segunda-feira, 5 de abril de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA II

Esquilino

1.

Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.

2.

O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!

3.

Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

4.

No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.

5.

É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.

6.

Quando saboreei a carne
ia saborear a terra – aves
e Vénus vagueiam acesas.

7.

Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
...........................João Rasteiro

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PRÉMIOS

O poeta Hélder Brandão Faria, acaba de obter o prémio de poesia "Medieve Latino" com o livro "410 solstícios". Professor e ensaísta, é um profundo estudioso da época medieval, tendo traduzido imensos textos de S. Agostinho, essencialmente textos de carácter Dogmático e Exegéticos. Não tendo ainda qualquer livro de poesia publicado, Hélder Brandão Faria prepara-se para publicar uma antologia dos seus vários poemas, publicados ao longo de vinte anos em várias antologias e revistas. Segue-se um poema publicado em 2006 na revista "De Trinitate Literare".
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Um país vicentino
..............O dia em que nasci
..............meu pai cantava…
............Fernando Assis Pacheco
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Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos cravos.
Este é o país dos resignados,
este é o país e esmorece.
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Este é o país dos prostrados.
Este é o país dos alheados,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos vencidos.
Este é o país dos distraídos,
Este é o país e esmorece.
Este é o país dos domados.
Este é o país dos apartados,
este é o país e esmorece.
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Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos trovadores.
Este é o país dos navegadores,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos poetas.
este é o país dos astecas,
este é o país e esmorece.
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Este é um país vicentino.
Este é o país dos infantes,
este é o país e devaneiam.
Este é o país dos meninos,
este é o país e acreditam…
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Este é o país, o país é este!
.........................Hélder Brandão Faria
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domingo, 28 de março de 2010

GEOGRAFIAS

Na passada quinta-feira, 25/3/10, a Comunidade de Leitores Almedina, dirigida pela Prof Dra. Ana Paula Arnaut, recebeu o escritor (para mim, essencialmente amigo e poeta) Luís Carlos Patraquim. Na sessão dirigida pelo especialista em literatura africana da Universidade de Coimbra, Prof. Dr. Pires Laranjeira (FLUC), a conversa que se desenrolou à volta do percurso da experiência no jornalismo, cinema, teatro, política, até à poesia, a conversa decorreu de forma absolutamente deliciosa e participativa, essencialmente por parte dos estudantes Erasmus que assistiram à sessão.
Ficou-se também a saber uma pequena inconfidência, Luís Carlos Patraquim vai publicar brevemente o seu primeiro romance, embora ele prefira chamar-lhe um cruzamento de romance-novela. A única garantia, será a existência de uma grande paródia e profunda ironia à volta do percurso da personagem principal do romance.
Luís Carlos Patraquim é sem dúvida, depois de Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Sebastião Alba e José Craveirinha, provavelmente o maior poeta moçambicano, tendo contribuído decisivamente para uma viragem na poesia moçambicana (e africana em geral), encerrando o chamado período militante da poesia (aliás, terá sido essa vontade de viragem que lhe veio a trazer alguns problemas, quer no seio político-social, mas também no seio literário moçambicano pós-independência.
Como afirma Pedro Mexia, Luís Carlos Patraquim possui hoje "uma arte poética bem calibrada, capaz de escrever poemas curtos muito expressivos e quase expressionistas, verbalmente densos e imprevisíveis, com uma aposta imagística eficaz. São poemas a que podemos aceder apenas pela sua força verbal, estribada também numa repetição quase ritualística e num sentido rítmico notável".
Para além de poesia inédita (que já tive o prazer de ouvir) e que mostra cada vez mais o poeta que hoje é Luís Carlos Patraquim, aguardemos então com expectativa essa primeira narrativa.
Da colectânea editada em 2009, "Pneuma", dois poemas de Luís Carlos Patraquim:
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AL-GHARB
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Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras
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Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres
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Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo
.
E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.
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COLAGEM
.
Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos
.
Rilham
.
E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha
.........................[in Pneuma, Caminho, 2009]

quinta-feira, 25 de março de 2010

ROTAS

...............The Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism
ZEN

A sombra segue o corpo
condenado a viajar.
Terás a minha pele
Terás a minha carne
Terás os meus ossos.
Mas o último guardou silêncio
Terás a minha medula - disse -
Com o pó do caminho
A mão sustinha uma sandália.
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PERICLES ANASTASIADES, circa 1895
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Vagos, são já, os rostos do seu rosto
vaga, também, a forma das suas mãos
longe, está, o seu alento da minha boca
a sua pequena estatura
os seus quinze anos
Apenas um ontem ocupa a minha memória
o nosso pequeno amor
o nosso pequeno mês
à dez luas atrás.
.
De repente
na madrugada
os seus olhos, de púrpura vestidos,
os seus lábios
lábios de um amor apressado
os seus cumpridos braços
braços de inolvidável robustez
aparecem
Quanto perdi bom Deus!
Quanto perdi!
.............Harold Alvarado Tenorio
..............................(Tradução: João Rasteiro)

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março

escrevo-te a sentir tudo isto
....................Ao V. de S.

