobrada sobre si mesma, transbordante de luz
como se desabrochasse nos abismos profusos da cegueira.

Quero emergir sob a glória da minha guerra. Mas a pedra
está despida por dentro, o coração – então morrerei solitário.
...........................João Rasteiro (In, "O Búzio de Istambul")
......................................"O HAITI" - Caetano Veloso

http://pt.wikipedia.org/wiki/Haiti
http://www.publico.clix.pt/Mundo/violento-terramoto-deixa-haiti-em-estado-de-catastrofe_1417564
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1468295&seccao=EUA%20e%20Am%E9ricas

sábado, 9 de janeiro de 2010

AS ROTAS da DÉCADA


Uma década é muito tempo para emergirem das entranhas do caos, e do tempo, infinitos livros de poesia. Em muitos deles, só um poema já valerá todo o livro, por isso, a dificuldade da escolha. Apesar disso, os meus livros de poesia da década em Portugal, são os seguintes:


A Respiração das Vértebras, 2001, João Rasteiro (**)
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No Centro do Arco, 2003, João Rasteiro
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Os Cílios Maternos, 2005, João Rasteiro
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O Búzio de Istambul, 2008, João Rasteiro
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Pedro e Inês, ou As Madrugadas Esculpidas, 2009, João Rasteiro
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A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, 2008, Herberto Helder
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Migrações de Fogo, 2004, Manuel Gusmão
Poesia, 2003, Daniel Faria
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ROSA do MUNDO, 2001 Poemas para o futuro, 2001, Assírio & Alvim (Direcção Editorial de Manuel Hermínio Martinho).
Anos 90 e Agora, 2001, Selecção/organização de Jorge Reis-Sá
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BIOGRAFIA, 2000, José Agostinho Baptista
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Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009, Herberto Helder
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Obra Breve - Poesia Reunida, 2006, Fiama Hasse Pais Brandão
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Uma Grande Razão - Os poemas maiores, 2007, Mário Cesariny
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Antes que o Rio Seque - poesia reunida, 2006, A.M. Pires Cabral
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DOBRA, 2009, Adília Lopes
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Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), 2007, Amadeu Baptista
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Século de Oiro, Antologia de Poesia Portuguesa do século XX, 2002, Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra
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Portuguesia, Contraantologia, 2009, Selecção/Organização de Wilmar Silva (*)
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Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, 2009, Seleção/Organização de Jorge Reis-Sá e Rui Lage

NOTA:

(*) - Livro lançado em primeira mão em Portugal, mas não editado em Portugal, apenas o foi no Brasil.

(**) - Os primeiros cinco livros da lista, indiscutivelmente "os meus livros", terão retirado da lista outros cinco livros, inclusive alguns, de autores ainda jovens.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

CORRENTES

Já foi divulgada a lista das dez obras finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, para a edição de 2010 do Correntes d’Escritas ( seleccionada pelo júri, constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis e Vergílio Alberto Vieira), que irá decorrer entre 24 e 27 de Fevereiro:

A Eternidade e o Desejo, Inês Pedrosa, Dom Quixote

A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira, Dom Quixote

A Sala Magenta, Mário de Carvalho, Caminho


Myra, Maria Velho da Costa, Assírio & Alvim


o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe, QuidNovi


O Cónego, A. M. Pires Cabral, Livros Cotovia


O Mundo, Juan José Millás, Planeta


O Verão Selvagem dos teus Olhos, Ana Teresa Pereira, Relógio D’Água


Rakushisha, Adriana Lisboa, Quetzal


Três Lindas Cubanas, Gonzalo Celorio, Quetzal


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010

XV

.tudo se transmutou no equilíbrio do caos. o mundo acordou sob a vigilância dos modernos alfabetos envoltos num alvéolo de fosforescente metal. e uma recente e definitiva espécie de criaturas que se distanciam dos sonhos da sílaba mística irrompe das galáxias prenhes da lógica dos algarismos. e são empoadas de extraordinárias preeminências biológicas relativamente aos primitivos organismos com coração e lágrimas. agora o pó envolve em espirais de névoa a aniquilada estátua de adriano. a partir dos seus olhos os besouros-do-fumo procuram a visibilidade da cidade. o escaravelho sagrado. aí se bifurca o novo dialecto dos heróis. a profecia dos poetas eclodiu como castigo etéreo.

