(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»»
"Só existe o tempo único.
Só existe o Deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica,
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único –
entrando pelas fendas, batendo, rebentando
correndo de lado a lado".
__________ Robert Duncan
O júri dos Prémios de Revelação APE/Guimarães Editores – 2008, constituído por Ana Marques Gastão, Miguel Real e Serafina Martins, deliberou, por unanimidade, não premiar nenhum dos trabalhos inéditos concorrentes, nas modalidades de Poesia e de Ensaio Literário.
Neste júri, onde apenas "temos" uma poeta, o mesmo entendeu não existir qualidade, ou a sua exigência de poesia (de leitura, não de escrita!!!) para atribuir o prémio Revelação APE/Guimarães Editores é muito grande. Coisas da Poesia, da APE, ou até da Guimarães Editores?
Assim, publico o poema de Ângela Canez, uma jovem poeta (sem livro publicado) que integra a "OFICINA de POESIA da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
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perdidamente o rastro
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perdidamente o rastro o que fica da ausência rasgada nos aquedutos na pele voltada à estéril lembrança de mulheres que caminham sobre as águas e não se afundam não tornam a amanhecer nem se consomem nas chamas porque é tarde. demais e acrescentam à vida uma réstia de silêncio. pouco mais uma réstia de artefactos objectos comuns para violentar a dor o que dói e fica e alastra e é ainda maior porque anoitece no quarto vazio onde já não vivem nem se abrigam da chuva que os homens plantam ou fazem cair na memória baixinho. assim inteira retirando aos poucos o acaso o vazio que é e aumenta a certeza de que ninguém virá lá onde o corpo dói e funda e aumenta e afunda um pouco mais. porque é tarde e já deviam ter voltado da incursão ao centro das águas. dos corpos depostos onde já não dormem ninguém vive onde já não se vive .............fartos de lembrar
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio e tecidos, não sejas Penélope que tece e destece os bordados assim que anoitece. Ulisses não existe, foi verso fugidio.
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio e tecidos, não sejas Ariadna que oferece sair do labirinto mortal a quem a esquece. Teseo não existe, só sobra o desafio.
Se alguma vez eu tiver de partir como Odiseo prefiro voltar sempre vencido a Compostela. Não me importa a derrota se tu me identificas.
Se alguma vez eu tiver de marchar como Teseo não há-de ser Artemisa fluxo do meu Sarela. Não me importa ser lama se tu me purificas. ............................................MIRO VILLAR In,EQUINOCCIO DE PRIMAVERA(Tradução: João Rasteiro)
No início de 2010 este "Aula de Poesia" é já uma das agradáveis surpresas literárias, nomeadamente no que à poesia/poetas diz respeito. Eduardo Pitta, embora talvez de forma mais ligeira, que não aligeirada, do que em "Metal Fundente" de 2004, traz-nos estas excelentes crónicas sobre, entre outros: Eugénio de Andrade * Adília Lopes * Camilo Pessanha * Judith Teixeira * Jorge de Sena * Manuel Gusmão * Joaquim Manuel de Magalhães * Carlos Drummond de Andrade * Manuel de Freitas * Carlos de Oliveira * Gonçalo M. Tavares * Rui Knopfli * Fernando assis Pacheco * Mário Cesariny * Sophia de Mello Breyner * Herberto Helder * VGM * António Botto * Cesário Verde», para além de alguns períodos e livros/antologias marcantes da poesia portuguesa.
Sendo certo que Eduardo Pitta já nos habituou, ao nível da crítica, ensaio ou recensão crítica, não só através dos livros, do blogue "Da Literatura", mas essencialmente através da regular colaboração em revistas e jornais, à forma acutilante, objectiva e incisiva com que se pronuncia, e apesar de muitos destes autores já terem em outras ocasiões sido alvo da sua análise, esta "Aula de Poesia" é sem dúvida um livro que merece uma leitura imediata e de um só fôlego (até porque a escrita que nos apresenta e a forma curta das crónicas, assim o pede e permite).