Habito nestes livros de poesia por engano,
eu não pertenço à floresta
onde se inventou o fogo
e se troça dos deuses obscuros
domesticando a sílaba dos cavalos
nocturnos
que enrolam as líticas patas do bronze
para além da boca das chuvas,


nada mais desfruto do que a cabeça do tempo,
aí cavo a lucidez dos olhos
da meretriz dos rumores sangrentos
a finitude visceral na injunção do gáudio
em que as mães se extinguem
consanguíneas
sob a abismada ortografia da água
tragando o contágio dos precipícios,


enxerga como o coração fica sombrio e áspero,
o insaciável tacto da separação fervilha
entre livros e coração
o leilão do amor que apazigua a aporia da dor
buscando outra flor outra memória
inominável
a acerba tinta, sangue e corpo
entre formas vulgares e distintas de amar,


e não podendo guardar todas as promessas
sacrificar-me-ei como o cordeiro
em base de alabastro sagrado
com meus ais de guelras inclinadas
sob a inexequível amplitude do verbo
entre a metáfora do relâmpago,


pois livros e mães jazerão então inaudíveis
em sua feroz melancolia
tresmalhados nos seios da tempestade
como sulfurosa fragrância de infindas concubinas.
..........................................João Rasteiro - 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

DESTINOS

“Mutação”
1.
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O homem recosta a garganta
nas imagens da astúcia
numa ferocidade própria dos sons e dos sopros
um mergulho no fluído da luz
que possa conceder o privilégio de profanar
o templo das máscaras oblíquas
a boca cheia de corpo
onde o coração se consome agachado e devagar
uma sincera cegueira
desde a respiração palpitante entre as bocas
e as guelras onde levita a carne.
.....................In, A Respiração das Vértebras, 2001

sábado, 13 de março de 2010

"É Nosso o Solo Sagrada da Terra"

Faleceu recentemente (n. 30/04/1926 - m. 09/03/2010) em Luanda, a poeta Alda Espírito Santo, aquela que no entender de alguns, terá sido a figura mais materna - por isso tão solidária e carismática - do movimento emancipador contra a opressão colonial nas possessões africanas portuguesas.
Alda Espírito Santo foi um dos esteios da implantação do ensejo da "reafricanização dos espíritos", como dizia o seu camarada Amílcar Cabral quando ambos fundaram em Lisboa, com Mário Pinto de Andrade, Francisco José Tenreiro, Marcelino dos Santos e outros, o CEA-Centro de Estudos Africanos, que conjuntamente com a Casa dos Estudantes do Império, se transformou num instrumento de formação das jovens consciências que se foram emancipando no início da década de 50.
"Perde a literatura de língua portuguesa uma grande figura e perdemos todos no campo dos afectos", afirmou o escritor angolano Pepetela, quando soube da sua morte. Pepetela recorda a autora do hino nacional de São Tomé como alguém que "através da sua poesia" soube "apontar o caminho aos mais novos": "O caminho da luta, da dignidade dos povos, da independência." Depois de publicar O Jogral das Ilhas, em 1976, editou em 1978 É Nosso o Solo Sagrado da Terra, o seu trabalho mais importante. "A sua poesia teve importância em todo o movimento anticolonial e em todos os países de expressão portuguesa", recordou o poeta Manuel Alegre.
Para além de ter nascido, vivido e morrido poeta, foi ainda Ministra da Informação e Cultura e Ministra da Educação e Cultura de S. Tomé e Príncipe, e presidente da Assembleia Nacional. Exerceu o cargo de presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe, em acumulação com a presidência do Fórum da Mulher. Dela escreveu a sua conterrânea e também poetisa Conceição Lima, num texto recente na revista África 21: “Alda Espírito Santo é igual à transparência da casa que a habita, a casa que nos habita. Pelos nomes próprios nos distingue e nos chama".
Como referiu ainda Pepetela, "a Alda Espírito Santo foi, num determinado momento (anterior às independências dos países de língua portuguesa), das poucas pessoas que já sabia o caminho a seguir, porque, sobretudo através da poesia, ia indicando aos mais novos qual era o caminho, o caminho da luta, da dignidade dos povos, da independência".
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Ilha nua
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Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
.............................Alda Espírito Santo
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quarta-feira, 10 de março de 2010