JOÃO RASTEIRO - In, DIACRÍTICO (Inédito - a publicar em 2010)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL

Ser divino, criança cativa
.
Tu és ser divino em eterna meia-noite
esse chegar de repente que não esbate ao espanto.
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
um não-concebido astro em ventre de bem-querer,
indefinido corpo único de tão temeroso verbo
o que sempre foi esplendor e terá que ser!
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
sílaba acesa em que já não desabrocham deuses,
irreconhecível voz de tão recente fábula
a noite que se fracciona em estrelas prenhes de luz!
.
Tu és ser divino em eterna meia-noite
carne arrebatada na espinhosa inundação da língua,
inexplicável geografia de tão subtil cântico
esse jogo dos homens em que te devem louvar!
.
Deus te proteja, criança cativa da meia-noite
que tudo é noite na imensidão do mundo – e nada mais!
.............................................................João Rasteiro

domingo, 20 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - X

Pela 10º e última vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Catarina Nunes de Almeida:
"(...)a poesia de Catarina Nunes de Almeida, que de alguma forma se situará próxima de uma poesia de forte carga imagética, reflecte o fascínio pela poesia oriental. Nota-se nela um esforço de transparência e simplicidade que a aproxima do género de haikai, numa relação mulher-natureza, sempre mais evocada do que contemplada. Sente-se o objectivo de transmitir “sentimentos”, de alguma forma contraditórios, entre o real e o metafísico, através de um jogo de palavras “especiais”, um jogo assente em termos que são essencialmente da botânica". - João Rasteiro
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Solo

Um dia os nossos gestos serão verdes.
Dormiremos aos pés da terra
nas nossas bocas só os pés da terra
e a folhagem em vez dos meus braços.
Basta um grão de pó na unha
a noite dedilhada no centro do poro
para que eu estenda os seios no deserto
depois da vindima. Entre a pele e as espigas
já não restam reticências – apenas uma escama
com que agasalho o mundo.
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Fusão

I
Quando as amoras estão maduras
a menstruação corre no vale
vinda do teu lado. A noite é uma ponte
deitada sobre as margens da cintura:
lugares de xisto onde repousam
sombras de animais.

II

Por vezes os seios crescem-me no teu peito.
Os dias vêm quando vêm os teus lábios
maçã que mordo entre as pernas.
Todo o nosso corpo é flor mútua
escultura que brotou do mesmo chão
imperfeita.
...............................................C.N.A.
....AMÁLIA (10 anos de saudade) - "Não sei porque te foste embora"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Espaço Sagrado




................pós-soneto
.............................Augusto de Campos
.
....................................................Seu Jorge - "Tive Razao"

http://www2.uol.com.br/augustodecampos/poemas.htm

domingo, 13 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - IX

Pela nona vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Filipa Leal:
" (...)é uma poesia luminosa e em certa medida inumana. Como referiu Eduardo Prado Coelho, ela demarca-se de grande parte da poesia portuguesa que actualmente se vai escrevendo, uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias, de cariz mais confessional, Filipa Leal apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica grandiosa na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. Ela se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema". - João Rasteiro
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A CIDADE ESQUECIDA

Para o António.
Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.
Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.
Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.
Ele disse: Sou um rio exacto.
Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.
Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.
De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele
riu.
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LINHA FONÉTICA

Era uma linha fonética no vidro.
Linha como árvore obsessiva deste livro,
como linha verdadeira, como página
que se organiza por causa dela.
Linha que não era de comboio, linha sem agulhas
penduradas, sem linha da mão, sem linha
de gente do outro lado da linha, de gente
que quer manter a linha. Linha fria de transparência,
fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema.
Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó
da noite nos outros. Assim era a minha linha:
linha realmente fonética, absolutamente inalterável.
.............................................................F.L.
..........AMÁLIA (10 anos de saudade) - "Tudo isto é fado"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O QUE É A POESIA?

