quinta-feira, 13 de maio de 2010

ROTAS

HERANÇA

A única herança do meu pai
[disse Yusuf ibn al-Sayj al-Balawi]
foi uns enormes testículos.

Que grande legado, pensou,
que grande legado.
......................Tradução de João Rasteiro

HERENCIA

La única herencia de mi padre
[dijo Yusuf ibn-Sayj al-Balawi]
fue unos grandes testículos.

Qué gran legado, pensó,
qué gran legado.
.............Harold Alvarado Tenorio
.
......................................OS VAMPIROS - Zeca Afonso

sábado, 8 de maio de 2010

ESPAÇOS

o lugar perdido
.
.
Todas as crias se revelam às mães
como a precisão angular
do pecado.
O corpo alastra ígneo e selvagem
sobre a cabeça do mundo
e os úteros do soluço
atulham as bocas
que abrigam a jurisdição
da violência das vísceras da promessa.
.
Pois existe um lugar encantatório,
secreto e inacessível,
entre a labareda e as trevas
onde não invadem os deuses nem o medo.
As criaturas carnívoras
são transversais à floresta
que sustem o prumo do suicídio.
.
São como negras magnólias que choram
porque mastigam as palavras
pelos olhos
acreditando que o que impede
a injunção do milagre
é a palavra que adultera o crisântemo branco.
.
Talvez seja possível a derradeira visão
e ela amadureça o gesto da morte
por dentro do lugar
que impõem a lisura do sacrifício.
.
Essa que alimenta o pudor sitiado
e os sonhos imberbes
até que ao extermínio sucumba o fogo exposto,
a sílaba inócua em seu ordálio
um lugar ao centro no inferno da língua.
................................João Rasteiro
.

domingo, 2 de maio de 2010

VISÃO TOLD(O)ADA

Surgiu recentemente de forma avassaladora, surpreendente e polémica, a obra de um "novo" poeta chamado Joaquim Manuel Magalhães, intitulada Toldo Vermelho. Por acaso há quem veja nele indícios de um outro poeta, infelizmente "já falecido", que também se chamava Joaquim Manuel Magalhães.
Confusão, brincadeira, provocação? Na verdade, se Toldo Vermelho termina com a seguinte nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior”, estamos então na presença de um novo poeta!
A verdade é que, se é perfeitamente legitimo tal acto, uma vez que Joaquim Manuel Magalhães é para o bem e para o mal (infelizmente, penso que para o mal) dono e senhor da sua obra, logo poderá fazer dela o que bem entender (mesmo querer apagá-la), só na sua imaginação (ou falta dela) ou mente told(o)ada, poderia ser concebida a ideia de "apagar" aquilo que existe, que está aí, nas bibliotecas, nas casas particulares, nos livros, nos poemas e essencialmente, na influência em vários poetas, não esquecer que o autor se afirmou como a figura tutelar de uma corrente estilística que ao longo das últimas décadas (vide Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Ana Paula Inácio e outros) se tornou algo central na poesia portuguesa: o prosaísmo e um discurso poético-narrativo assente na permanente olhar e atenção ao quotidiano. Assim, estes poetas em autêntica angústia questionam: se me influenciei em um poeta/poética que não existe/não deverá existir, então a minha poética existe?). Como já comentou o poeta Luís Quintais: "Terá agora Manuel de Freitas ficado órfão?"
Negar livros anteriores ou rescrever e depurar a obra de forma continuada, não é novo, Herberto Helder fá-lo permanentemente, mas, em um Toldo Vermelho, Joaquim Manuel Magalhães nega e estupra, de forma absolutamente radical e violenta toda a sua obra poética desde os anos 70 até ao início deste milénio. O problema surge, quando esta reescrita manifesta não a correcção do gesto, não a renovação do corpo, mas o deliberado refazer de toda a estrutura, num quase sacrilégio iconoclasta. Sim, porque agora, a ilegibilidade das vozes do corpo é quase totalitária.
Certamente haverão de aparecer críticos a louvar esta obra e sua reescrita. O seu conteúdo atingiu um tal grau de ininteligibilidade que, para uns, vai ser complicado atacá-la e, para outros, vai ser delicioso elogiá-la, sendo certo, que será o próprio tempo a determinar se estamos perante um acto de loucura, ou um acto de génio!
Como diria a D. Zulmira, a vizinha a quem fazia os recados na minha aldeia, andou um tal de Joaquim Manuel Magalhães a trabalhar a linguagem uma vida inteira, a alimentar-se no fogo infinito da poesia, para agora, vir este Joaquim Manuel Magalhães mais velho (que não mais sábio) e simplesmente arrasar tudo como bomba atómica, numa espécie de automutilação, entregando-se "à feroz acção de deuses nos vulcões, / ao odor sacrílego de alquimistas mortos" (J.M.M.). De Toldo vermelho, dois poemas:
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O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.
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Eco, fivela, gume.
***
Recolhe o júbilo dos invólucros de látex.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.
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Bolça-os à fornalha
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.
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Cadinho hermético,
operário do soturno.
....................Joaquim Manuel Magalhães
Segundo livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)
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http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-poemas-de-joaquim-manuel-magalhaes/