A Pólis

Maria Helena da Rocha Pereira foi a grande vencedora do prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores/Caixa Geral de Depósitos.
O galardão no valor de 25 mil euros foi atribuído, como referiu o júri, essencialmente tendo em conta o mérito da premiada.
Maria Helena da Rocha Pereira é sem dúvida a maior especialista portuguesa em estudos clássicos (cultura grega e latina) e inclusive, um dos grandes nomes em todo o mundo na área da cultura clássica.
"A sua obra conta com mais de trezentos títulos, entre traduções, monografias e artigos enciclopédicos. É particularmente conhecida pela obra Estudos de História da Cultura Clássica (dois volumes), obra adoptada em Portugal nas licenciaturas da área da literatura e da história. Foi também autora de uma obra sobre os vasos gregos em Portugal, um dos seus campos de estudo. Publicou livros sobre autores clássicos, em especial sobre os gregos Platão, Anacreonte, Píndaro e Pausânias" (in, wikipédia).
Não me esqueço das obras Hélade e Estudos de História da Cultura Clássica (entre os estudantes, o célebre "tijolo") que devorei precisamente na cadeira de História da Cultura Clássica, regida pelo Prof. José Ribeiro Ferreira.
Tendo sido a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra, veio a solidificar uma trajectória ímpar ao serviço da Universidade e da Cultura Portuguesa, sendo hoje uma das grandes figuras da cultura portuguesa e europeia.
Maria Helena da Rocha Pereira é de facto a “Grande mestra dos estudos gregos e latinos”, tal como referiu Eduardo Lourenço.
Seguem-se algumas traduções de Maria Helena da Rocha Pereira:
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Safo - fr.55 LP
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Memória de ti nem saudade. É que não tiveste parte
Nas rosas de Piéria. Invisível, andarás a esvoaçar
No Hades, entre os mortos impotentes.
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Anacreonte Fr.96 D
Não gosto de quem, bebendo vinho junto do crater repleto,
Canta dissensões e guerras cheias de lágrimas,
Mas de quem, misturando das Musas e de Afrodite os dons
esplendorosos,
Celebra a amável alegria.
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Safo- fr. 2 L-P
Há um murmúrio de águas frescas, através
dos ramos das macieiras, as rosas ensobram
todo o solo, e das folhas trémulasescorre o sonho.
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Safo - fr.55 LP
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Memória de ti nem saudade. É que não tiveste parte
Nas rosas de Piéria. Invisível, andarás a esvoaçar
No Hades, entre os mortos impotentes.
.
Arquíloco - Fr.30W
Deleitava-se se tinha um ramo de mirto
ou a bela flor da rosa.
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Íbico - Fr.22b Page
Quando a gloriosa, insomne madrugada desperta os rouxinóis...
.
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domingo, 7 de março de 2010

Destinos

Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe
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Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar
– num único e violento segredo.
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A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
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E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
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Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
...................................................João Rasteiro

terça-feira, 2 de março de 2010

ROTAS

Amanhã, 03 de Março de 2010, pelas 18h30 no TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), no âmbito da XII Semana Cultural da Universidade de Coimbra, serão lançados os nºs 13 e 14 da Revista OFICINA de POESIA.
Conjuntamente com os membros da Oficina de Poesia (onde me incluo), lerão os poetas Anna Reckin (Inglaterra) e John Mateer (África do Sul/Austrália). Estes poetas, encontram-se actualmente no programa Poetas em Residência da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (protocolo com a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova).
Refira-se que ambos efectuarão uma nova leitura no próximo sábado na FNAC do Fórum Coimbra, pelas 16h00, integrados nos eventos mensais que a Oficina de Poesia efectua na FNAC/Coimbra.
Já agora, não esquecer no mesmo local pelas 17h00, o lançamento do novo livro do amigo valter hugo mãe, "A máquina de fazer espanhóis". Apareçam por lá, amanhã e sábado, serão momentos bem passados.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ESPAÇOS

Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism ("Signos diacríticos"), Aguarela, Collage e Tinta da China - 2009
.....................Ao Henrique de Santiago (Ao Chile)
XII
.enquanto todos os seres que respiram o enxofre de forma ofegante acreditarem nos pilares das cidades as paisagens da era da técnica não sucumbirão às palavras que choram. e sob o banquete de luz do fogo-de-santelmo o burgo dos corpos metaliformes é uma coisa espantosa porque dilui em fábula invertidas os amoráveis canais do desejo. o líquen é lento como os longínquos sorrisos da pétala e há uma criança única bordando a solidão. como se o gládio da modernidade apenas reproduzisse o bolor da arte do aço desprendida do território aonde repousa a memória das tribos. é apenas o embate brutal do arquitecto dilacerando todas as fragilidades dos seres que se amavam cândidos. a metrópole concebendo em suas células o paladar do milagre. ela é agora a violenta extremidade do holocausto em que o equilíbrio se descobre nervo. e é no ímpeto das cidades que se principia a visão. a infinita exalação da linguagem em sua nervura.
...............................In, DIACRÍTICO (Inédito) - João Rasteiro

