sábado, 27 de fevereiro de 2010

ESPAÇOS

Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism ("Signos diacríticos"), Aguarela, Collage e Tinta da China - 2009
.....................Ao Henrique de Santiago (Ao Chile)
XII
.enquanto todos os seres que respiram o enxofre de forma ofegante acreditarem nos pilares das cidades as paisagens da era da técnica não sucumbirão às palavras que choram. e sob o banquete de luz do fogo-de-santelmo o burgo dos corpos metaliformes é uma coisa espantosa porque dilui em fábula invertidas os amoráveis canais do desejo. o líquen é lento como os longínquos sorrisos da pétala e há uma criança única bordando a solidão. como se o gládio da modernidade apenas reproduzisse o bolor da arte do aço desprendida do território aonde repousa a memória das tribos. é apenas o embate brutal do arquitecto dilacerando todas as fragilidades dos seres que se amavam cândidos. a metrópole concebendo em suas células o paladar do milagre. ela é agora a violenta extremidade do holocausto em que o equilíbrio se descobre nervo. e é no ímpeto das cidades que se principia a visão. a infinita exalação da linguagem em sua nervura.
...............................In, DIACRÍTICO (Inédito) - João Rasteiro

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PRÉMIOS/ESPAÇOS

Depois de ter obtido os mais diversos prémios literários, incluindo o Prémio Camões 2002, justificado na altura pelo júri, devido à "inovação no domínio da construção romanesca, no experimentalismo sobre a linguagem e na interrogação do poder fundador da fala", Maria Velho da Costa, uma das eternas "3 Marias", acaba de obter com a obra "Myra", o prémio literário Correntes d` Escritas/Casino da Póvoa/2010, edição que teve hoje início e se prolonga até ao dia 27, com a presença de mais de 60 escritores oriundos de vários países, que irão invadir literalmente a Póvoa de Varzim .

"Dizíamos tantas palavras. O meu mundo também não era grande coisa. Mas quem era aquela garota nos meus braços? O Holocausto para ela era um filme do Spielberg, Angola era a feição símia de Savimbi, e meninos piratas da perna-de-pau, coitadinhos de minas; a Tchetchénia era invenção celerada da Soviética, algures nos arredores de Chernobyl. E New York, New York, era a paródia residencial de Woody Allen e das suas enteadas de olhos em bico. Era isso o mundo dela, desertos e catástrofes, cetáceos ameaçados e Timor que era amor; um globo aldeão onde ela queria ver as tartarugas desovarem em paz, os tigres de dente de sabre voltarem a tosquiar os cordeiros da Sibéria, Sadam Hussein e o Papa Woytila dançarem como Zorba, em Jerusalém; um mundo cachorrinho de leite, onde a pior desgraça era ter sido deposta com um sorriso aos pés da escada e de onde havíamos de partir numa nave para Andrómeda e dar novos mundos ao mundo.
Mas esta rapariga não sabia de nada, e um namorado não sente assim, mas esta rapariga não vira nunca ninguém. Miranda! Era isso que lhe importava: estar no foco de luz dos olhos da ribalta, a rapariga afogada em si, primeiro o rosto, depois as mãos, enfim os cabelos. Brecht-Weil que eu ouvia debaixo da chuva de cinzas de Hannah, debaixo da lua vagabunda di espaço
".

In, "Irene ou o Contrato Social" - Maria Velho da Costa

.

http://bibliomanias.no.sapo.pt/mariavcosta.htm

http://www.infopedia.pt/$maria-velho-da-costa

http://blogtailors.blogspot.com/2010/02/correntes-descritas-2010.html

http://www.apel.pt/pageview.aspx?pageid=506&langid=1

sábado, 20 de fevereiro de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA

CELIO
1.
As aves ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos de Outono…

2.
Ambiciono o relâmpago,
só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.

3.
O que for escrito do hálito
será cumprido – a dilecção
é a sua extensão mais pura.

4.
Quando o cio desmembrar
a fábula sobre os cortiços
impregnarei a terra de paixão?

5.
Na combustão das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.

6.
A matança é uma inferência,
nunca a criação permanecerá
em sua aparente invisibilidade.

7.
Em vulcão de lava, o verbo
procura florir uma flor:
desaba inteiro na língua!

.............................João Rasteiro
..........................................Neil Young - Old Man

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OS "JARDINS" da POESIA PORTUGUESA

