domingo, 27 de junho de 2010

NOVAS ROTAS

Saiu recentemente o último número da revista online brasileira ZUNÁI, dirigida pelo poeta Claudio Daniel. Este número conta com poetas como, Horácio Costa, Wilson Bueno, Ya Feng, Virna Teixeira, Leo Lobos ou Micheliny Verunschk; uma entrevista ao Angolano João Maimona, uma mostra de poesia Persa/Iraniana, Traduções, contos, ensaios, etc. E conta ainda com a secção especial, desta vez dedicada ao haicai, que para além de alguns textos/ensaios sobre o haicai, conta com um conjunto de poemas/haicais de Teruko Oda, Alfredo Fressia, Maria de Fátima, Casimiro de Brito, Claudio Daniel, João Rasteiro, José Kozer e Maria Alice Vasconcelos.
Seguem-se três dos meus haicais seleccionados pelo Claudio Daniel.
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Abri a passagem:
A terra chegou-me
até à garganta.
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É possível cogitar a mariposa,
pelas crias não há compaixão
porque da água ferve o sangue.
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Como decifrar a ira do clarão
se é do eixo da luz que cego
e da soldadura que agora rezo?
................................João Rasteiro
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http://www.revistazunai.com/

sábado, 19 de junho de 2010

QUASE IMORTALIDADE

JOSÉ SARAMAGO (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 - Lanzarote, 18/06/2010)

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
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Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
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No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

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Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
.......................................José Saramago

http://www.publico.pt/Cultura

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago

http://www.youtube.com/watch?v=Ph6BG30jXpc

quarta-feira, 16 de junho de 2010

AS ROTAS do AÇO

VIII
.e o zumbido das vespas com espátulas de anjos anunciarão a chegada de uma renovada espécie de bichos prenhes de aço reluzente que fica infuso no paladar do sangue. os velhos sábios que se encovam no fundo das cisternas e dos poços moribundos de sede enlouquecem na dúvida da sílaba solidificada na fissura dos esquecidos. a derradeira paixão do verbo será fortalecida pela lei das tábuas ou pelo divino ser dos universos. a dúvida consolida os fracos.
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IX
.as cidades avançam pela remissão da culpa dos milagres formando um esboço de desordem na consciência dos construtores. e a melancolia tem um corpo eficaz que não existe nos reflexos porque os animais eram feitos à imagem da compaixão que permanece na pronúncia da multiplicação. e então há-de principiar o novo crime. a bestial lógica do ferro sincronizada na renovada e opaca geração da natureza resplandece onde apenas troveja desmesuradamente. unívoca será se o céu transportar a ferocidade do lírio. e ela não é injusta nem desprovida de fecundidade. quando as leis falham surge o diacrítico das cores despojadas que regeneram excelsas até sucumbirmos na saliva mortífera dos lábios. num outro lugar assomará a outra cabeça.
......................JOÃO RASTEIRO...........In, DIACRÍTICO
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domingo, 6 de junho de 2010

PRÉMIO CAMÕES

A 22ª edição do Prémio Camões, atribuído pelo Estado Português e Brasileiro desde 1989, e que distingue anualmente um escritor de língua portuguesa que, "pelo conjunto da sua obra, contribua para o enriquecimento do património literário em português", foi este ano atribuído ao poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar. Este, foi distinguido pela "nota pessoal de lirismo" e "valores universais", essencialmente no seu trabalho poético. Refira-se que Ferreira Gullar tem quase toda a sua obra poética editada pela Quasi - "Obra Poética" (2003). Na minha modesta opinião, terá sido um dos mais justificados Prémios Camões até agora atribuídos, pois Ferreira Gullar é sem dúvida hoje, o mais importante poeta brasileiro (se tivesse sido atribuído a Manoel de Barros, também teria sido bem entregue). Numa entrevista que deu em 2003 ao Mil Folhas, Ferreira Gullar dizia: "Jamais moveria um dedo para ganhar o Prémio Camões. Mas se me dessem, ficaria muito contente." Ele aí está.
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....................Chico Buarque - Cotidiano

