sábado, 5 de março de 2011

POETA=POESIA

Foi recentemente publicado na  Editora Escrituras de São Paulo, o livro A obra ao rubro de Herberto Helder,  da autoria de Maria Estela Guedes. O livro foi publicado na colecção “Ponte Velha”, onde têm sido publicados poetas e escritores portugueses, como António Ramos Rosa, Ana Hatherly, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho,  Luisa Neto Jorge, Fernando Guimarães, Casimiro de Brito, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco,  Fernando Echevarría, João Barrento, só para citar alguns, e na qual tenho o privilégio de brevemente publicar o meu livro: "Tríptico da Súplica". Refira-se que esta colecção é apoiada pelo Ministério da Cultura Portuguesa e pela Direcção-Geral do livro e das Bibliotecas.
Em A obra ao rubro de Herberto Hélder, Maria Estela Guedes analisa a poesia de Herberto por um prisma ainda não muito aceite e compreendido pelo cânone, principalmente universitário, pois baseia a sua análise, sobretudo, partindo do odor e da força bruta que emana dos artigos e crónicas que Herberto foi publicando em jornais e algumas revistas.
A obra ao rubro reúne ensaios, depoimentos e entrevistas datados de 1977 até o ano passado. Registra uma dedicação permanente ao autor deA faca não corta o fogo (o título de sua mais recente reunião de poemas). Comenta uns primeiros contatos com sua obra ainda na adolescência e reuniões surreais nos cafés lisboetas na década de 1960 (Claudio Willer).
No segmento do livro dedicado a algumas entrevistas, tive a surpresa e simultaneamente algum medo, mas uma enorme honra, em responder a algumas perguntas de Maria estela Guedes sobre Herberto.
São essas (temerosas) perguntas e respostas que integram o livro  A obra ao rubro de Herberto Helder , que se seguem em baixo.
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Maria Estela GuedesJoão, que impacto tem Herberto Helder na poesia actual?
João Rasteiro – O impacto de Herberto, mais do que profundo, é simplesmente aterrador. Principalmente a partir dos anos 80, embora desde o início dos anos 70, a poesia portuguesa de algum modo tenha começado a gravitar entre o magnetismo e a repulsa à poética Herbertiana, esta talvez mais por medo, o desconhecido é sempre explicado por deus ou deuses, só que Herberto para além de ser a sua própria criação e alimento é simultaneamente deus em sua sílaba de verbo. Aliás, tenho a certeza que mais tarde ou mais cedo, teremos uma edição de toda a poesia Herbertiana, que se chamará somente “Herberto Helder”. A sua obra impõe que se cale ou se esqueça o Herberto cidadão, uma vez que “ele” é o próprio poema.
É lógico que para muitos, nos quais me incluo, não é fácil escrever “depois de Herberto”, tal é a forma avassaladora, atómica, com que nos inunda as entranhas, possesso como um vírus genésico-demoníaco que nos sufoca e nos sustenta. E nem sequer a “angústia da influência”, tão explorada por Harold Bloom, se coloca em relação a Herberto, uma vez que não é possível imitá-lo, talvez beber umas gotas frescas da alquimia das “suas” palavras, já seja um grande sentido de representação. É que a quase divina imagética em seu poder visionário, o verbo transfigurador sob a autenticidade cósmica dos sentidos primitivos, em que o poema explode numa lava que alastra alma e matéria, coloca-nos na verdade perante uma gramática que provoca e acarreta um abalamento que é dos mais intrigantes e profundos que a poesia e até a literatura (não nos podemos esquecer desse extraordinário livro ou poema que é “Os Passos em Volta”) portuguesa já sofreu em seu espaço de silêncio. Por isso o impacto feroz e restaurador da sílaba.
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.
MEGDe onde vem a fascinação que exerce em nós?
JR – Naturalmente que a áurea que o mito de poeta obscuro e hermético de Herberto proporciona, quase como referi anteriormente, Herberto igual a poema, poema espelho de Helder, provoca num primeiro olhar uma atracção brutal, uma inclinação absoluta e implacável sobre o obscuro onde procuramos sempre o mórbido e simultaneamente o herói, a eterna atracção pelo desconhecido (e no entanto o Herberto cidadão, por vezes chega ao “estranhamento”, quando responde a cartas de jovens poetas, que apenas lhe escrevem, “pensando que não irão obter qualquer resposta”, confessando-lhe em substituição do padre cura, que admiram de forma grandiosa o(s) deus(es) - da linguagem). E esse “estranhamento” é ainda maior, quando na resposta diz:
Como deve supor, tenho mesmo aqui ao lado montes de coisas para ler, e coisas todas elas reclamando urgência. Como exclamava o outro: - “E eu que ainda não li todos os gregos”.
E já agora, o Herberto cidadão confessa ainda, tendo em conta a carta a que está a responder, algo que será novidade, a sua admiração pelo poeta norte-americano Robert Creeley. Talvez sejam exíguos momentos de manchas no corpus do poema, de lampejos ou ligeiros sopros no exterior como possível explicação do eu-poema.
Mas, a verdadeira fascinação que exerce em nós, nos poetas e nos artistas em geral, resulta de uma poética do maravilhoso que sustenta o corpo, o corpo carnal da linguagem. É uma poética onde o poema, aquele que Herberto começou a escrever nos anos 50 e que como um vulcão se vai transcendendo num só tempo para a absoluta linha de violência, onde os contrários se expandem e anulam. Porque o cosmos onde este corpo-corpus de linguagem é um processo inexequível, perverso e pecaminoso, uma vez que consiste naquilo, eco versus silêncio, que potencia a alquimia do verbo que estando no mundo, escapa às leis da natureza, às leis da linguagem. E Herberto, substitui-se a essas leis, tentando enquanto a respiração lhe permitir, metamorfosear-se de forma ininterrupta poema, metamorfosear a língua, desfigurando-a e mastigando-a, desfigurando-a e vomitando-a. Uma língua dentro da própria língua, um poema dentro do próprio poema. É este trabalho de uma vida, este poder encantatório em seu fluxo verbal, em que o poeta-poema se aniquila e nos aniquila, num processo antropofágico que nos seduz e subjuga, porque ele e nós somos o poema, um só poema, o mundo, um só mundo em seu eterno processo de criação, o sopro “até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”, a vida que brota violenta e retemperadora da voz da morte.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício

da beleza
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.

                                                                            J.R.


http://triplov.com/willer/2011/herberto_helder/index.htm
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http://www.escrituras.com.br/ponte.htm

domingo, 20 de fevereiro de 2011

HORIZONTES

Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.       
                                         Natércia Freire

Em cada raiz de magnólia
uma constelação de sangue puro
e a absurda incisão do desejo
moldar a sílaba obscura
nas estâncias mais ocultas da morte,


o lugar sem coração nem corpo,
nem mansos beijos de sóis
e uma variável magnificente
procriando esse mesmo absurdo de luz
sob os contornos de uma túnica vermelha.
                                               João Rasteiro
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

"VALEU a PENA"

Mário Moniz Pereira (Lisboa, 11 Fevereiro de 1921) professor, desportista (pedagogo, atleta, treinador) autor de canções e acima de tudo, Sportinguista. 
Foi praticante de andebolbasquetebolfutebolhóquei em patinsténis de mesavoleibol e atletismo. E como já referi, um excelente autor de canções, especialmente, em grandes criações de fados. A que se segue, é de sua autoria, e é cantado pela grande Maria da Fé. Parabéns pelos 90 anos - "Valeu a Pena". Parabéns, por ser um dos poucos portugueses, em que a unanimidade é absoluta. Parabéns. Ah, e já só faltam dez!
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Se, depois de eu morrer...

