domingo, 18 de setembro de 2011

ESPAÇOS




A exposição fotográfica Entre a forma e a função: a materialização da justiça” é inaugurada no CES - Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Piso 1, no dia 20 de Setembro pelas 16h30.

"Os Tribunais, enquanto espaços arquitecturais, incorporam e representam a materialização das relações sociais e de poder estabelecidas no âmbito da justiça. Contudo, reflectimos pouco sobre estes espaços e há quem diga, até, que estamos a falar de um tema vago e sem interesse.

Para contrariar essa percepção, e através de 15 fotografias, pretendemos dar conta do sentimento comunicante destes edifícios e dos seus diferentes espaços, onde salas de audiências, salas de espera, salas de acolhimento para crianças, entradas, escadarias e corredores se cruzam entre jogos de luz e de sombra, tempo e lugar, onde a justiça se concretiza todos os dias."

Estas 15 fotografias serão acompanhadas por 15 textos. Eu participo com estes 3 textos:
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Foto 4

Ao cimo os deuses esperam-nos como pássaros primordiais. A reverberação da escada talvez nos leve apenas aos demónios do verbo. Nos vitrais ousaremos sonhar o cerúleo da silaba pois existem orifícios de luz e fogo. Aí será a superfície que sustém a ordem dos mitos. E nela principia a justiça e o mundo. E nela se produzirá um ruído aterrador.

Foto 9


Este é o lugar da blasfémia. Aqui a geometria é um espaço que condiciona as falas que enxugaram as frechas do archote. E os cânticos são terríficos para os seres pasmados de fábulas. Este é o sítio onde a perspicuidade das estruturas é um ínfimo apólogo.


Foto 15

Os lugares permanecem separados apenas pela cíclica purga dos preceitos. No reflexo da bétula uma sombra em síncope atulha os casulos. Dos corpos se esvazia o espaço quando o espaço desvive. No exterior aguardam-se os próximos rogados seres que agoniam nas trevas. Todos serão reciclados no maduro seio dos deuses em seu pêndulo.
.............................................................................João Rasteiro


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http://www.ces.uc.pt/

sábado, 10 de setembro de 2011

ROTAS PORTUGUESAS


Álvaro Alves de Faria é, sem dúvida, uma das vozes mais conceituadas da "Geração 60" da Poesia Brasileira. Autor de mais de 50 livros, que vão do romance às novelas, livros de entrevistas literárias, ensaios, crónicas, além de peças de teatro, incluindo adaptações de textos seus ao cinema. Recebeu inúmeros prémios, quer seja ao nível da poesia, do teatro ou do jornalismo cultural, onde já obteve dois Prémios Jabuti. Desde 1999, publicou oito livros em Portugal, sete de poesia e a novela, “Cartas de Abril para Júlia” (2010). Diz que veio para Portugal em busca da poesia que lhe falta actualmente no Brasil. Agora que se prepara, neste mês de Setembro, para editar em Portugal mais um livro, intitulado, “Três sentimentos em Idanha e outros Poemas Portugueses”, é a altura ideal para lhe ter feito uma entrevista, até porque como afirma no poema OCO: Tenho pensado em desatinos,/como por exemplo/matar todos os poemas/de todos os livros do mundo,/palavra por palavra,/sílaba por sílaba,/deixando só uma coisa oca no lugar,/o poema mais." 
A entrevista pode ser lida na íntegra, no último número da revista TRIPLOV [ http://novaserie.revista.triplov.com/numero_19/alvaro_alves_faria/joao_rasteiro.html ].

SACERDOTE

Quando eu pensei em ser padre,
Deus não precisava ser temido por ninguém.

Depois desisti,
sem saber exatamente porquê.

A freira que ia casar-se comigo se matou
numa sexta-feira da Semana Santa.

Joguei então minha batina no fogo
que também me consumiu.

Então virei santo,
mas ainda não fiz nenhum milagre,
tenho muito a aprender.
......................Álvaro Alves de Faria
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(Outros poemas do livro, colocados no último número da revista TRIPLOV -  http://novaserie.revista.triplov.com/numero_19/alvaro_alves_faria/index.html ]).


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http://www.alvaroalvesdefaria.com/
http://triplov.com/
http://novaserie.revista.triplov.com/numero_19/index.html
http://novaserie.revista.triplov.com/numero_19/alvaro_alves_faria/joao_rasteiro.html
http://novaserie.revista.triplov.com/numero_19/alvaro_alves_faria/index.html

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

TERRITÓRIOS


"A minha pátria é a língua portuguesa", afirmava Fernando Pessoa. E seguindo de alguma forma este lema, a V Edição de PORTUGUESIA aí está à porta. 