segunda-feira, 31 de maio de 2010

PORTUGUESIA

Quarta e Quinta-feira, estarei em Vila Nova de Famalicão, mais concretamente em S. Miguel de Seide, na Casa de Camilo, no PORTUGUESIA 2010, evento e projecto, sonhados pelo poeta brasileiro Wilmar Silva, contando a valiosa colaboração do poeta Luís Serguilha e da Câmara de Vila Nova de Famalicão. No dia 03 pelas 1ohoo, na PERFORMANCE ‘GUESAS LIVRES’, lerei conjuntamente com Minês Castanheira e Tony Tcheka. No mesmo dia pelas 17h30, conjuntamente com Aureliano Costa e Fernando Aguiar, com moderação (provocadora) da brasileira Susana Vargas, integrarei o painel: PROVOCAÇÃO PORTUGUESIA: GEOPOESIS DAS MARGENS. MEDULAS DE DIÁLOGO: POETAS METAFORMOSEADORES.
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Decorre na quarta e na quinta-feira, em Vila Nova de Famalicão, projecto «Portuguesia» – Festa da Poesia Lusófona, que terá entre os destaques do programa o recital de poesia de Fernando Pessoa protagonizado pela actriz Telma Costa.
Nesta segunda edição, são homenageados grandes poetas portugueses: António Ramos Rosa, E.M. de Melo e Castro, Al Berto e Fernando Pessoa.
São esperados na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, mais de trinta poetas do Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Angola, segundo a organização.
A instalação «Portuguesia Trans-Atlas» de Regina Mello nos jardins da Casa de Camilo, dará início ao evento na quarta-feira, pelas 10:00 horas. A obra transpõe os 101 poemas da «Contra-Antologia» editada em 2009 para 101 metros lineares de folhas, «espalhando-os pelos cantos dos jardins», «associando-lhe a sua audição sonora».
A projecção de um vídeo com registos de declamações de 18 poetas guineenses vai dar sequência ao DVD apresentado em 2009, com poetas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos
(Diário Digital).
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A casa do romancista Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, abre portas nos dias 2 e 3 de Junho, à Portuguesia, Festa da Poesia Lusófona, um projecto linguístico que conta com a presença trinta poetas do Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Angola. Durante os dois dias do evento, serão recitadas e debatidas as novas e diferentes formas da expressão poética contemporânea escrita em português. Promovido pelo poeta brasileiro Wilmar Silva, em colaboração com o município de Vila Nova de Famalicão, o projecto Portuguesia decorre pelo segundo ano consecutivo, explorando o contraste de vozes poéticas e debatendo políticas de linguagens, no idioma de Camões. Subordinada ao tema "Minas entre Povos da Mesma Língua - Antropologia de uma Poética", a iniciativa tem chamado a atenção de poetas e críticos da lusofonia, sendo objecto de reflexão sobre a língua e as suas poéticas, a poesia e as suas linguagens. Para Wilmar Silva, autor da obra poética "Yguarani", a "Portuguesia expande os territórios da poesia com o desejo de pensar sobre a lusofonia no sentido antropológico da palavra. Tanto que defende a poética dos autores de línguas portuguesas como fundamental para se pensar em políticas de aproximação entre os povos de língua portuguesa e os povos de todas as línguas".Por sua vez, para o presidente da Câmara Municipal de Famalicão, Armindo Costa, "os países lusófonos ainda se ocupam pouco em estudar as diferenças linguísticas que enriquecem a língua". "A Portuguesia tem essa ambição, de rasgar horizontes, de ser o ponto de encontro e cais de partida das rotas intercontinentais da língua de Camões".Para além dos debates e recitais de poesia, o programa da Portuguesia apresenta ainda os espectáculos "A Maresia do Mundo", "Quatro Cantos do Caos", "Tropofonia" e "Telma em Pessoa", em homenagem a António Ramos Rosa, Melo e Castro, Al Berto, Fernando Pessoa. Referência também para "Guesas Livres", um ciclo de performances com as línguas da poesia na voz dos próprios poetas, criadores que ecoam o idioma da humanidade.O evento ficará ainda marcado pelo lançamento do primeiro volume do Livro DVD com 101 poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo-Verde e Brasil, publicado pela Anome Livros, e que apresenta cinco poemas de cada um dos autores. O dvd encartado ao livro é composto por duas horas de vídeo poesia (O Notícias da Trofa).
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Este ano, os poetas convidados da PORTUGUESIA são: BRASIL: Ana Maria Ramiro, Francesco Napoli, Gilberto Mauro, Karla Melo, Marcelo Costa Baiotto, Márcio-André, Telma da Costa, Regina Mello, Ronaldo Werneck, Suzana Vargas, Zéfere, Wilmar Silva PORTUGAL: Américo Teixeira Moreira, Aurelino Costa, Carlos Vinagre, Cunha de Leiradella, Fernando Aguiar, Frederico Silva, João Miguel Henriques, João Negreiros, João Rasteiro, João Ventura, Jorge Melícias, Jorge Velhote, Luís Filipe Cristóvão, Luís Serguilha, Minês Castanheira, Teresa Tudela GUINÉ-BISSAU: Tony Tcheka ANGOLA: João Melo
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Segue-se o mágico link do blog oficial da PORTUGUESIA: http://www.portuguesia.com.br/
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Rouxinol e Gloxíneas de Wilmar Silva por Reynaldo Bessa