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever 
a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença 
e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, 
porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão 
um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais 
e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, 
nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento 
seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
.............................................Alberto Caeiro
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"Valeu a Pena" (Mário Moniz Pereira) - Maria da Fé

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http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Moniz_Pereira
http://www.sporting-sempre.com/clube/mario-moniz-pereira-faz-hoje-90-anos
http://www.sporting.pt/

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ROTAS

Pedro Prata -  "Evaporation"




«A poesia é, finita e interminável, um diálogo precário e resistente. Ora cada um de nós é um diálogo. Por isso a poesia nos convém — ela é, esquivo e incerto, um diálogo que resiste por um dia mais, uma promessa sem garantias, pela qual nos transformamos naquilo que somos. […]»

Manuel Gusmão Tatuagem & Palimpsesto, Assírio & Alvim
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«Em poesia, o equilíbrio acontece sempre em tensão com o desequilíbrio, devendo mesmo incorporá-lo, num jogo partilhado. E talvez a preocupação com o equilíbrio advenha de uma das particularidades da poesia, como arte: o facto de ela utilizar como matéria de criação, não uma linguagem específica, mas a linguagem comum, a mesma que utilizamos no dia-a-dia. Há toda uma tradição de reflexão poética que considera essa linguagem de partida profundamente arbitrária, insuficiente e, nessa medida, desequilibrada, atribuindo à poesia o papel de recuperar um equilíbrio primordial, tido como perdido. Esse desejo de equilíbrio pode ser observado tanto no plano da relação entre som e sentido quanto no da relação entre a palavra e o mundo.»

Rosa Maria Martelo A Forma Informe, Assírio & Alvim
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Dia de REFLEX(ã)O


ÚLTIMO TESÃO

Alombo contigo há uma porção de anos
e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio
já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quadra do bom senso



 vez por outra um livrinho
 de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros

o país mete dó

guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tabua  
..........................Fernando Assis Pacheco

sábado, 15 de janeiro de 2011

OLHARES

Acaba de ser recentemente editado no Brasil (Rio de Janeiro), o livro Um olhar para os detalhes - Ensaio fotográfico poético sobre as formas , organizado por Maria Dolores Wanderley, no qual participo. Com fotografias de Dirk Wiersma & Rudolph Trouw e poemas de Adele Weber, Alexei Bueno, Carlito Azevedo, Igor Fagundes, Iracema Macedo, Jacinto Fabio Corrêa, Jair Ferreira dos Santos, João Rasteiro, Lila Maia, Luis Serguilha, Márcia Cavendish, Maria Dolores Wanderley, Maria João Cantinho, Paula Padilha, Renato Rezende e Susana Vargas. Livro de uma grande beleza estética, apresenta belos textos poéticos e fotografias deslumbrantes.
Da apresentação: "Este livro é o resultado do intercâmbio de ideias sobre as formas da natureza e das formas criadas pelo homem, suas repetições e semelhanças nas diversas escalas da visão. O assunto é antigo, porém, é tratado aqui de uma forma talvez inédita. Reúne fotos e poemas de artistas brasileiros, portugueses e holandeses que colaboraram entre si para transformá-lo em imagens e textos e apresentá-lo ao leitor.
O tema nos é exposto em blocos de fotos e poemas. A cada bloco corresponde uma forma, exemplificada pelas fotos de Dirk Wiersma e Rudolph Trouw, ambos geólogos e fotógrafos, e que serviram de inspiração para que poetas de grande expressão da poesia contemporânea luso-brasileira escrevessem poemas, na sua maioria, especificamente para este fim.(...) a maioria das formas fotografadas é largamente conhecida, tais como espirais, curvas, esferas, ângulos, que são, ao mesmo tempo, enigmas. (...)".