De um dos poetas que Eduardo Pitta nos fala, Manuel de Freitas, o poema: "Quando sós à boleia do crepúsculo"
. Quando sós à boleia do crepúsculo
Não mais a literatura, os seus fúteis e imperiosos desígnios - julgamos dizer, insistindo numa ourivesaria do terror e em gestos que sabem o quanto chegam tarde. Quando sós, à boleia do crepúsculo, dizemos coisas assim, mentimos com os dentes todos que não temos.
E a mentira (a literatura) é ainda a improvável derrota de que não nos salvaremos nunca. Tão igual à vida, portanto: pouso o copo, recupero o fôlego, fumo uma silepse. Sei que vou morrer.
E isso que - talvez - nos diz é uma evidência que escurece (tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando. Casados ou sozinhos. Mortos.
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, 12/08/1907 — Coimbra, 17/01/1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX e da literatura portuguesa em geral.
Elegia do esquecimento
..................................Ao Miguel Torga
Não te conhecerá a víbora ou as oliveiras nem os cães e os escorpiões da tua carne nem as renovadas crias ou a sílaba álgida.
Não te conhecerá a fêmea nem a aurora porque como cometa fulminante já só és pó.
Não te conhecerá o dorso da argila viva nem o linho onde assentou o sangue aceso nem a memória mutilada da primeira labareda.
A memória é espessa de sangue nas arestas e até ao gume só homens da torre de Babel.
As trovoadas em breve cantarão as chuvas o pó subirá às árvores abrigar-se-á nos lúzios a noite onde te habituarás a fruir a única noite.
O espaço em que se finge ter tido um destino as constelações palpáveis dos dias dos animais.
Não te recordará ninguém nas pérfidas vozes como todos os mortos que se olvidam perdoados entre as vísceras orgulhosas de abutres apagados.
Em ti começa o descanso dos odoríficos pomares onde as candeias resguardam o silêncio indecifrável.
Minha ânsia de voz está diante de tua voz possessa mesmo que não trespasse as lascas da minha garganta a nua saliva sobre a terra dos inundáveis actos de deus.
Está diante de ti no esquecimento que embevece o sonho de que as palavras vivas ainda bordam um coração outro.
Os poetas dormem, o esquecimento é um bálsamo sagrado, e toda a ilusão é cruel porque se dilui voz na musa herdada. ......................João Rasteiro(In, Comemorações Miguel Torga 2005-2007, CMC, 2008)
Fulmina-me, atravessa o meu corpo com as tuas lâminas o amor não és tu, nunca o serás no mundo das rupturas! Não te compadeças de mim, escuta o meu desafio justo que vai subindo irado no reverso corpóreo das bocas, olha-me nos olhos húmidos dos cães raivosos de frechas.
Ao pé do teu divino reflexo a tua covarde indiferença, olha estas incisões esquivas como monstros em chamas entre as cidades invisíveis e a morte discerne da sílaba.
Já contra a carne para embeber as tuas dúvidas, a loucura, a mentira, a injúria, vozes num espaço opaco, cuja traição só tu serias capaz de moldar como tributo em todos nós - digo que todo o teu santo nome é repudiado sob as algas.
Se as tuas generosas dádivas se fincassem como ofício puro a tua memória seria amaldiçoada esconjurada entre o pó como um eco, pesadelo longínquo dos homens primitivos.
Ergue-se por fim a nuvem a melancolia intangível do verbo a hegemonia transitória da sombra que te oculta dos mortos. E agora é o aperto dos dedos que abatidos se acorrentam.
A pedra está dobrada sobre si mesma, transbordante de luz como se desabrochasse nos abismos profusos da cegueira.
Quero emergir sob a glória da minha guerra. Mas a pedra está despida por dentro, o coração – então morrerei solitário. ...........................João Rasteiro (In, "O Búzio de Istambul") ......................................"O HAITI"-Caetano Veloso
Uma década é muito tempo para emergirem das entranhas do caos, e do tempo, infinitos livros de poesia. Em muitos deles, só um poema já valerá todo o livro, por isso, a dificuldade da escolha. Apesar disso, os meus livros de poesia da década em Portugal, são os seguintes:
A Respiração das Vértebras, 2001, João Rasteiro(**)
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No Centro do Arco, 2003, João Rasteiro
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Os Cílios Maternos, 2005, João Rasteiro .