No próximo sábado, dia 03 de Setembro, com apoio, desde a sua primeira edição, da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, a Casa Museu de Camilo [sede original da primeira edição] recebe a V Edição de Portuguesia


A V Edição de Portuguesia [com Curadoria de Luís Serguilha e Wilmar Silva, o autor do projecto] apresentará poetas de Portugal, Brasil,  México,  Moçambique, Finlândia e Espanha, através de um ciclo de performances “Guesas Livres, leitura por Regina Mello de cartas de amor enviadas a Camilo Castelo Branco, além de debate [com mesas específicas e temáticas], de pensamentos e lançamento/apresentação do livro “KOA`E” de Luís Serguilha, publicado pela editora brasileira Anome Livros.   

    

Eu participarei pelas 15h00, em mais uma Guesas Livres, lendo conjuntamente com os poetas Camila Vardarac [Brasil], Olga Valeska [Brasil] e Victor Sosa [México].


Segue-se o link, onde poderão, não só ver o programa completo, mas também outros assuntos relacionados com a história do evento: http://www.vilanovadefamalicao.org/_portuguesia__festa_da_poesia_de_linguas_portuguesas_e_espanhola ] 


Elegia do Queixume

1.

Porque é preciso que cada substância idílica
encontre o seu próprio nome de metáfora
pois a ânsia está em mim como o amor na ilusão,
abraçarei de igual modo mulher ou ave
em sua anáfora de queixume
e não deixarei os jardins refulgir em seus olhos
sustidos em vasto lume: hei-de dividir
o poema e sorver-lhe qualquer matéria,
quando a palavra advir fruto alheio
à sua imagem do mais impuro sangue que lavra,
o teorema que incorpora o lamento da rosa
voz ou espinho de outras línguas em sua arena.
 .
In, Elegias Bárbaras [inédito] - João Rasteiro

["Fanatismo" - Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, cantam Florbela Espanca].

sábado, 20 de agosto de 2011

ESPAÇOS

"TRopofonia BH– um laboratório de sons e palavras – é um programa de experimentação sonora. Cada edição é dedicada a um autor-criador de todas as áreas: poesia, literatura, teatro, música, cinema. Um ensaio sonoro que apresenta a vida e a obra do autor na mutação das vozes, interpretadas com a liberdade livre. Utilizando as nossas vozes que se multiplicam e querem pensar de dentro das próprias palavras, sendo as palavras-vozes que o autor sentiu, pensou e escreveu. Experiências que se cruzam na fusão das línguas espanhola e portuguesa. Além de recursos possíveis ao rádio, realizamos a leitura de uma obra de arte que acontece nas ondas dos sentidos vocais, recriando a comunicação a partir de um laboratório de sons ao vivo e em cores".
Actualmente está  a decorrer a terceira temporada de TROPOFONIA na rádio UFMG Educativa [com roteiros inéditos criados pelos poetas Wilmar Silva e Francesco Napoli, apresentadores do programa que ganhou em 2010 o Prémio Roquette-Pinto da Arpub e do MinC, com o patrocínio da Petrobrás]
A Rádio UFMG Educativa é uma parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Você pode ouvir a programação através da frequência 104,5FM em Belo Horizonte, Contagem e outras cidades da Grande BH. A programação pode ser ouvida em tempo real [ http://www.ufmg.br/online/radio/ ].

Segundo o coordenador do programa, o poeta Wilmar Silva, o TROPOFONIA é um projeto Iberoamericano, com núcleos em funcionamento também na Argentina, no Uruguai e na Bolívia.

Com uma hora de duração, o programa reúne poesia, música e literatura, a partir de roteiros construídos com base na obra e na biografia de um ou mais autores. 
Na edição desta semana, o programa abordará a obra dos poetas portugueses João Rasteiro e Ruy Ventura.
Wilmar Silva, Francesco Napoli e Cristina Borges darão voz a TROPOFONIA HÍBRIDO: "Instrumentos Diacrítico de Sopro" (onde fazem a junção do título de dois livros de Ruy Ventura (Instrumentos de Sopro) e do meu penúltimo livro (Diacrítico). 
O programa decorre na próxima segunda feira, 22/08/2011, entre as 23h00 e as 24h00 [http://www.ufmg.br/online/radio/ ].