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PRÉMIOS/ESPAÇOS

Depois de ter obtido os mais diversos prémios literários, incluindo o Prémio Camões 2002, justificado na altura pelo júri, devido à "inovação no domínio da construção romanesca, no experimentalismo sobre a linguagem e na interrogação do poder fundador da fala", Maria Velho da Costa, uma das eternas "3 Marias", acaba de obter com a obra "Myra", o prémio literário Correntes d` Escritas/Casino da Póvoa/2010, edição que teve hoje início e se prolonga até ao dia 27, com a presença de mais de 60 escritores oriundos de vários países, que irão invadir literalmente a Póvoa de Varzim .

"Dizíamos tantas palavras. O meu mundo também não era grande coisa. Mas quem era aquela garota nos meus braços? O Holocausto para ela era um filme do Spielberg, Angola era a feição símia de Savimbi, e meninos piratas da perna-de-pau, coitadinhos de minas; a Tchetchénia era invenção celerada da Soviética, algures nos arredores de Chernobyl. E New York, New York, era a paródia residencial de Woody Allen e das suas enteadas de olhos em bico. Era isso o mundo dela, desertos e catástrofes, cetáceos ameaçados e Timor que era amor; um globo aldeão onde ela queria ver as tartarugas desovarem em paz, os tigres de dente de sabre voltarem a tosquiar os cordeiros da Sibéria, Sadam Hussein e o Papa Woytila dançarem como Zorba, em Jerusalém; um mundo cachorrinho de leite, onde a pior desgraça era ter sido deposta com um sorriso aos pés da escada e de onde havíamos de partir numa nave para Andrómeda e dar novos mundos ao mundo.
Mas esta rapariga não sabia de nada, e um namorado não sente assim, mas esta rapariga não vira nunca ninguém. Miranda! Era isso que lhe importava: estar no foco de luz dos olhos da ribalta, a rapariga afogada em si, primeiro o rosto, depois as mãos, enfim os cabelos. Brecht-Weil que eu ouvia debaixo da chuva de cinzas de Hannah, debaixo da lua vagabunda di espaço
".

In, "Irene ou o Contrato Social" - Maria Velho da Costa

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http://bibliomanias.no.sapo.pt/mariavcosta.htm

http://www.infopedia.pt/$maria-velho-da-costa

http://blogtailors.blogspot.com/2010/02/correntes-descritas-2010.html

http://www.apel.pt/pageview.aspx?pageid=506&langid=1

sábado, 20 de fevereiro de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA

CELIO
1.
As aves ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos de Outono…

2.
Ambiciono o relâmpago,
só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.

3.
O que for escrito do hálito
será cumprido – a dilecção
é a sua extensão mais pura.

4.
Quando o cio desmembrar
a fábula sobre os cortiços
impregnarei a terra de paixão?

5.
Na combustão das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.

6.
A matança é uma inferência,
nunca a criação permanecerá
em sua aparente invisibilidade.

7.
Em vulcão de lava, o verbo
procura florir uma flor:
desaba inteiro na língua!

.............................João Rasteiro
..........................................Neil Young - Old Man

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OS "JARDINS" da POESIA PORTUGUESA