O Búzio de Istambul, 2008, João Rasteiro
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Pedro e Inês, ou As Madrugadas Esculpidas, 2009, João Rasteiro
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A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, 2008, Herberto Helder
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Migrações de Fogo, 2004, Manuel Gusmão
Poesia, 2003, Daniel Faria
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ROSA do MUNDO, 2001 Poemas para o futuro, 2001, Assírio & Alvim (Direcção Editorial de Manuel Hermínio Martinho).
Anos 90 e Agora, 2001, Selecção/organização de Jorge Reis-Sá
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BIOGRAFIA, 2000, José Agostinho Baptista
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Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009, Herberto Helder
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Obra Breve - Poesia Reunida, 2006, Fiama Hasse Pais Brandão
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Uma Grande Razão - Os poemas maiores, 2007, Mário Cesariny
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Antes que o Rio Seque - poesia reunida, 2006, A.M. Pires Cabral
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DOBRA, 2009, Adília Lopes
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Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), 2007, Amadeu Baptista
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Século de Oiro, Antologia de Poesia Portuguesa do século XX, 2002, Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra
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Portuguesia, Contraantologia, 2009, Selecção/Organização de Wilmar Silva(*)
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Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, 2009, Seleção/Organização de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
NOTA:
(*) - Livro lançado em primeira mão em Portugal, mas não editado em Portugal, apenas o foi no Brasil.
(**) - Os primeiros cinco livros da lista, indiscutivelmente "os meus livros", terão retirado da lista outros cinco livros, inclusive alguns, de autores ainda jovens.
Já foi divulgada a lista das dez obras finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, para a edição de 2010 do Correntes d’Escritas ( seleccionada pelo júri, constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis e Vergílio Alberto Vieira), que irá decorrer entre 24 e 27 de Fevereiro:
A Eternidade e o Desejo, Inês Pedrosa, Dom Quixote
A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira, Dom Quixote
A Sala Magenta, Mário de Carvalho, Caminho
Myra, Maria Velho da Costa, Assírio & Alvim
o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe, QuidNovi
O Cónego, A. M. Pires Cabral, Livros Cotovia
O Mundo, Juan José Millás, Planeta
O Verão Selvagem dos teus Olhos, Ana Teresa Pereira, Relógio D’Água
.tudo se transmutou no equilíbrio do caos. o mundo acordou sob a vigilância dos modernos alfabetos envoltos num alvéolo de fosforescente metal. e uma recente e definitiva espécie de criaturas que se distanciam dos sonhos da sílaba mística irrompe das galáxias prenhes da lógica dos algarismos. e são empoadas de extraordinárias preeminências biológicas relativamente aos primitivos organismos com coração e lágrimas. agora o pó envolve em espirais de névoa a aniquilada estátua de adriano. a partir dos seus olhos os besouros-do-fumo procuram a visibilidade da cidade. o escaravelho sagrado. aí se bifurca o novo dialecto dos heróis. a profecia dos poetas eclodiu como castigo etéreo.
JOÃO RASTEIRO - In, DIACRÍTICO (Inédito - a publicar em 2010)
Pela 10º e última vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Catarina Nunes de Almeida:
"(...)a poesia de Catarina Nunes de Almeida, que de alguma forma se situará próxima de uma poesia de forte carga imagética, reflecte o fascínio pela poesia oriental. Nota-se nela um esforço de transparência e simplicidade que a aproxima do género de haikai, numa relação mulher-natureza, sempre mais evocada do que contemplada. Sente-se o objectivo de transmitir “sentimentos”, de alguma forma contraditórios, entre o real e o metafísico, através de um jogo de palavras “especiais”, um jogo assente em termos que são essencialmente da botânica". -João Rasteiro
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Solo
Um dia os nossos gestos serão verdes. Dormiremos aos pés da terra nas nossas bocas só os pés da terra e a folhagem em vez dos meus braços. Basta um grão de pó na unha a noite dedilhada no centro do poro para que eu estenda os seios no deserto depois da vindima. Entre a pele e as espigas já não restam reticências – apenas uma escama com que agasalho o mundo.