No final de 2009 foi editada a antologia Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, organizada por Rui Lage e Jorge Reis-Sá. Apesar de na última década terem sido editadas as antologias, Anos 90 e Agora, organizada por Jorge Reis-Sá; Desfocados Pelo Vento. A Poesia dos Anos 80, Agora, organizada por valter hugo mãe; Poetas Sem Qualidades e A Perspectiva da Morte, ambas de responsabilidade de Manuel de Freitas. Inclusive, saiu recentemente uma pequena antologia (10 poetas portugueses contemporâneos) na Colômbia, que organizei a pedido da revista ARQUITRAVE e intitulada A Poesia Portuguesa Hoje, contudo, foi a antologia Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra que verdadeiramente ainda criou alguma polémica. Realmente, cada vez mais se aceita o que aparentemente nos é "entregue de mão beijada" pelos "entendidos" e pelo Cânone, daí, os poetas sem reconhecimento ou ainda em luta pelo seu espaço, pouco ou nada reagem, no âmbito crítico, e os membros de cadeira do cânone, não ousam por princípio, criticar os seus comparsas. Se é verdade, que não precisamos sempre de voltar a 2002, quando "os deputados do círculo de Coimbra na Assembleia da República, mais Helena Roseta, apresentaram protesto formal junto da estrutura dirigente de Coimbra 2003 (Capital Nacional da Cultura), sponsor da edição, pelo facto de Afonso Duarte, Miguel Torga e Manuel Alegre... não terem sido seleccionados. E que, em extenso artigo no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão tenha feito a lista das ausências “intoleráveis” (o adjectivo é meu): Intelligentsia deixa de fora mais de 30 autores" (Eduardo Pitta - "Da Literatura"), seria altamente recomendável que, tal como nos portamos hoje, de forma geral, na sociedade, na política, nos valores, etc, ou seja, de um modo absurdamente indiferente, apático e desapaixonado, não o fizéssemos em relação à poesia e à literatura em geral.
Assim, voltando à antologia Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, e mencionando antecipadamente, de que apesar de tudo, e até tendo em conta a falta de antologias do género, a antologia passou a ser um dos meus livros de poesia de cabeceira, terei de refirir o seguinte:
A antologia reúne num só e gigantesco (até talvez assustador) volume de mais de 2000 mil páginas, 267 poetas portugueses, que vão de Pai Soares de Taveirós (início de séc. XIII) até Pedro Mexia (nascido em 1972). Os responsáveis (sobretudo no que concerne ao séc. XX, o grande paradigma desta antologia) vacilam entre não deixar fora das margens, nenhum autor "suficientemente" canónico e a tentação inversa de deixar a marca do seu gosto pessoal, qualquer que seja a origem desse gosto (aliás, perfeitamente válida, se não se caísse por vezes no absurdo, para não dizer escândalo de algumas escolhas, quer seja pelos nomes, pelo conteúdo ou pelo espaço, atribuído neste “jardim” da poesia portuguesa ).
Pode-se discordar um pouco do número de páginas (quer devessem ser mais ou menos) atribuídas a poetas como Camões (82 páginas); Bernardim Ribeiro (19 páginas); Bocage (12 páginas); Almeida Garrett (20 páginas); João de Deus (2 páginas); Florbela Espanca (3 páginas); Teixeira de Pascoais (12 páginas); Mário de Sá-Carneiro (22 páginas); Fernando Pessoa (159 páginas); José Régio (7 páginas); Jorge de Sena (24 páginas); E. M. de Melo E Castro (6 páginas); Carlos Oliveira (19 páginas); Manuel Alegre (6 páginas); Luísa Neto Jorge (11 páginas) ou Vasco Graça Moura (16 páginas), para dar alguns exemplos (sempre sem esquecer o agradecimento que Manuel Gusmão deveria dar aos organizadores por lhe ter sido incluído um poema nesta casta de poetas). Mas, alguns "atentados" são efectuados na poesia, nos poetas do século XX, realmente o espaço privilegiado definido pelos organizadores (isto, sem deixar de realçar uma selecção inatacável, que foi a efectuada relativamente aos cancioneiros dos séculos XIII e XIV). Assim, passo a apontar alguns casos que causam bastante perplexidade. Como entender uma antologia onde são incluídos 14 poemas de Eduarda Chiote, 27 de Jorge de Sousa Braga e apenas 1 (!!!), repito, um, de Manuel Gusmão? (já para não referir os 2(!) poemas de Natália Correia). Aliás, Eduarda Chiote, com 14 poemas, possui mais do que António Maria Lisboa, António José Forte, Armando da Silva Carvalho, Fátima Maldonado e Manuel Gusmão em conjunto (é obra - de quem?). Se aceitamos as 39 páginas de Ruy Belo, como explicar as escassas páginas, tendo em conta as simetrias atrás expostas, de Herberto Helder e Mário Cesariny? Mas, guardado estava o bocado - então não é que afinal, o grande poeta das últimas décadas em Portugal se chama Daniel Maia-Pinto Rodrigues (!!!)