domingo, 23 de maio de 2010

AS LÍNGUAS DA POESIA

De 27 a 29 de maio de 2010 ocorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e em outros pontos da cidade de Coimbra, o VII Encontro Internacional de Poetas. Os Encontros Internacionais de Poetas são organizados trienalmente pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos (GEA-A) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desde 1992 e têm tido um papel ímpar para uma apreciação mais rigorosa da poesia, para uma contextualização mais vasta do fenômeno poético em Portugal, e muito particularmente para a divulgação e consolidação da poesia portuguesa a nível internacional.A edição de 2010 subordina-se ao tema “As Línguas da Poesia”. Pretende refletir sobre as mais diversas manifestações da poesia e os modos como ela diz o mundo, do puro canto à celebração, da proclamação ao silêncio, da intervenção à resistência, das continuidades às rupturas.A estrutura do evento tem por base leituras de poesia na língua original pelos poetas participantes, performances e sessões de caráter teórico sobre poesia. A partir da Universidade, os Encontros têm alargado substancialmente o público da poesia, na concretização do próprio conceito de Univer-cidade, que foi também desde o início um dos objetivos, do evento, com leituras e performances em espaços tão diferenciados da cidade e arredores como cafés e galerias, museus e o mercado municipal.Da programação dos Encontros consta a publicação de uma edição bilíngue dos poetas participantes, tendo sido publicados já cinco volumes de Poesia do Mundo (Edições Afrontamento e Palimage Editores). Desde 1992 até hoje, os Encontros ganharam uma reputação internacional enquanto acontecimento único em que línguas e tradições poéticas se encontram e dialogam.O impacto nacional e internacional do evento é facilmente atestado se levarmos em conta que, ao longo dos últimos 18 anos, os Encontros Internacionais de Poetas trouxeram a Portugal mais de duas centenas de poetas de países, línguas e culturas muito diversas, dos cinco continentes e, até esta data, de 41 países diferentes: dos Estados Unidos da América à Tailândia, de Angola à Nova Zelândia, passando pela Suécia, Canadá e Israel, Rússia, China e Palestina, podendo a lista completa do/as poetas presentes nas várias edições do evento ser consultada em ( http://www1.ci.uc.pt/poetas/pessoas/pessoas.htm ) A consolidação dos Encontros Internacionais de Poetas foi provada com a concretização, em 2007, do Programa de Residências para Artistas na aldeia histórica de Monsanto, programa que já trouxe a Portugal seis poetas de países diferentes desde então ( http://www1.ci.uc.pt/poetas/home.htm ). Para o VII Encontro Internacional de Poetas, em 2010, estão confirmadas as presenças de: Charles Bernstein, Próspero Saíz e Ntozake Shange (Estados Unidos), Marlene Nourbese Philip (Trinidad e Tobago/Canadá), Liana Sakelliou (Grécia), Amina Said (Tunísia/França), Ch´aska Eugeni Anka (Peru), Delmar Gonçalves (Moçambique), Uxue Alberdi e Miren Artetxe (Espanha/País Basco), Régis Bonvicino, Wilmar Silva, Dona Nice e Camila do Vale F. de Miranda (Brasil), Ana Blandiana (Romênia), Stephanos Stephanides (Chipre), Moya Cannon (República da Irlanda), Manuel Rui (Angola), Maria Teresa Horta, Helga Moreira e Pedro Sena-Lino (Portugal) e poetas da Oficina de Poesia da FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. - In, SIBILA ( http://www.sibila.com.br/ ).
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Para além de ir acompanhar os Encontros ao longo dos 3 dias, no dia 28 às 22hoo, efectuarei uma leitura, integrado na OFICINA de POESIA, na Escola de Hotelaria de Coimbra e no dia 29, pelas 12h00, no Teatro Paulo Quintela, F.L.U.C., efectuar-se-á o lançamento da antologia poética Poesia do Mundo 6, que reúne a poesia dos poetas que em 2007 integraram o VI Encontro Internacional de Poetas, e no qual tive o prazer de ser incluído.