Para acender outra vez aqueles olhos
de lava as águas fecundas do Mondego
sublimam a distância fronteira do golpe
cru o espectro entre as paixões da carne,

a menina álgida no excesso das artérias
filiais as bocas no odre do sangue antigo
como uma serpente felina no vigor do aço.
............................................João Rasteiro
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www.pantofos.com

sábado, 8 de janeiro de 2011

DIACRÍTICO


Malangatana (06/06/1936 - 05/01/2011)
 A ressurreição das crias

XII
.enquanto todos os seres que respiram o enxofre de forma ofegante acreditarem nos pilares das cidades as paisagens da era da técnica não sucumbirão às palavras que choram. e sob o banquete de luz do fogo-de-santelmo o burgo dos corpos metaliformes é uma coisa espantosa porque dilui em fábula invertida os amoráveis canais do desejo. o líquen é lento como os longínquos sorrisos da pétala e há uma criança única bordando a solidão. como se o gládio da modernidade apenas reproduzisse o bolor da arte do aço desprendida do território aonde repousa a memória das tribos. é apenas o embate brutal do arquitecto dilacerando todas as fragilidades dos seres que se amavam cândidos. a metrópole concebendo em suas células o paladar do milagre. ela é agora a violenta extremidade do holocausto em que o equilíbrio se descobre nervo. e é no ímpeto das cidades que se principia a visão. a infinita exalação da linguagem em sua nervura.
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Teresa Salgueiro (n. 08/01/1969)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 - Happy New Year


3.
     O que for escrito do hálito
      será cumprido – a dilecção
       é a sua extensão mais pura.

6. 
     A matança é uma inferência,
      nunca a criação permanecerá
    em sua aparente invisibilidade.
                                                    João Rasteiro
In, A Divina Pestilência, Assírio & Alvim, 2011
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

NATAL


Desejando a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano 2011, apenas peço, ou sugiro, que vejam o excelente filme (curta portuguesa de Nuno Rocha), que sem dúvida, exemplifica o "espírito do Natal", até porque, embora se tenha tornado infelizmente num chavão, Natal, é quando um homem quiser. 
Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito 


............................David Mourão-Ferreira

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domingo, 19 de dezembro de 2010

DIACRÍTICO (Prefácio)

Ainda continuando com as referências ao meu novo livro, DIACRÍTICO, publicado pela Labirinto, e que será lançado em Janeiro, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, coloco aqui hoje o prefácio, que tive o prazer e a honra de obter, do poeta Albano Martins, e que ele intitulou: "Reduzir ao Humano o Divino".
Toren van Babel GrootPieter Bruegel


REDUZIR AO HUMANO O DIVINO  

     Já o sabíamos: a poesia é, por definição, um acto criativo, e isso mesmo nos assegura o substantivo grego poiesis, que ao verbo poiein – "fazer", "criar" – foi buscar a raiz e a substância. É de criação que fala – que trata – o poema Diacrítico, de João Rasteiro. A diversos níveis, aliás. Como quando, por exemplo, ex contrario do que ensinam as gramáticas, o discurso começa com um ponto final, isto é, antes e não depois de encerrado o período. Como se, por desnecessário ou inútil, algo tivesse sido elidido, rasurado na página. Ou como se algo estivesse subentendido e o seu entendimento fosse confiado à sensibilidade e inteligência do leitor. Como suplemento ou, antes, como suprimento. Criação, também, pelas metamorfoses operadas no tecido verbal que subjaz à construção do poema. Criação, ainda, pelo uso alargado da metáfora e, sobretudo, da elipse, figura através da qual se engendram os desvios e as operações semânticas que conferem ao texto o seu estatuto de obra literária.

            O poema, cujo título remete para uma ordem de natureza gramatical ou simplesmente linguística (os diacríticos, ensinam os dicionários, são sinais distintivos do timbre de certas vogais), divide-se em duas partes, cada uma delas subdividida em igual número de capítulos que funcionam como estrofes e valem como segmentos dum macrotexto cujo sentido se vai, dir-se-á, organizando e esclarecendo por si mesmo. Empurrada por um vento que sopra do deserto, a linguagem carrega consigo algumas pétalas que vai deixando na página em branco. Portadoras dum sentido originário, genesíaco, as palavras abrem sulcos num terreno onde o significado se oferece pleno de potencialidades e sugestões, carimbando de decantada expressão o corpo do poema. Tudo, aqui, é alusão. Tudo é profecia, oráculo, metamorfose. Tudo é, também, delírio. A linguagem é, como se lê no capítulo XVII da segunda secção, a "das vísceras condenadas à ilusão do verbo". Daí, talvez, o "surreal canto" para o qual somos convocados no segmento XIII da segunda secção, "A ressurreição das crias", ou aquele "deslumbrante espaço irracional" a que nos transporta o capítulo XVI da mesma secção. Espaço onde o deus sob vários modos e disfarces convocado para a cena se escreve com minúscula – outra forma de ao humano reduzir o divino, que é, parece-me, o escopo de toda a arte.