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Um poema de "Instrumentos de Sopro" de Ruy Ventura:


«a água faz crescer a luz e a distância.
a tempestade devolve, sem chumbo,
esse sangue que o movimento acrescenta
ao coração — da montanha.

ao alcance da mão, a cidade circula
(mesmos nos dias mais frios)
quando a chuva invade esta casa,
revestindo esses seios de sombra e de calor.

não existe cidade. apenas desejo —
outra cidade, sem fogo, sem sangue,
com sangue e fogo nesses olhos sem sono.

a terra arde. a poeira acompanha essa linha.
o calor devolve, sem chumbo, essa seiva
que nunca quisemos perder.

o comboio circula dentro de nós. luz e distância
apagam o incêndio que nos trouxe a escuridão.

a água dissolve a sede e a cidade.
outra cidade cresce — sem casa, sem frio —
guardando na memória o sal e o tempo
que hoje bebemos, sem filosofia.» 
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http://www.tropofoniabelohorizonte.blogspot.com/
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http://ruyventura.blogspot.com/

sábado, 13 de agosto de 2011

DESTINOS




Do “poeta” Domingos Cenáculo Vilela [meu avô - e que, lá muito no infinito sopro da sílaba, será, talvez,  o grande culpado por este meu "actual sofrimento", mas que simultaneamente, é o alimento ou hálito que me alimenta e, refiro-me evidentemente a esse mistério que é apelidado de Poesia], o poema, ou canto, "Olhares": 

Fico mirando esses sinais
Da doce Beatriz que me lança,
E sinto, por entre os ais,
Os sulcos caricaturais
De uns gemidos de festança.

E uma infinda melancolia,
Pela poesia em turbilhão,
Tomba em mim, fica em mim a agonia.
Tomba o Domingos, com a mania,
E quebra o rosto e o coração.
                         Domingos Cenáculo Vilela

sábado, 6 de agosto de 2011

LUGARES SAGRADOS

 O recôndito espaço da equidade
                              The Brain – is wider than sky 
                                                           For – put them side by side –
                                                                  Emily Dickinson 
                                               

7.
A linguagem é a sagrada prisão dos loucos que amam as paisagens que regressam pelo ventre fechado. Aí se respira as veias que acasalam os metais. Aquilo que estrangula da pedra ao aço é o espaço infundido. Uma crença no enraizado da cabeça.
8.
Em sua radiosa invisibilidade deuses decidem o fogo que sustenta a dobra da harmonia do mundo. Deliberam quais os corpos que servirão de mosto à renovação da terra. E o mundo rejuvenescerá puro nas leis que ateiam os animais nas estações do metal. E a equidade concebe-se contra a memória e o corpo. Trespassará toda a impureza.
9.
Este é o lugar da blasfémia. Aqui a geometria é um espaço que condiciona as falas que enxugaram as frechas do archote. E os cânticos são terríficos para os seres pasmados de fábulas. Este é o sítio onde a perspicuidade das estruturas é um ínfimo apólogo.  
                                                                                         João Rasteiro

sábado, 16 de julho de 2011

ROTAS INEXORÁVEIS

Precisamente no dia em que me dirijo para esse inapelável apelo do mar, esse mar onde durante alguns dias irei buscar todas as forças revitalizadoras para encarar mais um ano que se avizinha do mais complicado e desgastante que há memória, é lançado em São Paulo, organizado pelo poeta [e meu grande amigo] Álvaro Alves de Faria, um pequeno livro, inserido numa colecção que Álvaro vem dirigindo nas Edições RG, intitulado, "Três Poetas Portugueses" [Cristina Néry, Rita Grácio, João Rasteiro]. Enquanto aguardo o lançamento, provavelmente só lá para Outubro, do meu livro, "Tríptico da Súplica", na Editora Escrituras - São Paulo, é com alegria que integro este livro tão carinhosamente elaborado pelo Álvaro, com a ajuda do artista plástico Valdir Rocha.


