domingo, 17 de outubro de 2010

"A Imobilidade Fulminante"

António Ramos Rosa, (17 de Outubro de 1924). Poeta, tradutor e ensaísta, é hoje, dia em que faz 86 anos, um dos grandes nomes da poesia contemporânea portuguesa. É sem dúvida, "um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade" - (astormentas).  Recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Pessoa, 1988 ou em tradução, o Prémio Jean Malrieu. Para ler alguns poemas seus: (http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/antonio_ramos_rosa/poetas_aramosrosa01.htm ).
Do meu livro de 2008, O Búzio de Istambul, o meu poema de homenagem a António Ramos Rosa:
Antes ramos e rosas
............................Ao A. Ramos Rosa

Ter um corpo de branco, um eco
todo silêncio: palavra!
Vozes, céu, terra, linho, o acto desnudo
fresco e fresco, fresco
e mãos acesas de sexos iniciais de imensos universos.
Um eco: uma língua
quase frémito, no coração dos hortos , completa e contínua.

Um corpo que morre no sabor entre as palavras
sobre o rosto incandescente do espanto: deus
nas talhas, no barro, no fresco, no sangue,
pai, filho, sílaba e espírito obscuro
de paragens, sopros, paisagens, círculos e hortos,
a terra branca, límpida nas veias: antes ramos e rosas.

O Corpo?
Um corpo de água?
O animal atónito, inabitado?
Um animal de branco, desejos no interior de constelações
sumptuosas, a terra aberta, silêncios: toda a terra, branca.

Não conheço esse corpo fresco, não fui a esse branco
espaço de todas as palavras, o hálito vivo da inquietação,
a respiração inaudível das formas nuas: antes ramos e rosas.
.........................................................João Rasteiro
Rodrigo Leão - ROSA


http://www.astormentas.com/ramosrosa.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Ramos_Rosa
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/recen018.htm
http://www.astormentas.com/biografia.aspx?t=autor&id=Ant%C3%B3nio%20Ramos%20Rosa

domingo, 10 de outubro de 2010

ROTAS

Acaba de sair o nº 13 da revista literária CUADERNOS TELIRA, editados por Telira - tertulia literaria arandina y ribereña, de Aranda de Duero (Burgos) - Espanha. Nela consta o meu poema (em edição bilingue) "Visão Maior", com tradução de Alfredo Pérez Alencart.

Visión mayor                                 

La plaza es la ciudad una rosácea luz
llama hambrienta del fuego de la piedra:
sus raíces confundidas en la luz
sus huellas en ofrendas de venas,
el mensurable movimiento de la memoria
cuando nos golpea como halcones,
palabras antiguas sobre túnicas rojas
excelsas en su dulce y estimulante obstinación.


Visiones, quimeras de Salamanca,
el corte audaz que desafía los cielos
que cierran el soplo sísmico de las aves,
se levantan como un dios de blasfemia
ciego y desnudo rasgando las gárgolas de mármol
 y hay exceso de simientes maduras el pólen
 rasgando las estaciones sagradas de otoño.


Otras, en la anticipación del movimiento
sumergiendo la impurificación de los cuerpos,
subliman la ciudad preñada de respiración
como frutos en maduración persistente
que sangra entera como cosas primitivas.


Y siempre un centro inflamado de fábulas
en conchas límpidas en la sangre del agua
agitando por dentro de bocas y anémonas,
una ciudad emergiendo a las cinco de la tarde.

............João Rasteiro (Traducción: Alfredo Pérez Alencart)

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http://www.telira.net/

sábado, 2 de outubro de 2010

Os caminhos da República

Segunda-feira, dia 04 de Outubro, pelas 20h30, no âmbito das comemorações no Município de Alvaiázere do Centenário da República, estarei na Biblioteca Municipal de Alvaiázere, onde efectuarei uma sessão de leitura da minha poesia. A noite prosseguirá com o lançamento do livro "Diz sempre que sim...", de Miguel Ângelo Portela da Silva Caetano e encerrará com o espectáculo "Contos com História" de Carlos Piecho (Vide cartaz abaixo). Quem puder aparecer, será bem-vindo, até porque a escolha é bastante variada, incluindo exposições, música, etc. Segue-se um poema meu, intitulado: "Al-Bai-Zir".

Al-Bai-Zir

Aqui eu sei,
como no centro dos oceanos de pérolas
que o fogo brota,
e morre, e volta a brotar,
como na fonte da serra o mesmo corpo
sacia a sede nos rios
que em seu leito têm lágrimas de dolinas
antigas e cativas em seu peculiar odre de mel.

Aqui o murmúrio chama,
furioso em seu galope de veias de urzes
a oliveira, o coração e o ouro
das constelações dos campos de milho,
nesta terra fêmea dos brancos e ocres casarios
e dos rebanhos e das cabras,
as crias na curva do astro-rei
que os deuses entregaram às Epigéias,
para que em fábulas florissem matriciais
nos ciclos mais auríferos dos algares do mundo.

Tens uma boca de trevos e silêncios
e nos dedos a infância das ânforas túmidas
errantes espíritos dos dias vorazes
que percorrem as muralhas
das torres de prata
onde já não há espaço ou horizonte
e o mundo se dilui sobre o campo de lapiás
no horto que respira a claridade
sob os olhos das orquídeas celestes
e incessantemente
o solo com vida, como a rotação da mó do sangue.

No tempo em que as coisas se ofereciam a deus
ofereceu-se-lhe Al-Bai-Zir
e o céu acendeu-se,
e morreu e voltou a acender-se
onde principia a vindima de teu carnívoro nome.

