Workshops, mesas redondas, apresentação de livros, concertos e espectáculos animarão estes quatro dias, totalmente dedicados à poesia. Haverá ainda uma homenagem ao escritor Pedro Tamen, que terá lugar no dia 24, pelas 18h30. Nessa ocasião, Maria do Sameiro Barroso fará uma conferência e serão lidos poemas por Paulo Moreira. Também Fernando Assis Pacheco será alvo de uma atenção especial, recordando-se os 15 anos da sua morte, às 15h30 do dia 23."
(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
sábado, 10 de abril de 2010
IV BIENAL de POESIA de SILVES
Workshops, mesas redondas, apresentação de livros, concertos e espectáculos animarão estes quatro dias, totalmente dedicados à poesia. Haverá ainda uma homenagem ao escritor Pedro Tamen, que terá lugar no dia 24, pelas 18h30. Nessa ocasião, Maria do Sameiro Barroso fará uma conferência e serão lidos poemas por Paulo Moreira. Também Fernando Assis Pacheco será alvo de uma atenção especial, recordando-se os 15 anos da sua morte, às 15h30 do dia 23."
segunda-feira, 5 de abril de 2010
PURGAÇÃO DIONISÍACA II
1.
Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.
2.
O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!
3.
Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.
4.
No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.
5.
É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.
6.
Quando saboreei a carne
e Vénus vagueiam acesas.
7.
Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
quinta-feira, 1 de abril de 2010
PRÉMIOS
..............O dia em que nasci
..............meu pai cantava…
............Fernando Assis Pacheco
.
Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos cravos.
Este é o país dos resignados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país dos prostrados.
Este é o país dos alheados,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos vencidos.
Este é o país dos distraídos,
Este é o país e esmorece.
Este é o país dos domados.
Este é o país dos apartados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos trovadores.
Este é o país dos navegadores,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos poetas.
este é o país dos astecas,
este é o país e esmorece.
.
Este é um país vicentino.
Este é o país dos infantes,
este é o país e devaneiam.
Este é o país dos meninos,
este é o país e acreditam…
.
Este é o país, o país é este!
.........................Hélder Brandão Faria
domingo, 28 de março de 2010
GEOGRAFIAS
Pelo lagar da noite
Corre no ar um tropel furtivo
Ela só lívida de azul e oiro
E a mãe diurna
Uma girafa com búzios
Rilham
E os espinhos macerados
quinta-feira, 25 de março de 2010
ROTAS
A sombra segue o corpo
condenado a viajar.
Terás a minha pele
Terás a minha carne
Terás os meus ossos.
Mas o último guardou silêncio
Terás a minha medula - disse -
Com o pó do caminho
A mão sustinha uma sandália.
.
PERICLES ANASTASIADES, circa 1895
.
Vagos, são já, os rostos do seu rosto
vaga, também, a forma das suas mãos
longe, está, o seu alento da minha boca
a sua pequena estatura
os seus quinze anos
Apenas um ontem ocupa a minha memória
o nosso pequeno amor
o nosso pequeno mês
à dez luas atrás.
.
De repente
na madrugada
os seus olhos, de púrpura vestidos,
os seus lábios
lábios de um amor apressado
os seus cumpridos braços
braços de inolvidável robustez
aparecem
Quanto perdi bom Deus!
Quanto perdi!
domingo, 21 de março de 2010
21 de Março
....................Ao V. de S.
Habito nestes livros de poesia por engano,
eu não pertenço à floresta
onde se inventou o fogo
e se troça dos deuses obscuros
domesticando a sílaba dos cavalos
nocturnos
que enrolam as líticas patas do bronze
para além da boca das chuvas,
nada mais desfruto do que a cabeça do tempo,
aí cavo a lucidez dos olhos
da meretriz dos rumores sangrentos
a finitude visceral na injunção do gáudio
em que as mães se extinguem
consanguíneas
sob a abismada ortografia da água
tragando o contágio dos precipícios,
enxerga como o coração fica sombrio e áspero,
o insaciável tacto da separação fervilha
entre livros e coração
o leilão do amor que apazigua a aporia da dor
buscando outra flor outra memória
inominável
a acerba tinta, sangue e corpo
entre formas vulgares e distintas de amar,
e não podendo guardar todas as promessas
sacrificar-me-ei como o cordeiro
em base de alabastro sagrado
com meus ais de guelras inclinadas
sob a inexequível amplitude do verbo
entre a metáfora do relâmpago,
pois livros e mães jazerão então inaudíveis
em sua feroz melancolia
tresmalhados nos seios da tempestade
como sulfurosa fragrância de infindas concubinas.
quinta-feira, 18 de março de 2010
DESTINOS
O homem recosta a garganta
nas imagens da astúcia
numa ferocidade própria dos sons e dos sopros
um mergulho no fluído da luz
que possa conceder o privilégio de profanar
o templo das máscaras oblíquas
a boca cheia de corpo
onde o coração se consome agachado e devagar
uma sincera cegueira
desde a respiração palpitante entre as bocas
e as guelras onde levita a carne.
sábado, 13 de março de 2010
"É Nosso o Solo Sagrada da Terra"
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
.............................Alda Espírito Santo
quarta-feira, 10 de março de 2010
A Pólis
O galardão no valor de 25 mil euros foi atribuído, como referiu o júri, essencialmente tendo em conta o mérito da premiada.