No final de 2009 foi editada a antologia Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, organizada por Rui Lage e Jorge Reis-Sá. Apesar de na última década terem sido editadas as antologias, Anos 90 e Agora, organizada por Jorge Reis-Sá; Desfocados Pelo Vento. A Poesia dos Anos 80, Agora, organizada por valter hugo mãe; Poetas Sem Qualidades e A Perspectiva da Morte, ambas de responsabilidade de Manuel de Freitas. Inclusive, saiu recentemente uma pequena antologia (10 poetas portugueses contemporâneos) na Colômbia, que organizei a pedido da revista ARQUITRAVE e intitulada A Poesia Portuguesa Hoje, contudo, foi a antologia Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra que verdadeiramente ainda criou alguma polémica. Realmente, cada vez mais se aceita o que aparentemente nos é "entregue de mão beijada" pelos "entendidos" e pelo Cânone, daí, os poetas sem reconhecimento ou ainda em luta pelo seu espaço, pouco ou nada reagem, no âmbito crítico, e os membros de cadeira do cânone, não ousam por princípio, criticar os seus comparsas. Se é verdade, que não precisamos sempre de voltar a 2002, quando "os deputados do círculo de Coimbra na Assembleia da República, mais Helena Roseta, apresentaram protesto formal junto da estrutura dirigente de Coimbra 2003 (Capital Nacional da Cultura), sponsor da edição, pelo facto de Afonso Duarte, Miguel Torga e Manuel Alegre... não terem sido seleccionados. E que, em extenso artigo no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão tenha feito a lista das ausências “intoleráveis” (o adjectivo é meu): Intelligentsia deixa de fora mais de 30 autores" (Eduardo Pitta - "Da Literatura"), seria altamente recomendável que, tal como nos portamos hoje, de forma geral, na sociedade, na política, nos valores, etc, ou seja, de um modo absurdamente indiferente, apático e desapaixonado, não o fizéssemos em relação à poesia e à literatura em geral.
Assim, voltando à antologia Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, e mencionando antecipadamente, de que apesar de tudo, e até tendo em conta a falta de antologias do género, a antologia passou a ser um dos meus livros de poesia de cabeceira, terei de refirir o seguinte:
A antologia reúne num só e gigantesco (até talvez assustador) volume de mais de 2000 mil páginas, 267 poetas portugueses, que vão de Pai Soares de Taveirós (início de séc. XIII) até Pedro Mexia (nascido em 1972). Os responsáveis (sobretudo no que concerne ao séc. XX, o grande paradigma desta antologia) vacilam entre não deixar fora das margens, nenhum autor "suficientemente" canónico e a tentação inversa de deixar a marca do seu gosto pessoal, qualquer que seja a origem desse gosto (aliás, perfeitamente válida, se não se caísse por vezes no absurdo, para não dizer escândalo de algumas escolhas, quer seja pelos nomes, pelo conteúdo ou pelo espaço, atribuído neste “jardim” da poesia portuguesa ).
Pode-se discordar um pouco do número de páginas (quer devessem ser mais ou menos) atribuídas a poetas como Camões (82 páginas); Bernardim Ribeiro (19 páginas); Bocage (12 páginas); Almeida Garrett (20 páginas); João de Deus (2 páginas); Florbela Espanca (3 páginas); Teixeira de Pascoais (12 páginas); Mário de Sá-Carneiro (22 páginas); Fernando Pessoa (159 páginas); José Régio (7 páginas); Jorge de Sena (24 páginas); E. M. de Melo E Castro (6 páginas); Carlos Oliveira (19 páginas); Manuel Alegre (6 páginas); Luísa Neto Jorge (11 páginas) ou Vasco Graça Moura (16 páginas), para dar alguns exemplos (sempre sem esquecer o agradecimento que Manuel Gusmão deveria dar aos organizadores por lhe ter sido incluído um poema nesta casta de poetas). Mas, alguns "atentados" são efectuados na poesia, nos poetas do século XX, realmente o espaço privilegiado definido pelos organizadores (isto, sem deixar de realçar uma selecção inatacável, que foi a efectuada relativamente aos cancioneiros dos séculos XIII e XIV). Assim, passo a apontar alguns casos que causam bastante perplexidade. Como entender uma antologia onde são incluídos 14 poemas de Eduarda Chiote, 27 de Jorge de Sousa Braga e apenas 1 (!!!), repito, um, de Manuel Gusmão? (já para não referir os 2(!) poemas de Natália Correia). Aliás, Eduarda Chiote, com 14 poemas, possui mais do que António Maria Lisboa, António José Forte, Armando da Silva Carvalho, Fátima Maldonado e Manuel Gusmão em conjunto (é obra - de quem?). Se aceitamos as 39 páginas de Ruy Belo, como explicar as escassas páginas, tendo em conta as simetrias atrás expostas, de Herberto Helder e Mário Cesariny? Mas, guardado estava o bocado - então não é que afinal, o grande poeta das últimas décadas em Portugal se chama Daniel Maia-Pinto Rodrigues (!!!)? Daniel Maia-Pinto Rodrigues que alguns querem à força comparar a Adília Lopes (também há quem compare a noite ao dia), com as suas vinte e tal páginas é sem dúvida, uma, talvez a maior (ao nível de Manuel Gusmão - 1 poema), das extravagâncias desta antologia (Luís Miguel Queirós, afirma que ele «escreve na arejada ignorância de toda a tradição literária»), porque parece que nesta antologia (de que apesar de tudo teremos que entender determinados critérios e metodologias, tendo em vista a editora e de alguma forma, existir perfeitamente delineada uma intenção pedagógica, uma vez que a antologia deveria, ou deverá, funcionar como um largo manual poético-escolar da poesia portuguesa) por vezes ficamos sem saber se os responsáveis colocam ou não colocam autores, tendo em conta que apenas os seus gostos pessoais, ou se conhecem minimamente determinados poetas e sua respectiva poesia (e falo essencialmente de poetas do séc. XX, talvez até da segunda metade do séc. XX), uma vez que é o grande campo de incidência da antologia.
Já para não falar na exclusão de poetas (até tendo em conta a inclusão de outros) como, António Feijó, José Blanc de Portugal, Guilherme de Faria, Saúl Dias, António Salvado, Edgar Carneiro, Ernesto Sampaio, António Barahona, Vergílio Alberto Vieira, José Sebag, Manuel da Silva Ramos, Nuno de Figueiredo ou Carlos Bessa, isto só para citar nomes (poderia ainda referir mais alguns) que encarnam o número do azar (13) e que poderiam perfeitamente ter sido incluídos.
Concluindo (apesar de ser sempre mais cómodo, estar no exterior, do que no centro, de uma tarefa como esta), estamos perante uma antologia em que aos organizadores terá que ser atribuído o mérito de terem conseguido juntar mais de dois mil poemas (ou fragmentos deles) de 267 poetas, num arco temporal de oito séculos, mas que até devido a tal facto, deveriam em determinadas situações, por um lado, ter sido mais exigentes consigo próprio e por outro, não acharem que este jardim (pequeno jardim) da poesia portuguesa, aceita ou aceitará qualquer planta, só porque é regada em abundância (aliás, "água de mais mata a planta").
P.S. - Se a antologia terminou com Pedro Mexia que nasceu em 1972 e que publicou pela primeira vez em 1999 - ficamos sem ter a certeza, se não ter terminado com um poeta nascido em 1974, o mais lógico (uma vez que seria terminar um ciclo temporal numa data importante, não só da sociedade, mas também, da literatura portuguesa) ou publicado pela primeira vez em 2000, se deveu ao facto de ter sido assumido o objectivo de não incluir Manuel de Freitas?
Dois poemas de Manuel Gusmão (1 poema) e Daniel Maia-Pinto Rodrigues (23 páginas na antologia – como disse numa carta que me escreveu em 2006, Herberto Helder: “E eu que ainda não li todos os gregos”):
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A velocidade da luz
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Há, houve uma rotação do teu corpo
e há qualquer coisa de irreparável
que me fizeste quando rodaste no mundo –
o quase homem aposta tudo em que voltará.
Joga tudo em que o mundo regressará
a essa forma de uma onda suspensa na música
a essa rotação fora dos eixos.
Porque é que dizes então «irreparável»?
Irreparável aponta para onde?
.
Irreparável é o mesmo que antiquíssima
e não idêntica?
A cicatriz é irreparável porque a ferida é perpétua,
esquecida e perpetua?
Tocas-lhe a milímetros de distância,
como quem não quer
a coisa,
e tu devias dar e não dar por isso.
Dir-se-ia que o ar se moveu, que uma coluna
do tempo se deslocou, dançou como a luz por entre nuvens
na parede verde de um canavial.
..............................................................M.G.
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Um Pequeno Poema de Amor
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Nos tempos primitivos
o australopiteco dizia para a mulher:
"ó minha macaquinha, sorria
olhe ali um mamute!"
Nos tempos de hoje em dia
o homem diz para a mulher:
"ó minha dama de companhia, mamo-te."
Prefiro o setentão sinfónico dos Camel
que dizia:
ó minha dama de fantasia, amo-te.
..........................................D.M.P.R.
.......................Sérgio Godinho - Só neste país