Alguém pronuncia terra para verbalizar vida
e cada movimento ígneo é o alfabeto das primaveras.
....................................................João Rasteiro

http://www.cm-alvaiazere.pt/

http://www.centenariorepublica.pt/

sábado, 25 de setembro de 2010

"O DURADOURO do EFÉMERO"


O poeta Albano Martins completou recentemente 80 Primaveras (em 24 de Julho), e na altura que celebra 60 anos de vida literária, viu editada a antologia que reúne toda a sua poesia: As Escarpas do dia - (poesia 1950-2010), com a chancela das Edições Afrontamento.
Albano Martins tem tido a gentileza de manter comigo um relação bastante generosa (aliás, dentro de alguns dias, darei algumas notícias/novidades que confirmarão tal facto).
Assim, mais do que colocar aqui algum poema seu (colocarei no fim deste post alguns links que remeterão para a sua poesia, biografia, entrevista, análise à sua obra, etc,), coloco um poeema em sua homenagem, poema esse que intitulei de "Poema Verde".


Poema Verde
.............Ao Albano Martins
I

Nada já há a pronunciar em tua defesa
sob o viço das oliveiras. Enterra o teu segredo
num verbo apócrifo e gentio.
Oculta-o de perfil por entre a língua
que nunca possuíste na boca. Agasalha-o inteiro
até clarear o musgo na fissura do chão.
Preserva-o como se só a voz queime intacta
o sulco de uma lua de enxofre.

...................Ó ser,
cujas alegorias foram as sombras aprazíveis
do ígneo clarão. Como é verde a raiz duma planta
que secou, o mecanismo afectuoso da barbárie
e o curso trémulo do peregrino.
Entre o odor da terra e o calor difuso do coração,
a chuva ancorada sobre a flor de lótus
equilibrando-se corpo virado para as fogueiras
da água que pugna a seiva.

II

Há-de o tempo perpetuar aquela farsa arquitectónica
de um poema perfeito. Pois ermas estão as águas,
a divina força de sua granítica soberania
em nossas condenadas elegias.
Parece um lugar para amar no escuro, o indistinto
e primordial eco do anjo no Inverno?

...................Tu, poeta,
que deslindaste perplexo que há lodo sob as algas,
sob a pele, como uma vã condenação.
Na verdura da sílaba, em ti, qualquer crença nua
no oficio de romeiro, íntima
na sede mais forte dos líquidos, no pranto do sol,
poderá subsistir ao ensejo dos aguaceiros.
Tu, que não perduras no cântico mágico do poema,
mas tão só ciciado nas múltiplas máscaras
do tempo anterior ao acasalamento dos besouros.

III

Em cada árvore depois do fogo, o poema
regressa nu e a morte verde, a lágrima
corre como se uma enxurrada tolhesse as palavras
em homem e bicho, em água e sangue, em eco e cântico,
em borboleta e mariposa. Para sepultar os prados.
Falo do inexplicável sopro. Aí, tudo permanece.
E tudo é teu. Tu és o sangue, o verão e a pedra sagrada.
O poema é verde. Sinto-lhe o odor materno.
.............................................................João Rasteiro
.

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http://www.cnc.pt/Artigo.aspx?ID=738

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/albano_martins/poetas_albanomartins01.htm

http://comlivros-teresa.blogspot.com/2009/10/entrevista-albano-martins.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Albano_Dias_Martins

domingo, 19 de setembro de 2010

HABITAR A POSSIBILIDADE!

Foi recentemente editado um dos mais esperados livros, para mim, de poesia (Cem Poemas), não só por ser um livro de uma das mais extraordinárias "poetas" que já li/lemos, Emily Dickinson, mas também por ter sido organizado e traduzido  por uma excelente poeta, Ana Luísa Amaral, que sobre Dickinson afirma: «Emily Dickinson é a poeta mais fascinante que conheço. O não ter praticamente publicado em vida autorizou sucessivas e revistas edições dos seus versos, espalhando a polémica entre críticos e organizadores. O ter incluído poemas em cartas, o ter falado da poesia como carta e trazido para o corpo das cartas o ritmo, a rima e a música da poesia fez com que dos seus textos uma poeta mais recente escrevesse: “os poemas chamar-se-ão cartas e as cartas chamar-se-ão poemas”. A sua linguagem poética, ao mesmo tempo metafórica e elíptica, sincopada e oblíqua, sem muitas vezes concordância de formas verbais, nem respeito por plurais ou regras de gramática, deixou espaço a que dela se acentuasse o excessivo ofício com a gramática ou se falasse até de uma gramática própria. O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen. Tudo isto me fascina em Emily Dickinson. E mais ainda: o ter falado de tudo, misturando Deus com ladrões, aranhas com vassouras, alma com vulcões, sonho com abelhas, gerânios, piscos e trevos; ou o ter examinado a morte e a vida, explorado o amor e o inferno, o êxtase, a mais pura alegria, o sofrimento, a misteriosa energia das coisas todas do universo. Ainda o tê-lo feito numa voz de mulher, aparentemente submissa, de facto poderosa. “Habito a Possibilidade - / Uma Casa mais bela do que a Prosa –“, escreveu. Depois disto, que melhor definição de poesia?» - (Poesia & Lda).

I
Habito na Possibilidade —

Uma Casa mais bela do que a Prosa —
Em Janelas mais numerosa —
Em Portas — superior —


De Quartos como Cedros —
Impregnáveis ao Olhar —
E por Telhado Duradouro
Os Telhados do Céu —


De Visitantes — a mais bela —
Isto — para a Ocupar —
O abrir largo as minhas Mãos estreitas
Para colher o Paraíso —

II
Diz toda a Verdade mas di-la oblíqua —

O Êxito reside no Circuito
Brilhante por demais para nosso enfermo Deleite
A suprema surpresa da Verdade
Como Relâmpago às Crianças oferecido
Num brando explicar
Deve a Verdade aos poucos deslumbrar
Ou cego qualquer um —
.
In Cem Poemas, de Emily Dickinson,
tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio d'Água, 2010
.

http://www.arlindo-correia.com/180700.html

http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet067.htm

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Emily_Dickinson&op=7&author=202

http://pt.wikipedia.org/wiki/Emily_Dickinson

http://www.biographyonline.net/poets/emily_dickinson.html

domingo, 12 de setembro de 2010

LUGAR(ES)

"Esquilino"

I


Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.

