(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»»
"Só existe o tempo único.
Só existe o Deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica,
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único –
entrando pelas fendas, batendo, rebentando
correndo de lado a lado".
__________ Robert Duncan
Decorreu na passada sexta-feira, dia 30 de Março, com a presença
do homenageado, na Fundação Eng. António de Almeida no Porto, o lançamento da Antologia "100 Poemas para Albano Martins" da Editorial Labirinto, que foi coordenada pela poeta Maria do Sameiro Barrosoe prefaciada pelo grandeEduardo Lourenço, tendo ainda sido apresentada a obra porFernando Guimarães. Nesta (entre tantas
que já ocorreram e ainda irão ocorrer) merecida homenagem (que
terá nova apresentação em Lisboa no dia 27 de Abril pelas 21h00
na Sociedade Portuguesa de Autores) participei com o poema que se segue:
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Apriorismo Vital
Já não será necessário o pecado,
há um instante em que a memória é estreita
e os homens circularão ávidos
procurando a sua matilha
como se o rebentar dos dedos em magnólias
não fosse a indefinida e factícia criação,
a água e a sede num corpo de aurora,
o coração estilhaçando-se em girassóis acesos,
o poema mergulhando inteiro
em suas concêntricas e primígenas alegorias,
porventura homens
ou vozes encantadas sob a lua e o sol,
sob a lágrima avivada do tempo,
o cântico que anuncia os divinos náufragos de Ítaca
sob o músculo que se retrai
fervilhem majestosos
nos delicados argumentos da morte
em profundos círculos quebrados de estirpe e haste
entreabertos ao fôlego circuncidado
do espanto.
E tudo sem promessas, sem um rosto de verbo
sem pelo menos o ocluso núcleo do mundo temer
o ruidoso silêncio da paixão da língua,
a núcega comédia do mundo
pois o poema retornará sempre a esse fruto
como, utópico, ao coração de uma criatura múltipla
no mais íntimo impudor da casta.
.......................................................................João Rasteiro GEORGES MOUSTAKI (Fado Tropical).
Englobada mais uma vez na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a XIV Edição, que este ano decorreu sob o tema: "Navegar é preciso. Viver não é preciso [?]", saiu mais um número da jáhistórica e centenária revista "Via Latina" (o número 9 da série VI).
Tendo já participado em váriosnúmeros, este ano voltei a participar com o poema "Um novo milagre é preciso". De referir, sem qualquer hipocrisia, de que estes últimos números, sob a direcção da Eva Queiroz de Matos, vem cada vez mais a colocar a revista num patamar de qualidade (conteúdo, estética, grafismo, etc.) que se deve assinalar.
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Um novo milagre é preciso
“A sua cidade já não existe.” Sem rosas
nem quimeras de marear
as rotas, escuta-se serodiamente
apenas o intrínseco alvoroço de vozes ausentes
de sílabas híbridas,
um hálito dos corpos ébrios de sede
e do olhar enigmático de alguns ciganos
com a alma suja de desperdícios onde só as altivas sobras de solidão mancham a visão retemperadora do astro-rei
queimando o mondego
quando os peixes se mutilam
desassossegando as águas de guelras vermelhas
no regaço alquímico de Isabel,
hoje o rio secou o assombro
e a infinda maresia da embarcação
dos náufragos primordiais
“desapareceu. Foi abandonada por toda a gente”,
mas no centro da cidade
está oculto um inexplicável oceano
para aqueles que nunca o ousarem sulcar,
o sustento da pedra onde se alimentam os corpos
dilacerou a sua unidade de utopia
obstruindo o percurso da boca às raízes
“e depois veio a areia e engoliu-a”.
Um novo milagre é preciso
e embeber a inutilidade de um poema é preciso,
deveremos ser bilíngues de rotas e casas
em uma única cidade
pois é nela que a nudez de quem fere e sangra
não questiona o heróico murmúrio do estorvo do verbo.
........................................................... João Rasteiro
.e o desejo de perfilar harmoniosamente a íntima frescura do universo é uma cabeça intempestiva. aí se fez a incisão das divinas coisas e um animal uiva acossado de vozes trazidas pela transposição efémera dos sentidos. a transparência dos eleitos será uma laje de pó que alastra os sexos até à boca na contraditória e delirante visão dos astros. só nas fêmeas poderemos contorcer o fulgor dos céus e ceder vagarosamente ao desígnio da felicidade. os anjos cuidarão aparentemente de a manter se ousamos outro sabor de sílaba perante a morte. a tentação escreve a vida no mais recôndito gáudio.[In, DIACRÍTICO, Labirinto, 2010:João Rasteiro].
Acaba de ser publicado o último número da revista "Praca Velha, Revista Cultural da Guarda", que integra uma excelente Recensão Crítica do Daniel Rocha sobre o meu livro "A Divina Pestilência" que nos misteriosos contornos dos deuses ou do destino obteve em 2010 o "Prémio Literário Manuel António Pina" atribuído pela Câmara Municipal da Guarda em parceria com a "Assírio & Alvim" que em 2011 viria a publicar a obra. Segue-se em baixo alguns trechos da recensão e aqui dois links, um do blog do José Mário Silva "Bibliotecário de Babel", onde se podem ler alguns trechos do livro e, o link do blog do Daniel Rocha onde se poderá ler na íntegra a recensão.