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Espaço Divino

Acaba de sair o livro Divina Música, Antologia de Poesia sobre Música, organizada pelo poeta Amadeu Baptista, com capa e paginação de Inês Ramos, comemorativa do 25.ºAniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010), em edição deste mesmo conservatório, com patrocínio da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região. Esta antologia, onde tenho o prazer de estar incluído, acolhe cento e trinta poemas de outros tantos poetas de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, onde constam quase todos os nomes "mais importantes" da poesia portuguesa contemporânea. O trabalho de Amadeu Baptista e Inês Ramos resultou num belo e mesmo luxuoso volume de 188 páginas e num livro com poemas de grande qualidade. Parabéns a ambos e especialmente ao Conservatório de Música de Viseu.
Os poetas que integram a antologia são:
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.
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Variação sobre o rosto das aves
...............................................À Maria João Pires

Ela repousa as mãos sobre o piano exposto
para não ver o pássaro da infância a memoria do caos.
E viu em cima as mãos mortas. Então canícula
embrionária na força das guisas da pedra
sagrada – ela língua de eco violento.
E fechou os olhos ao timbre dos pirralhas
em seu encanto de feiticeiras
e foi possuída como os outros animais verdes.
Um grão de sémen balsâmico desvendou
o enigma onde se coalha a força de acravar os dedos
até a fulguração do espanto
a máscara desmesurada da palavra e do sopro.