? Daniel Maia-Pinto Rodrigues que alguns querem à força comparar a Adília Lopes (também há quem compare a noite ao dia), com as suas vinte e tal páginas é sem dúvida, uma, talvez a maior (ao nível de Manuel Gusmão - 1 poema), das extravagâncias desta antologia (Luís Miguel Queirós, afirma que ele «escreve na arejada ignorância de toda a tradição literária»), porque parece que nesta antologia (de que apesar de tudo teremos que entender determinados critérios e metodologias, tendo em vista a editora e de alguma forma, existir perfeitamente delineada uma intenção pedagógica, uma vez que a antologia deveria, ou deverá, funcionar como um largo manual poético-escolar da poesia portuguesa) por vezes ficamos sem saber se os responsáveis colocam ou não colocam autores, tendo em conta que apenas os seus gostos pessoais, ou se conhecem minimamente determinados poetas e sua respectiva poesia (e falo essencialmente de poetas do séc. XX, talvez até da segunda metade do séc. XX), uma vez que é o grande campo de incidência da antologia.
Já para não falar na exclusão de poetas (até tendo em conta a inclusão de outros) como, António Feijó, José Blanc de Portugal, Guilherme de Faria, Saúl Dias, António Salvado, Edgar Carneiro, Ernesto Sampaio, António Barahona, Vergílio Alberto Vieira, José Sebag, Manuel da Silva Ramos, Nuno de Figueiredo ou Carlos Bessa, isto só para citar nomes (poderia ainda referir mais alguns) que encarnam o número do azar (13) e que poderiam perfeitamente ter sido incluídos.
Concluindo (apesar de ser sempre mais cómodo, estar no exterior, do que no centro, de uma tarefa como esta), estamos perante uma antologia em que aos organizadores terá que ser atribuído o mérito de terem conseguido juntar mais de dois mil poemas (ou fragmentos deles) de 267 poetas, num arco temporal de oito séculos, mas que até devido a tal facto, deveriam em determinadas situações, por um lado, ter sido mais exigentes consigo próprio e por outro, não acharem que este jardim (pequeno jardim) da poesia portuguesa, aceita ou aceitará qualquer planta, só porque é regada em abundância (aliás, "água de mais mata a planta").
P.S. - Se a antologia terminou com Pedro Mexia que nasceu em 1972 e que publicou pela primeira vez em 1999 - ficamos sem ter a certeza, se não ter terminado com um poeta nascido em 1974, o mais lógico (uma vez que seria terminar um ciclo temporal numa data importante, não só da sociedade, mas também, da literatura portuguesa) ou publicado pela primeira vez em 2000, se deveu ao facto de ter sido assumido o objectivo de não incluir Manuel de Freitas?
Dois poemas de Manuel Gusmão (1 poema) e Daniel Maia-Pinto Rodrigues (23 páginas na antologia – como disse numa carta que me escreveu em 2006, Herberto Helder: “E eu que ainda não li todos os gregos”):
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A velocidade da luz
.
Há, houve uma rotação do teu corpo
e há qualquer coisa de irreparável
que me fizeste quando rodaste no mundo –
o quase homem aposta tudo em que voltará.
Joga tudo em que o mundo regressará
a essa forma de uma onda suspensa na música
a essa rotação fora dos eixos.
Porque é que dizes então «irreparável»?
Irreparável aponta para onde?
.
Irreparável é o mesmo que antiquíssima
e não idêntica?
A cicatriz é irreparável porque a ferida é perpétua,
esquecida e perpetua?
Tocas-lhe a milímetros de distância,
como quem não quer
a coisa,
e tu devias dar e não dar por isso.
Dir-se-ia que o ar se moveu, que uma coluna
do tempo se deslocou, dançou como a luz por entre nuvens
na parede verde de um canavial.
..............................................................M.G.
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Um Pequeno Poema de Amor
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Nos tempos primitivos
o australopiteco dizia para a mulher:
"ó minha macaquinha, sorria
olhe ali um mamute!"
Nos tempos de hoje em dia
o homem diz para a mulher:
"ó minha dama de companhia, mamo-te."
Prefiro o setentão sinfónico dos Camel
que dizia:
ó minha dama de fantasia, amo-te.
..........................................D.M.P.R.
.......................Sérgio Godinho - Só neste país

