(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
sexta-feira, 16 de julho de 2010
STOP - "O MAR"
domingo, 11 de julho de 2010
ROTAS - "POESIA DO MUNDO 6"
Como consta do prefácio de Maria Irene Ramalho, com o título "A violência da poesia", Poesia do Mundo 6 reúne, como de costume em edição bilingue, poemas dos poetas que participaram no VI Encontro Internacional de Poetas, realizado em Maio de 2007 e subordinado ao tema geral, “Poesia e Violência”.
Um grande poeta alemão perguntou um dia: “Para quê poetas em tempo de indigência?” Dezoito anos depois de terem iniciado este belo e perigoso projecto de trazer a Coimbra, de três em três anos, poetas de todo o mundo, os organizadores do VI Encontro entenderam parafrasear Friedrich Hölderlin e perguntar-se: “Para quê poetas em tempo de violência?”
Vivemos em tempo de violência. Talvez nunca como hoje tivéssemos obrigação de ter consciência plena disso mesmo. Não passa um dia sem que a televisão nos violente a tranquilidade da nossa sala de estar com as mais cruéis imagens de opressão, discriminação e repressão. O objectivo do VI Encontro não foi, porém, reunir poetas que nos viessem ler ou representar poesia sobre a violência. O objectivo foi antes reflectir sobre o que se entende por violência e que relação tem com ela a poesia. Blake disse, com aquela violência que melhor que ninguém ele soube retirar da língua, que as “Prisões são construídas com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião”. O VI Encontro incluiu, nos 250 anos do nascimento do multifacetado poeta e artista, uma homenagem a William Blake, o poeta que em belíssimos cantares de inocência e experiência fez ecoar as brutais discrepâncias e a hipocrisia desenfreada da sociedade do seu tempo.
A pergunta que muitos dos poemas aqui coligidos suscitam é se a poesia poderá, ou deverá, representar a violência. Não será o acto de representar, só por si, uma violência? No que diz respeito à poesia lírica, o “silêncio dos poetas”, de que fala Alberto Pimenta, diz mais do que o dizível, e com muito mais força: “dizes: / é preciso distinguir o bem do mal / admites portanto que eles podem ser confundidos”. Em tempo de crescente menorização da poesia, das artes e da cultura humanística em geral, para quê ouvir os poetas e perguntar, como perguntou um dia o poeta de Coimbra, Vítor Matos e Sá: “o que pode dizer a poesia?” A poesia nada diz. A poesia diz-se – e, no seu dizer-se, interrompe e faz estremecer a razão e os sentidos. Por mais ineficaz que seja em última análise o seu impacto, a poesia faz tremer os poderes. No seu nada dizer, em seu “silêncio”, a poesia é a violência que mais precisamos nos interrompa e surpreenda hoje – para a nossa continuada construção de nós próprios como seres humanos responsáveis e solidários. Foi neste sentido a admirável conferência proferida por C. D. Wright na abertura da VI Encontro: “A poesia (. . .) aspira ao silêncio. Não digo que o seu alvo seja a perfeição, mas uma abertura (. . .) uma clareira (. . .) onde a língua se dê ao luxo de associações inesperadas e resultados alternativos”.
No VI Encontro, acolhemos poetas de quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. Os poemas reunidos nesta antologia mostram bem por que razão disse Ruy Belo um dia que “a poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida”. Dos quatro cantos do mundo chega até Poesia do mundo 6, em imagens poderosas, uma pergunta desestabilizadora pelas múltiplas relações de poder, violência e colonialidade que continuam a entrelaçar as nossas vidas, seja na esfera cultural, social e política, seja na esfera pessoal. Há vaqueiros mexicanos empalados num poema do americano Forrest Gander; corvos marinhos surreais, que ocupam o espaço alheio, num poema do irlandês Macdara Woods; cadáveres de crianças num poema da libanesa de Montreal Nadine Ltaif. A angolana Chó do Guri diz-se poeta de gente enjaulada e a palestiniana Faiha Abdulhadi evoca as subtilezas das políticas de paz na sua terra, perguntando: “O que é mais cruel / os dentes do lobo ou / o sorriso da raposa?” Poemas há, como os do brasileiro Márcio-André ou, mais ainda, da inglesa Maggie O’Sullivan ou da americana Joan Retallack, que denunciam a violência da própria língua, completamente a desmantelando. Ao mesmo tempo, qualquer dos poemas aqui recolhidos, mesmo os mais fluidamente líricos da galega Helena Villar Janeiro, ou as meditações ônticas do português Gastão Cruz, é uma pergunta rigorosa pela tradição poética, em que não deixa de se reconhecer. Num dos seus poemas, o russo Maxim Amelin faz do fotógrafo ambulante, obsoleto em tempo de polaróides, um dos filhos de Febo Apolo. Que o pessoal é poético e político resulta uma vez mais claro nos poemas do chinês Xiao Kaiyu.