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http://www1.ci.uc.pt/poetas/pessoas/pessoas.htm

terça-feira, 18 de maio de 2010

ECOS

No sábado, 22 de Maio, pelas 17hoo a antologia de poesia sobre música "Divina Música" editada pela Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região, com organização do poeta Amadeu Baptista e capa de Inês Ramos, terá a sua primeira apresentação pública no Auditório do Conservatório Regional de Música de Viseu. Esta apresentação estará integrada nas comemorações do 25º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010).
A programação integra uma participação musical (classe de Canto e Coros do Conservatório) e leitura de poemas por alguns autores representados na Antologia. As intervençôes musicais, que estão definidas, serão intercaladas pela leitura de poemas ao longo da sessão. Lá estarei para ler o meu poema (*). A festa será bonita concerteza.
Segue-se o poema Vo disperato a morte, de Francisco Curate, incluído na antologia:
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Que corpo, senão a tristeza do corpo?
Peco por solecismo, o homem nega-se
e cedo declina a nota impossível.
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Guardo a voz nas memórias de Capranica:
na passagi fogoso, um tanto arbitrário
nas mudanças (até nisso perfeito).
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Não basta esta miséria, a mitologia
da perda? Descerro os olhos
na revelação do vislumbrado, gesto
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maduro da rejeição. Acolho na sombra
a sombra ferida capada de uma voz,
o desleixo ingénuo de um deus profícuo.
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Sobrevive em nome, Il Cusanino.
............................Francisco Curate
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quinta-feira, 13 de maio de 2010

ROTAS

HERANÇA

A única herança do meu pai
[disse Yusuf ibn al-Sayj al-Balawi]
foi uns enormes testículos.

Que grande legado, pensou,
que grande legado.
......................Tradução de João Rasteiro

HERENCIA

La única herencia de mi padre
[dijo Yusuf ibn-Sayj al-Balawi]
fue unos grandes testículos.

Qué gran legado, pensó,
qué gran legado.
.............Harold Alvarado Tenorio
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......................................OS VAMPIROS - Zeca Afonso

sábado, 8 de maio de 2010

ESPAÇOS

o lugar perdido
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Todas as crias se revelam às mães
como a precisão angular
do pecado.
O corpo alastra ígneo e selvagem
sobre a cabeça do mundo
e os úteros do soluço
atulham as bocas
que abrigam a jurisdição
da violência das vísceras da promessa.
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Pois existe um lugar encantatório,
secreto e inacessível,
entre a labareda e as trevas
onde não invadem os deuses nem o medo.
As criaturas carnívoras
são transversais à floresta
que sustem o prumo do suicídio.
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São como negras magnólias que choram
porque mastigam as palavras
pelos olhos
acreditando que o que impede
a injunção do milagre
é a palavra que adultera o crisântemo branco.
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Talvez seja possível a derradeira visão
e ela amadureça o gesto da morte
por dentro do lugar
que impõem a lisura do sacrifício.
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Essa que alimenta o pudor sitiado
e os sonhos imberbes
até que ao extermínio sucumba o fogo exposto,
a sílaba inócua em seu ordálio
um lugar ao centro no inferno da língua.
................................João Rasteiro
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domingo, 2 de maio de 2010