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Espaço Divino

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.
Os poetas que integram a antologia são:
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.
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Variação sobre o rosto das aves
...............................................À Maria João Pires

Ela repousa as mãos sobre o piano exposto
para não ver o pássaro da infância a memoria do caos.
E viu em cima as mãos mortas. Então canícula
embrionária na força das guisas da pedra
sagrada – ela língua de eco violento.
E fechou os olhos ao timbre dos pirralhas
em seu encanto de feiticeiras
e foi possuída como os outros animais verdes.
Um grão de sémen balsâmico desvendou
o enigma onde se coalha a força de acravar os dedos
até a fulguração do espanto
a máscara desmesurada da palavra e do sopro.

Se pudesse chorar o medo sob as diáfanas pedras
se pudesse arrancar o corpo
e comê-lo nos instrumentos melodiosos da ira
como Saturno alimentando-se pelo ventre
comendo seu coração de ardósia – seus filhos de voz.
Seria pelos seus dedos acesos
alumbrados nas sementes das auréolas selvagens
e pela poesia que sai indómita do canto
das aves – explosiva é a geometria do piano
e das ignitivas gárgulas primitivas.

Talvez a sílaba seja só esta perene e imperceptível
boca de sopro que se dispersa vida e morte
apontando o polegar da carne
insistentemente como cristais expelindo de lírio em lírio
e de dentro a melíflua fractura do silêncio
ascende pela música divina onde há restos de silêncio
até os corpos se apartarem dos solos noctívagos.

Ela explode luz com a euforia dos músculos
quando aquecido em seus dedos há um inventário nu
e vi os mortos, pequenos e grandes…e foram abertos os livros.
...............................................................João Rasteiro

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

PERCURSOS

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) vai acolher dia 10 de Fevereiro, às 21:30, o lançamento do livro «A Máquina de Fazer Espanhóis», de valter hugo mãe.
A sessão contará com a apresentação de António Lobo Antunes, segundo o divulgado em comunicado.
«A maior parte dos livros são escritos para o público, este é um livro escrito para os leitores», escreve Lobo Antunes.
valter hugo mãe, hoje, sem dúvida, já uma das vozes mais representativas da literatura portuguesa contemporânea, publica o seu 4º romance, depois de reunir a sua poesia no volume "Folclore Íntimo". Deste seu livro, o poema:"o poema feio". E porque o valter já é actualmente, um artista dos sete instrumentos, do GOVERNO, o grupo musical onde é vocalista, a música:"Meio Bicho e Fogo".
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a princesa feia não casou mas, no tempo em que foi visitada por príncipes solteiros, querendo agradar, cortou uns palmos às pernas para ficar mais baixa e cómoda ao abraço, puxou pelos dedos para ficar com eles compridos, amassou os seios de encontro ao pescoço para subirem aos olhos da gente, rasgou os lábios para sorrir eternamente. agora, ali sentada, sozinha de amores, lembrava-se de ser impossivelmente a mulher que foi, mas os ratos passavam-lhe entre as falhas cortadas das pernas, e os dedos desjuntavam-se irremediavelmente murchos de encontro ao chão, os seios coagularam como calcificados com as marcas desorganizadas das mãos e os lábios articulavam apenas palavras de dentes, trituradas pelo osso da cabeça lentamente vertendo para fora da pele. conformada, a princesa feia, dizia à prioresa sua amiga que o vento estava louco. levantava-se instável e profundamente mortal, fechava a janela e voltava ao silêncio - v.h.m.
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sábado, 30 de janeiro de 2010

DESTINOS

......................João Cutileiro ("Desenho 33*35")
O júri dos Prémios de Revelação APE/Guimarães Editores – 2008, constituído por Ana Marques Gastão, Miguel Real e Serafina Martins, deliberou, por unanimidade, não premiar nenhum dos trabalhos inéditos concorrentes, nas modalidades de Poesia e de Ensaio Literário.
Neste júri, onde apenas "temos" uma poeta, o mesmo entendeu não existir qualidade, ou a sua exigência de poesia (de leitura, não de escrita!!!) para atribuir o prémio Revelação APE/Guimarães Editores é muito grande. Coisas da Poesia, da APE, ou até da Guimarães Editores?
Assim, publico o poema de Ângela Canez, uma jovem poeta (sem livro publicado) que integra a "OFICINA de POESIA da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
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perdidamente o rastro
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perdidamente o rastro
o que fica da ausência rasgada nos aquedutos
na pele voltada à estéril lembrança
de mulheres que caminham sobre as águas
e não se afundam não tornam a amanhecer
nem se consomem nas chamas
porque é tarde. demais e acrescentam à vida
uma réstia de silêncio. pouco mais
uma réstia de artefactos objectos comuns
para violentar a dor o que dói e fica
e alastra e é ainda maior porque anoitece
no quarto vazio onde já não vivem
nem se abrigam da chuva
que os homens plantam ou fazem cair na memória
baixinho. assim inteira
retirando aos poucos o acaso
o vazio que é e aumenta a certeza de que ninguém virá
lá onde o corpo dói e funda
e aumenta e afunda um pouco mais. porque é tarde
e já deviam ter voltado da incursão
ao centro das águas. dos corpos depostos
onde já não dormem
ninguém vive
onde já não se vive
.............fartos de lembrar
..............................Ângela Canez
...............The Legendary Tiger Man - Route 66

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Espaço Sagrado

Negação de Ulisses e Teseo

Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Penélope que tece
e destece os bordados assim que anoitece.
Ulisses não existe, foi verso fugidio.

Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Ariadna que oferece
sair do labirinto mortal a quem a esquece.
Teseo não existe, só sobra o desafio.

Se alguma vez eu tiver de partir como Odiseo
prefiro voltar sempre vencido a Compostela.
Não me importa a derrota se tu me identificas.

Se alguma vez eu tiver de marchar como Teseo
não há-de ser Artemisa fluxo do meu Sarela.
Não me importa ser lama se tu me purificas.
............................................MIRO VILLAR
In, EQUINOCCIO DE PRIMAVERA (Tradução: João Rasteiro)


http://gl.wikipedia.org/wiki/Miro_Villar

sábado, 23 de janeiro de 2010

Espaço Sagrado

No início de 2010 este "Aula de Poesia" é já uma das agradáveis surpresas literárias, nomeadamente no que à poesia/poetas diz respeito. Eduardo Pitta, embora talvez de forma mais ligeira, que não aligeirada, do que em "Metal Fundente" de 2004, traz-nos estas excelentes crónicas sobre, entre outros: Eugénio de Andrade * Adília Lopes * Camilo Pessanha * Judith Teixeira * Jorge de Sena * Manuel Gusmão * Joaquim Manuel de Magalhães * Carlos Drummond de Andrade * Manuel de Freitas * Carlos de Oliveira * Gonçalo M. Tavares * Rui Knopfli * Fernando assis Pacheco * Mário Cesariny * Sophia de Mello Breyner * Herberto Helder * VGM * António Botto * Cesário Verde», para além de alguns períodos e livros/antologias marcantes da poesia portuguesa.
Sendo certo que Eduardo Pitta já nos habituou, ao nível da crítica, ensaio ou recensão crítica, não só através dos livros, do blogue "Da Literatura", mas essencialmente através da regular colaboração em revistas e jornais, à forma acutilante, objectiva e incisiva com que se pronuncia, e apesar de muitos destes autores já terem em outras ocasiões sido alvo da sua análise, esta "Aula de Poesia" é sem dúvida um livro que merece uma leitura imediata e de um só fôlego (até porque a escrita que nos apresenta e a forma curta das crónicas, assim o pede e permite).
De um dos poetas que Eduardo Pitta nos fala, Manuel de Freitas, o poema: "Quando sós à boleia do crepúsculo"
.
Quando sós à boleia do crepúsculo

Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).

Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.
.
...........In, "SIC", Manuel de Freitas
...........................................................CARLOS PAREDES

http://www.eduardopitta.com/index.html

http://daliteratura.blogspot.com/

domingo, 17 de janeiro de 2010

ECOS

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, 12/08/1907 — Coimbra, 17/01/1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX e da literatura portuguesa em geral.


Elegia do esquecimento

..................................Ao Miguel Torga

Não te conhecerá a víbora ou as oliveiras
nem os cães e os escorpiões da tua carne
nem as renovadas crias ou a sílaba álgida.

Não te conhecerá a fêmea nem a aurora
porque como cometa fulminante já só és pó.

Não te conhecerá o dorso da argila viva
nem o linho onde assentou o sangue aceso
nem a memória mutilada da primeira labareda.

A memória é espessa de sangue nas arestas
e até ao gume só homens da torre de Babel.

As trovoadas em breve cantarão as chuvas
o pó subirá às árvores abrigar-se-á nos lúzios
a noite onde te habituarás a fruir a única noite.

O espaço em que se finge ter tido um destino
as constelações palpáveis dos dias dos animais.

Não te recordará ninguém nas pérfidas vozes
como todos os mortos que se olvidam perdoados
entre as vísceras orgulhosas de abutres apagados.

Em ti começa o descanso dos odoríficos pomares
onde as candeias resguardam o silêncio indecifrável.

Minha ânsia de voz está diante de tua voz possessa
mesmo que não trespasse as lascas da minha garganta
a nua saliva sobre a terra dos inundáveis actos de deus.

Está diante de ti no esquecimento que embevece o sonho
de que as palavras vivas ainda bordam um coração outro.

Os poetas dormem, o esquecimento é um bálsamo sagrado,
e toda a ilusão é cruel porque se dilui voz na musa herdada.
......................João Rasteiro (In, Comemorações Miguel Torga 2005-2007, CMC, 2008)

http://www.astormentas.com/torga.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Miguel_Torga&op=7&author=1360

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HAITI (desígnios?)