No sábado passado, 05/12/2009, na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo ( que abriga também a primeira biblioteca do país especializada em poesia), foi lançada a obra "O que é poesia?", organizada pelo poeta Edson Cruz e da responsabilidade das editoras, Confraria do Vento e Calibán. A obra integra 45 relevantes poetas brasileiros, portugueses (eu, simplesmente me sinto honrado em integrar este magnífico conjunto de poetas) e hispano-americanos em atuação respondendo a essa pergunta simples, mas nem de longe simplória. Surgido como uma provocação em seu blog (SAMBAQUIS), onde Edson Cruz propunha ainda duas outras perguntas (sobre o que um iniciante deveria perseguir e quais textos e autores lhe eram referenciais), o questionário resultou na seleção deste livro que, além de um calidoscópio reflexivo do fazer poético, revela-se um documento vivo do panorama literário contemporâneo, propiciando, inclusive, alguns raríssimos encontros para uma mesma edição.
.
Eis os autores nesta edição: Ademir Assunção, Affonso Romano de Sant'Anna, Amador Ribeiro Neto, Ana Elisa Ribeiro, André Vallias, Aníbal Beça, Antonio Cicero, Augusto de Campos, Bárbara Lia, Carlito Azevedo, Carlos Felipe Moisés, Claudio Daniel, Claudio Willer, Eunice Arruda, Fabiano Calixto, Felipe Fortuna, Flávia Rocha, Floriano Martins, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Horácio Costa, Jair Cortés, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Jorge Rivelli, Jorge Tufic, José Kozer, Luis Serguilha, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Ariel, Márcio-André, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nicolas Behr, Nicolau Saião, Ricardo Aleixo,Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Rodolfo Häsler, Rodrigo Petrônio, Sebastião Nunes, Tavinho Paes, Victor Paes, Virna Teixeira, Washington Benavides.
No final do post, alguns links que remetem para este evento e respectivo lançamento.

http://sambaquis.blogspot.com/search/label/O%20que%20%C3%A9%20poesia

http://intradoxos.blogspot.com/2009/12/rave-cultural-lancamento-do-livro-o-que.html#links

http://www.poiesis.org.br/casadasrosas/

http://www.confrariadovento.com/editora/livro21.htm

http://www.editoracaliban.com.br/v2/

sábado, 5 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VIII

Pela oitava vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Rui Teixeira:

(...)cultiva cada vez mais uma poesia imagética e discursiva, alicerçada na relação do sujeito com o sobrenatural. Como já referiu o próprio poeta, a sua poesia é um lugar habitado por aparições oníricas e fantasmáticas, como memórias difusas, como narrativas subterrâneas ou luminosas, em que Deus paira como na superfície das águas (…), uma poesia neo-simbolista, mitológica e idiossincrática. Uma poesia onde o jogo imagético emerge sempre num presente absoluto que questiona a existência e a transitoriedade da vida. Como refere Pedro Sena-Lino, uma poética com um olhar consciente da transitoriedade do corpo (…), da mecânica do ser e da sua lógica profunda". - João Rasteiro

Os que vão morrer misturam barro
com limalhas e adoecem. O sémen
escorre do interior das mulheres
como se não houvesse promessa
ou manhã nos corpos caídos.
Os que vão morrer adormecem
como se a terra lhes pesasse
desmesuradamente sobre a carne,
como se insectos lhes devorassem
as entranhas. E morrem por amor, creio.

.

Os velhos esperam os filhos dos filhos ao meio dia
como se esmagassem a força dos dedos contra
as carótidas e não houvesse tempo de vê-los crescer.
Atravesso a rua ao meio dia. Oráculo do Senhor.
E estremeço com o olhar lânguido da adolescente
que madura o útero na opacidade comovida
da sua juventude. Repito: o coração é um órgão
incendiado. Mas tu disseste-me: não despertes
o que dorme, não agites as águas paradas;
encontrarás Deus nas margens do grande rio
.

............................................................J.R.T.

.........AMÁLIA (10 anos de saudade) - Solidão/"Canção do Mar"

http://equinociodeoutono.blogspot.com/

http://bibliotecariodebabel.com/tag/jose-rui-teixeira/

http://www.quasi.com.pt/index.php?manufacturers_id=4307

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MENSAGEM

O INFANTE
.
Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou creou-te portuguez.
Do mar e nós em ti nos deu signal.
Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
.................................Fernando Pessoa
In, "Mensagem", 10/12/1934, Editora Parceria A. M. Pereira
.


http://faroldasletras.no.sapo.pt/poesia_mensagem.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/pessoa.html

domingo, 29 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VII

Continuando a persistir na publicação dos poetas (7º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Luís Peixoto:
(...)cuja poética não é muito fácil de situar, embora com algumas aproximações a uma poesia do quotidiano, vamos encontrar uma poesia que possui uma espécie de força que é uma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força, não sendo uma poesia que cultive uma forte imagética, mas sim, uma poética que se alimenta de narrativas do dia-a-dia (por vezes é possível encontrar alguma redundância) e da memória. Uma poesia melancólica, quase totalmente despida de esperança, onde os versos roçam a realidade da morte, do amor, da vida, da não vida, do estar estando e do estar sem permanecer. Apontando para um neo-realismo tardio, é uma poesia que procura afincadamente a descrição da realidade de quem se quer livrar dos destinos traçados. Poesia que roça por vezes a prosa, num diálogo permanente com o seu mundo". - João Rasteiro
.
EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.