VISÃO TOLD(O)ADA

Surgiu recentemente de forma avassaladora, surpreendente e polémica, a obra de um "novo" poeta chamado Joaquim Manuel Magalhães, intitulada Toldo Vermelho. Por acaso há quem veja nele indícios de um outro poeta, infelizmente "já falecido", que também se chamava Joaquim Manuel Magalhães.
Confusão, brincadeira, provocação? Na verdade, se Toldo Vermelho termina com a seguinte nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior”, estamos então na presença de um novo poeta!
A verdade é que, se é perfeitamente legitimo tal acto, uma vez que Joaquim Manuel Magalhães é para o bem e para o mal (infelizmente, penso que para o mal) dono e senhor da sua obra, logo poderá fazer dela o que bem entender (mesmo querer apagá-la), só na sua imaginação (ou falta dela) ou mente told(o)ada, poderia ser concebida a ideia de "apagar" aquilo que existe, que está aí, nas bibliotecas, nas casas particulares, nos livros, nos poemas e essencialmente, na influência em vários poetas, não esquecer que o autor se afirmou como a figura tutelar de uma corrente estilística que ao longo das últimas décadas (vide Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Ana Paula Inácio e outros) se tornou algo central na poesia portuguesa: o prosaísmo e um discurso poético-narrativo assente na permanente olhar e atenção ao quotidiano. Assim, estes poetas em autêntica angústia questionam: se me influenciei em um poeta/poética que não existe/não deverá existir, então a minha poética existe?). Como já comentou o poeta Luís Quintais: "Terá agora Manuel de Freitas ficado órfão?"
Negar livros anteriores ou rescrever e depurar a obra de forma continuada, não é novo, Herberto Helder fá-lo permanentemente, mas, em um Toldo Vermelho, Joaquim Manuel Magalhães nega e estupra, de forma absolutamente radical e violenta toda a sua obra poética desde os anos 70 até ao início deste milénio. O problema surge, quando esta reescrita manifesta não a correcção do gesto, não a renovação do corpo, mas o deliberado refazer de toda a estrutura, num quase sacrilégio iconoclasta. Sim, porque agora, a ilegibilidade das vozes do corpo é quase totalitária.
Certamente haverão de aparecer críticos a louvar esta obra e sua reescrita. O seu conteúdo atingiu um tal grau de ininteligibilidade que, para uns, vai ser complicado atacá-la e, para outros, vai ser delicioso elogiá-la, sendo certo, que será o próprio tempo a determinar se estamos perante um acto de loucura, ou um acto de génio!
Como diria a D. Zulmira, a vizinha a quem fazia os recados na minha aldeia, andou um tal de Joaquim Manuel Magalhães a trabalhar a linguagem uma vida inteira, a alimentar-se no fogo infinito da poesia, para agora, vir este Joaquim Manuel Magalhães mais velho (que não mais sábio) e simplesmente arrasar tudo como bomba atómica, numa espécie de automutilação, entregando-se "à feroz acção de deuses nos vulcões, / ao odor sacrílego de alquimistas mortos" (J.M.M.). De Toldo vermelho, dois poemas:
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O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.
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Eco, fivela, gume.
***
Recolhe o júbilo dos invólucros de látex.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.
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Bolça-os à fornalha
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.
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Cadinho hermético,
operário do soturno.
....................Joaquim Manuel Magalhães
Segundo livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)
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http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-poemas-de-joaquim-manuel-magalhaes/

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/joaquim_manuel_magalhaes/poetas_jmmagalhaes01.htm

http://poesiailimitada.blogspot.com/2010/03/joaquim-manuel-magalhaes_01.html

http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%C3%AAs/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8502

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BIENAL da SAUDADE

Regressado de Silves, da IV Bienal de Poesia de Silves e ainda com dificuldades em "regressar à terra", pois a poesia, a terra, o sol, os odores e sobretudo as pessoas (as locais e as que lá foram), o calor das pessoas, essa palavra tão nossa que se chama saudade, tudo isso eu simbolizo (mais tarde voltarei à Bienal e (h)à "sua poesia") em duas mulheres: Maria Gabriela Rocha Martins, a alma, canto e fogo da Bienal e esse extraordinário "corpo" da dança e também da voz, que se chama Vera Mantero. A vida corre (depressa demais), mas Silves continua lá, qual moira encantada!
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Saúda, por mim, Abg Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
(...)
SIM,
Bebi o vinho derramando luz
Enquanto a noite despia o seu sombrio manto.
......................................Al Mutamid
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VERA MANTERO - Morena dos Olhos de Água (Caetano Veloso)

http://www.triplov.com/4Bienal_de_Poesia/index.htm

http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

POEMA PLURAL - SILVES

De abalada até Silves, onde irei participar na IV Bienal de Poesia de Silves, que decorrerá de 22 a 25 de Abril, o No Centro do Arco regressará no início da próxima semana. A Bienal, que entre imensas iniciativas ligadas à poesia, em permanente interacção com a população, irá este ano homenagear os poetas Pedro Tamen (que estará presente) e Fernando Assis Pacheco. Em baixo, a capa e contracapa do livro que antes, durante e após a Bienal será oferecido à população em geral. Para conhecer melhor o evento, nomeadamente a programação, mas também os poetas, pintores, realizadores, moderadores e todos os intervenientes na Bienal, consultar: http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