II


O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!

III

Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

IV

No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.

V

É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.

VI

Quando saboreei a carne
ia saborear a terra – aves
e Vénus vagueiam acesas.

VII

Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
........................João Rasteiro
In, A Divina Pestilência
.
P:S: Agora uma música de alguém que nos últimos tempos... é até riscar o CD!!!
LENINE - O Atirador

domingo, 5 de setembro de 2010

RAÍZES de MAR

O poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, ou melhor dizendo, "brasileiroportuguês", que ainda muito recentemente lançou em São Paulo, o livro  "Alma Gentil Raízes", onde reúne todos os seus livros de poesia editados em Portugal, apresentará no próximo dia 09 de Setembro pelas 18h30, no TAGV - Teatro Académico de Gil Vicente em Coimbra, os livros “Este gosto de sal – Mar português”, poesia, e “Cartas de Abril para Júlia”, novela. A apresentação será feita pela Dra. Graça Capinha e contará ainda com a presença da Oficina de Poesia da FLUC.
Estas obras serão apresentadas também em Lisboa no dia 11 de Setembro, no Auditório do Campo Grande.
Álvaro Alves de Faria, mantém há bastantes anos uma persistente busca de suas raízes portuguesas (é descendente de pais portugueses e possui bastante família no norte de Portugal), como ele afirmou recentemente, "Saio (para Portugal) mais uma vez busca de mim". É essa persistente busca de si, que impregnou de forma avassaladora Álvaro Alves de Faria de uma afinidade a Portugal (e de certa forma, de forma muito especial a Coimbra) de uma sensibilidade que só uma "alma gentil" portuguesa poderia conter. Por isso é hoje apelidado de ser o "mais português dos poetas brasileiros".
Álvaro Alves de Faria é detentor de uma obra já bastante importante, que passa essencialmente pela poesia, mas também pelo romance, novela, teatro, ensaios, crítica literária, jornalismo cultural, etc, possuindo um considerável número de prémios, entre eles dois Prémios Jabuti, Prémio Anchieta (teatro), três vezes o Prémio Especial da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, etc.
Toda esta busca, todo este gosto de sal de mar português, fez com que em Junho deste ano tenha sido homenageado pelo Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo, cerimónia que integrou as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Assim, não só pelo autor e especialmente pela obra, mas sobretudo pelo homem, pela sua sensibilidade e carácter perante as injustiças do mundo, a ida nos dias 9 e 11, respectivamente ao TAGV, Coimbra e Auditório do Campo Grande, Lisboa, será um momento deveras enriquecedor - não só para os presentes, mas também para o próprio Álvaro.
Um pequeno poema de um seu livro "português", de 2006.

5.


Sempre que me vejo ao final das tardes
saltam-me da boca aves feridas
como se fosse assim me conduzir ausente
entre aldeias longínquas
por dentro de igrejas
em pequenas ruas de pedra.
.
Assalta-me o que de mim foi esquecido
como se assim me fosse possível
encontrar o que de mim
está definitivamente perdido.
Á. A. de F. - “A memória do pai”. Coimbra, 2006
.
E em abraço de amizade enviado aqui de Coimbra ao Álvaro, esta música ("Flor de Verde Pinho" - letra de Manuel Alegre, música de José Niza e a voz extraordinária de Carlos do Carmo) que sei que o vai emocionar bastante, como sempre aconteçe.
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http://www.alvaroalves.moonfruit.com/#

http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/

http://www.revista.agulha.nom.br/aalves.html

domingo, 29 de agosto de 2010

ROTAS


Pela primeira vez, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, tem a decorrer uma exposição dedicada a um autor português, o que não deixa de causar alguma estranheza. Depois de ter homenageado os brasileiros Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis, o museu alberga até 30 de Janeiro de 2011, a exposição "Fernando Pessoa: plural como o universo", é uma rota pela vida e obra do escritor através de textos, música, imagens ou vídeos.
Explica Richard Zenith, especialista na obra do poeta e um dos curadores da mostra, juntamente com o poeta e ensaísta  brasileiro Carlos Felipe Moisés (meu querido amigo, que elaborou o posfácio do meu terceiro livro "Os Cílios Maternos"), e que tem sido um dos maiores especialistas na análise da obra de Pessoa, tendo publicado já em Portugal muita obra sobre Pessoa, inclusive já publicou um belo conto sobre o jovem Pessoa, no livro saído em 2005 no Brasil, "Fernando Pessoa; almoxarifado de mitos" e intitulado "Lisboa: 1893"; mas, como dizia, Richard Zenith afirma que "A viagem marítima é um leitmotiv da exposição" e que "Há o mar do livro Mensagem, o mar tão presente na geografia e na história portuguesa, o mar que tanto marcou a infância e a juventude de Pessoa (fez quatro travessias entre Lisboa e África do Sul) e o mar que é preciso navegar".

Sendo uma exposição profundamente interactiva, onde se pretende que o visitante se envolva fortemente e que seja um absoluto cúmplice, esta é uma exposição onde o azul é a cor predominante da exposição. Nesta, encontramos montadas cinco cabines dedicadas a Fernando Pessoa e heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares) onde poemas ou excertos são projectados. Há ainda uma sexta cabine, intitulada "Eu sou muitos", a qual é dedicada a outras personalidades literárias criadas pelo poeta.
Assim, aproveito a porta aberta da segunda cabine, para recuperar um poema de derivação e/ou glosa ao poema de Alberto Caeiro, "O rio da minha aldeia" de "O Guardador de Rebanhos", que efectuei para uma leitura conjunta do TEATRÃO, em 2008, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra.