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/joaquim_manuel_magalhaes/poetas_jmmagalhaes01.htm

http://poesiailimitada.blogspot.com/2010/03/joaquim-manuel-magalhaes_01.html

http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%C3%AAs/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8502

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BIENAL da SAUDADE

Regressado de Silves, da IV Bienal de Poesia de Silves e ainda com dificuldades em "regressar à terra", pois a poesia, a terra, o sol, os odores e sobretudo as pessoas (as locais e as que lá foram), o calor das pessoas, essa palavra tão nossa que se chama saudade, tudo isso eu simbolizo (mais tarde voltarei à Bienal e (h)à "sua poesia") em duas mulheres: Maria Gabriela Rocha Martins, a alma, canto e fogo da Bienal e esse extraordinário "corpo" da dança e também da voz, que se chama Vera Mantero. A vida corre (depressa demais), mas Silves continua lá, qual moira encantada!
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Saúda, por mim, Abg Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
(...)
SIM,
Bebi o vinho derramando luz
Enquanto a noite despia o seu sombrio manto.
......................................Al Mutamid
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VERA MANTERO - Morena dos Olhos de Água (Caetano Veloso)

http://www.triplov.com/4Bienal_de_Poesia/index.htm

http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

POEMA PLURAL - SILVES

De abalada até Silves, onde irei participar na IV Bienal de Poesia de Silves, que decorrerá de 22 a 25 de Abril, o No Centro do Arco regressará no início da próxima semana. A Bienal, que entre imensas iniciativas ligadas à poesia, em permanente interacção com a população, irá este ano homenagear os poetas Pedro Tamen (que estará presente) e Fernando Assis Pacheco. Em baixo, a capa e contracapa do livro que antes, durante e após a Bienal será oferecido à população em geral. Para conhecer melhor o evento, nomeadamente a programação, mas também os poetas, pintores, realizadores, moderadores e todos os intervenientes na Bienal, consultar: http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

7.
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Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.
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Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.
.......................Pedro Tamen
(In, O livro do sapateiro, 2010)
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A Profissão Dominante
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Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual
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de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical -
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receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
........................Fernando Assis Pacheco
(In, A Profissão Dominante, 1982)

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http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Silves_(Algarve)

http://www.cm-silves.pt/portal_autarquico/silves/v_pt-PT


quinta-feira, 15 de abril de 2010

O EIXO do DESLUMBRAMENTO

Foi recentemente editado o quarto livro da excelente "Tetralogia da Assombração", de Jaime Rocha, intitulado Necrophilia e que teve inicio com Os Que Vão Morrer, Zona de Caça e Lacrimatória, que vem provar ser hoje Jaime Rocha, sem dúvida, um dos mais apelativos poetas portugueses. De Necrophilia, dois dos 50 poemas:

1.
A mulher caminha pelas urzes, no auge

do vento, já depois da morte, enovelada

pelos ramos que cortam a paisagem.

O homem está parado como uma ave

de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o

corpo dela desfeito sobre os rochedos,

uma faísca que incendeia um pedaço

de madeira. O homem, amarrado a um

amancha de ferro, contempla o corpo vazio.

Um pássaro cego cai em cima de um espelho.

É o rosto dele despedaçado, a dor.