Mas não só a ordem poética é interrogada e reinventada; também os valores dominantes da cultura no seu todo são postos em causa. Para matar a fome ao mundo, a portuguesa Regina Guimarães imagina uma mulher (são as mulheres que dão o sustento), mas uma mulher que é a lenha que dará o fogo para cozinhar a refeição.
Pois não busca também a poesia, como sugere um poema do americano John Taggart, a arte de virar a melodia do avesso e tornar a tocar tocando uma e outra vez?
.
....................for valter hugo mãe
One day the high flood of blood
will burn the night, books too
will lie alone under the tunics of Istanbul
with death, love too should
end - in a violent and unique secret.
.
Melancholy will flutter from the vents
atoning for guilt, grey creatures
will be moved full in the heat of touch
will die alone - as their offspring.
.
And there will be the celebration of precipices
warping the consent of the ivy, for the flower
is a body excessively fresh and mortal
he blood in spring is redder
than the naked clay - the earth is a folded lily.
.
For love and death have their unique existence
hey are converts, but their monsters endure
and will endure sheltered in the agony of time
making love with wombs - until the end of the world.
..................................................João Rasteiro.
........................TRADUÇÃO: Graça Capinha
Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe
Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar – num único e violento segredo.
.
A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
.
E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
.
Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
..............................................João Rasteiro
.
sábado, 3 de julho de 2010
Vi o relâmpago disposto nas candeias
do sangue o caminho onde ardo na forja
com que as mãos tecem oiro a bordadura
das catedrais a memória solidificando-se
no lado vertiginoso da boca as vísceras
ungindo o granito dos dias ancestrais
murmúrios caindo na rua de los libreros
puro espaço em si o vazio e a plenitude
em que deus susteve o verbo a blasfémia
do poeta o gesto imperceptível da morte.
...........................................João Rasteiro
domingo, 27 de junho de 2010
NOVAS ROTAS
A terra chegou-me
até à garganta.
.
É possível cogitar a mariposa,
pelas crias não há compaixão
porque da água ferve o sangue.
.
Como decifrar a ira do clarão
se é do eixo da luz que cego
e da soldadura que agora rezo?
.
sábado, 19 de junho de 2010
QUASE IMORTALIDADE
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
.......................................José Saramago
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago
http://www.youtube.com/watch?v=Ph6BG30jXpc
quarta-feira, 16 de junho de 2010
AS ROTAS do AÇO
VIII.e o zumbido das vespas com espátulas de anjos anunciarão a chegada de uma renovada espécie de bichos prenhes de aço reluzente que fica infuso no paladar do sangue. os velhos sábios que se encovam no fundo das cisternas e dos poços moribundos de sede enlouquecem na dúvida da sílaba solidificada na fissura dos esquecidos. a derradeira paixão do verbo será fortalecida pela lei das tábuas ou pelo divino ser dos universos. a dúvida consolida os fracos.
.
.as cidades avançam pela remissão da culpa dos milagres formando um esboço de desordem na consciência dos construtores. e a melancolia tem um corpo eficaz que não existe nos reflexos porque os animais eram feitos à imagem da compaixão que permanece na pronúncia da multiplicação. e então há-de principiar o novo crime. a bestial lógica do ferro sincronizada na renovada e opaca geração da natureza resplandece onde apenas troveja desmesuradamente. unívoca será se o céu transportar a ferocidade do lírio. e ela não é injusta nem desprovida de fecundidade. quando as leis falham surge o diacrítico das cores despojadas que regeneram excelsas até sucumbirmos na saliva mortífera dos lábios. num outro lugar assomará a outra cabeça.