O silencioso rio da minha aldeia
...........................................A Alberto Caeiro

O Tejo é um rio inseguro
sobre a profusão das águas
vulcânicas
insustentáveis
mas não é um rio imemoriável
revelado
opulento na ferocidade dos líquidos sagrados
sedentos
que correm desvairados o regaço ígneo da minha aldeia.

.......................O

O Tejo tem barcos de metal
sustido no ostentação das trovoadas
despojado da alma das rosáceas
dobrado contra o tempo
que multiplica as órbitas das rotas odoríficas
a velocidade
terrestre dos casulos estranhos de vozes
mapas batendo por dentro
do sangue das cosmogonias das lâminas
que se descobrem rosa no rio que se ignora labareda
no rio que se pertence aberto
às coisas mínimas
primitivas no eco surdo da palavra vulcânica
águas iniciais do rio que incendeia pelos dedos
aplainados
amores da minha aldeia.

......................O

Pelo Tejo ascende-se a desarmonia de Lisboa
das vísceras extremes
ausentes
da carne incendiada de lascas
no silêncio que oculta os girassóis – as silhuetas desnudas
que existem além do rio sagrado
da minha aldeia.

......................O

Sementes de milagres crus
porque rio
morada única que invade as margens
contra o tempo e a carne
o amor e o sangue
a rosa e o substantivo
e
nas veias que correm o rio da minha aldeia
o corpo
a eternidade
o silêncio
de se estar ao pé – a sílaba fecundando o júbilo do Mondego
que corre inócuo o verbo da minha aldeia.
..................................................João Rasteiro
.

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http://poemasdomundo.wordpress.com/category/fernando-pessoa-alberto-caeiro/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/

http://www.youtube.com/odeapessoa

domingo, 22 de agosto de 2010

PADRÃO

Com a morte de José Saramago, mais do que nos inclinar-mos perante a extraordinária obra do autor, decidi homenagear aquela que contribuiu desmesuradamente, através de várias acções e comportamentos para que a obra de Saramago atingisse um tão grande grau de quase imortalidade - Pilar del Río.
É com o poema intitulado "No Ano da Morte de José Saramago", poema que está inserido na página/site da Fundação José Saramago ( http://www.josesaramago.org/detalle.php?id=890 ) que mais do que homenagear o escritor, pretendi homenagear  a mulher, a âncora de Saramago, Pilar del Río.
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No ano da morte de José Saramago

........................A Pilar del Río
O coração aquece o suco prenhe dos cavalos
e de outros animais. Apenas para iludir
ou amedrontar as pequenas memórias do amor.


É aí nesse espaço e não em todos
os caminhos do pó e da lama infernais
que Blimunda e Baltazar acariciam o pojo
como dois desnudos seres disputando o sol
pela boca dos mais secretos desejos
em busca de todos os líquidos silêncios
do templo e dos múltiplos espaços inaudíveis.


Esses que traçam a sua própria peleja
de vozes. Um deus cheio de pústulas doiradas
pois o fogo imita nos corpos a eternidade da lágrima
que se oculta na sombra inclinada dos círios.


O narrador chega do branco horizonte dos lugares
da azinheira porque ainda não queria morrer
antes das colheitas das águas frescas
que já não desaguam. Mas Blimunda disse: Vem!


E a sílaba acreditou que a morte é lilás
como o amor. E que se há-de perdurar pelo clarão
de coisas assim. Eternamente lilases. A sílaba possível!


Então o narrador despediu-se das palavras rubras
abraçando-as uma por uma até a noite ser queimadura.
...........................................João Rasteiro - 2010
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http://www.josesaramago.org/

domingo, 15 de agosto de 2010

"ORDEM de ESQUECIMENTO"

RUY DUARTE de CARVALHO: 1941 - 2010

Foi-se o cheiro do mar e da maresia. E com essa partida, a chegada "desse" mundo real. E há as notícias de novos eventos e lançamentos, as homenagens devidas a alguns escritores. E há essas fatídicas notícias da partida física de amigos (escritores e outros). Enfim, como diria Fernando Pessoa: "Basta por hoje senhor. Volta amanhã realidade."


Um desses que partiu, foi Ruy Duarte de Carvalho. É pena, porque ele é sem dúvida um dos grandes escritores em língua portuguesa das últimas décadas. Apenas estive com ele uma vez, mais concretamente em 2008, em Leiria, e mostrou-se de uma enorme simpatia e humildade. Como sempre, ficarão as obras, para descobrir e saborear. E as de Ruy Duarte de Carvalho, desde as de poesia, ficção, antropologia, ou mesmo as de cinema, merecem sem dúvida, ser lidas e relidas por todos nós.
Do seu livro "Hábito da Terra", o poema abaixo:
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"Das águas que o rino escolhe..."
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Das águas que o rino escolhe
da pedra a que o vento encosta
do unto a que o tempo obriga
dos sais que a estação abriga
do pasto a que o gado aspira
da lua em que o vento vira
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......................Não há pastor que não saiba.

