sábado, 12 de maio de 2012

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“Bicarbonato de Soda” .

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Um tal de Fernando Pessoa
ocultava sempre as múltiplas e habituais cartas
que recebia de um certo Álvaro de Campos,
todos estes papéis pálidos hoje se deixaram
de jogar pelo prazer do impensável,
até Pessoa a propósito de  metafísica dizia às vezes:
“dêem-me de beber, que não tenho sede!”
..............................................................João Rasteiro
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In, "O sabor dos dióspiros só a Deus pertence" [inédito]

sábado, 28 de abril de 2012




Na próxima quinta-feira, dia 03 de Maio, pelas 18h00 na Casa da Escrita em Coimbra, será apresentado o meu livro de poesia "Tríptico da Súplica".
Este livro foi editado no final de 2011 em São Paulo, pela Escrituras Editora, na coleção “Ponte Velha” que publica autores portugueses e que é apoiada pela Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas/Portugal.
A apresentação da obra estará a cargo do Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira da Universidade de Coimbra e terá uma leitura por Jorge Fragoso e Cândida Ferreira.
Haverá ainda um momento musical pelo grupo de Fados de Coimbra “Fado ao Centro
A todos os que queiram e possam comparecer, será para mim uma enorme alegria poder contar com vocês.
"Com a morte, também o amor"
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Um dia, o excelso dilúvio do sangue
queimará a noite, também os livros
jazerão sós sob as túnicas de Istambul,
"com a morte, também o amor devia
acabar" – num único e violento segredo.
 .                                            
A melancolia esvoaçará dos orifícios
expiando a culpa, as criaturas cinzentas
comover-se-ão fartas pelo calor do tacto,
perecerão sozinhas - como a sua progénie.
 .
E haverá a celebração dos precipícios
urdindo o beneplácito das heras, pois a flor
é um corpo excessivamente fresco e mortal,
o sangue, na primavera, é mais vermelho
que o barro nu – a terra é um lírio dobrado.
 .
Porque amor e morte têm existência própria
convertem-se, mas os seus monstros subsistem
e subsistirão recolhidos à agonia do tempo
amando-se pelo ventre - até ao fim do mundo.
................................................. João Rasteiro

domingo, 22 de abril de 2012

ROTAS OUTRAS


assim a mão escrita se depura
  .............................................................................Ao Mário Guerra

Um velho caderno moleskine de Herberto
que se julgava uma lenda
maior que o livro do riso de Aristóteles
(é tão bom rirmo-nos de tudo, de nós
dos críticos, de Deus e sobretudo da poesia)
e que presumivelmente encerrava
o manuscrito inédito
“a vida inteira para fundar um poema”
apareceu absolutamente preservado
das manchas de lápis da viarco – hoje
o poeta mantém-se fiel ao fogo
do carvão que inunda o branco de alegria,
 .
este mítico caderno
a que toda a crítica sempre se referiu
e que cada vez mais ia deixando de ocupar
os alucinados sonhos
dos adoradores de poesia
foi encontrado no início do ano pelo mário
neto do antigo merceeiro da rua
quando substituiu o soalho da antiga loja
do avô na rua do salitre,
 .
mas parece que será um caderno falso
e uma acção de propaganda
pois não só o mário quer abrir uma livraria
bastante completa aliás
apenas de livros de poesia – cada livro vendido
será docemente acompanhado
da oferta de um pastel de belém
como apenas na página 31 surge uma mancha


no intemporal branco do moleskine
que diz: “assim a mão escrita se depura”
e alastra o âmago do mundo
mas o mundo de onde se avista a morte.

Ah, e não está escrito a lápis viarco
mas sim por uma lapiseira
e para o poeta o carvão é sagrado
carvão é carvão
que a blasfémia do verbo será sempre
uma "bic cristal preta doendo nas falangetas".
.............................................. João Rasteiro
In, "O sabor dos dióspiros  a Deus pertence" (Inédito)

domingo, 8 de abril de 2012

Lugares Obscuros


Elegia da Flor


3.