Se pudesse chorar o medo sob as diáfanas pedras
se pudesse arrancar o corpo
e comê-lo nos instrumentos melodiosos da ira
como Saturno alimentando-se pelo ventre
comendo seu coração de ardósia – seus filhos de voz.
Seria pelos seus dedos acesos
alumbrados nas sementes das auréolas selvagens
e pela poesia que sai indómita do canto
das aves – explosiva é a geometria do piano
e das ignitivas gárgulas primitivas.

Talvez a sílaba seja só esta perene e imperceptível
boca de sopro que se dispersa vida e morte
apontando o polegar da carne
insistentemente como cristais expelindo de lírio em lírio
e de dentro a melíflua fractura do silêncio
ascende pela música divina onde há restos de silêncio
até os corpos se apartarem dos solos noctívagos.

Ela explode luz com a euforia dos músculos
quando aquecido em seus dedos há um inventário nu
e vi os mortos, pequenos e grandes…e foram abertos os livros.
...............................................................João Rasteiro

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

PERCURSOS

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) vai acolher dia 10 de Fevereiro, às 21:30, o lançamento do livro «A Máquina de Fazer Espanhóis», de valter hugo mãe.
A sessão contará com a apresentação de António Lobo Antunes, segundo o divulgado em comunicado.
«A maior parte dos livros são escritos para o público, este é um livro escrito para os leitores», escreve Lobo Antunes.
valter hugo mãe, hoje, sem dúvida, já uma das vozes mais representativas da literatura portuguesa contemporânea, publica o seu 4º romance, depois de reunir a sua poesia no volume "Folclore Íntimo". Deste seu livro, o poema:"o poema feio". E porque o valter já é actualmente, um artista dos sete instrumentos, do GOVERNO, o grupo musical onde é vocalista, a música:"Meio Bicho e Fogo".
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a princesa feia não casou mas, no tempo em que foi visitada por príncipes solteiros, querendo agradar, cortou uns palmos às pernas para ficar mais baixa e cómoda ao abraço, puxou pelos dedos para ficar com eles compridos, amassou os seios de encontro ao pescoço para subirem aos olhos da gente, rasgou os lábios para sorrir eternamente. agora, ali sentada, sozinha de amores, lembrava-se de ser impossivelmente a mulher que foi, mas os ratos passavam-lhe entre as falhas cortadas das pernas, e os dedos desjuntavam-se irremediavelmente murchos de encontro ao chão, os seios coagularam como calcificados com as marcas desorganizadas das mãos e os lábios articulavam apenas palavras de dentes, trituradas pelo osso da cabeça lentamente vertendo para fora da pele. conformada, a princesa feia, dizia à prioresa sua amiga que o vento estava louco. levantava-se instável e profundamente mortal, fechava a janela e voltava ao silêncio - v.h.m.
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sábado, 30 de janeiro de 2010

DESTINOS

......................João Cutileiro ("Desenho 33*35")
O júri dos Prémios de Revelação APE/Guimarães Editores – 2008, constituído por Ana Marques Gastão, Miguel Real e Serafina Martins, deliberou, por unanimidade, não premiar nenhum dos trabalhos inéditos concorrentes, nas modalidades de Poesia e de Ensaio Literário.
Neste júri, onde apenas "temos" uma poeta, o mesmo entendeu não existir qualidade, ou a sua exigência de poesia (de leitura, não de escrita!!!) para atribuir o prémio Revelação APE/Guimarães Editores é muito grande. Coisas da Poesia, da APE, ou até da Guimarães Editores?
Assim, publico o poema de Ângela Canez, uma jovem poeta (sem livro publicado) que integra a "OFICINA de POESIA da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
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perdidamente o rastro
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perdidamente o rastro
o que fica da ausência rasgada nos aquedutos
na pele voltada à estéril lembrança
de mulheres que caminham sobre as águas
e não se afundam não tornam a amanhecer
nem se consomem nas chamas
porque é tarde. demais e acrescentam à vida
uma réstia de silêncio. pouco mais
uma réstia de artefactos objectos comuns
para violentar a dor o que dói e fica
e alastra e é ainda maior porque anoitece
no quarto vazio onde já não vivem
nem se abrigam da chuva
que os homens plantam ou fazem cair na memória
baixinho. assim inteira
retirando aos poucos o acaso
o vazio que é e aumenta a certeza de que ninguém virá
lá onde o corpo dói e funda
e aumenta e afunda um pouco mais. porque é tarde
e já deviam ter voltado da incursão
ao centro das águas. dos corpos depostos
onde já não dormem
ninguém vive
onde já não se vive
.............fartos de lembrar
..............................Ângela Canez
...............The Legendary Tiger Man - Route 66

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Espaço Sagrado

Negação de Ulisses e Teseo

Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Penélope que tece
e destece os bordados assim que anoitece.
Ulisses não existe, foi verso fugidio.

Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Ariadna que oferece
sair do labirinto mortal a quem a esquece.
Teseo não existe, só sobra o desafio.

Se alguma vez eu tiver de partir como Odiseo
prefiro voltar sempre vencido a Compostela.
Não me importa a derrota se tu me identificas.

Se alguma vez eu tiver de marchar como Teseo
não há-de ser Artemisa fluxo do meu Sarela.
Não me importa ser lama se tu me purificas.
............................................MIRO VILLAR
In, EQUINOCCIO DE PRIMAVERA (Tradução: João Rasteiro)


http://gl.wikipedia.org/wiki/Miro_Villar

sábado, 23 de janeiro de 2010

Espaço Sagrado

No início de 2010 este "Aula de Poesia" é já uma das agradáveis surpresas literárias, nomeadamente no que à poesia/poetas diz respeito. Eduardo Pitta, embora talvez de forma mais ligeira, que não aligeirada, do que em "Metal Fundente" de 2004, traz-nos estas excelentes crónicas sobre, entre outros: Eugénio de Andrade * Adília Lopes * Camilo Pessanha * Judith Teixeira * Jorge de Sena * Manuel Gusmão * Joaquim Manuel de Magalhães * Carlos Drummond de Andrade * Manuel de Freitas * Carlos de Oliveira * Gonçalo M. Tavares * Rui Knopfli * Fernando assis Pacheco * Mário Cesariny * Sophia de Mello Breyner * Herberto Helder * VGM * António Botto * Cesário Verde», para além de alguns períodos e livros/antologias marcantes da poesia portuguesa.
Sendo certo que Eduardo Pitta já nos habituou, ao nível da crítica, ensaio ou recensão crítica, não só através dos livros, do blogue "Da Literatura", mas essencialmente através da regular colaboração em revistas e jornais, à forma acutilante, objectiva e incisiva com que se pronuncia, e apesar de muitos destes autores já terem em outras ocasiões sido alvo da sua análise, esta "Aula de Poesia" é sem dúvida um livro que merece uma leitura imediata e de um só fôlego (até porque a escrita que nos apresenta e a forma curta das crónicas, assim o pede e permite).
De um dos poetas que Eduardo Pitta nos fala, Manuel de Freitas, o poema: "Quando sós à boleia do crepúsculo"
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Quando sós à boleia do crepúsculo

Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).

Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.
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...........In, "SIC", Manuel de Freitas
...........................................................CARLOS PAREDES

http://www.eduardopitta.com/index.html

http://daliteratura.blogspot.com/

domingo, 17 de janeiro de 2010

ECOS

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, 12/08/1907 — Coimbra, 17/01/1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX e da literatura portuguesa em geral.


Elegia do esquecimento

..................................Ao Miguel Torga

Não te conhecerá a víbora ou as oliveiras
nem os cães e os escorpiões da tua carne
nem as renovadas crias ou a sílaba álgida.

Não te conhecerá a fêmea nem a aurora
porque como cometa fulminante já só és pó.

Não te conhecerá o dorso da argila viva
nem o linho onde assentou o sangue aceso
nem a memória mutilada da primeira labareda.

A memória é espessa de sangue nas arestas
e até ao gume só homens da torre de Babel.

As trovoadas em breve cantarão as chuvas
o pó subirá às árvores abrigar-se-á nos lúzios
a noite onde te habituarás a fruir a única noite.

O espaço em que se finge ter tido um destino
as constelações palpáveis dos dias dos animais.

Não te recordará ninguém nas pérfidas vozes
como todos os mortos que se olvidam perdoados
entre as vísceras orgulhosas de abutres apagados.

Em ti começa o descanso dos odoríficos pomares
onde as candeias resguardam o silêncio indecifrável.

Minha ânsia de voz está diante de tua voz possessa
mesmo que não trespasse as lascas da minha garganta
a nua saliva sobre a terra dos inundáveis actos de deus.

Está diante de ti no esquecimento que embevece o sonho
de que as palavras vivas ainda bordam um coração outro.

Os poetas dormem, o esquecimento é um bálsamo sagrado,
e toda a ilusão é cruel porque se dilui voz na musa herdada.
......................João Rasteiro (In, Comemorações Miguel Torga 2005-2007, CMC, 2008)

http://www.astormentas.com/torga.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Miguel_Torga&op=7&author=1360