Não há pastor que não saia de alguma curva da infância.
.........................................Ruy Duarte de Carvalho

http://betogomes.sites.uol.com.br/RuyDuartedeCarvalho.htm

http://www.livroscotovia.pt/autores/c/c_8.htm

http://www.eutomia.com.br/volumes/Ano2-Volume1/especial-destaques/Ruy-Duarte-de-Carvalho-em-transumancia-pelos-discursos.pdf

sexta-feira, 16 de julho de 2010

STOP - "O MAR"

Agora que umas merecidas férias aportam e o odor do mar já me extasia, ajudando a preparar um segundo semestre de 2010 de grande intensidade, mas simultaneamente bastante aguardado, uma vez que a uma nova habitação (ainda em permanente "instalação") sucede o ansiado e sonhado projecto "A Casa da Escrita", que a Câmara Municipal de Coimbra (e especialmente o seu presidente Dr. Carlos Encarnação) decidiu ousar pensar e "ofertar" à cultura de Coimbra.
E tendo sido eu uma das pessoas em quem decidiu confiar, não só para apoiar o seu Director, Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira (meu "velho mestre" de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras - U. C.), mas essencialmente para que o novo espaço seja na verdade um recanto da cultura em Coimbra (prestando aliás tributo ao seu antigo proprietário, o poeta João José Cochofel, falecido em 1982), espero que todos, na pessoa do Sr. Presidente da Câmara, possamos fazer daquele espaço aquilo que ele merece ser, e sobretudo, que Coimbra, a cultura em Coimbra, merece(m) ter.
No início de Agosto, o regresso será de certeza vigoroso, pois o maravilhoso cheiro a mar fortalecerá de certeza a boca e o coração. Então...até já! Ah... e por fim deverá ver a luz do dia o novo livro, que se chamará "DIACRÍTICO". Xau!

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Agora que a noite é imaculada e não há cidade mais viva que tu, imagem voluptuosamente virgem na masmorra dos espelhos, tu, o ténue reflexo do ser que oscila entre sonhos insondáveis e a memória que perscruta os cantos da insónia, diz-me onde se fundeia a minha carne, diz-me quem és, com teus dentes calcinados de terra consagrada, com teus olhos de nervuras e palavras orvalhadas das quimeras dos homens que o vento dissipa ou a primavera fará germinar. A arquitectura do mundo em espaços de incandescência.
..................................................João Rasteiro
........................In, O Búzio de Istambul, 2008
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domingo, 11 de julho de 2010

ROTAS - "POESIA DO MUNDO 6"

Acaba de ser editado o volume POESIA do MUNDO 6 durante os VII Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra, organizados pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Nele, constam dois poemas meus, resultantes da minha participação em 2007, que possuem tradução de Graça Capinha.
Como consta do prefácio de Maria Irene Ramalho, com o título "A violência da poesia", Poesia do Mundo 6 reúne, como de costume em edição bilingue, poemas dos poetas que participaram no VI Encontro Internacional de Poetas, realizado em Maio de 2007 e subordinado ao tema geral, “Poesia e Violência”.
Um grande poeta alemão perguntou um dia: “Para quê poetas em tempo de indigência?” Dezoito anos depois de terem iniciado este belo e perigoso projecto de trazer a Coimbra, de três em três anos, poetas de todo o mundo, os organizadores do VI Encontro entenderam parafrasear Friedrich Hölderlin e perguntar-se: “Para quê poetas em tempo de violência?”
Vivemos em tempo de violência. Talvez nunca como hoje tivéssemos obrigação de ter consciência plena disso mesmo. Não passa um dia sem que a televisão nos violente a tranquilidade da nossa sala de estar com as mais cruéis imagens de opressão, discriminação e repressão. O objectivo do VI Encontro não foi, porém, reunir poetas que nos viessem ler ou representar poesia sobre a violência. O objectivo foi antes reflectir sobre o que se entende por violência e que relação tem com ela a poesia. Blake disse, com aquela violência que melhor que ninguém ele soube retirar da língua, que as “Prisões são construídas com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião”. O VI Encontro incluiu, nos 250 anos do nascimento do multifacetado poeta e artista, uma homenagem a William Blake, o poeta que em belíssimos cantares de inocência e experiência fez ecoar as brutais discrepâncias e a hipocrisia desenfreada da sociedade do seu tempo.
A pergunta que muitos dos poemas aqui coligidos suscitam é se a poesia poderá, ou deverá, representar a violência. Não será o acto de representar, só por si, uma violência? No que diz respeito à poesia lírica, o “silêncio dos poetas”, de que fala Alberto Pimenta, diz mais do que o dizível, e com muito mais força: “dizes: / é preciso distinguir o bem do mal / admites portanto que eles podem ser confundidos”. Em tempo de crescente menorização da poesia, das artes e da cultura humanística em geral, para quê ouvir os poetas e perguntar, como perguntou um dia o poeta de Coimbra, Vítor Matos e Sá: “o que pode dizer a poesia?” A poesia nada diz. A poesia diz-se – e, no seu dizer-se, interrompe e faz estremecer a razão e os sentidos. Por mais ineficaz que seja em última análise o seu impacto, a poesia faz tremer os poderes. No seu nada dizer, em seu “silêncio”, a poesia é a violência que mais precisamos nos interrompa e surpreenda hoje – para a nossa continuada construção de nós próprios como seres humanos responsáveis e solidários. Foi neste sentido a admirável conferência proferida por C. D. Wright na abertura da VI Encontro: “A poesia (. . .) aspira ao silêncio. Não digo que o seu alvo seja a perfeição, mas uma abertura (. . .) uma clareira (. . .) onde a língua se dê ao luxo de associações inesperadas e resultados alternativos”.
No VI Encontro, acolhemos poetas de quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. Os poemas reunidos nesta antologia mostram bem por que razão disse Ruy Belo um dia que “a poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida”. Dos quatro cantos do mundo chega até Poesia do mundo 6, em imagens poderosas, uma pergunta desestabilizadora pelas múltiplas relações de poder, violência e colonialidade que continuam a entrelaçar as nossas vidas, seja na esfera cultural, social e política, seja na esfera pessoal. Há vaqueiros mexicanos empalados num poema do americano Forrest Gander; corvos marinhos surreais, que ocupam o espaço alheio, num poema do irlandês Macdara Woods; cadáveres de crianças num poema da libanesa de Montreal Nadine Ltaif. A angolana Chó do Guri diz-se poeta de gente enjaulada e a palestiniana Faiha Abdulhadi evoca as subtilezas das políticas de paz na sua terra, perguntando: “O que é mais cruel / os dentes do lobo ou / o sorriso da raposa?” Poemas há, como os do brasileiro Márcio-André ou, mais ainda, da inglesa Maggie O’Sullivan ou da americana Joan Retallack, que denunciam a violência da própria língua, completamente a desmantelando. Ao mesmo tempo, qualquer dos poemas aqui recolhidos, mesmo os mais fluidamente líricos da galega Helena Villar Janeiro, ou as meditações ônticas do português Gastão Cruz, é uma pergunta rigorosa pela tradição poética, em que não deixa de se reconhecer. Num dos seus poemas, o russo Maxim Amelin faz do fotógrafo ambulante, obsoleto em tempo de polaróides, um dos filhos de Febo Apolo. Que o pessoal é poético e político resulta uma vez mais claro nos poemas do chinês Xiao Kaiyu.
Mas não só a ordem poética é interrogada e reinventada; também os valores dominantes da cultura no seu todo são postos em causa. Para matar a fome ao mundo, a portuguesa Regina Guimarães imagina uma mulher (são as mulheres que dão o sustento), mas uma mulher que é a lenha que dará o fogo para cozinhar a refeição.
Pois não busca também a poesia, como sugere um poema do americano John Taggart, a arte de virar a melodia do avesso e tornar a tocar tocando uma e outra vez?
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With death, love too
....................for valter hugo mãe