                                        Vila Nova de Gaia, 21 de Agosto de 2010

                                                            Albano Martins
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domingo, 12 de dezembro de 2010

DIACRÍTICO

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O primeiro dos meus livros - DIACRÍTICO (como já referi em post anterior), a ver a luz do dia, nos próximos meses, já cheira ao "sangue" das tintas. Esta é a capa. E em baixo, um texto da segunda parte do livro, chamada "A ressurreição das crias" (a primeira parte do livro, intitula-se: "O desconcerto de deus").
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XIV
.tal como os fungos dos poços de Jerusalém a memória sagrada das tábuas é uma crisálida indecisa. aquela que se perdeu para sempre no fundo inóspito do próprio ventre de bunho. e parte larva parte meretriz chegaram os novos seres para talhar as cidades em metálicos e encorpados pulmões de cobre. há alguns homens que já só se arrastam conforme as ofídias que percorrem as cisternas em noites de lua cheia. O violento delírio de se verem reflectidos nos olhos da água. sob o nenúfar as suas escamas repousarão desinquietas pela última miragem. a outra face do pai que tecia argênteas teias de melancolia. é preciso recordar as prefigurações das trevas para se acolherem as metamorfoses. a benévola carícia. a ressurreição hodierna das crias. o eco colorido.
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sábado, 4 de dezembro de 2010

A FLORESCÊNCIA dos LIVROS

Por vezes os acontecimentos, quase que ultrapassam todas as nossas expectativas ou projectos. Vem isto a propósito, da edição de 3 livros meus no espaço de alguns meses. Prestes a sair da tipografia e com lançamento previsto para Janeiro (chegou a estar previsto o seu lançamento em Dezembro), o livro DIACRÍTICO, publicado pela Editora Labirinto, com prefácio do poeta Albano Martins.
Já no próximo dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, na Guarda, mais concretamente, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, o livro A DIVINA PESTILÊNCIA, publicado pela editora Assírio & Alvim, e resultante da atribuição do Prémio Literário Manuel António Pina, verá a luz do dia (em Abril e Maio, 2 ou 3 lançamentos deverão acontecer).
Para culminar esta torrente (e não prevista) de livros lançados para o reduzido, mas complexo, espaço da poesia portuguesa, no segundo semestre de 2011, o livro O TRÍPTICO da SÚPLICA, deverá ser publicado (neste momento e após a assinatura do contrato de edição, já só falta a validação da DGLB - Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas) pela Escrituras Editora, de São Paulo, que já há algum tempo, na sua colecção "Ponte Velha", vem publicando autores portugueses (só para citar alguns, Rosa Alice Branco, Ana Hatherly, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Pedro Tamen, Luisa Neto Jorge, Fernando Aguiar, etc. De referir a última publicação, "a Obra ao Rubro" da minha amiga Maria Estela Guedes, sobre Herberto Helder
Assim, e como já referi, os próximos meses, por "brincadeiras" do destino, serão de alguma forma intensos, mas, naturalmente, bastante motivadores e reconfortantes, pois, independentemente (e isso é quase sempre relativo - e daria uma grande "conversa") da qualidade, pouca qualidade ou nenhuma qualidade, há imensa gente, na poesia, ficção, ensaio, etc, que passa, por gosto e/ou dedicação, por vezes uma vida, a escrever, sem qualquer reconhecimento ou hipótese de publicar um único livro.
Em homenagem a esse imenso número de vozes "silenciosas", o poema "Traduzir-se" de Ferreira Gullar (o merecidíssimo Prémio Camões 2010):
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Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
...........................De Na Vertigem do Dia 
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