LIMPAR O PÓ

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens, de novo, numa nuvem.
........................................................J.L.P.
.............AMÁLIA (10 anos de saudade) - Fado Português

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Novos Espaços

................BRUNO PRADO
.
QUANDO não há:
cala!
nem palavra, nem grafia
a mais pura
víscera de poesia —
sangue pelo tato;
embalo —
a vida estrita
é escrita pelo faro
.

A PEDRA BRUTA — atirei-a contra ti
uma floripedra;
cego, as mãos de flamas;
furibundo
a língua árida, irosa
sem aromas,
só espinhos —
a fuga,
périplo de flores
o amor,
na beleza e brutalidade
.

COLAPSO —
uma cidade perdida;
a minha fala
a miséria do dito
pelo fato —
resta a fúria;
o definitivo embate —
quite com o tempo,
entre rito e nada
reergo a fio,
o instinto, a navalha
precipita-se o sangue;
o plural da face —
de fato
o que nos difere,
seres, de mortos
é a carne
.................In, FRATURAS


http://www.triplov.com/poesia/Bruno-Lopes/Liquen/index.htm

http://www.germinaliteratura.com.br/2009/bruno_prado.htm

domingo, 22 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VI

Avançando com a publicação dos poetas (6º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta valter hugo mãe:
(...)"uma poética que de alguma forma se evidencia pela originalidade, em relação a outras poéticas da década de 90. É uma poesia onde sobressai o cuidado colocado em cada palavra, que permite um pleno domínio do poema que se adensa em múltiplos sentidos. Nesta poesia redescobre-se o gosto pelo belo enquanto grotesco. Por vezes, um metaforismo “grotesco” serve de suporte a uma poesia arabesca. Uma poesia de verso contido e lapidar, quase sempre à direita da página e que é um fruto maduro e arrebatador. Como refere Eduardo Pitta, a dimensão conotativa afasta valter hugo mãe de outros novíssimos: nem melancolia programática, nem misticismo (malgré Deus), nem excesso de complacência". - João Rasteiro
.
dois.
.
se te cansares de mim, não me peças que
chore. deixa-me secar lentamente como
pelo tempo, mais me custará, porque mais
lento verterei a alma para a morte. no entanto,
dá-me esperança de que não partirás,
aguardo-te muito quieto, muito quieto
para não atrapalhar os teus planos como quem
não quer assustar a caça. mas sou a presa,
eu sei que sou a presa. e tu podes vir reclamar-me
o couro com toda a violência, já não me importo
.
cinco.
.
deixei sobre a mesa o dinheiro
que necessitas para o dia. espero que te
sirva para o almoço e para qualquer
coisa ao lanche. desculpa. amanhã, como
é domingo, venderei os pães na igreja,
quem sabe me dará deus valor suficiente
para manter o amor. se amanhã houver
mais dinheiro, mais um pouco que seja,
compro o teu prato, os teus talheres,
um copo onde te sirva a água simples.
volta cedo, peço-te, volta cedo, como
não sei nada sobre decisões divinas
quero só não perder-te em tempo
além do impossível. vem comigo ver
o que é feito dos gatos que deitamos ao
campo. achas que estarão gordos ou
terão morrido. eu acho que estão gordos,
se deus quiser
.....................................v. h. m.
....................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Gaivota

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lugares estranhos

...............................Michael Cheval

COLMEIA
..................Ao Gastão Cruz

Na juba da boca quando as palavras
não forem senão a saliva das larvas
há um excesso de língua atravessada
na sombra adolescente de Yanis Ritsos,

no espaço onde a reminiscência é avidez
no sulco mais longínquo da lascívia
alma minha gentil dos espectros viçosos
és a fonte derradeira dos anjos e suplicas:

arrebatam-me de júbilo a íris das abelhas
irrompam-me o coração por bilhas vivas
brotem-me as profundas raízes siderais.

Há um desejo infundido de livros prenhes
jorrando o hipnótico sopro das geografias
sob um céu diluído pela abertura de um deus

e as vozes murcharão de paixão pelos ferrões
espinhadas pela garganta das crianças nuas.