One day the high flood of blood

will burn the night, books too

will lie alone under the tunics of Istanbul

with death, love too should

end - in a violent and unique secret.

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Melancholy will flutter from the vents

atoning for guilt, grey creatures

will be moved full in the heat of touch

will die alone - as their offspring.

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And there will be the celebration of precipices

warping the consent of the ivy, for the flower

is a body excessively fresh and mortal

he blood in spring is redder

than the naked clay - the earth is a folded lily.

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For love and death have their unique existence

hey are converts, but their monsters endure

and will endure sheltered in the agony of time

making love with wombs - until the end of the world.

..................................................João Rasteiro.

........................TRADUÇÃO: Graça Capinha

Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe

Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar – num único e violento segredo.
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A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
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E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
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Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
..............................................João Rasteiro
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sábado, 3 de julho de 2010

Sábado

Vi o relâmpago disposto nas candeias
do sangue o caminho onde ardo na forja
com que as mãos tecem oiro a bordadura
das catedrais a memória solidificando-se
no lado vertiginoso da boca as vísceras
ungindo o granito dos dias ancestrais
murmúrios caindo na rua de los libreros
puro espaço em si o vazio e a plenitude
em que deus susteve o verbo a blasfémia
do poeta o gesto imperceptível da morte.
...........................................João Rasteiro
.....In, Salamanca ou a Memória do Monotauro

domingo, 27 de junho de 2010

NOVAS ROTAS

Saiu recentemente o último número da revista online brasileira ZUNÁI, dirigida pelo poeta Claudio Daniel. Este número conta com poetas como, Horácio Costa, Wilson Bueno, Ya Feng, Virna Teixeira, Leo Lobos ou Micheliny Verunschk; uma entrevista ao Angolano João Maimona, uma mostra de poesia Persa/Iraniana, Traduções, contos, ensaios, etc. E conta ainda com a secção especial, desta vez dedicada ao haicai, que para além de alguns textos/ensaios sobre o haicai, conta com um conjunto de poemas/haicais de Teruko Oda, Alfredo Fressia, Maria de Fátima, Casimiro de Brito, Claudio Daniel, João Rasteiro, José Kozer e Maria Alice Vasconcelos.
Seguem-se três dos meus haicais seleccionados pelo Claudio Daniel.
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Abri a passagem:
A terra chegou-me
até à garganta.
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É possível cogitar a mariposa,
pelas crias não há compaixão
porque da água ferve o sangue.
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Como decifrar a ira do clarão
se é do eixo da luz que cego
e da soldadura que agora rezo?
................................João Rasteiro
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http://www.revistazunai.com/

sábado, 19 de junho de 2010

QUASE IMORTALIDADE

JOSÉ SARAMAGO (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 - Lanzarote, 18/06/2010)

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
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Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
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No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

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Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
.......................................José Saramago

http://www.publico.pt/Cultura

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago

http://www.youtube.com/watch?v=Ph6BG30jXpc

quarta-feira, 16 de junho de 2010

AS ROTAS do AÇO

VIII
.e o zumbido das vespas com espátulas de anjos anunciarão a chegada de uma renovada espécie de bichos prenhes de aço reluzente que fica infuso no paladar do sangue. os velhos sábios que se encovam no fundo das cisternas e dos poços moribundos de sede enlouquecem na dúvida da sílaba solidificada na fissura dos esquecidos. a derradeira paixão do verbo será fortalecida pela lei das tábuas ou pelo divino ser dos universos. a dúvida consolida os fracos.
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IX
.as cidades avançam pela remissão da culpa dos milagres formando um esboço de desordem na consciência dos construtores. e a melancolia tem um corpo eficaz que não existe nos reflexos porque os animais eram feitos à imagem da compaixão que permanece na pronúncia da multiplicação. e então há-de principiar o novo crime. a bestial lógica do ferro sincronizada na renovada e opaca geração da natureza resplandece onde apenas troveja desmesuradamente. unívoca será se o céu transportar a ferocidade do lírio. e ela não é injusta nem desprovida de fecundidade. quando as leis falham surge o diacrítico das cores despojadas que regeneram excelsas até sucumbirmos na saliva mortífera dos lábios. num outro lugar assomará a outra cabeça.
......................JOÃO RASTEIRO...........In, DIACRÍTICO
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domingo, 6 de junho de 2010