Era nas tuas sépalas toda a beleza do mundo
o centro pasmado que se estendia
na subtileza do mosto
todavia vida de nocturnas galáxias
entre as formas que são outras formas
o mais disponível pecado
na mínima cavidade de uma flor
deixando que o sémen transborde o coração da terra
e no túmido ofício de jardineiro da piedade
amo a dor  eivada de pétalas
pois foi nos afáveis orifícios da primavera
que as flores perderam a idade
e logo aí em mim morreram
metamorfoseando-se em besoiros de incisivas lâminas
que em sua bárbara, insana e carnífice exactidão
cheiram quando se cheira a matéria exacta
o odor de deus, o odor de mim, o odor que mata.
.....................................................................João Rasteiro

domingo, 1 de abril de 2012

ROTAS IMPRESCINDÍVEIS


Decorreu na passada sexta-feira, dia 30 de Março, com a presença 
do homenageado, na Fundação Eng. António de Almeida no Porto, o lançamento da Antologia "100 Poemas para Albano Martins" da Editorial Labirinto, que foi coordenada pela poeta  Maria do Sameiro Barroso e prefaciada pelo grande Eduardo Lourenço, tendo ainda sido apresentada a obra por Fernando Guimarães. Nesta (entre tantas 
que já ocorreram e ainda irão ocorrer) merecida homenagem (que 
terá nova apresentação em Lisboa no dia 27 de Abril pelas 21h00 
na Sociedade Portuguesa de Autores) participei com o poema que se segue:
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Apriorismo Vital

Já não será necessário o pecado,
há um instante em que a memória é estreita
e os homens  circularão ávidos
procurando a sua matilha
como se o rebentar dos dedos em magnólias
não fosse a indefinida e factícia criação,
a  água e a sede num corpo de aurora,
o coração estilhaçando-se em girassóis acesos,
o poema mergulhando inteiro
em suas concêntricas e primígenas alegorias,

porventura homens
ou vozes encantadas sob a lua e o sol,
sob a lágrima avivada do tempo,
o cântico que anuncia os divinos náufragos de Ítaca
sob o músculo que se retrai
fervilhem majestosos
nos delicados argumentos da morte
em profundos círculos quebrados de estirpe e haste
entreabertos ao fôlego circuncidado
do espanto.

E tudo sem promessas, sem um rosto de verbo
sem pelo menos o ocluso núcleo do mundo temer
o ruidoso silêncio da paixão da língua,

a núcega comédia do mundo
pois o poema retornará sempre a esse fruto
como, utópico, ao coração de uma criatura múltipla
no mais íntimo impudor da casta.
.......................................................................João Rasteiro
GEORGES MOUSTAKI (Fado Tropical).

domingo, 25 de março de 2012

ROTAS INEXORÁVEIS


Englobada mais uma vez na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a XIV Edição, que este ano decorreu sob o tema: "Navegar é preciso. Viver não é preciso [?]", saiu mais um mero da  histórica e centenária revista "Via Latina" ( o número 9 da série VI).
Tendo  participado em vários números, este ano voltei a participar com o poema "Um novo milagre é preciso". De referir, sem qualquer hipocrisia, de que estes últimos números, sob a direcção da  Eva Queiroz de Matos, vem cada vez mais a colocar a revista num patamar de qualidade (conteúdo, estética, grafismo, etc.) que se deve assinalar.
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Um novo milagre é preciso   

“A sua cidade já não existe.” Sem rosas
nem quimeras de marear
as rotas, escuta-se serodiamente
apenas o intrínseco alvoroço de vozes ausentes
de sílabas híbridas,
um hálito dos corpos ébrios de sede
e do olhar enigmático de alguns ciganos
com a alma suja de desperdícios
onde só as altivas sobras de solidão mancham
a visão retemperadora do astro-rei
queimando o mondego
quando os peixes se mutilam
desassossegando as águas de guelras vermelhas
no regaço alquímico de Isabel,

hoje o rio secou o assombro
e a infinda maresia da embarcação
dos náufragos primordiais
“desapareceu. Foi abandonada por toda a gente”,
mas no centro da cidade
está oculto um inexplicável oceano
para aqueles que nunca o ousarem sulcar,
o sustento da pedra onde se alimentam os corpos
dilacerou a sua unidade de utopia
obstruindo o percurso da boca às raízes
“e depois veio a areia e engoliu-a”.

Um novo milagre é preciso
e embeber a inutilidade de um poema é preciso,
deveremos ser bilíngues de rotas e casas
em uma única cidade
pois é nela que a nudez de quem fere e sangra
não questiona o heróico murmúrio do estorvo do verbo.
........................................................... João Rasteiro

domingo, 11 de março de 2012

ROTAS OUTRAS



como será limpar o rosto depois de agosto?

em cada sopro iluminando
a cadência do mar
para construir um nome
a fazer esquecer tudo
de desviar os olhos do outro rosto
onde nada repete outro tempo,
entre a espera e o cerco
e o sorriso se abre
na demora que concentra.

a paciência conhece o tempo da espera,
a mais felina indiferença
que é o perdão
sem pressa
e a comoção sustenta
no incómodo do esforço.
a permanência das mãos

