William Blake.
(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
William BlakeFoi-se o cheiro do mar e da maresia. E com essa partida, a chegada "desse" mundo real. E há as notícias de novos eventos e lançamentos, as homenagens devidas a alguns escritores. E há essas fatídicas notícias da partida física de amigos (escritores e outros). Enfim, como diria Fernando Pessoa: "Basta por hoje senhor. Volta amanhã realidade."
Um desses que partiu, foi Ruy Duarte de Carvalho. É pena, porque ele é sem dúvida um dos grandes escritores em língua portuguesa das últimas décadas. Apenas estive com ele uma vez, mais concretamente em 2008, em Leiria, e mostrou-se de uma enorme simpatia e humildade. Como sempre, ficarão as obras, para descobrir e saborear. E as de Ruy Duarte de Carvalho, desde as de poesia, ficção, antropologia, ou mesmo as de cinema, merecem sem dúvida, ser lidas e relidas por todos nós.
Do seu livro "Hábito da Terra", o poema abaixo:
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"Das águas que o rino escolhe..."
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Das águas que o rino escolhe
da pedra a que o vento encosta
do unto a que o tempo obriga
dos sais que a estação abriga
do pasto a que o gado aspira
da lua em que o vento vira
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......................Não há pastor que não saiba.
Não há pastor que não saia de alguma curva da infância.
.........................................Ruy Duarte de Carvalho
http://betogomes.sites.uol.com.br/RuyDuartedeCarvalho.htm
One day the high flood of blood
will burn the night, books too
will lie alone under the tunics of Istanbul
with death, love too should
end - in a violent and unique secret.
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Melancholy will flutter from the vents
atoning for guilt, grey creatures
will be moved full in the heat of touch
will die alone - as their offspring.
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And there will be the celebration of precipices
warping the consent of the ivy, for the flower
is a body excessively fresh and mortal
he blood in spring is redder
than the naked clay - the earth is a folded lily.
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For love and death have their unique existence
hey are converts, but their monsters endure
and will endure sheltered in the agony of time
making love with wombs - until the end of the world.
..................................................João Rasteiro.
........................TRADUÇÃO: Graça Capinha
Com a morte, também o amor
.........................................Ao valter hugo mãe
Um dia o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
com a morte, também o amor devia
acabar – num único e violento segredo.
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A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
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E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
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Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
..............................................João Rasteiro
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Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
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Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
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No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
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Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
.......................................José Saramago