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Fusão
I Quando as amoras estão maduras a menstruação corre no vale vinda do teu lado. A noite é uma ponte deitada sobre as margens da cintura: lugares de xisto onde repousam sombras de animais. II Por vezes os seios crescem-me no teu peito. Os dias vêm quando vêm os teus lábios maçã que mordo entre as pernas. Todo o nosso corpo é flor mútua escultura que brotou do mesmo chão imperfeita.
Pela nona vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Filipa Leal:
" (...)é uma poesia luminosa e em certa medida inumana. Como referiu Eduardo Prado Coelho, ela demarca-se de grande parte da poesia portuguesa que actualmente se vai escrevendo, uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias, de cariz mais confessional, Filipa Leal apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica grandiosa na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. Ela se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema". -João Rasteiro
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A CIDADE ESQUECIDA Para o António. Ela disse: Sou uma cidade esquecida. Ele disse: Sou um rio. Ficaram em silêncio à janela cada um à sua janela olhando a sua cidade, o seu rio. Ela disse: Não sou exactamente uma cidade. Uma cidade é diferente de uma cidade esquecida. Ele disse: Sou um rio exacto. Agora na varanda cada um na sua varanda pedindo: Um pouco de ar entre nós. Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti. Ele disse: Eu corro. De telefone preso entre o rosto e o ombro para que ao menos se libertassem as mãos cada um com as suas mãos libertas. Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida. Ele riu.
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LINHA FONÉTICA Era uma linha fonética no vidro. Linha como árvore obsessiva deste livro, como linha verdadeira, como página que se organiza por causa dela. Linha que não era de comboio, linha sem agulhas penduradas, sem linha da mão, sem linha de gente do outro lado da linha, de gente que quer manter a linha. Linha fria de transparência, fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema. Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó da noite nos outros. Assim era a minha linha: linha realmente fonética, absolutamente inalterável.
No sábado passado, 05/12/2009, na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo ( que abriga também a primeira biblioteca do país especializada em poesia), foi lançada a obra "O que é poesia?", organizada pelo poeta Edson Cruz e da responsabilidade das editoras, Confraria do Vento e Calibán. A obra integra 45 relevantes poetas brasileiros, portugueses (eu, simplesmente me sinto honrado em integrar este magnífico conjunto de poetas) e hispano-americanos em atuação respondendo a essa pergunta simples, mas nem de longe simplória. Surgido como uma provocação em seu blog (SAMBAQUIS), onde Edson Cruz propunha ainda duas outras perguntas (sobre o que um iniciante deveria perseguir e quais textos e autores lhe eram referenciais), o questionário resultou na seleção deste livro que, além de um calidoscópio reflexivo do fazer poético, revela-se um documento vivo do panorama literário contemporâneo, propiciando, inclusive, alguns raríssimos encontros para uma mesma edição. . Eis os autores nesta edição: Ademir Assunção, Affonso Romano de Sant'Anna, Amador Ribeiro Neto, Ana Elisa Ribeiro, André Vallias, Aníbal Beça, Antonio Cicero, Augusto de Campos, Bárbara Lia, Carlito Azevedo, Carlos Felipe Moisés, Claudio Daniel, Claudio Willer, Eunice Arruda, Fabiano Calixto, Felipe Fortuna, Flávia Rocha, Floriano Martins, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Horácio Costa, Jair Cortés, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Jorge Rivelli, Jorge Tufic, José Kozer, Luis Serguilha, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Ariel, Márcio-André, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nicolas Behr, Nicolau Saião, Ricardo Aleixo,Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Rodolfo Häsler, Rodrigo Petrônio, Sebastião Nunes, Tavinho Paes, Victor Paes, Virna Teixeira, Washington Benavides.
No final do post, alguns links que remetem para este evento e respectivo lançamento.
