(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
sábado, 13 de novembro de 2010
LIVRO???
sábado, 30 de outubro de 2010
Prémio Literário Manuel António Pina
sábado, 23 de outubro de 2010
"Os vasos comunicantes"
Primeira revista-objecto surrealista portuguesa
domingo, 17 de outubro de 2010
"A Imobilidade Fulminante"
Ter um corpo de branco, um eco
Vozes, céu, terra, linho, o acto desnudo
Um corpo que morre no sabor entre as palavras
de paragens, sopros, paisagens, círculos e hortos,
O Corpo?
Não conheço esse corpo fresco, não fui a esse branco
http://www.astormentas.com/ramosrosa.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Ramos_Rosa
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/recen018.htm
http://www.astormentas.com/biografia.aspx?t=autor&id=Ant%C3%B3nio%20Ramos%20Rosa
domingo, 10 de outubro de 2010
ROTAS
Visión mayor
La plaza es la ciudad una rosácea luz
llama hambrienta del fuego de la piedra:
sus raíces confundidas en la luz
sus huellas en ofrendas de venas,
el mensurable movimiento de la memoria
cuando nos golpea como halcones,
palabras antiguas sobre túnicas rojas
Visiones, quimeras de Salamanca,
el corte audaz que desafía los cielos
que cierran el soplo sísmico de las aves,
se levantan como un dios de blasfemia
ciego y desnudo rasgando las gárgolas de mármol
y hay exceso de simientes maduras el pólen
Otras, en la anticipación del movimiento
sumergiendo la impurificación de los cuerpos,
subliman la ciudad preñada de respiración
como frutos en maduración persistente
que sangra entera como cosas primitivas.
Y siempre un centro inflamado de fábulas
en conchas límpidas en la sangre del agua
agitando por dentro de bocas y anémonas,
.
http://www.telira.net/
sábado, 2 de outubro de 2010
Os caminhos da República
Aqui eu sei,
como no centro dos oceanos de pérolas
que o fogo brota,
e morre, e volta a brotar,
como na fonte da serra o mesmo corpo
sacia a sede nos rios
que em seu leito têm lágrimas de dolinas
antigas e cativas em seu peculiar odre de mel.
Aqui o murmúrio chama,
furioso em seu galope de veias de urzes
a oliveira, o coração e o ouro
das constelações dos campos de milho,
nesta terra fêmea dos brancos e ocres casarios
e dos rebanhos e das cabras,
as crias na curva do astro-rei
que os deuses entregaram às Epigéias,
para que em fábulas florissem matriciais
nos ciclos mais auríferos dos algares do mundo.
Tens uma boca de trevos e silêncios
e nos dedos a infância das ânforas túmidas
errantes espíritos dos dias vorazes
que percorrem as muralhas
das torres de prata
onde já não há espaço ou horizonte
e o mundo se dilui sobre o campo de lapiás
no horto que respira a claridade
sob os olhos das orquídeas celestes
e incessantemente
o solo com vida, como a rotação da mó do sangue.
No tempo em que as coisas se ofereciam a deus
ofereceu-se-lhe Al-Bai-Zir
e o céu acendeu-se,
e morreu e voltou a acender-se
onde principia a vindima de teu carnívoro nome.
Alguém pronuncia terra para verbalizar vida
e cada movimento ígneo é o alfabeto das primaveras.
....................................................João Rasteiro
http://www.cm-alvaiazere.pt/
http://www.centenariorepublica.pt/
sábado, 25 de setembro de 2010
"O DURADOURO do EFÉMERO"
O poeta Albano Martins completou recentemente 80 Primaveras (em 24 de Julho), e na altura que celebra 60 anos de vida literária, viu editada a antologia que reúne toda a sua poesia: As Escarpas do dia - (poesia 1950-2010), com a chancela das Edições Afrontamento.
Poema Verde
.............Ao Albano Martins
I
Nada já há a pronunciar em tua defesa
sob o viço das oliveiras. Enterra o teu segredo
num verbo apócrifo e gentio.