......................JOÃO RASTEIRO...........In, DIACRÍTICO
domingo, 6 de junho de 2010
PRÉMIO CAMÕES
A 22ª edição do Prémio Camões, atribuído pelo Estado Português e Brasileiro desde 1989, e que distingue anualmente um escritor de língua portuguesa que, "pelo conjunto da sua obra, contribua para o enriquecimento do património literário em português", foi este ano atribuído ao poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar. Este, foi distinguido pela "nota pessoal de lirismo" e "valores universais", essencialmente no seu trabalho poético. Refira-se que Ferreira Gullar tem quase toda a sua obra poética editada pela Quasi - "Obra Poética" (2003). Na minha modesta opinião, terá sido um dos mais justificados Prémios Camões até agora atribuídos, pois Ferreira Gullar é sem dúvida hoje, o mais importante poeta brasileiro (se tivesse sido atribuído a Manoel de Barros, também teria sido bem entregue). Numa entrevista que deu em 2003 ao Mil Folhas, Ferreira Gullar dizia: "Jamais moveria um dedo para ganhar o Prémio Camões. Mas se me dessem, ficaria muito contente." Ele aí está.segunda-feira, 31 de maio de 2010
PORTUGUESIA
Quarta e Quinta-feira, estarei em Vila Nova de Famalicão, mais concretamente em S. Miguel de Seide, na Casa de Camilo, no PORTUGUESIA 2010, evento e projecto, sonhados pelo poeta brasileiro Wilmar Silva, contando a valiosa colaboração do poeta Luís Serguilha e da Câmara de Vila Nova de Famalicão. No dia 03 pelas 1ohoo, na PERFORMANCE ‘GUESAS LIVRES’, lerei conjuntamente com Minês Castanheira e Tony Tcheka. No mesmo dia pelas 17h30, conjuntamente com Aureliano Costa e Fernando Aguiar, com moderação (provocadora) da brasileira Susana Vargas, integrarei o painel: PROVOCAÇÃO PORTUGUESIA: GEOPOESIS DAS MARGENS. MEDULAS DE DIÁLOGO: POETAS METAFORMOSEADORES.Nesta segunda edição, são homenageados grandes poetas portugueses: António Ramos Rosa, E.M. de Melo e Castro, Al Berto e Fernando Pessoa.
São esperados na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, mais de trinta poetas do Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Angola, segundo a organização.
A instalação «Portuguesia Trans-Atlas» de Regina Mello nos jardins da Casa de Camilo, dará início ao evento na quarta-feira, pelas 10:00 horas. A obra transpõe os 101 poemas da «Contra-Antologia» editada em 2009 para 101 metros lineares de folhas, «espalhando-os pelos cantos dos jardins», «associando-lhe a sua audição sonora».
A projecção de um vídeo com registos de declamações de 18 poetas guineenses vai dar sequência ao DVD apresentado em 2009, com poetas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos (Diário Digital).
domingo, 23 de maio de 2010
AS LÍNGUAS DA POESIA
.
terça-feira, 18 de maio de 2010
ECOS
A programação integra uma participação musical (classe de Canto e Coros do Conservatório) e leitura de poemas por alguns autores representados na Antologia. As intervençôes musicais, que estão definidas, serão intercaladas pela leitura de poemas ao longo da sessão. Lá estarei para ler o meu poema (*). A festa será bonita concerteza.
Segue-se o poema Vo disperato a morte, de Francisco Curate, incluído na antologia:
.
Que corpo, senão a tristeza do corpo?
Peco por solecismo, o homem nega-se
e cedo declina a nota impossível.
.
Guardo a voz nas memórias de Capranica:
na passagi fogoso, um tanto arbitrário
nas mudanças (até nisso perfeito).
.
Não basta esta miséria, a mitologia
da perda? Descerro os olhos
na revelação do vislumbrado, gesto
.
maduro da rejeição. Acolho na sombra
a sombra ferida capada de uma voz,
o desleixo ingénuo de um deus profícuo.
.
Sobrevive em nome, Il Cusanino.
............................Francisco Curate
.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
ROTAS
A única herança do meu pai
[disse Yusuf ibn al-Sayj al-Balawi]
foi uns enormes testículos.
Que grande legado, pensou,
que grande legado.
HERENCIA
La única herencia de mi padre
[dijo Yusuf ibn-Sayj al-Balawi]
fue unos grandes testículos.
Qué gran legado, pensó,
qué gran legado.
sábado, 8 de maio de 2010
ESPAÇOS
.
.
Todas as crias se revelam às mães
como a precisão angular
do pecado.
O corpo alastra ígneo e selvagem
sobre a cabeça do mundo
e os úteros do soluço
atulham as bocas
que abrigam a jurisdição
da violência das vísceras da promessa.
.
Pois existe um lugar encantatório,
secreto e inacessível,
entre a labareda e as trevas
onde não invadem os deuses nem o medo.
As criaturas carnívoras
são transversais à floresta
que sustem o prumo do suicídio.
.
São como negras magnólias que choram
porque mastigam as palavras
pelos olhos
acreditando que o que impede
a injunção do milagre
é a palavra que adultera o crisântemo branco.