"CRÓNICA DECORATIVA"

Faz hoje 75 anos que morreu Fernando António Nogueira Pessoa. Fernando Pessoa é sem dúvida um nome à parte na literatura portuguesa, sendo até  talvez o único poeta a desafiar Camões (sim, porque Herberto Helder, que fez recentemente 80 anos, é para uma conversa, que hoje não tem aqui lugar). Fernando Pessoa, nasceu em 1888 e faleceu em 1935, em Lisboa, com 47 anos. Para não ser demasiado repetitivo, uma imagem e um texto, pouco usuais.
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A ROSA DE SEDA 

(Fábula) 

Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula: 
A uma bordadora dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre folhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ela não bordasse a rosa branca. 
Por fim, não tendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela. 
Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe. 
No fabulário, onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma. 
......................................................Fernando Pessoa
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http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Fernando+Pessoa

domingo, 21 de novembro de 2010

DIACRÍTICO

Ainda em Dezembro de 2010, o meu novo livro, intitulado DIACRÍTICO, com prefácio de Albano Martins e editado pela editora Labirinto, sairá do fundo da caverna, para ver os primeiros raios de luz. Dentro de alguns dias voltarei ao assunto. Em baixo, um dos textos do livro.
William Blake
III
.a lâmina arfou sobre a dicção do epinício no flanco disponível da fêmea ungida em sua extremidade viva. alumbrado o sangue esguicha nas mãos acesas. nos esteios nocturnos do estio. e não rastejas ainda no pó sedutor da terra redimida nas esporas do ocidente. a carne sem vida e misericórdia excita-se dobrando o verbo contra o barro. um feixe de ardósias negras alucinando o seu próprio nascimento. agora sabe apenas à coalescência dos líquidos. e há uma flor demasiado hirta. e mulheres alimentando-se em varas espavoridas. e pávidos risos aterrorizantes de animais com cio. e o céu brilha sumptuoso em cabeças de víboras admiravelmente impuras e sublimes. é a sólida candura das onomatopeias em repouso. a carne tornando-se corpo.
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sábado, 13 de novembro de 2010

LIVRO???

A verdade é que por muitas e variadas explicações (http://linguistica.publico.clix.pt/Cultura/gabriela-canavilhas-garante-que-divulgacao-do-livro-vai-continuar_1465732) e boas intenções que a Sra. Ministra da Cultura possa vir dar, como neste país, e principalmente na área do livro e da cultura, o caso ainda se agrava mais, hoje só importa afirmar que "Gato escaldado de água fria tem medo"! Por isso, Sra. Ministra Dr.ª Gabriela Canavilhas, nem com um fundo musical de um belo piano, a preocupação manifestada (embora não interesse para nada, ou a ninguém, que eu subscrevo totalmente) pelos escritores abaixo referenciados, se esbaterá! 
«Assunto: Extinção da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (*)


Ex.ma Senhora Ministra da Cultura

Dr.ª Gabriela Canavilhas



O livro representa, hoje em dia, um espaço de transformação acelerada a que nenhum de nós pode ficar indiferente. Sobre o livro repousa uma herança segura e ergue-se um futuro de novos contornos ainda indefinidos. Certo, porém, é que todos queremos que, através dele, sejam resguardados os valores fundamentais do Humanismo e da Cultura. Por isso os estados desenvolvidos, designadamente os europeus, não abdicam de preservar as instituições que os salvaguardam.

Entre nós, conhecidos por estarmos no fundo das estatísticas no que a estes campos diz respeito, vimos, para felicidade de todos, ao longo das últimas décadas, a situação alterar-se. A implicação activa do Estado Democrático foi determinante nessa mudança da qualificação dos cidadãos. No que diz respeito à leitura, o Instituto Português do Livro foi a cabeça promotora dessa alteração. Além disso, desde que foi criado, em 1980, e através duma história rica em acontecimentos, é inegável que a promoção da Literatura portuguesa e lusófona, tanto em Portugal como no estrangeiro, se deveu muito ao esforço de encontrar e estimular parceiros para a edição e difusão dos nossos autores. A sua eficácia tem sido amplamente reconhecida. Apesar dos magros recursos, o IPL foi até há pouco considerado uma instituição modelar perante as suas congéneres. No entanto, nos últimos tempos, ficou bem claro o desinvestimento a que foi sujeito, designadamente com a passagem de Instituto a Direcção Geral.