Tudo é medonho à sua volta, a parte

de trás da luz, a humidade, a respiração

das plantas.
.
13.
Toda aquela assombração está gravada

na tinta como se pertencesse a um livro

queimado, roído pelo sol. O homem sabe

que se trata de uma morta, mas não

entende que é a cicatriz do seu peito que

lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual

demoníaco. Conhece os seus cabelos, os

lábios a descerem pelas amoras, pela cera.

E toda a sua pele sobressai, pintada na

parede, nos pregos, nas mãos que descansam

em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se

contra um recife. É ela ou os seus vestidos a

desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.

........................................................Jaime Rocha

Pedro Abrunhosa - Fazer o que ainda nao foi feito

http://www.artistasunidos.pt/jaime_rocha.htm

http://pedroteixeiraneves.wordpress.com/2010/03/31/apostas-propostas-jaime-rocha-necrophilia/

http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/jaime-rocha-necrophilia.html

sábado, 10 de abril de 2010

IV BIENAL de POESIA de SILVES

Mais uma vez aí está à porta a Bienal de Poesia de Silves. A eterna persistência, o descomunal trabalho e talvez a exponencial loucura de um grupo de pessoas encabeçadas pela Gabriela Rocha Martins, pois nos dias de hoje, conseguir colocar um evento destes em andamento, por muitos apoios (e, naturalmente, é de saudar todo o esforço e compreensão da Câmara Municipal de Silves, a este evento e à cultura, apesar de todas as dificuldades que o país e as autarquias naturalmente passam), alguns mais de solidariedade do que económicos, só pode ser alicerçado em "grandes loucuras".
"Numa organização da Casa Museu João de Deus e da Biblioteca Municipal, Silves será palco, a partir de dia 22 de Abril, da IV Bienal de Poesia. Este evento, que junta inúmeros poetas e entusiastas da poesia, prolonga-se até dia 25 de Abril.
Workshops, mesas redondas, apresentação de livros, concertos e espectáculos animarão estes quatro dias, totalmente dedicados à poesia. Haverá ainda uma homenagem ao escritor Pedro Tamen, que terá lugar no dia 24, pelas 18h30. Nessa ocasião, Maria do Sameiro Barroso fará uma conferência e serão lidos poemas por Paulo Moreira. Também Fernando Assis Pacheco será alvo de uma atenção especial, recordando-se os 15 anos da sua morte, às 15h30 do dia 23."
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De entre os muitos poetas que irão marcar presença na linda cidade de Silves, alguns já consagrados e outros ainda menos conhecidos (que não menos valorosos, aliás essa é uma característica do evento e das escolhas, juntar poetas com nome "feito" e outros ainda jovens, mas de valor) encontram-se nomes como, Eduardo Pitta, Domingos Lobo, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Fernando Aguiar, Maria do Sameiro Barroso, Filipa Leal, Maria Azenha, Luís Serrano, Teresa Tudela, Porfírio Al Brandão, Cristina Nery, João Rasteiro, etc., entre muitos outros. A estes juntam-se ainda os artistas plásticos António Ferraz, Daniel Vieira, António Inverno, Maria João Franco, Teresa Mendonça e Sérgio Sá. Da área do cinema a presença de Adão Contreiras e António Castanheira marcará lugar, num evento que irá contar com a moderação de Inês Ramos, Silvestre Raposo e Nassalete Miranda.
Refira-se o facto de a poesia ir ao encontro das pessoas. Às casas de todos os Munícipes (não apenas dos residentes da cidade de Silves) e através de um livrinho de cabeceira, intitulado "há quanto tempo não lê poesia na cama?", e cuja distribuição começará oito dias antes da Bienal e só terminará 15 dias após, com poemas de todos os intervenientes e homenageados na Bienal, a poesia brotará em toda a sua essência!
Silves aguardará por si, pela sua história, pela sua beleza, pela sua hospitalidade e sob o belo sol Algarvio... para ouvir poesia.
Para ver a programação e todas as notícias relacionadas com o evento e participantes, entrar no blogue da IV Bienal de Poesia de Silves: http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/
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.....................IRIS - Há sempre um amanhã

segunda-feira, 5 de abril de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA II

Esquilino

1.

Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.

2.

O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!

3.

Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

4.

No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.

5.

É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.

6.

Quando saboreei a carne
ia saborear a terra – aves
e Vénus vagueiam acesas.

7.

Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
...........................João Rasteiro

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PRÉMIOS

O poeta Hélder Brandão Faria, acaba de obter o prémio de poesia "Medieve Latino" com o livro "410 solstícios". Professor e ensaísta, é um profundo estudioso da época medieval, tendo traduzido imensos textos de S. Agostinho, essencialmente textos de carácter Dogmático e Exegéticos. Não tendo ainda qualquer livro de poesia publicado, Hélder Brandão Faria prepara-se para publicar uma antologia dos seus vários poemas, publicados ao longo de vinte anos em várias antologias e revistas. Segue-se um poema publicado em 2006 na revista "De Trinitate Literare".
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Um país vicentino
..............O dia em que nasci
..............meu pai cantava…
............Fernando Assis Pacheco
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Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos cravos.
Este é o país dos resignados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país dos prostrados.
Este é o país dos alheados,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos vencidos.
Este é o país dos distraídos,
Este é o país e esmorece.
Este é o país dos domados.
Este é o país dos apartados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos trovadores.
Este é o país dos navegadores,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos poetas.
este é o país dos astecas,
este é o país e esmorece.
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Este é um país vicentino.
Este é o país dos infantes,
este é o país e devaneiam.
Este é o país dos meninos,
este é o país e acreditam…
.
Este é o país, o país é este!
.........................Hélder Brandão Faria
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domingo, 28 de março de 2010

GEOGRAFIAS

Na passada quinta-feira, 25/3/10, a Comunidade de Leitores Almedina, dirigida pela Prof Dra. Ana Paula Arnaut, recebeu o escritor (para mim, essencialmente amigo e poeta) Luís Carlos Patraquim. Na sessão dirigida pelo especialista em literatura africana da Universidade de Coimbra, Prof. Dr. Pires Laranjeira (FLUC), a conversa que se desenrolou à volta do percurso da experiência no jornalismo, cinema, teatro, política, até à poesia, a conversa decorreu de forma absolutamente deliciosa e participativa, essencialmente por parte dos estudantes Erasmus que assistiram à sessão.
Ficou-se também a saber uma pequena inconfidência, Luís Carlos Patraquim vai publicar brevemente o seu primeiro romance, embora ele prefira chamar-lhe um cruzamento de romance-novela. A única garantia, será a existência de uma grande paródia e profunda ironia à volta do percurso da personagem principal do romance.
Luís Carlos Patraquim é sem dúvida, depois de Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Sebastião Alba e José Craveirinha, provavelmente o maior poeta moçambicano, tendo contribuído decisivamente para uma viragem na poesia moçambicana (e africana em geral), encerrando o chamado período militante da poesia (aliás, terá sido essa vontade de viragem que lhe veio a trazer alguns problemas, quer no seio político-social, mas também no seio literário moçambicano pós-independência.
Como afirma Pedro Mexia, Luís Carlos Patraquim possui hoje "uma arte poética bem calibrada, capaz de escrever poemas curtos muito expressivos e quase expressionistas, verbalmente densos e imprevisíveis, com uma aposta imagística eficaz. São poemas a que podemos aceder apenas pela sua força verbal, estribada também numa repetição quase ritualística e num sentido rítmico notável".
Para além de poesia inédita (que já tive o prazer de ouvir) e que mostra cada vez mais o poeta que hoje é Luís Carlos Patraquim, aguardemos então com expectativa essa primeira narrativa.
Da colectânea editada em 2009, "Pneuma", dois poemas de Luís Carlos Patraquim:
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AL-GHARB
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Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras
.
Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres
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Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo
.
E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.
.
COLAGEM
.
Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos
.
Rilham
.
E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha
.........................[in Pneuma, Caminho, 2009]

quinta-feira, 25 de março de 2010

ROTAS

...............The Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism
ZEN

A sombra segue o corpo
condenado a viajar.
Terás a minha pele
Terás a minha carne
Terás os meus ossos.
Mas o último guardou silêncio
Terás a minha medula - disse -
Com o pó do caminho
A mão sustinha uma sandália.
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PERICLES ANASTASIADES, circa 1895
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Vagos, são já, os rostos do seu rosto
vaga, também, a forma das suas mãos
longe, está, o seu alento da minha boca
a sua pequena estatura
os seus quinze anos
Apenas um ontem ocupa a minha memória
o nosso pequeno amor
o nosso pequeno mês
à dez luas atrás.
.
De repente
na madrugada
os seus olhos, de púrpura vestidos,
os seus lábios
lábios de um amor apressado
os seus cumpridos braços
braços de inolvidável robustez
aparecem
Quanto perdi bom Deus!
Quanto perdi!
.............Harold Alvarado Tenorio
..............................(Tradução: João Rasteiro)

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março

escrevo-te a sentir tudo isto
....................Ao V. de S.