Se atentarmos na real necessidade de efectuar uma recensão crítica a uma obra que foi objecto de avaliação e de ponderação por um júri especializado na análise poética, facilmente chegamos à conclusão de que pode ser uma perda de tempo a atenta leitura e a posterior reflexão sobre essa obra vencedora de um qualquer prémio literário. No entanto, teremos de aqui concordar com sábias ideias avançadas por Edgar Allan Poe, um dos incontornáveis e polémicos nomes da literatura mundial, no seu artigo “Carta a B –“. Diz-nos ele:
(…)
Após esta reflexão inicial, o autor apresenta a epígrafe prefacial da obra que é constituída por dois haikai do imenso poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694). Estes haikai, que apelam à concisão e à precisão doutrinárias, apontam um sentido de escuridão no poema, demonstrando que o que poderá sobrevir no resto da obra é a constatação de uma esperança que poderá não existir. Já no haikai de Bashô que fecha o livro, apela-se ao silêncio que deixe a natureza fluir e realizar-se plenamente, sendo esta leitura compatível com as necessárias condições que devem ser reunidas para a existência de uma fruição poética completa. Convém referir que este tipo de poema, que ao nível da versificação aponta para uma espécie de terceto irregular, não tem quase expressão em Portugal (Albano Martins, David Rodrigues…?), mas no Brasil é cultivado desde o início do século XX (1919), por influência do poeta simbolista Afrânio Peixoto.
(…)
No entanto, poderemos ainda acreditar que o autor pretendeu com a utilização do terceto seguir a estrofe utilizada na obra de Dante. Todas hipóteses atrás citadas são plausíveis e pretendem a subjectividade que preenche a escrita do poema, cabendo-nos a nós, que o lemos, escolher a tentativa de interpretação que mais nos agradar. Neste caso, e tentando concluir a ideia iniciada com a reflexão sobre o haikai, convém ter em atenção que João Rasteiro consegue reunir com um agradável equilíbrio culturas distantes física e culturalmente: a ocidental, através de Dante, e a oriental, através de Bashô, ficando a dúvida sobre qual é a cultura que pretende salientar ao invés da outra. Na nossa opinião, nenhuma delas é submetida à outra, antes funcionando estética e representativamente ambas de forma eficaz.
(…)
A obra vencedora da 1.ª edição do Prémio Manuel António Pina é de difícil caracterização ou inserção numa qualquer corrente literária que nos tenha precedido ou que exista actualmente.
Poderemos ser tentados a chamar-lhe literatura contemporânea pela coexistência consciente de diferentes formas estéticas e de diferentes culturas. No entanto, se houvesse necessidade de a inserir numa corrente a criar ou que exista naturalmente sem necessidade de “encaixotamento”, diríamos que é uma obra que facilmente se inseriria num neossimbolismo de teor oriental, pois vive dos vários símbolos que são projectados em cada um dos tercetos e pretende uma relação do eu - leitor com o poema que propicie o equilíbrio.
Em conclusão, é uma obra que merece ser lida e relida, para que os múltiplos sentidos possam aproximar-se do entendimento. O júri deste prémio viu a potencialidade multissignificativa desta obra e a complexa teia em que ela foi urdida, dando ao poeta João Rasteiro um prémio merecido pelo intenso labor que lhe dedicou e que decidiu partilhar connosco.
Rui Costa era um dos nomes mais interessantes da nova poesia portuguesa.
Tinha vencido em 2005 o prémio de poesia Daniel Faria, com o seu livro "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", editado então pelas Quasi Edições.
Dois anos depois recebeu o prémio Albufeira de Literatura pelo romance "A Resistência dos Materiais".
Também em 2007, traduziu o livro de poesia "Só Mais Uma Vez", do poeta espanhol Uberto Stabile, para a coleção Palavra Ibérica, e em 2008 traduziu "Quarto Com Ilhas", do poeta espanhol Manuel Moya, para a mesma coleção, na qual publicou, em 2009, "O Pequeno-Almoço de Carla Bruni".
No mesmo ano, lançou ainda "As Limitações do Amor São Infinitas", pela editora Sombra do Amor.
Em 2008 co-organizou a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa (Exodus).
Ainda no espaço algo complexo e hipócrita da Literatura Portuguesa, " terá cometido a façanha" de apresentar uma lista alternativa à direcção do Pen Clube Português em Janeiro de 2009, ao lado dos poetas Rui Lage e Rui Cóias.
Numa entrevista recente, Rui Costa defendeu o poder de resistência do livro face ao crescente primado da tecnologia e da mensagem instantânea.
“O livro sólido, com peso de papel manchado de tinta, continuará a ter sentido enquanto usarmos as mãos que ainda temos”, afirmou.
Aqui ficam dois poemas de Rui Costa.
Poema inútil com montanha
Vejo a montanha à minha frente pousada
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
Ele entranha-se pelas paisagens do sol pelos olhos das aves em que adejamos o incomensurável, aconchega-se às nossas vísceras mais íntimas e pressentimos que podemos ser criaturas de Dezembro, criaturas dos dias de não se ser esquecido criaturas fervilhando lava pelos dedos em circunstâncias estranhas, também nós concebidos e destruídos sem porquê por essa sitiada substância de que é erigida a adusta boca das quimeras.
Ele mergulha pelos corpos da terra pelas frestas dos oceanos em que expurgamos a cegueira, acerca-se inevitavelmente do nosso funesto alento e intuímos ser os guardiões dos salmos da bem-aventurança, guardiões que vigiam as infâncias no Inverno guardiões fascinados pela loucura do mundo em noite de tamanha abundância, vínculos em que espargimos e aduzimos a púrpura numa criança indefesa de que se constrói uma humanidade que não há.
Ele submerge pelo avesso dos corações pela estreita extensão das vozes sem tempo nem vento, encosta-se no reflexo dos sonhos intemporais e de forma desumana reinventa o natalício choro e riso para que não se suspenda a esperança e vergamo-nos trespassados no órfico cântico do poeta: não cortem o cordão que liga o corpo à criança do sonho! . ..................................João Rasteiro(Natal de 2011)