Mesmo assim, isso não impediu que essa imagem institucional, para as entidades e personalidades estrangeiras que procuram apoio e conselho para iniciativas ligadas ao livro se mantivesse. Nem a redução drástica de meios foi obstáculo a que a experiência e o empenhamento dos funcionários do Instituto e, depois, da Direcção Geral, sempre tivessem respondido às várias solicitações, a que se deve acrescentar o excelente trabalho da rede de Bibliotecas Públicas nascida da iniciativa do IPL.

É por isso com estupefacção que os abaixo-assinados tomaram conhecimento daquilo que, na prática, é a extinção do único organismo que representava o empenhamento do Estado Português, através do Ministério da Cultura, numa das áreas que melhor tem representado o nosso país na sua transformação democrática: a difusão da sua literatura. Se isto não significa, como é óbvio, o fim da criação literária, nem o fim dos hábitos de leitura, nem o fim do livro, esta fusão vem dar no entanto uma imagem cada vez mais pobre de um mundo político que confunde gestão de meios com o extermínio cego das instituições que funcionam.

A reintegração da gestão dos assuntos do livro e da leitura na Biblioteca Nacional de onde em devido tempo foi autonomizada, significa a desvalorização, secundarização e desprezo por todo um sector que está em mudança, que carece de elos de coordenação, confrontação com as práticas globais, protecção das obras literárias portuguesas e lusófonas, articulação com os agentes nacionais e estrangeiros que as difundem. A dispersão das pessoas que conhecem o assunto, a desintegração dos saberes acumulados, a redução drástica de meios, significarão um retrocesso real e efectivo e nós não nos conformamos com esta perda.

Creia, Senhora Ministra, que o protesto que fazemos é um sinal de indignação, mas também de desalento perante o rumo que está a ser dado a este sector da Cultura no nosso País, e que nenhuma crise económica, que aceitamos ser grave e obrigar a sacrifícios, justifica.
Pedimos-lhe que reconsidere.
Lisboa, 10 de Novembro, 2010
Ana Luísa Amaral
Almeida Faria
António Lobo Antunes
Gastão Cruz
Gonçalo M. Tavares
Hélder Macedo
Hélia Correia
Inês Pedrosa
Lídia Jorge
Maria Velho da Costa
Mário de Carvalho
Mário Cláudio
Nuno Júdice
Pedro Tamen
Vasco Graça Moura
© Bibliotecário de Babel (*)
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sábado, 30 de outubro de 2010

Prémio Literário Manuel António Pina

Foto de Jorge Velhote
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Para meu grande espanto, algum temor, mas, como será absolutamente compreensível, com uma imensa alegria e naturalmente, uma grande honra, ontem, dia 29 de Outubro, o júri da 1º Edição do "Prémio Literário Manuel António Pina", deliberou por unanimidade, atribuir o prémio à minha obra "A Divina Pestilência". O prémio foi instituído pela Câmara Municipal da Guarda, em parceria com a editora Assírio & Alvim, que publicará a obra. A entrega do prémio será efectuada em Sessão Solene, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, no dia 18 de Novembro, dia do aniversário do escritor Manuel António Pina ( http://www.mun-guarda.pt/index.asp?idedicao=51&idseccao=625&id=1481&action=noticia ). O júri foi constituído pelo próprio Manuel António Pina, Manuel Rosa (representante da editora Assírio & Alvim), José Manuel Vasconcelos (representante da Associação Portuguesa de Escritores), Virgílio Bento (Vice-Presidente da Câmara Municipal da Guarda) e pelo poeta Américo Rodrigues (Director do Teatro Municipal da Guarda). A todos eles, um muito obrigado.