Habito nestes livros de poesia por engano,
eu não pertenço à floresta
onde se inventou o fogo
e se troça dos deuses obscuros
domesticando a sílaba dos cavalos
nocturnos
que enrolam as líticas patas do bronze
para além da boca das chuvas,


nada mais desfruto do que a cabeça do tempo,
aí cavo a lucidez dos olhos
da meretriz dos rumores sangrentos
a finitude visceral na injunção do gáudio
em que as mães se extinguem
consanguíneas
sob a abismada ortografia da água
tragando o contágio dos precipícios,


enxerga como o coração fica sombrio e áspero,
o insaciável tacto da separação fervilha
entre livros e coração
o leilão do amor que apazigua a aporia da dor
buscando outra flor outra memória
inominável
a acerba tinta, sangue e corpo
entre formas vulgares e distintas de amar,


e não podendo guardar todas as promessas
sacrificar-me-ei como o cordeiro
em base de alabastro sagrado
com meus ais de guelras inclinadas
sob a inexequível amplitude do verbo
entre a metáfora do relâmpago,


pois livros e mães jazerão então inaudíveis
em sua feroz melancolia
tresmalhados nos seios da tempestade
como sulfurosa fragrância de infindas concubinas.
..........................................João Rasteiro - 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

DESTINOS

“Mutação”
1.
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O homem recosta a garganta
nas imagens da astúcia
numa ferocidade própria dos sons e dos sopros
um mergulho no fluído da luz
que possa conceder o privilégio de profanar
o templo das máscaras oblíquas
a boca cheia de corpo
onde o coração se consome agachado e devagar
uma sincera cegueira
desde a respiração palpitante entre as bocas
e as guelras onde levita a carne.
.....................In, A Respiração das Vértebras, 2001

sábado, 13 de março de 2010

"É Nosso o Solo Sagrada da Terra"

Faleceu recentemente (n. 30/04/1926 - m. 09/03/2010) em Luanda, a poeta Alda Espírito Santo, aquela que no entender de alguns, terá sido a figura mais materna - por isso tão solidária e carismática - do movimento emancipador contra a opressão colonial nas possessões africanas portuguesas.
Alda Espírito Santo foi um dos esteios da implantação do ensejo da "reafricanização dos espíritos", como dizia o seu camarada Amílcar Cabral quando ambos fundaram em Lisboa, com Mário Pinto de Andrade, Francisco José Tenreiro, Marcelino dos Santos e outros, o CEA-Centro de Estudos Africanos, que conjuntamente com a Casa dos Estudantes do Império, se transformou num instrumento de formação das jovens consciências que se foram emancipando no início da década de 50.
"Perde a literatura de língua portuguesa uma grande figura e perdemos todos no campo dos afectos", afirmou o escritor angolano Pepetela, quando soube da sua morte. Pepetela recorda a autora do hino nacional de São Tomé como alguém que "através da sua poesia" soube "apontar o caminho aos mais novos": "O caminho da luta, da dignidade dos povos, da independência." Depois de publicar O Jogral das Ilhas, em 1976, editou em 1978 É Nosso o Solo Sagrado da Terra, o seu trabalho mais importante. "A sua poesia teve importância em todo o movimento anticolonial e em todos os países de expressão portuguesa", recordou o poeta Manuel Alegre.
Para além de ter nascido, vivido e morrido poeta, foi ainda Ministra da Informação e Cultura e Ministra da Educação e Cultura de S. Tomé e Príncipe, e presidente da Assembleia Nacional. Exerceu o cargo de presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe, em acumulação com a presidência do Fórum da Mulher. Dela escreveu a sua conterrânea e também poetisa Conceição Lima, num texto recente na revista África 21: “Alda Espírito Santo é igual à transparência da casa que a habita, a casa que nos habita. Pelos nomes próprios nos distingue e nos chama".
Como referiu ainda Pepetela, "a Alda Espírito Santo foi, num determinado momento (anterior às independências dos países de língua portuguesa), das poucas pessoas que já sabia o caminho a seguir, porque, sobretudo através da poesia, ia indicando aos mais novos qual era o caminho, o caminho da luta, da dignidade dos povos, da independência".
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Ilha nua
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Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
.............................Alda Espírito Santo
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quarta-feira, 10 de março de 2010