Oculta-o de perfil por entre a língua
que nunca possuíste na boca. Agasalha-o inteiro
até clarear o musgo na fissura do chão.
Preserva-o como se só a voz queime intacta
o sulco de uma lua de enxofre.
...................Ó ser,
cujas alegorias foram as sombras aprazíveis
do ígneo clarão. Como é verde a raiz duma planta
que secou, o mecanismo afectuoso da barbárie
e o curso trémulo do peregrino.
Entre o odor da terra e o calor difuso do coração,
a chuva ancorada sobre a flor de lótus
equilibrando-se corpo virado para as fogueiras
da água que pugna a seiva.
II
Há-de o tempo perpetuar aquela farsa arquitectónica
de um poema perfeito. Pois ermas estão as águas,
a divina força de sua granítica soberania
em nossas condenadas elegias.
Parece um lugar para amar no escuro, o indistinto
e primordial eco do anjo no Inverno?
...................Tu, poeta,
que deslindaste perplexo que há lodo sob as algas,
sob a pele, como uma vã condenação.
Na verdura da sílaba, em ti, qualquer crença nua
no oficio de romeiro, íntima
na sede mais forte dos líquidos, no pranto do sol,
poderá subsistir ao ensejo dos aguaceiros.
Tu, que não perduras no cântico mágico do poema,
mas tão só ciciado nas múltiplas máscaras
do tempo anterior ao acasalamento dos besouros.
III
Em cada árvore depois do fogo, o poema
regressa nu e a morte verde, a lágrima
corre como se uma enxurrada tolhesse as palavras
em homem e bicho, em água e sangue, em eco e cântico,
em borboleta e mariposa. Para sepultar os prados.
Falo do inexplicável sopro. Aí, tudo permanece.
E tudo é teu. Tu és o sangue, o verão e a pedra sagrada.
O poema é verde. Sinto-lhe o odor materno.
.............................................................João Rasteiro
.
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http://www.cnc.pt/Artigo.aspx?ID=738
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/albano_martins/poetas_albanomartins01.htm
http://comlivros-teresa.blogspot.com/2009/10/entrevista-albano-martins.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albano_Dias_Martins
domingo, 19 de setembro de 2010
HABITAR A POSSIBILIDADE!
I
Habito na Possibilidade —
Uma Casa mais bela do que a Prosa —
Em Janelas mais numerosa —
Em Portas — superior —
De Quartos como Cedros —
Impregnáveis ao Olhar —
E por Telhado Duradouro
Os Telhados do Céu —
De Visitantes — a mais bela —
Isto — para a Ocupar —
O abrir largo as minhas Mãos estreitas
Para colher o Paraíso —
II
Diz toda a Verdade mas di-la oblíqua —
O Êxito reside no Circuito
Brilhante por demais para nosso enfermo Deleite
A suprema surpresa da Verdade
Como Relâmpago às Crianças oferecido
Num brando explicar
Deve a Verdade aos poucos deslumbrar
Ou cego qualquer um —
.
In Cem Poemas, de Emily Dickinson,
tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio d'Água, 2010
.
http://www.arlindo-correia.com/180700.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet067.htm
http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Emily_Dickinson&op=7&author=202
http://pt.wikipedia.org/wiki/Emily_Dickinson
http://www.biographyonline.net/poets/emily_dickinson.html
domingo, 12 de setembro de 2010
LUGAR(ES)
I
Os poemas virão inclusos
quando vier o orvalho,
chegarão antes do pecado.
II
O seu domínio é infinito,
longa é a garganta do medo
cego o coração do sussurro!
III
Uma boca deixo, ao dilúvio:
direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.
IV
No princípio era a doçura
e a palavra ousou a lascívia.
Por esta se fará todo o flagício.
V
É o solstício sob as unhas.
A água separa-nos da sede,
não é só o que a boca refresca.