Tendo sido a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra, veio a solidificar uma trajectória ímpar ao serviço da Universidade e da Cultura Portuguesa, sendo hoje uma das grandes figuras da cultura portuguesa e europeia.
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Não gosto de quem, bebendo vinho junto do crater repleto,
Há um murmúrio de águas frescas, através
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Deleitava-se se tinha um ramo de mirto
Quando a gloriosa, insomne madrugada desperta os rouxinóis...
domingo, 7 de março de 2010
Destinos
.........................................Ao valter hugo mãe
.
Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar – num único e violento segredo.
.
A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
.
E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
.
Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
...................................................João Rasteiro
terça-feira, 2 de março de 2010
ROTAS
Amanhã, 03 de Março de 2010, pelas 18h30 no TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), no âmbito da XII Semana Cultural da Universidade de Coimbra, serão lançados os nºs 13 e 14 da Revista OFICINA de POESIA.sábado, 27 de fevereiro de 2010
ESPAÇOS
.enquanto todos os seres que respiram o enxofre de forma ofegante acreditarem nos pilares das cidades as paisagens da era da técnica não sucumbirão às palavras que choram. e sob o banquete de luz do fogo-de-santelmo o burgo dos corpos metaliformes é uma coisa espantosa porque dilui em fábula invertidas os amoráveis canais do desejo. o líquen é lento como os longínquos sorrisos da pétala e há uma criança única bordando a solidão. como se o gládio da modernidade apenas reproduzisse o bolor da arte do aço desprendida do território aonde repousa a memória das tribos. é apenas o embate brutal do arquitecto dilacerando todas as fragilidades dos seres que se amavam cândidos. a metrópole concebendo em suas células o paladar do milagre. ela é agora a violenta extremidade do holocausto em que o equilíbrio se descobre nervo. e é no ímpeto das cidades que se principia a visão. a infinita exalação da linguagem em sua nervura.
...............................In, DIACRÍTICO (Inédito) - João Rasteiro
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
PRÉMIOS/ESPAÇOS
"Dizíamos tantas palavras. O meu mundo também não era grande coisa. Mas quem era aquela garota nos meus braços? O Holocausto para ela era um filme do Spielberg, Angola era a feição símia de Savimbi, e meninos piratas da perna-de-pau, coitadinhos de minas; a Tchetchénia era invenção celerada da Soviética, algures nos arredores de Chernobyl. E New York, New York, era a paródia residencial de Woody Allen e das suas enteadas de olhos em bico. Era isso o mundo dela, desertos e catástrofes, cetáceos ameaçados e Timor que era amor; um globo aldeão onde ela queria ver as tartarugas desovarem em paz, os tigres de dente de sabre voltarem a tosquiar os cordeiros da Sibéria, Sadam Hussein e o Papa Woytila dançarem como Zorba, em Jerusalém; um mundo cachorrinho de leite, onde a pior desgraça era ter sido deposta com um sorriso aos pés da escada e de onde havíamos de partir numa nave para Andrómeda e dar novos mundos ao mundo.
Mas esta rapariga não sabia de nada, e um namorado não sente assim, mas esta rapariga não vira nunca ninguém. Miranda! Era isso que lhe importava: estar no foco de luz dos olhos da ribalta, a rapariga afogada em si, primeiro o rosto, depois as mãos, enfim os cabelos. Brecht-Weil que eu ouvia debaixo da chuva de cinzas de Hannah, debaixo da lua vagabunda di espaço".
In, "Irene ou o Contrato Social" - Maria Velho da Costa
.
http://bibliomanias.no.sapo.pt/mariavcosta.htm
http://www.infopedia.pt/$maria-velho-da-costa
http://blogtailors.blogspot.com/2010/02/correntes-descritas-2010.html
sábado, 20 de fevereiro de 2010
PURGAÇÃO DIONISÍACA
As aves ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos de Outono…
2.
Ambiciono o relâmpago,
só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.
3.
O que for escrito do hálito
será cumprido – a dilecção
é a sua extensão mais pura.
4.