A Pólis

Maria Helena da Rocha Pereira foi a grande vencedora do prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores/Caixa Geral de Depósitos.
O galardão no valor de 25 mil euros foi atribuído, como referiu o júri, essencialmente tendo em conta o mérito da premiada.
Maria Helena da Rocha Pereira é sem dúvida a maior especialista portuguesa em estudos clássicos (cultura grega e latina) e inclusive, um dos grandes nomes em todo o mundo na área da cultura clássica.
"A sua obra conta com mais de trezentos títulos, entre traduções, monografias e artigos enciclopédicos. É particularmente conhecida pela obra Estudos de História da Cultura Clássica (dois volumes), obra adoptada em Portugal nas licenciaturas da área da literatura e da história. Foi também autora de uma obra sobre os vasos gregos em Portugal, um dos seus campos de estudo. Publicou livros sobre autores clássicos, em especial sobre os gregos Platão, Anacreonte, Píndaro e Pausânias" (in, wikipédia).
Não me esqueço das obras Hélade e Estudos de História da Cultura Clássica (entre os estudantes, o célebre "tijolo") que devorei precisamente na cadeira de História da Cultura Clássica, regida pelo Prof. José Ribeiro Ferreira.
Tendo sido a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra, veio a solidificar uma trajectória ímpar ao serviço da Universidade e da Cultura Portuguesa, sendo hoje uma das grandes figuras da cultura portuguesa e europeia.
Maria Helena da Rocha Pereira é de facto a “Grande mestra dos estudos gregos e latinos”, tal como referiu Eduardo Lourenço.
Seguem-se algumas traduções de Maria Helena da Rocha Pereira:
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Safo - fr.55 LP
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Memória de ti nem saudade. É que não tiveste parte
Nas rosas de Piéria. Invisível, andarás a esvoaçar
No Hades, entre os mortos impotentes.
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Anacreonte Fr.96 D
Não gosto de quem, bebendo vinho junto do crater repleto,
Canta dissensões e guerras cheias de lágrimas,
Mas de quem, misturando das Musas e de Afrodite os dons
esplendorosos,
Celebra a amável alegria.
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Safo- fr. 2 L-P
Há um murmúrio de águas frescas, através
dos ramos das macieiras, as rosas ensobram
todo o solo, e das folhas trémulasescorre o sonho.
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Safo - fr.55 LP
Quando morreres, hás-de jazer sem que haja no futuro
Memória de ti nem saudade. É que não tiveste parte
Nas rosas de Piéria. Invisível, andarás a esvoaçar
No Hades, entre os mortos impotentes.
.
Arquíloco - Fr.30W
Deleitava-se se tinha um ramo de mirto
ou a bela flor da rosa.
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Íbico - Fr.22b Page
Quando a gloriosa, insomne madrugada desperta os rouxinóis...
.
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domingo, 7 de março de 2010

Destinos

Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe
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Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar
– num único e violento segredo.
.
A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
.
E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
.
Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
...................................................João Rasteiro

terça-feira, 2 de março de 2010

ROTAS

Amanhã, 03 de Março de 2010, pelas 18h30 no TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), no âmbito da XII Semana Cultural da Universidade de Coimbra, serão lançados os nºs 13 e 14 da Revista OFICINA de POESIA.
Conjuntamente com os membros da Oficina de Poesia (onde me incluo), lerão os poetas Anna Reckin (Inglaterra) e John Mateer (África do Sul/Austrália). Estes poetas, encontram-se actualmente no programa Poetas em Residência da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (protocolo com a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova).
Refira-se que ambos efectuarão uma nova leitura no próximo sábado na FNAC do Fórum Coimbra, pelas 16h00, integrados nos eventos mensais que a Oficina de Poesia efectua na FNAC/Coimbra.
Já agora, não esquecer no mesmo local pelas 17h00, o lançamento do novo livro do amigo valter hugo mãe, "A máquina de fazer espanhóis". Apareçam por lá, amanhã e sábado, serão momentos bem passados.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ESPAÇOS

Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism ("Signos diacríticos"), Aguarela, Collage e Tinta da China - 2009
.....................Ao Henrique de Santiago (Ao Chile)
XII
.enquanto todos os seres que respiram o enxofre de forma ofegante acreditarem nos pilares das cidades as paisagens da era da técnica não sucumbirão às palavras que choram. e sob o banquete de luz do fogo-de-santelmo o burgo dos corpos metaliformes é uma coisa espantosa porque dilui em fábula invertidas os amoráveis canais do desejo. o líquen é lento como os longínquos sorrisos da pétala e há uma criança única bordando a solidão. como se o gládio da modernidade apenas reproduzisse o bolor da arte do aço desprendida do território aonde repousa a memória das tribos. é apenas o embate brutal do arquitecto dilacerando todas as fragilidades dos seres que se amavam cândidos. a metrópole concebendo em suas células o paladar do milagre. ela é agora a violenta extremidade do holocausto em que o equilíbrio se descobre nervo. e é no ímpeto das cidades que se principia a visão. a infinita exalação da linguagem em sua nervura.
...............................In, DIACRÍTICO (Inédito) - João Rasteiro

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PRÉMIOS/ESPAÇOS

Depois de ter obtido os mais diversos prémios literários, incluindo o Prémio Camões 2002, justificado na altura pelo júri, devido à "inovação no domínio da construção romanesca, no experimentalismo sobre a linguagem e na interrogação do poder fundador da fala", Maria Velho da Costa, uma das eternas "3 Marias", acaba de obter com a obra "Myra", o prémio literário Correntes d` Escritas/Casino da Póvoa/2010, edição que teve hoje início e se prolonga até ao dia 27, com a presença de mais de 60 escritores oriundos de vários países, que irão invadir literalmente a Póvoa de Varzim .

"Dizíamos tantas palavras. O meu mundo também não era grande coisa. Mas quem era aquela garota nos meus braços? O Holocausto para ela era um filme do Spielberg, Angola era a feição símia de Savimbi, e meninos piratas da perna-de-pau, coitadinhos de minas; a Tchetchénia era invenção celerada da Soviética, algures nos arredores de Chernobyl. E New York, New York, era a paródia residencial de Woody Allen e das suas enteadas de olhos em bico. Era isso o mundo dela, desertos e catástrofes, cetáceos ameaçados e Timor que era amor; um globo aldeão onde ela queria ver as tartarugas desovarem em paz, os tigres de dente de sabre voltarem a tosquiar os cordeiros da Sibéria, Sadam Hussein e o Papa Woytila dançarem como Zorba, em Jerusalém; um mundo cachorrinho de leite, onde a pior desgraça era ter sido deposta com um sorriso aos pés da escada e de onde havíamos de partir numa nave para Andrómeda e dar novos mundos ao mundo.
Mas esta rapariga não sabia de nada, e um namorado não sente assim, mas esta rapariga não vira nunca ninguém. Miranda! Era isso que lhe importava: estar no foco de luz dos olhos da ribalta, a rapariga afogada em si, primeiro o rosto, depois as mãos, enfim os cabelos. Brecht-Weil que eu ouvia debaixo da chuva de cinzas de Hannah, debaixo da lua vagabunda di espaço
".

In, "Irene ou o Contrato Social" - Maria Velho da Costa

.

http://bibliomanias.no.sapo.pt/mariavcosta.htm

http://www.infopedia.pt/$maria-velho-da-costa

http://blogtailors.blogspot.com/2010/02/correntes-descritas-2010.html

http://www.apel.pt/pageview.aspx?pageid=506&langid=1

sábado, 20 de fevereiro de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA

CELIO
1.
As aves ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos de Outono…

2.
Ambiciono o relâmpago,
só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.

3.
O que for escrito do hálito
será cumprido – a dilecção
é a sua extensão mais pura.

4.
Quando o cio desmembrar
a fábula sobre os cortiços
impregnarei a terra de paixão?

5.
Na combustão das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.

6.
A matança é uma inferência,
nunca a criação permanecerá
em sua aparente invisibilidade.

7.
Em vulcão de lava, o verbo
procura florir uma flor:
desaba inteiro na língua!

.............................João Rasteiro
..........................................Neil Young - Old Man