Pela oitava vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Rui Teixeira:
(...)cultiva cada vez mais uma poesia imagética e discursiva, alicerçada na relação do sujeito com o sobrenatural. Como já referiu o próprio poeta, a sua poesia é um lugar habitado por aparições oníricas e fantasmáticas, como memórias difusas, como narrativas subterrâneas ou luminosas, em que Deus paira como na superfície das águas (…), uma poesia neo-simbolista, mitológica e idiossincrática. Uma poesia onde o jogo imagético emerge sempre num presente absoluto que questiona a existência e a transitoriedade da vida. Como refere Pedro Sena-Lino, uma poética com um olhar consciente da transitoriedade do corpo (…), da mecânica do ser e da sua lógica profunda".-João Rasteiro
Os que vão morrer misturam barro com limalhas e adoecem. O sémen escorre do interior das mulheres como se não houvesse promessa ou manhã nos corpos caídos. Os que vão morrer adormecem como se a terra lhes pesasse desmesuradamente sobre a carne, como se insectos lhes devorassem as entranhas. E morrem por amor, creio.
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Os velhos esperam os filhos dos filhos ao meio dia como se esmagassem a força dos dedos contra as carótidas e não houvesse tempo de vê-los crescer. Atravesso a rua ao meio dia. Oráculo do Senhor. E estremeço com o olhar lânguido da adolescente que madura o útero na opacidade comovida da sua juventude. Repito: o coração é um órgão incendiado. Mas tu disseste-me: não despertes o que dorme, não agites as águas paradas; encontrarás Deus nas margens do grande rio.
O INFANTE . Deus quere, o homem sonha, a obra nasce. Deus quiz que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou creou-te portuguez. Do mar e nós em ti nos deu signal. Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal! .................................Fernando Pessoa In, "Mensagem", 10/12/1934, Editora Parceria A. M. Pereira .
Continuando a persistir na publicação dos poetas (7º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Luís Peixoto:
(...)cuja poética não é muito fácil de situar, embora com algumas aproximações a uma poesia do quotidiano, vamos encontrar uma poesia que possui uma espécie de força que éuma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força, não sendo uma poesia que cultive uma forte imagética, mas sim, uma poética que se alimenta de narrativas do dia-a-dia (por vezes é possível encontrar alguma redundância) e da memória. Uma poesia melancólica, quase totalmente despida de esperança, onde os versos roçam a realidade da morte, do amor, da vida, da não vida, do estar estando e do estar sem permanecer. Apontando para um neo-realismo tardio, é uma poesia que procura afincadamente a descrição da realidade de quem se quer livrar dos destinos traçados. Poesia que roça por vezes a prosa, num diálogo permanente com o seu mundo". -João Rasteiro
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EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE
devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada. a idade de nada é nada. a eternidade não existe. no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. os instantes do teu sorriso eram eternos. os instantes do teu corpo de luz eram eternos. foste eterna até ao fim.
LIMPAR O PÓ
Como se ontem e os dias antes de ontem se tivessem desfeito sobre as prateleiras,
como se pudéssemos escrever palavras nas suas cinzas com a ponta do dedo,
como se bastasse soprar para vermos as suas imagens, de novo, numa nuvem.
................BRUNO PRADO . QUANDO não há: cala! nem palavra, nem grafia a mais pura víscera de poesia — sangue pelo tato; embalo — a vida estrita é escrita pelo faro .
A PEDRA BRUTA — atirei-a contra ti uma floripedra; cego, as mãos de flamas; furibundo a língua árida, irosa sem aromas, só espinhos — a fuga, périplo de flores o amor, na beleza e brutalidade .
COLAPSO — uma cidade perdida; a minha fala a miséria do dito pelo fato — resta a fúria; o definitivo embate — quite com o tempo, entre rito e nada reergo a fio, o instinto, a navalha precipita-se o sangue; o plural da face — de fato o que nos difere, seres, de mortos é a carne .................In, FRATURAS
Avançando com a publicação dos poetas (6º), pela ordem de inserção na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta valter hugo mãe:
(...)"uma poética que de alguma forma se evidencia pela originalidade, em relação a outras poéticas da década de 90. É uma poesia onde sobressai o cuidado colocado em cada palavra, que permite um pleno domínio do poema que se adensa em múltiplos sentidos. Nesta poesia redescobre-se o gosto pelo belo enquanto grotesco. Por vezes, um metaforismo “grotesco” serve de suporte a uma poesia arabesca. Uma poesia de verso contido e lapidar, quase sempre à direita da página e que é um fruto maduro e arrebatador. Como refere Eduardo Pitta, a dimensão conotativa afasta valter hugo mãe de outros novíssimos: nem melancolia programática, nem misticismo (malgré Deus), nem excesso de complacência".-João Rasteiro
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dois.