Explicação de deus enquanto pedra


Fulmina-me, atravessa o meu corpo com as tuas lâminas
o amor não és tu, nunca o serás no mundo das rupturas!
Não te compadeças de mim, escuta o meu desafio justo
que vai subindo irado no reverso corpóreo das bocas,
olha-me nos olhos húmidos dos cães raivosos de frechas.

Ao pé do teu divino reflexo a tua covarde indiferença,
olha estas incisões esquivas como monstros em chamas
entre as cidades invisíveis e a morte discerne da sílaba.

Já contra a carne para embeber as tuas dúvidas, a loucura,
a mentira, a injúria, vozes num espaço opaco, cuja traição
só tu serias capaz de moldar como tributo em todos nós
- digo que todo o teu santo nome é repudiado sob as algas.

Se as tuas generosas dádivas se fincassem como ofício puro
a tua memória seria amaldiçoada esconjurada entre o pó
como um eco, pesadelo longínquo dos homens primitivos.

Ergue-se por fim a nuvem a melancolia intangível do verbo
a hegemonia transitória da sombra que te oculta dos mortos.
E agora é o aperto dos dedos que abatidos se acorrentam.

A pedra está dobrada sobre si mesma, transbordante de luz
como se desabrochasse nos abismos profusos da cegueira.

Quero emergir sob a glória da minha guerra. Mas a pedra
está despida por dentro, o coração – então morrerei solitário.
...........................João Rasteiro (In, "O Búzio de Istambul")
......................................"O HAITI" - Caetano Veloso

http://pt.wikipedia.org/wiki/Haiti
http://www.publico.clix.pt/Mundo/violento-terramoto-deixa-haiti-em-estado-de-catastrofe_1417564
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1468295&seccao=EUA%20e%20Am%E9ricas

sábado, 9 de janeiro de 2010

AS ROTAS da DÉCADA


Uma década é muito tempo para emergirem das entranhas do caos, e do tempo, infinitos livros de poesia. Em muitos deles, só um poema já valerá todo o livro, por isso, a dificuldade da escolha. Apesar disso, os meus livros de poesia da década em Portugal, são os seguintes:


A Respiração das Vértebras, 2001, João Rasteiro (**)
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No Centro do Arco, 2003, João Rasteiro
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Os Cílios Maternos, 2005, João Rasteiro
.
O Búzio de Istambul, 2008, João Rasteiro
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Pedro e Inês, ou As Madrugadas Esculpidas, 2009, João Rasteiro
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A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, 2008, Herberto Helder
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Migrações de Fogo, 2004, Manuel Gusmão
Poesia, 2003, Daniel Faria
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ROSA do MUNDO, 2001 Poemas para o futuro, 2001, Assírio & Alvim (Direcção Editorial de Manuel Hermínio Martinho).
Anos 90 e Agora, 2001, Selecção/organização de Jorge Reis-Sá
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BIOGRAFIA, 2000, José Agostinho Baptista
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Ofício Cantante - Poesia Completa, 2009, Herberto Helder
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Obra Breve - Poesia Reunida, 2006, Fiama Hasse Pais Brandão
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Uma Grande Razão - Os poemas maiores, 2007, Mário Cesariny
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Antes que o Rio Seque - poesia reunida, 2006, A.M. Pires Cabral
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DOBRA, 2009, Adília Lopes
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Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), 2007, Amadeu Baptista
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Século de Oiro, Antologia de Poesia Portuguesa do século XX, 2002, Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra
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Portuguesia, Contraantologia, 2009, Selecção/Organização de Wilmar Silva (*)
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Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, 2009, Seleção/Organização de Jorge Reis-Sá e Rui Lage

NOTA:

(*) - Livro lançado em primeira mão em Portugal, mas não editado em Portugal, apenas o foi no Brasil.

(**) - Os primeiros cinco livros da lista, indiscutivelmente "os meus livros", terão retirado da lista outros cinco livros, inclusive alguns, de autores ainda jovens.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

CORRENTES

Já foi divulgada a lista das dez obras finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, para a edição de 2010 do Correntes d’Escritas ( seleccionada pelo júri, constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis e Vergílio Alberto Vieira), que irá decorrer entre 24 e 27 de Fevereiro:

A Eternidade e o Desejo, Inês Pedrosa, Dom Quixote

A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira, Dom Quixote

A Sala Magenta, Mário de Carvalho, Caminho


Myra, Maria Velho da Costa, Assírio & Alvim


o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe, QuidNovi


O Cónego, A. M. Pires Cabral, Livros Cotovia


O Mundo, Juan José Millás, Planeta


O Verão Selvagem dos teus Olhos, Ana Teresa Pereira, Relógio D’Água


Rakushisha, Adriana Lisboa, Quetzal


Três Lindas Cubanas, Gonzalo Celorio, Quetzal


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010

XV

.tudo se transmutou no equilíbrio do caos. o mundo acordou sob a vigilância dos modernos alfabetos envoltos num alvéolo de fosforescente metal. e uma recente e definitiva espécie de criaturas que se distanciam dos sonhos da sílaba mística irrompe das galáxias prenhes da lógica dos algarismos. e são empoadas de extraordinárias preeminências biológicas relativamente aos primitivos organismos com coração e lágrimas. agora o pó envolve em espirais de névoa a aniquilada estátua de adriano. a partir dos seus olhos os besouros-do-fumo procuram a visibilidade da cidade. o escaravelho sagrado. aí se bifurca o novo dialecto dos heróis. a profecia dos poetas eclodiu como castigo etéreo.

JOÃO RASTEIRO - In, DIACRÍTICO (Inédito - a publicar em 2010)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL

Ser divino, criança cativa
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
esse chegar de repente que não esbate ao espanto.
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
um não-concebido astro em ventre de bem-querer,
indefinido corpo único de tão temeroso verbo
o que sempre foi esplendor e terá que ser!
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
sílaba acesa em que já não desabrocham deuses,
irreconhecível voz de tão recente fábula
a noite que se fracciona em estrelas prenhes de luz!
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Tu és ser divino em eterna meia-noite
carne arrebatada na espinhosa inundação da língua,
inexplicável geografia de tão subtil cântico
esse jogo dos homens em que te devem louvar!
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Deus te proteja, criança cativa da meia-noite
que tudo é noite na imensidão do mundo – e nada mais!
.............................................................João Rasteiro

domingo, 20 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - X

Pela 10º e última vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Catarina Nunes de Almeida:
"(...)a poesia de Catarina Nunes de Almeida, que de alguma forma se situará próxima de uma poesia de forte carga imagética, reflecte o fascínio pela poesia oriental. Nota-se nela um esforço de transparência e simplicidade que a aproxima do género de haikai, numa relação mulher-natureza, sempre mais evocada do que contemplada. Sente-se o objectivo de transmitir “sentimentos”, de alguma forma contraditórios, entre o real e o metafísico, através de um jogo de palavras “especiais”, um jogo assente em termos que são essencialmente da botânica". - João Rasteiro
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Solo

Um dia os nossos gestos serão verdes.
Dormiremos aos pés da terra
nas nossas bocas só os pés da terra
e a folhagem em vez dos meus braços.
Basta um grão de pó na unha
a noite dedilhada no centro do poro
para que eu estenda os seios no deserto
depois da vindima. Entre a pele e as espigas
já não restam reticências – apenas uma escama
com que agasalho o mundo.
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Fusão

I
Quando as amoras estão maduras
a menstruação corre no vale
vinda do teu lado. A noite é uma ponte
deitada sobre as margens da cintura:
lugares de xisto onde repousam
sombras de animais.

II

Por vezes os seios crescem-me no teu peito.
Os dias vêm quando vêm os teus lábios
maçã que mordo entre as pernas.
Todo o nosso corpo é flor mútua
escultura que brotou do mesmo chão
imperfeita.
...............................................C.N.A.
....AMÁLIA (10 anos de saudade) - "Não sei porque te foste embora"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Espaço Sagrado




................pós-soneto
.............................Augusto de Campos
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....................................................Seu Jorge - "Tive Razao"

http://www2.uol.com.br/augustodecampos/poemas.htm

domingo, 13 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - IX

Pela nona vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que recentemente organizei para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, a poeta referenciada, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é a poeta Filipa Leal:
" (...)é uma poesia luminosa e em certa medida inumana. Como referiu Eduardo Prado Coelho, ela demarca-se de grande parte da poesia portuguesa que actualmente se vai escrevendo, uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias, de cariz mais confessional, Filipa Leal apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica grandiosa na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. Ela se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema". - João Rasteiro
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A CIDADE ESQUECIDA

Para o António.
Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.
Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.
Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.
Ele disse: Sou um rio exacto.
Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.
Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.
De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele
riu.
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LINHA FONÉTICA

Era uma linha fonética no vidro.
Linha como árvore obsessiva deste livro,
como linha verdadeira, como página
que se organiza por causa dela.
Linha que não era de comboio, linha sem agulhas
penduradas, sem linha da mão, sem linha
de gente do outro lado da linha, de gente
que quer manter a linha. Linha fria de transparência,
fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema.
Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó
da noite nos outros. Assim era a minha linha:
linha realmente fonética, absolutamente inalterável.
.............................................................F.L.
..........AMÁLIA (10 anos de saudade) - "Tudo isto é fado"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O QUE É A POESIA?