VI
Quando saboreei a carne
ia saborear a terra – aves
e Vénus vagueiam acesas.
VII
Em sua volúvel gestação
que seria do útero vazio
sem a caligrafia pestilenta?
........................João Rasteiro
In, A Divina Pestilência
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P:S: Agora uma música de alguém que nos últimos tempos... é até riscar o CD!!!
LENINE - O Atirador
domingo, 5 de setembro de 2010
RAÍZES de MAR
Sempre que me vejo ao final das tardes
saltam-me da boca aves feridas
como se fosse assim me conduzir ausente
entre aldeias longínquas
por dentro de igrejas
em pequenas ruas de pedra.
.
Assalta-me o que de mim foi esquecido
como se assim me fosse possível
encontrar o que de mim
está definitivamente perdido.
Á. A. de F. - “A memória do pai”. Coimbra, 2006
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http://www.alvaroalves.moonfruit.com/#
http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/
http://www.revista.agulha.nom.br/aalves.html
domingo, 29 de agosto de 2010
ROTAS
Sendo uma exposição profundamente interactiva, onde se pretende que o visitante se envolva fortemente e que seja um absoluto cúmplice, esta é uma exposição onde o azul é a cor predominante da exposição. Nesta, encontramos montadas cinco cabines dedicadas a Fernando Pessoa e heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares) onde poemas ou excertos são projectados. Há ainda uma sexta cabine, intitulada "Eu sou muitos", a qual é dedicada a outras personalidades literárias criadas pelo poeta.
O silencioso rio da minha aldeia
...........................................A Alberto Caeiro
O Tejo é um rio inseguro
sobre a profusão das águas
vulcânicas
insustentáveis
mas não é um rio imemoriável
revelado
opulento na ferocidade dos líquidos sagrados
sedentos
que correm desvairados o regaço ígneo da minha aldeia.
.......................O
O Tejo tem barcos de metal
sustido no ostentação das trovoadas
despojado da alma das rosáceas
dobrado contra o tempo
que multiplica as órbitas das rotas odoríficas
a velocidade
terrestre dos casulos estranhos de vozes
mapas batendo por dentro
do sangue das cosmogonias das lâminas
que se descobrem rosa no rio que se ignora labareda
no rio que se pertence aberto
às coisas mínimas
primitivas no eco surdo da palavra vulcânica
águas iniciais do rio que incendeia pelos dedos
aplainados
amores da minha aldeia.
......................O
Pelo Tejo ascende-se a desarmonia de Lisboa
das vísceras extremes
ausentes
da carne incendiada de lascas
no silêncio que oculta os girassóis – as silhuetas desnudas
que existem além do rio sagrado
da minha aldeia.
......................O
Sementes de milagres crus
porque rio
morada única que invade as margens
contra o tempo e a carne
o amor e o sangue
a rosa e o substantivo
e
nas veias que correm o rio da minha aldeia
o corpo
a eternidade
o silêncio
de se estar ao pé – a sílaba fecundando o júbilo do Mondego
que corre inócuo o verbo da minha aldeia.
..................................................João Rasteiro
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http://poemasdomundo.wordpress.com/category/fernando-pessoa-alberto-caeiro/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/
http://www.youtube.com/odeapessoa
domingo, 22 de agosto de 2010
PADRÃO
........................A Pilar del Río
O coração aquece o suco prenhe dos cavalos
e de outros animais. Apenas para iludir
ou amedrontar as pequenas memórias do amor.
É aí nesse espaço e não em todos
os caminhos do pó e da lama infernais
que Blimunda e Baltazar acariciam o pojo
como dois desnudos seres disputando o sol
pela boca dos mais secretos desejos
em busca de todos os líquidos silêncios
do templo e dos múltiplos espaços inaudíveis.
Esses que traçam a sua própria peleja
de vozes. Um deus cheio de pústulas doiradas
pois o fogo imita nos corpos a eternidade da lágrima
que se oculta na sombra inclinada dos círios.