7.
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Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.
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Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.
.......................Pedro Tamen
(In, O livro do sapateiro, 2010)
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A Profissão Dominante
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Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual
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de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical -
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receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
........................Fernando Assis Pacheco
(In, A Profissão Dominante, 1982)

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http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Silves_(Algarve)

http://www.cm-silves.pt/portal_autarquico/silves/v_pt-PT


quinta-feira, 15 de abril de 2010

O EIXO do DESLUMBRAMENTO

Foi recentemente editado o quarto livro da excelente "Tetralogia da Assombração", de Jaime Rocha, intitulado Necrophilia e que teve inicio com Os Que Vão Morrer, Zona de Caça e Lacrimatória, que vem provar ser hoje Jaime Rocha, sem dúvida, um dos mais apelativos poetas portugueses. De Necrophilia, dois dos 50 poemas:

1.
A mulher caminha pelas urzes, no auge

do vento, já depois da morte, enovelada

pelos ramos que cortam a paisagem.

O homem está parado como uma ave

de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o

corpo dela desfeito sobre os rochedos,

uma faísca que incendeia um pedaço

de madeira. O homem, amarrado a um

amancha de ferro, contempla o corpo vazio.

Um pássaro cego cai em cima de um espelho.

É o rosto dele despedaçado, a dor.

Tudo é medonho à sua volta, a parte

de trás da luz, a humidade, a respiração

das plantas.
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13.
Toda aquela assombração está gravada

na tinta como se pertencesse a um livro

queimado, roído pelo sol. O homem sabe

que se trata de uma morta, mas não

entende que é a cicatriz do seu peito que

lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual

demoníaco. Conhece os seus cabelos, os

lábios a descerem pelas amoras, pela cera.

E toda a sua pele sobressai, pintada na

parede, nos pregos, nas mãos que descansam

em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se

contra um recife. É ela ou os seus vestidos a

desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.

........................................................Jaime Rocha

Pedro Abrunhosa - Fazer o que ainda nao foi feito

http://www.artistasunidos.pt/jaime_rocha.htm

http://pedroteixeiraneves.wordpress.com/2010/03/31/apostas-propostas-jaime-rocha-necrophilia/

http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/jaime-rocha-necrophilia.html