.
Talvez seja possível a derradeira visão
e ela amadureça o gesto da morte
por dentro do lugar
que impõem a lisura do sacrifício.
.
Essa que alimenta o pudor sitiado
e os sonhos imberbes
até que ao extermínio sucumba o fogo exposto,
a sílaba inócua em seu ordálio
um lugar ao centro no inferno da língua.
................................João Rasteiro
.
domingo, 2 de maio de 2010
VISÃO TOLD(O)ADA
Eco, fivela, gume.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.
operário do soturno.
http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-poemas-de-joaquim-manuel-magalhaes/
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/joaquim_manuel_magalhaes/poetas_jmmagalhaes01.htm
http://poesiailimitada.blogspot.com/2010/03/joaquim-manuel-magalhaes_01.html
http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%C3%AAs/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8502
quarta-feira, 28 de abril de 2010
BIENAL da SAUDADE
Regressado de Silves, da IV Bienal de Poesia de Silves e ainda com dificuldades em "regressar à terra", pois a poesia, a terra, o sol, os odores e sobretudo as pessoas (as locais e as que lá foram), o calor das pessoas, essa palavra tão nossa que se chama saudade, tudo isso eu simbolizo (mais tarde voltarei à Bienal e (h)à "sua poesia") em duas mulheres: Maria Gabriela Rocha Martins, a alma, canto e fogo da Bienal e esse extraordinário "corpo" da dança e também da voz, que se chama Vera Mantero. A vida corre (depressa demais), mas Silves continua lá, qual moira encantada!segunda-feira, 19 de abril de 2010
POEMA PLURAL - SILVES
7.
.
Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.
.
Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.
.......................Pedro Tamen
(In, O livro do sapateiro, 2010)
.
A Profissão Dominante
.
Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual
.
de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical -
.
receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
........................Fernando Assis Pacheco
(In, A Profissão Dominante, 1982)
.
http://bienaldepoesiadesilves.blogspot.com/
quinta-feira, 15 de abril de 2010
O EIXO do DESLUMBRAMENTO
1.
A mulher caminha pelas urzes, no auge
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a um
amancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.
.
13.
Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
........................................................Jaime Rocha
Pedro Abrunhosa - Fazer o que ainda nao foi feito
http://www.artistasunidos.pt/jaime_rocha.htm
http://pedroteixeiraneves.wordpress.com/2010/03/31/apostas-propostas-jaime-rocha-necrophilia/
http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/jaime-rocha-necrophilia.html
sábado, 10 de abril de 2010
IV BIENAL de POESIA de SILVES
Workshops, mesas redondas, apresentação de livros, concertos e espectáculos animarão estes quatro dias, totalmente dedicados à poesia. Haverá ainda uma homenagem ao escritor Pedro Tamen, que terá lugar no dia 24, pelas 18h30. Nessa ocasião, Maria do Sameiro Barroso fará uma conferência e serão lidos poemas por Paulo Moreira. Também Fernando Assis Pacheco será alvo de uma atenção especial, recordando-se os 15 anos da sua morte, às 15h30 do dia 23."
segunda-feira, 5 de abril de 2010
PURGAÇÃO DIONISÍACA II
1.
Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.
2.
O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!
3.
Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.
4.
No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.
5.
É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.
6.
Quando saboreei a carne
e Vénus vagueiam acesas.
7.
Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
quinta-feira, 1 de abril de 2010
PRÉMIOS
..............O dia em que nasci
..............meu pai cantava…
............Fernando Assis Pacheco
.
Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos cravos.
Este é o país dos resignados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país dos prostrados.
Este é o país dos alheados,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos vencidos.
Este é o país dos distraídos,
Este é o país e esmorece.
Este é o país dos domados.
Este é o país dos apartados,
este é o país e esmorece.
.
Este é o país, o país é este
este é o país e esmorece.
Este é o país dos trovadores.
Este é o país dos navegadores,
este é o país e esmorece.
Este é o país dos poetas.
este é o país dos astecas,
este é o país e esmorece.
.
Este é um país vicentino.
Este é o país dos infantes,
este é o país e devaneiam.
Este é o país dos meninos,
este é o país e acreditam…
.
Este é o país, o país é este!
.........................Hélder Brandão Faria
domingo, 28 de março de 2010
GEOGRAFIAS
Pelo lagar da noite
Corre no ar um tropel furtivo
Ela só lívida de azul e oiro
E a mãe diurna
Uma girafa com búzios
Rilham
E os espinhos macerados