O narrador chega do branco horizonte dos lugares
da azinheira porque ainda não queria morrer
antes das colheitas das águas frescas
que já não desaguam. Mas Blimunda disse: Vem!
E a sílaba acreditou que a morte é lilás
como o amor. E que se há-de perdurar pelo clarão
de coisas assim. Eternamente lilases. A sílaba possível!
Então o narrador despediu-se das palavras rubras
abraçando-as uma por uma até a noite ser queimadura.
...........................................João Rasteiro - 2010
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http://www.josesaramago.org/
domingo, 15 de agosto de 2010
"ORDEM de ESQUECIMENTO"
Foi-se o cheiro do mar e da maresia. E com essa partida, a chegada "desse" mundo real. E há as notícias de novos eventos e lançamentos, as homenagens devidas a alguns escritores. E há essas fatídicas notícias da partida física de amigos (escritores e outros). Enfim, como diria Fernando Pessoa: "Basta por hoje senhor. Volta amanhã realidade."
Um desses que partiu, foi Ruy Duarte de Carvalho. É pena, porque ele é sem dúvida um dos grandes escritores em língua portuguesa das últimas décadas. Apenas estive com ele uma vez, mais concretamente em 2008, em Leiria, e mostrou-se de uma enorme simpatia e humildade. Como sempre, ficarão as obras, para descobrir e saborear. E as de Ruy Duarte de Carvalho, desde as de poesia, ficção, antropologia, ou mesmo as de cinema, merecem sem dúvida, ser lidas e relidas por todos nós.
Do seu livro "Hábito da Terra", o poema abaixo:
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"Das águas que o rino escolhe..."
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Das águas que o rino escolhe
da pedra a que o vento encosta
do unto a que o tempo obriga
dos sais que a estação abriga
do pasto a que o gado aspira
da lua em que o vento vira
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......................Não há pastor que não saiba.
Não há pastor que não saia de alguma curva da infância.
.........................................Ruy Duarte de Carvalho
http://betogomes.sites.uol.com.br/RuyDuartedeCarvalho.htm
sexta-feira, 16 de julho de 2010
STOP - "O MAR"
domingo, 11 de julho de 2010
ROTAS - "POESIA DO MUNDO 6"
Como consta do prefácio de Maria Irene Ramalho, com o título "A violência da poesia", Poesia do Mundo 6 reúne, como de costume em edição bilingue, poemas dos poetas que participaram no VI Encontro Internacional de Poetas, realizado em Maio de 2007 e subordinado ao tema geral, “Poesia e Violência”.
Um grande poeta alemão perguntou um dia: “Para quê poetas em tempo de indigência?” Dezoito anos depois de terem iniciado este belo e perigoso projecto de trazer a Coimbra, de três em três anos, poetas de todo o mundo, os organizadores do VI Encontro entenderam parafrasear Friedrich Hölderlin e perguntar-se: “Para quê poetas em tempo de violência?”
Vivemos em tempo de violência. Talvez nunca como hoje tivéssemos obrigação de ter consciência plena disso mesmo. Não passa um dia sem que a televisão nos violente a tranquilidade da nossa sala de estar com as mais cruéis imagens de opressão, discriminação e repressão. O objectivo do VI Encontro não foi, porém, reunir poetas que nos viessem ler ou representar poesia sobre a violência. O objectivo foi antes reflectir sobre o que se entende por violência e que relação tem com ela a poesia. Blake disse, com aquela violência que melhor que ninguém ele soube retirar da língua, que as “Prisões são construídas com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião”. O VI Encontro incluiu, nos 250 anos do nascimento do multifacetado poeta e artista, uma homenagem a William Blake, o poeta que em belíssimos cantares de inocência e experiência fez ecoar as brutais discrepâncias e a hipocrisia desenfreada da sociedade do seu tempo.