sábado, 10 de abril de 2010

IV BIENAL de POESIA de SILVES

Mais uma vez aí está à porta a Bienal de Poesia de Silves. A eterna persistência, o descomunal trabalho e talvez a exponencial loucura de um grupo de pessoas encabeçadas pela Gabriela Rocha Martins, pois nos dias de hoje, conseguir colocar um evento destes em andamento, por muitos apoios (e, naturalmente, é de saudar todo o esforço e compreensão da Câmara Municipal de Silves, a este evento e à cultura, apesar de todas as dificuldades que o país e as autarquias naturalmente passam), alguns mais de solidariedade do que económicos, só pode ser alicerçado em "grandes loucuras".
"Numa organização da Casa Museu João de Deus e da Biblioteca Municipal, Silves será palco, a partir de dia 22 de Abril, da IV Bienal de Poesia. Este evento, que junta inúmeros poetas e entusiastas da poesia, prolonga-se até dia 25 de Abril.
Workshops, mesas redondas, apresentação de livros, concertos e espectáculos animarão estes quatro dias, totalmente dedicados à poesia. Haverá ainda uma homenagem ao escritor Pedro Tamen, que terá lugar no dia 24, pelas 18h30. Nessa ocasião, Maria do Sameiro Barroso fará uma conferência e serão lidos poemas por Paulo Moreira. Também Fernando Assis Pacheco será alvo de uma atenção especial, recordando-se os 15 anos da sua morte, às 15h30 do dia 23."
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De entre os muitos poetas que irão marcar presença na linda cidade de Silves, alguns já consagrados e outros ainda menos conhecidos (que não menos valorosos, aliás essa é uma característica do evento e das escolhas, juntar poetas com nome "feito" e outros ainda jovens, mas de valor) encontram-se nomes como, Eduardo Pitta, Domingos Lobo, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Fernando Aguiar, Maria do Sameiro Barroso, Filipa Leal, Maria Azenha, Luís Serrano, Teresa Tudela, Porfírio Al Brandão, Cristina Nery, João Rasteiro, etc., entre muitos outros. A estes juntam-se ainda os artistas plásticos António Ferraz, Daniel Vieira, António Inverno, Maria João Franco, Teresa Mendonça e Sérgio Sá. Da área do cinema a presença de Adão Contreiras e António Castanheira marcará lugar, num evento que irá contar com a moderação de Inês Ramos, Silvestre Raposo e Nassalete Miranda.
Refira-se o facto de a poesia ir ao encontro das pessoas. Às casas de todos os Munícipes (não apenas dos residentes da cidade de Silves) e através de um livrinho de cabeceira, intitulado "há quanto tempo não lê poesia na cama?", e cuja distribuição começará oito dias antes da Bienal e só terminará 15 dias após, com poemas de todos os intervenientes e homenageados na Bienal, a poesia brotará em toda a sua essência!
Silves aguardará por si, pela sua história, pela sua beleza, pela sua hospitalidade e sob o belo sol Algarvio... para ouvir poesia.
Para ver a programação e todas as notícias relacionadas com o evento e participantes, entrar no blogue da IV Bienal de Poesia de Silves: http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/
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.....................IRIS - Há sempre um amanhã

segunda-feira, 5 de abril de 2010

PURGAÇÃO DIONISÍACA II

Esquilino

1.

Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.

2.

O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!

3.

Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

4.

No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.

5.

É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.

6.

Quando saboreei a carne
ia saborear a terra – aves
e Vénus vagueiam acesas.

7.

Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
...........................João Rasteiro

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PRÉMIOS

O poeta Hélder Brandão Faria, acaba de obter o prémio de poesia "Medieve Latino" com o livro "410 solstícios". Professor e ensaísta, é um profundo estudioso da época medieval, tendo traduzido imensos textos de S. Agostinho, essencialmente textos de carácter Dogmático e Exegéticos. Não tendo ainda qualquer livro de poesia publicado, Hélder Brandão Faria prepara-se para publicar uma antologia dos seus vários poemas, publicados ao longo de vinte anos em várias antologias e revistas. Segue-se um poema publicado em 2006 na revista "De Trinitate Literare".
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Um país vicentino
..............O dia em que nasci
..............meu pai cantava…
............Fernando Assis Pacheco
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Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos cravos.
Este é o país dos resignados,
este é o país e esmorece.
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Este é o país dos prostrados.
Este é o país dos alheados,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos vencidos.
Este é o país dos distraídos,
Este é o país e esmorece.
Este é o país dos domados.
Este é o país dos apartados,
este é o país e esmorece.
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Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos trovadores.
Este é o país dos navegadores,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos poetas.
este é o país dos astecas,
este é o país e esmorece.
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Este é um país vicentino.
Este é o país dos infantes,
este é o país e devaneiam.
Este é o país dos meninos,
este é o país e acreditam…
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Este é o país, o país é este!
.........................Hélder Brandão Faria
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domingo, 28 de março de 2010