Quando o cio desmembrar
a fábula sobre os cortiços
impregnarei a terra de paixão?
5.
Na combustão das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.
6.
A matança é uma inferência,
nunca a criação permanecerá
em sua aparente invisibilidade.
7.
Em vulcão de lava, o verbo
procura florir uma flor:
desaba inteiro na língua!
sábado, 13 de fevereiro de 2010
OS "JARDINS" da POESIA PORTUGUESA
A velocidade da luz
Irreparável é o mesmo que antiquíssima
Nos tempos primitivos
o australopiteco dizia para a mulher:
"ó minha macaquinha, sorria
olhe ali um mamute!"
Nos tempos de hoje em dia
o homem diz para a mulher:
"ó minha dama de companhia, mamo-te."
Prefiro o setentão sinfónico dos Camel
que dizia:
ó minha dama de fantasia, amo-te.
..........................................D.M.P.R.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Espaço Divino
...............................................À Maria João Pires
Ela repousa as mãos sobre o piano exposto
para não ver o pássaro da infância a memoria do caos.
E viu em cima as mãos mortas. Então canícula
embrionária na força das guisas da pedra
sagrada – ela língua de eco violento.
E fechou os olhos ao timbre dos pirralhas
em seu encanto de feiticeiras
e foi possuída como os outros animais verdes.
Um grão de sémen balsâmico desvendou
o enigma onde se coalha a força de acravar os dedos
até a fulguração do espanto
a máscara desmesurada da palavra e do sopro.
Se pudesse chorar o medo sob as diáfanas pedras
se pudesse arrancar o corpo
e comê-lo nos instrumentos melodiosos da ira
como Saturno alimentando-se pelo ventre
comendo seu coração de ardósia – seus filhos de voz.
Seria pelos seus dedos acesos
alumbrados nas sementes das auréolas selvagens
e pela poesia que sai indómita do canto
das aves – explosiva é a geometria do piano
e das ignitivas gárgulas primitivas.
Talvez a sílaba seja só esta perene e imperceptível
boca de sopro que se dispersa vida e morte
apontando o polegar da carne
insistentemente como cristais expelindo de lírio em lírio
e de dentro a melíflua fractura do silêncio
ascende pela música divina onde há restos de silêncio
até os corpos se apartarem dos solos noctívagos.
Ela explode luz com a euforia dos músculos
quando aquecido em seus dedos há um inventário nu
e vi os mortos, pequenos e grandes…e foram abertos os livros.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
PERCURSOS
O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) vai acolher dia 10 de Fevereiro, às 21:30, o lançamento do livro «A Máquina de Fazer Espanhóis», de valter hugo mãe.A sessão contará com a apresentação de António Lobo Antunes, segundo o divulgado em comunicado.
«A maior parte dos livros são escritos para o público, este é um livro escrito para os leitores», escreve Lobo Antunes.
sábado, 30 de janeiro de 2010
DESTINOS
o que fica da ausência rasgada nos aquedutos
na pele voltada à estéril lembrança
de mulheres que caminham sobre as águas
e não se afundam não tornam a amanhecer
nem se consomem nas chamas
porque é tarde. demais e acrescentam à vida
uma réstia de silêncio. pouco mais
uma réstia de artefactos objectos comuns
para violentar a dor o que dói e fica
e alastra e é ainda maior porque anoitece
no quarto vazio onde já não vivem
nem se abrigam da chuva
que os homens plantam ou fazem cair na memória
baixinho. assim inteira
retirando aos poucos o acaso
o vazio que é e aumenta a certeza de que ninguém virá
lá onde o corpo dói e funda
e aumenta e afunda um pouco mais. porque é tarde
e já deviam ter voltado da incursão
ao centro das águas. dos corpos depostos
onde já não dormem
ninguém vive
onde já não se vive
.............fartos de lembrar
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Espaço Sagrado
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Penélope que tece
e destece os bordados assim que anoitece.
Ulisses não existe, foi verso fugidio.
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Ariadna que oferece
sair do labirinto mortal a quem a esquece.
Teseo não existe, só sobra o desafio.
Se alguma vez eu tiver de partir como Odiseo
prefiro voltar sempre vencido a Compostela.
Não me importa a derrota se tu me identificas.
Se alguma vez eu tiver de marchar como Teseo
não há-de ser Artemisa fluxo do meu Sarela.
Não me importa ser lama se tu me purificas.
............................................MIRO VILLAR
In, EQUINOCCIO DE PRIMAVERA (Tradução: João Rasteiro)
http://gl.wikipedia.org/wiki/Miro_Villar
sábado, 23 de janeiro de 2010
Espaço Sagrado
Quando sós à boleia do crepúsculo
Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.
E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.
E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.
...........In, "SIC", Manuel de Freitas