A pergunta que muitos dos poemas aqui coligidos suscitam é se a poesia poderá, ou deverá, representar a violência. Não será o acto de representar, só por si, uma violência? No que diz respeito à poesia lírica, o “silêncio dos poetas”, de que fala Alberto Pimenta, diz mais do que o dizível, e com muito mais força: “dizes: / é preciso distinguir o bem do mal / admites portanto que eles podem ser confundidos”. Em tempo de crescente menorização da poesia, das artes e da cultura humanística em geral, para quê ouvir os poetas e perguntar, como perguntou um dia o poeta de Coimbra, Vítor Matos e Sá: “o que pode dizer a poesia?” A poesia nada diz. A poesia diz-se – e, no seu dizer-se, interrompe e faz estremecer a razão e os sentidos. Por mais ineficaz que seja em última análise o seu impacto, a poesia faz tremer os poderes. No seu nada dizer, em seu “silêncio”, a poesia é a violência que mais precisamos nos interrompa e surpreenda hoje – para a nossa continuada construção de nós próprios como seres humanos responsáveis e solidários. Foi neste sentido a admirável conferência proferida por C. D. Wright na abertura da VI Encontro: “A poesia (. . .) aspira ao silêncio. Não digo que o seu alvo seja a perfeição, mas uma abertura (. . .) uma clareira (. . .) onde a língua se dê ao luxo de associações inesperadas e resultados alternativos”.
No VI Encontro, acolhemos poetas de quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. Os poemas reunidos nesta antologia mostram bem por que razão disse Ruy Belo um dia que “a poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida”. Dos quatro cantos do mundo chega até Poesia do mundo 6, em imagens poderosas, uma pergunta desestabilizadora pelas múltiplas relações de poder, violência e colonialidade que continuam a entrelaçar as nossas vidas, seja na esfera cultural, social e política, seja na esfera pessoal. Há vaqueiros mexicanos empalados num poema do americano Forrest Gander; corvos marinhos surreais, que ocupam o espaço alheio, num poema do irlandês Macdara Woods; cadáveres de crianças num poema da libanesa de Montreal Nadine Ltaif. A angolana Chó do Guri diz-se poeta de gente enjaulada e a palestiniana Faiha Abdulhadi evoca as subtilezas das políticas de paz na sua terra, perguntando: “O que é mais cruel / os dentes do lobo ou / o sorriso da raposa?” Poemas há, como os do brasileiro Márcio-André ou, mais ainda, da inglesa Maggie O’Sullivan ou da americana Joan Retallack, que denunciam a violência da própria língua, completamente a desmantelando. Ao mesmo tempo, qualquer dos poemas aqui recolhidos, mesmo os mais fluidamente líricos da galega Helena Villar Janeiro, ou as meditações ônticas do português Gastão Cruz, é uma pergunta rigorosa pela tradição poética, em que não deixa de se reconhecer. Num dos seus poemas, o russo Maxim Amelin faz do fotógrafo ambulante, obsoleto em tempo de polaróides, um dos filhos de Febo Apolo. Que o pessoal é poético e político resulta uma vez mais claro nos poemas do chinês Xiao Kaiyu.
Mas não só a ordem poética é interrogada e reinventada; também os valores dominantes da cultura no seu todo são postos em causa. Para matar a fome ao mundo, a portuguesa Regina Guimarães imagina uma mulher (são as mulheres que dão o sustento), mas uma mulher que é a lenha que dará o fogo para cozinhar a refeição.
Pois não busca também a poesia, como sugere um poema do americano John Taggart, a arte de virar a melodia do avesso e tornar a tocar tocando uma e outra vez?
.
....................for valter hugo mãe
One day the high flood of blood
will burn the night, books too
will lie alone under the tunics of Istanbul
with death, love too should
end - in a violent and unique secret.
.
Melancholy will flutter from the vents
atoning for guilt, grey creatures
will be moved full in the heat of touch
will die alone - as their offspring.
.