. se te cansares de mim, não me peças que chore. deixa-me secar lentamente como pelo tempo, mais me custará, porque mais lento verterei a alma para a morte. no entanto, dá-me esperança de que não partirás, aguardo-te muito quieto, muito quieto para não atrapalhar os teus planos como quem não quer assustar a caça. mas sou a presa, eu sei que sou a presa. e tu podes vir reclamar-me o couro com toda a violência, já não me importo
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cinco.
. deixei sobre a mesa o dinheiro
que necessitas para o dia. espero que te
sirva para o almoço e para qualquer
coisa ao lanche. desculpa. amanhã, como
é domingo, venderei os pães na igreja,
quem sabe me dará deus valor suficiente
para manter o amor. se amanhã houver
mais dinheiro, mais um pouco que seja,
compro o teu prato, os teus talheres,
um copo onde te sirva a água simples.
volta cedo, peço-te, volta cedo, como
não sei nada sobre decisões divinas
quero só não perder-te em tempo
além do impossível. vem comigo ver
o que é feito dos gatos que deitamos ao
campo. achas que estarão gordos ou
terão morrido. eu acho que estão gordos,
se deus quiser
.....................................v. h. m.
....................AMÁLIA(10 anos de saudade)-Gaivota
Na juba da boca quando as palavras não forem senão a saliva das larvas há um excesso de língua atravessada na sombra adolescente de Yanis Ritsos,
no espaço onde a reminiscência é avidez no sulco mais longínquo da lascívia alma minha gentil dos espectros viçosos és a fonte derradeira dos anjos e suplicas:
arrebatam-me de júbilo a íris das abelhas irrompam-me o coração por bilhas vivas brotem-me as profundas raízes siderais.
Há um desejo infundido de livros prenhes jorrando o hipnótico sopro das geografias sob um céu diluído pela abertura de um deus
e as vozes murcharão de paixão pelos ferrões espinhadas pela garganta das crianças nuas.
As construtoras ainda ejacularão o puro mel fendendo altivas sobre a pele o incesto dos lírios. ................................................João Rasteiro
Continuando a publicação dos poetas, pela ordem de inserção na revista, que inclui na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas seleccionados para a antologia, conjuntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta Daniel Faria: "(...)é, sem dúvida, para a generalidade da crítica, a voz mais importante da “nova poesia portuguesa” surgida na década de 90 e que se afasta de alguma forma dos cânones até aí vigentes, apesar das influências de uma Luiza Neto Jorge e especialmente de Herberto Helder, e que flui torrencialmente, não só, como uma experiência mística, mas como uma mecânica de escrita depurada e em que a metáfora é o corpo de deus ou da natureza, numa consistente prática de questionamento da linguagem. Poesia intimamente interligada com o texto bíblico, concebe e pratica o lirismo da palavra como exegese da elevação do ser humano acima de si. Como refere Luís Adriano Carlos, Daniel Faria, como qualquer grande poeta da modernidade romântica em que vivemos, procura pela exaltação estética uma via de acesso à exaltação do sagrado e ao reino do espírito. É uma poesia de grande beleza e maturidade que representa uma geração". - João Rasteiro . As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro E geram continuamente. Transformam-se em pomares. Elas arrumam a casa Elas põem a mesa Ao redor do coração. . As manhãs Das manhãs
Apenas levarei a tua voz
Despovoada
Sem promessas sem barcos E sem casas
Não levarei o orvalho das ameias Não levarei o pulso das ramadas
Da tua voz
Levarei os sítios das mimosas Apenas os sítios das mimosas
As pedras As nuvens O teu canto
Levarei manhãs E madrugadas. ..................................D. F. .................AMÁLIA(10 anos de saudade)-Estranha forma de vida