PRÉMIO CAMÕES

A 22ª edição do Prémio Camões, atribuído pelo Estado Português e Brasileiro desde 1989, e que distingue anualmente um escritor de língua portuguesa que, "pelo conjunto da sua obra, contribua para o enriquecimento do património literário em português", foi este ano atribuído ao poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar. Este, foi distinguido pela "nota pessoal de lirismo" e "valores universais", essencialmente no seu trabalho poético. Refira-se que Ferreira Gullar tem quase toda a sua obra poética editada pela Quasi - "Obra Poética" (2003). Na minha modesta opinião, terá sido um dos mais justificados Prémios Camões até agora atribuídos, pois Ferreira Gullar é sem dúvida hoje, o mais importante poeta brasileiro (se tivesse sido atribuído a Manoel de Barros, também teria sido bem entregue). Numa entrevista que deu em 2003 ao Mil Folhas, Ferreira Gullar dizia: "Jamais moveria um dedo para ganhar o Prémio Camões. Mas se me dessem, ficaria muito contente." Ele aí está.
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....................Chico Buarque - Cotidiano

segunda-feira, 31 de maio de 2010

PORTUGUESIA

Quarta e Quinta-feira, estarei em Vila Nova de Famalicão, mais concretamente em S. Miguel de Seide, na Casa de Camilo, no PORTUGUESIA 2010, evento e projecto, sonhados pelo poeta brasileiro Wilmar Silva, contando a valiosa colaboração do poeta Luís Serguilha e da Câmara de Vila Nova de Famalicão. No dia 03 pelas 1ohoo, na PERFORMANCE ‘GUESAS LIVRES’, lerei conjuntamente com Minês Castanheira e Tony Tcheka. No mesmo dia pelas 17h30, conjuntamente com Aureliano Costa e Fernando Aguiar, com moderação (provocadora) da brasileira Susana Vargas, integrarei o painel: PROVOCAÇÃO PORTUGUESIA: GEOPOESIS DAS MARGENS. MEDULAS DE DIÁLOGO: POETAS METAFORMOSEADORES.
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Decorre na quarta e na quinta-feira, em Vila Nova de Famalicão, projecto «Portuguesia» – Festa da Poesia Lusófona, que terá entre os destaques do programa o recital de poesia de Fernando Pessoa protagonizado pela actriz Telma Costa.
Nesta segunda edição, são homenageados grandes poetas portugueses: António Ramos Rosa, E.M. de Melo e Castro, Al Berto e Fernando Pessoa.
São esperados na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, mais de trinta poetas do Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Angola, segundo a organização.
A instalação «Portuguesia Trans-Atlas» de Regina Mello nos jardins da Casa de Camilo, dará início ao evento na quarta-feira, pelas 10:00 horas. A obra transpõe os 101 poemas da «Contra-Antologia» editada em 2009 para 101 metros lineares de folhas, «espalhando-os pelos cantos dos jardins», «associando-lhe a sua audição sonora».
A projecção de um vídeo com registos de declamações de 18 poetas guineenses vai dar sequência ao DVD apresentado em 2009, com poetas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos
(Diário Digital).
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A casa do romancista Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, abre portas nos dias 2 e 3 de Junho, à Portuguesia, Festa da Poesia Lusófona, um projecto linguístico que conta com a presença trinta poetas do Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Angola. Durante os dois dias do evento, serão recitadas e debatidas as novas e diferentes formas da expressão poética contemporânea escrita em português. Promovido pelo poeta brasileiro Wilmar Silva, em colaboração com o município de Vila Nova de Famalicão, o projecto Portuguesia decorre pelo segundo ano consecutivo, explorando o contraste de vozes poéticas e debatendo políticas de linguagens, no idioma de Camões. Subordinada ao tema "Minas entre Povos da Mesma Língua - Antropologia de uma Poética", a iniciativa tem chamado a atenção de poetas e críticos da lusofonia, sendo objecto de reflexão sobre a língua e as suas poéticas, a poesia e as suas linguagens. Para Wilmar Silva, autor da obra poética "Yguarani", a "Portuguesia expande os territórios da poesia com o desejo de pensar sobre a lusofonia no sentido antropológico da palavra. Tanto que defende a poética dos autores de línguas portuguesas como fundamental para se pensar em políticas de aproximação entre os povos de língua portuguesa e os povos de todas as línguas".Por sua vez, para o presidente da Câmara Municipal de Famalicão, Armindo Costa, "os países lusófonos ainda se ocupam pouco em estudar as diferenças linguísticas que enriquecem a língua". "A Portuguesia tem essa ambição, de rasgar horizontes, de ser o ponto de encontro e cais de partida das rotas intercontinentais da língua de Camões".Para além dos debates e recitais de poesia, o programa da Portuguesia apresenta ainda os espectáculos "A Maresia do Mundo", "Quatro Cantos do Caos", "Tropofonia" e "Telma em Pessoa", em homenagem a António Ramos Rosa, Melo e Castro, Al Berto, Fernando Pessoa. Referência também para "Guesas Livres", um ciclo de performances com as línguas da poesia na voz dos próprios poetas, criadores que ecoam o idioma da humanidade.O evento ficará ainda marcado pelo lançamento do primeiro volume do Livro DVD com 101 poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo-Verde e Brasil, publicado pela Anome Livros, e que apresenta cinco poemas de cada um dos autores. O dvd encartado ao livro é composto por duas horas de vídeo poesia (O Notícias da Trofa).
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Este ano, os poetas convidados da PORTUGUESIA são: BRASIL: Ana Maria Ramiro, Francesco Napoli, Gilberto Mauro, Karla Melo, Marcelo Costa Baiotto, Márcio-André, Telma da Costa, Regina Mello, Ronaldo Werneck, Suzana Vargas, Zéfere, Wilmar Silva PORTUGAL: Américo Teixeira Moreira, Aurelino Costa, Carlos Vinagre, Cunha de Leiradella, Fernando Aguiar, Frederico Silva, João Miguel Henriques, João Negreiros, João Rasteiro, João Ventura, Jorge Melícias, Jorge Velhote, Luís Filipe Cristóvão, Luís Serguilha, Minês Castanheira, Teresa Tudela GUINÉ-BISSAU: Tony Tcheka ANGOLA: João Melo
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Segue-se o mágico link do blog oficial da PORTUGUESIA: http://www.portuguesia.com.br/
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Rouxinol e Gloxíneas de Wilmar Silva por Reynaldo Bessa