As construtoras ainda ejacularão o puro mel
fendendo altivas sobre a pele o incesto dos lírios.
................................................João Rasteiro

domingo, 15 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - V

Continuando a publicação dos poetas, pela ordem de inserção na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas seleccionados para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta Daniel Faria:
"(...)é, sem dúvida, para a generalidade da crítica, a voz mais importante da “nova poesia portuguesa” surgida na década de 90 e que se afasta de alguma forma dos cânones até aí vigentes, apesar das influências de uma Luiza Neto Jorge e especialmente de Herberto Helder, e que flui torrencialmente, não só, como uma experiência mística, mas como uma mecânica de escrita depurada e em que a metáfora é o corpo de deus ou da natureza, numa consistente prática de questionamento da linguagem. Poesia intimamente interligada com o texto bíblico, concebe e pratica o lirismo da palavra como exegese da elevação do ser humano acima de si. Como refere Luís Adriano Carlos, Daniel Faria, como qualquer grande poeta da modernidade romântica em que vivemos, procura pela exaltação estética uma via de acesso à exaltação do sagrado e ao reino do espírito. É uma poesia de grande beleza e maturidade que representa uma geração". - João Rasteiro
.
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

.
As manhãs

Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs E madrugadas.

..................................D. F.
.................AMÁLIA (10 anos de saudade) - Estranha forma de vida

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lugares estranhos

Biografia II

E tudo ocorre na melancolia
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto do corpo
no linho que se alinha à mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífaga
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada
ser bardo
é tocar o fogo
é estar no correr das águas
a tempestade.
Os naufrágios são sublimes
sentimo-nos tão acesos
entre as ilhas
das palavras obscuras, acreditas?
O espectro desatando-se
sílaba que afeiçoa às matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu.
...............................João Rasteiro
..................................................Neil Young - Old Man

domingo, 8 de novembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - IV


Progredindo com a publicação dos poetas, pela ordem de inserção na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois poemas seleccionados para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia, que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta Luís Quintais:

"(...) entre os poetas da “sua geração” Luís Quintais é, talvez, o que se mostra pela poética mais alusiva e referencial. É uma poética que se pode situar nos intervalos encantatórios do quotidiano e da imagética. Poesia culta, reflexiva e filosófica, denotando um percurso urbano e o olhar maduro de um etnógrafo à procura do significativo. É uma escrita que normalmente parte do real para a sua transfiguração. Existe em Luís Quintais a perfeita consciência de que a poesia está, obrigatoriamente, dentro da própria linguagem." - João Rasteiro
.
I

O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.
.
III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.
.......................................................L. Q.
......................AMÁLIA (10 anos de saudade) - COIMBRA
.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Refúgios

........................Adília Lopes: poesia reunida

Os cordéis

Passava os dias a dar nós em cordéis
para desfazer os nós a seguir
não tinha ninguém para a aplaudir
nem esperava Ulisses
mas continuava
aquilo não era um passatempo
os cordéis sem nós
serviam para desfazer os nós
enquanto os embrulhos trouxeram cordéis
as sobrinhas não estranharam
mas quando os cordéis se tornaram raros
lembraram-se de que ela na juventude
fora capaz de seguir cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
como Napoleão era capaz de ditar
dez cartas diferentes
ao mesmo tempo
só que a guerra e os bailes no consulado
tinham acabado
antes que ela se tornasse
uma grande espia
as sobrinhas convidavam forasteiros
e faziam cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
para a distraírem dos cordéis
mas os cordéis absorviam-na
nenhuma conversa lhe importava
as sobrinhas deitaram os cordéis fora
irritadas com aquela obstinação
ela passou a arrancar cabelos
e desfazer os nós dos cabelos
exige mais perícia do que desfazer
os nós dos cordéis
se fosse uma questão de vida ou de morte
seria como despoletar granadas
assim ela só podia perguntar
o que é mais fino do que um cabelo
para eu lhe poder dar nós?
Adília Lopes - In, Assírio & Alvim, 688pg., 2009

SITIADOS (1 ano de saudade do João Aguardela): A Noite

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ad%C3%ADlia_Lopes

http://quintasdeleitura.blogspot.com/2009/11/mais-poesia-de-adilia-lopes.html

http://ofuncionariocansado.blogspot.com/2009/01/adilia-lopes-entrevista-de-carlos-vaz.html