A apresentação dos dois livros será dirigida pela escritora e jornalista Patrícia Cicarelli. Haverá uma leitura de poemas de Celso de Alencar, Eunice Arruda, Ronaldo Cagiano, Beth Brait, Oswaldo Rodrigues e pelo próprio Álvaro Alves de Faria.
Tal lançamento, insere-se no lançamento  do último livro do Álvaro [já publicado em Portugal], "Cartas de Abril para Júlia"
O lançamento dos dois livros ocorre hoje pelas 15h00 em São Paulo, na Avenida Nove de Julho, 3.653, no Lugar Pantemporâneo, do artista plástico, escultor, desenhista, gravador, etc, Valdir Rocha. Os que puderem aparecer serão naturalmente recebidos com bastante prazer e alegria.
.Ah, para todos: BOAS FÉRIAS!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

DESTINOS

Foto: João Rasteiro ["A decapitação do Poeta"]

DespedidaUma harpa envelhece. 
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores 
sonham junto às estátuas de treva. 
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança. 
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se 
foi amor. 
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das 
ruínas, 
tudo se perdeu no solitário campo dos céus. 
Uma estrela caía. 
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do 
sul, a sua extrema dor anoitecida. 
Não vens jamais. 
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me 
entristeço, a absoluta condenação. 
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam 
no centro desta cidade. 
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim, 
as tuas folhas de outubro. 
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça, 
a nudez de quem sangra à vista das catedrais. 
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre. 
Esta música é quase o vento. 


José Agostinho Baptista
(in “Paixão e Cinzas”)

sábado, 2 de julho de 2011

ROTAS INEXORÁVEIS

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O Núcleo de Animação Cultural da Câmara Municipal da Guarda acaba de editar o nº 29 da Revista "PRAÇA VELHA - Revista Cultural da Cidade da Guarda. O presente número da revista, com 450 páginas, possui um diversificado conjunto de matérias, passando pela cultura da região, praxes e histórias académicas, património, entrevista ao Procurador Geral da República, contos, recensões críticas, súmula das actividades culturais do Município, etc, e, também, o meu discurso de agradecimento (Pág(s) 297-300] no dia 21 de Março de 2011 [Dia Mundial da Poesia] na Guarda, na Biblioteca Eduardo Lourenço, Sala Tempo e Poesia, na sessão Solene de Entrega do "Prémio Literário Manuel António Pina" ao meu livro "A Divina Pestilência" e que tive a honra de receber, para mais, das mãos do próprio Manuel António Pina.
Segue-se parte desse discurso, que pode ser lido na íntegra no link indicado:
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"Ex.mo Sr. Presidente da Câmara Municipal da Guarda 
Poeta Manuel António Pina
Membros do júri
Poetas presentes
Minhas Senhoras e meus Senhores

Em primeiro lugar e acima de tudo, quero começar por exteriorizar a minha profunda alegria ao receber o Prémio Literário Manuel António Pina. Alegria pelo prémio em si e alegria por ter sido agraciado por esta Edilidade, pois trata-se de uma Edilidade que representa uma região onde pontuam nomes como Rui de Pina, Nuno de Montemor, Virgílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Américo Rodrigues e Manuel António Pina, só para citar algumas figuras proeminentes da literatura e da cultura portuguesas.

Como podem imaginar, a atribuição do Prémio Literário Manuel António Pina faz com que me sinta extremamente honrado e reconhecido. Honrado não só pelo nome que o prémio ostenta e pelos seus membros do júri, mas também por se tratar de uma 1º Edição em que, tal como foi realçado pelo júri no comunicado de atribuição do prémio, a quantidade e qualidade das obras a concurso sublinham plenamente o reconhecimento literário de Manuel António Pina – hoje, sem dúvida, um dos mais importantes escritores portugueses, na sua criativa abrangência literária, que vai do teatro às crónicas ou da poesia à literatura infantil. Faço minhas as palavras de Eduardo Prado Coelho, no momento em que a Assírio & Alvim publicava a Poesia Reunida de Manuel António Pina: estamos em condições de poder afirmar que nos encontramos perante um dos grandes nomes da poesia portuguesa actual. Uma extrema delicadeza pessoal, uma discrição obsessiva, uma cultura ziguezagueante e desconcertante, mas sempre subtil e envolvente, um sentido profundo da complexidade da literatura, e também, sobretudo, da complexidade da vida, (…) uma obra maior da literatura portuguesa”.

Sim, só posso sentir-me honrado e agradecido – em muitos sentidos – pela atribuição deste prémio, para mais em sua primeira edição.

Podemos interrogar-nos – e muitos se interrogam – acerca da utilidade da poesia. Hoje, neste Dia Mundial da Poesia, e depois das mais recentes catástrofes das últimas semanas, acredito, mais do que nunca, que o papel social e político da poesia continua tão imprescindível como no momento do seu surgimento no ritual colectivo de que a comunidade, então como hoje, necessitava para sobreviver: para passar o conhecimento e reinventar o mundo.

Atrevo-me a tomar emprestado o texto de José Saramago ao receber o Nobel, para responder à permanente questionação acerca da legitimidade e/ou utilidade desta arte:”

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