é aqui, sempre aqui
até tudo ficar esquecido
as pequenas mãos que ignoram
que as noites sejam tensas,
que aqui perdura
o que um dia será impossível
a criar memória

depois de cada Agosto?
......................................Rui Almeida 
[In, Caderno de Milfontes - Volta D'Mar, 2012]


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http://ruialme.blogspot.com/

http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-rui-almeida/

domingo, 4 de março de 2012

ROTAS INEXORÁVEIS

                                  "Suprema Tentação" - Dina de Sousa
                                                                                                                                                   
Algures os campos
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A natureza do poeta é fingir
a existência mais íntima da linguagem
aquele lugar onde a morte
resplandece em todos os sentidos dos pulmões
pois desde sempre a chuva
amansou os vestígios do sangue
que jorra do estilhaço das palavras inócuas,
 .
na desesperada procura do silêncio
amo a tempestade e repudio o relâmpago
e contudo as tuas sílabas dissecam-me o veneno
da seara e da cesura
em que me avivo júbilo de mim mesmo.
 .
Que precisão existirá no ângulo do poema?
 ..............................................................................João Rasteiro

domingo, 26 de fevereiro de 2012

DESTINOS


"No país dos lambe botas", Luiz Morgadinho

“Um céu e nada mais"
...........................À Ana Luísa Amaral 

Já aceitei o facto de me afirmares
por entre a minha inútil suplica
no primórdio de todas as Primaveras
faustosamente hibernal
que sou apenas alguém visceralmente cego
na ideia de que um poema
me aproxima de deus
pois só deus desobedece à linguagem
só ele se insubordina
perante o desafogado odor da flor
como quem vai mastigar o delírio
da degradação dos corpos que declinaram a voz
 .
nos teares desta urbe. Tão pouco é a poesia
em seu ofício
o deslumbrado delírio da poesia
acalentando utopias nos animais adiados
da cidade que se tece
resido de sulco
e outros serão os versos que me passarão a vigiar
pelo flanco da improficuidade
sem qualquer particularidade de piedade
 .
“nem inocência. Um céu e nada mais.”
                                  João Rasteiro       
Obrigado Zeca, até sempre - "Vejam Bem"                                       

domingo, 12 de fevereiro de 2012

ROTAS INEXORÁVEIS


World Press Photo 2011 - Samuel Aranda

IX
.e o desejo de perfilar harmoniosamente a íntima frescura do universo é uma cabeça intempestiva. aí se fez a incisão das divinas coisas e um animal uiva acossado de vozes trazidas pela transposição efémera dos sentidos. a transparência dos eleitos será uma laje de pó que alastra os sexos até à boca na contraditória e delirante visão dos astros. só nas fêmeas poderemos contorcer o fulgor dos céus e ceder vagarosamente ao desígnio da felicidade. os anjos cuidarão aparentemente de a manter se ousamos outro sabor de sílaba perante a morte. a tentação escreve a vida no mais recôndito gáudio. [In, DIACRÍTICO, Labirinto, 2010: João Rasteiro].
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Whitney Houston: 1963 - 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ROTAS PORTUGUESAS

POEMÁRIO Assírio & Alvim 2012 - 06 de Fevereiro



sábado, 28 de janeiro de 2012

"SILÊNCIO SILABADO"


Acaba de ser publicado o último número da revista "Praca Velha, Revista Cultural da Guarda", que integra uma excelente Recensão Crítica do Daniel Rocha sobre o meu livro "A Divina Pestilência" que nos misteriosos contornos dos deuses ou do destino obteve em 2010 o "Prémio Literário Manuel António Pina" atribuído pela Câmara Municipal da Guarda em parceria com a "Assírio & Alvim" que em 2011 viria a publicar a obra. Segue-se em baixo alguns trechos da recensão e aqui dois links, um do blog do José Mário Silva "Bibliotecário de Babel", onde se podem ler alguns trechos do livro e, o link do blog do Daniel Rocha onde se poderá  ler na íntegra a recensão. 