GEOGRAFIAS

Na passada quinta-feira, 25/3/10, a Comunidade de Leitores Almedina, dirigida pela Prof Dra. Ana Paula Arnaut, recebeu o escritor (para mim, essencialmente amigo e poeta) Luís Carlos Patraquim. Na sessão dirigida pelo especialista em literatura africana da Universidade de Coimbra, Prof. Dr. Pires Laranjeira (FLUC), a conversa que se desenrolou à volta do percurso da experiência no jornalismo, cinema, teatro, política, até à poesia, a conversa decorreu de forma absolutamente deliciosa e participativa, essencialmente por parte dos estudantes Erasmus que assistiram à sessão.
Ficou-se também a saber uma pequena inconfidência, Luís Carlos Patraquim vai publicar brevemente o seu primeiro romance, embora ele prefira chamar-lhe um cruzamento de romance-novela. A única garantia, será a existência de uma grande paródia e profunda ironia à volta do percurso da personagem principal do romance.
Luís Carlos Patraquim é sem dúvida, depois de Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Sebastião Alba e José Craveirinha, provavelmente o maior poeta moçambicano, tendo contribuído decisivamente para uma viragem na poesia moçambicana (e africana em geral), encerrando o chamado período militante da poesia (aliás, terá sido essa vontade de viragem que lhe veio a trazer alguns problemas, quer no seio político-social, mas também no seio literário moçambicano pós-independência.
Como afirma Pedro Mexia, Luís Carlos Patraquim possui hoje "uma arte poética bem calibrada, capaz de escrever poemas curtos muito expressivos e quase expressionistas, verbalmente densos e imprevisíveis, com uma aposta imagística eficaz. São poemas a que podemos aceder apenas pela sua força verbal, estribada também numa repetição quase ritualística e num sentido rítmico notável".
Para além de poesia inédita (que já tive o prazer de ouvir) e que mostra cada vez mais o poeta que hoje é Luís Carlos Patraquim, aguardemos então com expectativa essa primeira narrativa.
Da colectânea editada em 2009, "Pneuma", dois poemas de Luís Carlos Patraquim:
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AL-GHARB
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Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras
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Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres
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Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo
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E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.
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COLAGEM
.
Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos
.
Rilham
.
E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha
.........................[in Pneuma, Caminho, 2009]

quinta-feira, 25 de março de 2010

ROTAS

...............The Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism
ZEN

A sombra segue o corpo
condenado a viajar.
Terás a minha pele
Terás a minha carne
Terás os meus ossos.
Mas o último guardou silêncio
Terás a minha medula - disse -
Com o pó do caminho
A mão sustinha uma sandália.
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PERICLES ANASTASIADES, circa 1895
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Vagos, são já, os rostos do seu rosto
vaga, também, a forma das suas mãos
longe, está, o seu alento da minha boca
a sua pequena estatura
os seus quinze anos
Apenas um ontem ocupa a minha memória
o nosso pequeno amor
o nosso pequeno mês
à dez luas atrás.
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De repente
na madrugada
os seus olhos, de púrpura vestidos,
os seus lábios
lábios de um amor apressado
os seus cumpridos braços
braços de inolvidável robustez
aparecem
Quanto perdi bom Deus!
Quanto perdi!
.............Harold Alvarado Tenorio
..............................(Tradução: João Rasteiro)

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março

escrevo-te a sentir tudo isto
....................Ao V. de S.

Habito nestes livros de poesia por engano,
eu não pertenço à floresta
onde se inventou o fogo
e se troça dos deuses obscuros
domesticando a sílaba dos cavalos
nocturnos
que enrolam as líticas patas do bronze
para além da boca das chuvas,


nada mais desfruto do que a cabeça do tempo,
aí cavo a lucidez dos olhos
da meretriz dos rumores sangrentos
a finitude visceral na injunção do gáudio
em que as mães se extinguem
consanguíneas
sob a abismada ortografia da água
tragando o contágio dos precipícios,


enxerga como o coração fica sombrio e áspero,
o insaciável tacto da separação fervilha
entre livros e coração
o leilão do amor que apazigua a aporia da dor
buscando outra flor outra memória
inominável
a acerba tinta, sangue e corpo
entre formas vulgares e distintas de amar,


e não podendo guardar todas as promessas
sacrificar-me-ei como o cordeiro
em base de alabastro sagrado
com meus ais de guelras inclinadas
sob a inexequível amplitude do verbo
entre a metáfora do relâmpago,


pois livros e mães jazerão então inaudíveis
em sua feroz melancolia
tresmalhados nos seios da tempestade
como sulfurosa fragrância de infindas concubinas.
..........................................João Rasteiro - 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

DESTINOS

“Mutação”
1.
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O homem recosta a garganta
nas imagens da astúcia
numa ferocidade própria dos sons e dos sopros
um mergulho no fluído da luz
que possa conceder o privilégio de profanar
o templo das máscaras oblíquas
a boca cheia de corpo
onde o coração se consome agachado e devagar
uma sincera cegueira
desde a respiração palpitante entre as bocas
e as guelras onde levita a carne.
.....................In, A Respiração das Vértebras, 2001