And there will be the celebration of precipices
warping the consent of the ivy, for the flower
is a body excessively fresh and mortal
he blood in spring is redder
than the naked clay - the earth is a folded lily.
.
For love and death have their unique existence
hey are converts, but their monsters endure
and will endure sheltered in the agony of time
making love with wombs - until the end of the world.
..................................................João Rasteiro.
........................TRADUÇÃO: Graça Capinha
Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe
Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar – num único e violento segredo.
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A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
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E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
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Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
..............................................João Rasteiro
.
sábado, 3 de julho de 2010
Vi o relâmpago disposto nas candeias
do sangue o caminho onde ardo na forja
com que as mãos tecem oiro a bordadura
das catedrais a memória solidificando-se
no lado vertiginoso da boca as vísceras
ungindo o granito dos dias ancestrais
murmúrios caindo na rua de los libreros
puro espaço em si o vazio e a plenitude
em que deus susteve o verbo a blasfémia
do poeta o gesto imperceptível da morte.
...........................................João Rasteiro
domingo, 27 de junho de 2010
NOVAS ROTAS
A terra chegou-me
até à garganta.
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É possível cogitar a mariposa,
pelas crias não há compaixão
porque da água ferve o sangue.
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Como decifrar a ira do clarão
se é do eixo da luz que cego
e da soldadura que agora rezo?
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sábado, 19 de junho de 2010
QUASE IMORTALIDADE
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
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Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
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No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
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Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
.......................................José Saramago
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago
http://www.youtube.com/watch?v=Ph6BG30jXpc
quarta-feira, 16 de junho de 2010
AS ROTAS do AÇO
VIII.e o zumbido das vespas com espátulas de anjos anunciarão a chegada de uma renovada espécie de bichos prenhes de aço reluzente que fica infuso no paladar do sangue. os velhos sábios que se encovam no fundo das cisternas e dos poços moribundos de sede enlouquecem na dúvida da sílaba solidificada na fissura dos esquecidos. a derradeira paixão do verbo será fortalecida pela lei das tábuas ou pelo divino ser dos universos. a dúvida consolida os fracos.
.
.as cidades avançam pela remissão da culpa dos milagres formando um esboço de desordem na consciência dos construtores. e a melancolia tem um corpo eficaz que não existe nos reflexos porque os animais eram feitos à imagem da compaixão que permanece na pronúncia da multiplicação. e então há-de principiar o novo crime. a bestial lógica do ferro sincronizada na renovada e opaca geração da natureza resplandece onde apenas troveja desmesuradamente. unívoca será se o céu transportar a ferocidade do lírio. e ela não é injusta nem desprovida de fecundidade. quando as leis falham surge o diacrítico das cores despojadas que regeneram excelsas até sucumbirmos na saliva mortífera dos lábios. num outro lugar assomará a outra cabeça.
......................JOÃO RASTEIRO...........In, DIACRÍTICO
domingo, 6 de junho de 2010
PRÉMIO CAMÕES
A 22ª edição do Prémio Camões, atribuído pelo Estado Português e Brasileiro desde 1989, e que distingue anualmente um escritor de língua portuguesa que, "pelo conjunto da sua obra, contribua para o enriquecimento do património literário em português", foi este ano atribuído ao poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar. Este, foi distinguido pela "nota pessoal de lirismo" e "valores universais", essencialmente no seu trabalho poético. Refira-se que Ferreira Gullar tem quase toda a sua obra poética editada pela Quasi - "Obra Poética" (2003). Na minha modesta opinião, terá sido um dos mais justificados Prémios Camões até agora atribuídos, pois Ferreira Gullar é sem dúvida hoje, o mais importante poeta brasileiro (se tivesse sido atribuído a Manoel de Barros, também teria sido bem entregue). Numa entrevista que deu em 2003 ao Mil Folhas, Ferreira Gullar dizia: "Jamais moveria um dedo para ganhar o Prémio Camões. Mas se me dessem, ficaria muito contente." Ele aí está.
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