domingo, 23 de maio de 2010

AS LÍNGUAS DA POESIA

De 27 a 29 de maio de 2010 ocorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e em outros pontos da cidade de Coimbra, o VII Encontro Internacional de Poetas. Os Encontros Internacionais de Poetas são organizados trienalmente pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos (GEA-A) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desde 1992 e têm tido um papel ímpar para uma apreciação mais rigorosa da poesia, para uma contextualização mais vasta do fenômeno poético em Portugal, e muito particularmente para a divulgação e consolidação da poesia portuguesa a nível internacional.A edição de 2010 subordina-se ao tema “As Línguas da Poesia”. Pretende refletir sobre as mais diversas manifestações da poesia e os modos como ela diz o mundo, do puro canto à celebração, da proclamação ao silêncio, da intervenção à resistência, das continuidades às rupturas.A estrutura do evento tem por base leituras de poesia na língua original pelos poetas participantes, performances e sessões de caráter teórico sobre poesia. A partir da Universidade, os Encontros têm alargado substancialmente o público da poesia, na concretização do próprio conceito de Univer-cidade, que foi também desde o início um dos objetivos, do evento, com leituras e performances em espaços tão diferenciados da cidade e arredores como cafés e galerias, museus e o mercado municipal.Da programação dos Encontros consta a publicação de uma edição bilíngue dos poetas participantes, tendo sido publicados já cinco volumes de Poesia do Mundo (Edições Afrontamento e Palimage Editores). Desde 1992 até hoje, os Encontros ganharam uma reputação internacional enquanto acontecimento único em que línguas e tradições poéticas se encontram e dialogam.O impacto nacional e internacional do evento é facilmente atestado se levarmos em conta que, ao longo dos últimos 18 anos, os Encontros Internacionais de Poetas trouxeram a Portugal mais de duas centenas de poetas de países, línguas e culturas muito diversas, dos cinco continentes e, até esta data, de 41 países diferentes: dos Estados Unidos da América à Tailândia, de Angola à Nova Zelândia, passando pela Suécia, Canadá e Israel, Rússia, China e Palestina, podendo a lista completa do/as poetas presentes nas várias edições do evento ser consultada em ( http://www1.ci.uc.pt/poetas/pessoas/pessoas.htm ) A consolidação dos Encontros Internacionais de Poetas foi provada com a concretização, em 2007, do Programa de Residências para Artistas na aldeia histórica de Monsanto, programa que já trouxe a Portugal seis poetas de países diferentes desde então ( http://www1.ci.uc.pt/poetas/home.htm ). Para o VII Encontro Internacional de Poetas, em 2010, estão confirmadas as presenças de: Charles Bernstein, Próspero Saíz e Ntozake Shange (Estados Unidos), Marlene Nourbese Philip (Trinidad e Tobago/Canadá), Liana Sakelliou (Grécia), Amina Said (Tunísia/França), Ch´aska Eugeni Anka (Peru), Delmar Gonçalves (Moçambique), Uxue Alberdi e Miren Artetxe (Espanha/País Basco), Régis Bonvicino, Wilmar Silva, Dona Nice e Camila do Vale F. de Miranda (Brasil), Ana Blandiana (Romênia), Stephanos Stephanides (Chipre), Moya Cannon (República da Irlanda), Manuel Rui (Angola), Maria Teresa Horta, Helga Moreira e Pedro Sena-Lino (Portugal) e poetas da Oficina de Poesia da FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. - In, SIBILA ( http://www.sibila.com.br/ ).
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Para além de ir acompanhar os Encontros ao longo dos 3 dias, no dia 28 às 22hoo, efectuarei uma leitura, integrado na OFICINA de POESIA, na Escola de Hotelaria de Coimbra e no dia 29, pelas 12h00, no Teatro Paulo Quintela, F.L.U.C., efectuar-se-á o lançamento da antologia poética Poesia do Mundo 6, que reúne a poesia dos poetas que em 2007 integraram o VI Encontro Internacional de Poetas, e no qual tive o prazer de ser incluído.

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http://www1.ci.uc.pt/poetas/pessoas/pessoas.htm

terça-feira, 18 de maio de 2010

ECOS

No sábado, 22 de Maio, pelas 17hoo a antologia de poesia sobre música "Divina Música" editada pela Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região, com organização do poeta Amadeu Baptista e capa de Inês Ramos, terá a sua primeira apresentação pública no Auditório do Conservatório Regional de Música de Viseu. Esta apresentação estará integrada nas comemorações do 25º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu (1985-2010).
A programação integra uma participação musical (classe de Canto e Coros do Conservatório) e leitura de poemas por alguns autores representados na Antologia. As intervençôes musicais, que estão definidas, serão intercaladas pela leitura de poemas ao longo da sessão. Lá estarei para ler o meu poema (*). A festa será bonita concerteza.
Segue-se o poema Vo disperato a morte, de Francisco Curate, incluído na antologia:
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Que corpo, senão a tristeza do corpo?
Peco por solecismo, o homem nega-se
e cedo declina a nota impossível.
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Guardo a voz nas memórias de Capranica:
na passagi fogoso, um tanto arbitrário
nas mudanças (até nisso perfeito).
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Não basta esta miséria, a mitologia
da perda? Descerro os olhos
na revelação do vislumbrado, gesto
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maduro da rejeição. Acolho na sombra
a sombra ferida capada de uma voz,
o desleixo ingénuo de um deus profícuo.
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Sobrevive em nome, Il Cusanino.
............................Francisco Curate
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