No sábado passado, 05/12/2009, na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo ( que abriga também a primeira biblioteca do país especializada em poesia), foi lançada a obra "O que é poesia?", organizada pelo poeta Edson Cruz e da responsabilidade das editoras, Confraria do Vento e Calibán. A obra integra 45 relevantes poetas brasileiros, portugueses (eu, simplesmente me sinto honrado em integrar este magnífico conjunto de poetas) e hispano-americanos em atuação respondendo a essa pergunta simples, mas nem de longe simplória. Surgido como uma provocação em seu blog (SAMBAQUIS), onde Edson Cruz propunha ainda duas outras perguntas (sobre o que um iniciante deveria perseguir e quais textos e autores lhe eram referenciais), o questionário resultou na seleção deste livro que, além de um calidoscópio reflexivo do fazer poético, revela-se um documento vivo do panorama literário contemporâneo, propiciando, inclusive, alguns raríssimos encontros para uma mesma edição.
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Eis os autores nesta edição: Ademir Assunção, Affonso Romano de Sant'Anna, Amador Ribeiro Neto, Ana Elisa Ribeiro, André Vallias, Aníbal Beça, Antonio Cicero, Augusto de Campos, Bárbara Lia, Carlito Azevedo, Carlos Felipe Moisés, Claudio Daniel, Claudio Willer, Eunice Arruda, Fabiano Calixto, Felipe Fortuna, Flávia Rocha, Floriano Martins, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Horácio Costa, Jair Cortés, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Jorge Rivelli, Jorge Tufic, José Kozer, Luis Serguilha, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Ariel, Márcio-André, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nicolas Behr, Nicolau Saião, Ricardo Aleixo,Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Rodolfo Häsler, Rodrigo Petrônio, Sebastião Nunes, Tavinho Paes, Victor Paes, Virna Teixeira, Washington Benavides.
No final do post, alguns links que remetem para este evento e respectivo lançamento.

http://sambaquis.blogspot.com/search/label/O%20que%20%C3%A9%20poesia

http://intradoxos.blogspot.com/2009/12/rave-cultural-lancamento-do-livro-o-que.html#links

http://www.poiesis.org.br/casadasrosas/

http://www.confrariadovento.com/editora/livro21.htm

http://www.editoracaliban.com.br/v2/

sábado, 5 de dezembro de 2009

"A Poesia Portuguesa Hoje" - VIII

Pela oitava vez, a publicação dos poetas, pela ordem de inclusão na revista, que incluí na antologia de poesia portuguesa que organizei recentemente para a revista Colombiana ARQUITRAVE (http://www.arquitrave.com/principal.html), hoje, o poeta referenciado, como habitualmente, com dois dos poemas escolhidos para a antologia, juntamente com a respectiva análise critica à sua poesia e que integra o ensaio de introdução da antologia "A Poesia Portuguesa Hoje", é o poeta José Rui Teixeira:

(...)cultiva cada vez mais uma poesia imagética e discursiva, alicerçada na relação do sujeito com o sobrenatural. Como já referiu o próprio poeta, a sua poesia é um lugar habitado por aparições oníricas e fantasmáticas, como memórias difusas, como narrativas subterrâneas ou luminosas, em que Deus paira como na superfície das águas (…), uma poesia neo-simbolista, mitológica e idiossincrática. Uma poesia onde o jogo imagético emerge sempre num presente absoluto que questiona a existência e a transitoriedade da vida. Como refere Pedro Sena-Lino, uma poética com um olhar consciente da transitoriedade do corpo (…), da mecânica do ser e da sua lógica profunda". - João Rasteiro

Os que vão morrer misturam barro
com limalhas e adoecem. O sémen
escorre do interior das mulheres
como se não houvesse promessa
ou manhã nos corpos caídos.
Os que vão morrer adormecem
como se a terra lhes pesasse
desmesuradamente sobre a carne,
como se insectos lhes devorassem
as entranhas. E morrem por amor, creio.

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Os velhos esperam os filhos dos filhos ao meio dia
como se esmagassem a força dos dedos contra
as carótidas e não houvesse tempo de vê-los crescer.
Atravesso a rua ao meio dia. Oráculo do Senhor.
E estremeço com o olhar lânguido da adolescente
que madura o útero na opacidade comovida
da sua juventude. Repito: o coração é um órgão
incendiado. Mas tu disseste-me: não despertes
o que dorme, não agites as águas paradas;
encontrarás Deus nas margens do grande rio
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............................................................J.R.T.

.........AMÁLIA (10 anos de saudade) - Solidão/"Canção do Mar"

http://equinociodeoutono.blogspot.com/

http://bibliotecariodebabel.com/tag/jose-rui-teixeira/

http://www.quasi.com.pt/index.php?manufacturers_id=4307