Se atentarmos na real necessidade de efectuar uma recensão crítica a uma obra que foi objecto de avaliação e de ponderação por um júri especializado na análise poética, facilmente chegamos à conclusão de que pode ser uma perda de tempo a atenta leitura e a posterior reflexão sobre essa obra vencedora de um qualquer prémio literário. No entanto, teremos de aqui concordar com sábias ideias avançadas por Edgar Allan Poe, um dos incontornáveis e polémicos nomes da literatura mundial, no seu artigo “Carta a B –“. Diz-nos ele:
(…)
Após esta reflexão inicial, o autor apresenta a epígrafe prefacial da obra que é constituída por dois haikai do imenso poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694). Estes haikai, que apelam à concisão e à precisão doutrinárias, apontam um sentido de escuridão no poema, demonstrando que o que poderá sobrevir no resto da obra é a constatação de uma esperança que poderá não existir. Já no haikai de Bashô que fecha o livro, apela-se ao silêncio que deixe a natureza fluir e realizar-se plenamente, sendo esta leitura compatível com as necessárias condições que devem ser reunidas para a existência de uma fruição poética completa. Convém referir que este tipo de poema, que ao nível da versificação aponta para uma espécie de terceto irregular, não tem quase expressão em Portugal (Albano Martins, David Rodrigues…?), mas no Brasil é cultivado desde o início do século XX (1919), por influência do poeta simbolista Afrânio Peixoto.
(…)
No entanto, poderemos ainda acreditar que o autor pretendeu com a utilização do terceto seguir a estrofe utilizada na obra de Dante. Todas hipóteses atrás citadas são plausíveis e pretendem a subjectividade que preenche a escrita do poema, cabendo-nos a nós, que o lemos, escolher a tentativa de interpretação que mais nos agradar. Neste caso, e tentando concluir a ideia iniciada com a reflexão sobre o haikai, convém ter em atenção que João Rasteiro consegue reunir com um agradável equilíbrio culturas distantes física e culturalmente: a ocidental, através de Dante, e a oriental, através de Bashô, ficando a dúvida sobre qual é a cultura que pretende salientar ao invés da outra. Na nossa opinião, nenhuma delas é submetida à outra, antes funcionando estética e representativamente ambas de forma eficaz.
(…)
A obra vencedora da 1.ª edição do Prémio Manuel António Pina é de difícil caracterização ou inserção numa qualquer corrente literária que nos tenha precedido ou que exista actualmente.
Poderemos ser tentados a chamar-lhe literatura contemporânea pela coexistência consciente de diferentes formas estéticas e de diferentes culturas. No entanto, se houvesse necessidade de a inserir numa corrente a criar ou que exista naturalmente sem necessidade de “encaixotamento”, diríamos que é uma obra que facilmente se inseriria num neossimbolismo de teor oriental, pois vive dos vários símbolos que são projectados em cada um dos tercetos e pretende uma relação do eu - leitor com o poema que propicie o equilíbrio.
Em conclusão, é uma obra que merece ser lida e relida, para que os múltiplos sentidos possam aproximar-se do entendimento. O júri deste prémio viu a potencialidade multissignificativa desta obra e a complexa teia em que ela foi urdida, dando ao poeta João Rasteiro um prémio merecido pelo intenso labor que lhe dedicou e que decidiu partilhar connosco.

sábado, 21 de janeiro de 2012

ROTAS


RUI COSTA: 1972/2012

Rui Costa era um dos nomes mais interessantes da nova poesia portuguesa.

Tinha vencido em 2005 o prémio de poesia Daniel Faria, com o seu livro "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", editado então pelas Quasi Edições.

Dois anos depois recebeu o prémio Albufeira de Literatura pelo romance "A Resistência dos Materiais".

Também em 2007, traduziu o livro de poesia "Só Mais Uma Vez", do poeta espanhol Uberto Stabile, para a coleção Palavra Ibérica, e em 2008 traduziu "Quarto Com Ilhas", do poeta espanhol Manuel Moya, para a mesma coleção, na qual publicou, em 2009, "O Pequeno-Almoço de Carla Bruni".

No mesmo ano, lançou ainda "As Limitações do Amor São Infinitas", pela editora Sombra do Amor.

Em 2008 co-organizou a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa (Exodus).

Ainda no espaço algo complexo e hipócrita da Literatura Portuguesa, " terá cometido a façanha" de apresentar uma lista alternativa à direcção do Pen Clube Português em Janeiro de 2009, ao lado dos poetas Rui Lage e Rui Cóias.

Numa entrevista recente, Rui Costa defendeu o poder de resistência do livro face ao crescente primado da tecnologia e da mensagem instantânea.

O livro sólido, com peso de papel manchado de tinta, continuará a ter sentido enquanto usarmos as mãos que ainda temos”, afirmou.

Aqui ficam dois poemas de Rui Costa.

Poema inútil com montanha

Vejo a montanha à minha frente pousada
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
Quando um pensamento inútil me sugere
Que a montanha pode ser
Um pormenor pensado por ela
Na paisagem do meu próprio pensamento, para
Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
Pousada na água sempre verde, sem ser
Pensada por ninguém.

O pão

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.