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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 14 de julho de 2008

LIVROS

É Verão. As férias destabilizam-nos os sentidos e todos os espigões do corpo. Mas os livros continuam a sua incomensurável loucura de nos procurar mostrar uma forma outra da palavra inicial. E eu que me preparo para dentro de algumas horas partir uns dias à procura da descoberta de alguns territórios de Portugal, mas, essencialmente, à descoberta de mim e do caminho de espinhos que preciso percorrer para alcançar o cume das árvores, quero só chamar a atenção para dois livros, um que me acompanhará em viagem e outro que mais tarde espero ler.
O primeiro é o novo livro de valter hugo mãe, hoje já uma presença importante na ficção portuguesa contemporânea. No seu novo livro, "O Apocalipse dos trabalhadores", já a determinar que os dedos o aprisionem e apertem nas livrarias e Fnacs do país, apenas constatamos os predicados que lhe propiciaram em 2006 o prémio "José Saramago" com o romance "o remorso de baltazar serapião". Como é referido na contracapa do livro: "o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.»
O segundo livro é "O Polvo não sabia que o Mexilhão tinha asas". Este livro de contos de Maria João de Oliveira, que será apresentado na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, sábado, dia 19/07/2008, pelas 15h30, é um livro de alguém que afirma tratar-se de "uma viagem interior que não pode ser adiada" e para quem escrever é tão necessário como respirar, numa relação absolutamente visceral com a escrita e os problemas do mundo que nos rodeia e asfixia. Como refere no prefácio, o poeta José Félix, "a autora serve-se da memória como acepipe para a construção da trama, ficcionando a realidade, e fazendo da ficção uma coisa real. (...) para tear, palavra a palavra, frase a frase, os ardis da vida, servindo-se quer da ficção feita realidade quer da realidade feita ficção".
Na mesma sessão, e porque os livros emergem como o dilúvio, será lançado ainda o livro "A força de um sonho" de Maria Rita Romão.
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Resistência - Amanhã é sempre longe demais

sábado, 7 de junho de 2008

O Problema de Ser Norte

O PROBLEMA DE SER NORTE

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
O Problema de Ser Norte é o novo livro de poesia da autoria de Filipa Leal. Trata-se de um livro que revela uma sensibilidade extrema, um sopro em que nenhuma palavra é escolhida ao acaso: todas são pensadas e pesadas com uma subtileza extraordinária. São poemas que nos falam dos medos da vida, da tristeza, da felicidade, do amor, e desse incomensurável caminho que nos leva para o lugar inicial do verbo.
Filipa Leal que integra a micro antologia:"nova poesia portuguesa", por mim idealizada e organizada para um número especial da revista colombiana de poesia, ARQUITRAVE, surge sem qualquer dúvida, como alguém que se demarca de grande parte da chamada "nova poesia portuguesa", uma vez que não cultiva “as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade”. Depois das primeiras poesias de cariz mais confessional, apresenta agora uma poética mais madura, numa carga simbólica fortíssima na sua relação com a cidade, a natureza, o mundo, que se tornam o quotidiano e a própria pessoa. É uma poesia que se estrutura e alimenta com sugestões insistentes de oralidade e um jogo muito sóbrio no uso da metáfora, apresentando-nos uma distorção permanente do uso habitual das frases. E é precisamente essa concisão irradiante das frases que nos deslumbra e arrasta para o poema. (João Rasteiro)
Sinopse:
A procura do entendimento do mundo na arte poética continua a acompanhar Filipa Leal que neste livro alude, inquieta, aos limites da própria poesia que a assaltam. Linhas ténues de transparências, de água, de vidro, que contrapõem com as palavras forjadas numa interioridade livre. Os medos, os livros, o tempo, a surpresa do mar (o início possível?) constituem a sua procura e afirmação… «Era um verso com árvores à volta/ Tinha o problema de ser norte / e dia e tão contrário à natureza./» Um livro belíssimo.
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Pronuncia do Norte - GNR e Isabel Silvestre

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http://paristexas2.blogspot.com/2008/02/alguns-poemas-de-filipa-leal.html
http://www.vozdapovoa.com/noticia.asp?idEdicao=117&id=5197&idSeccao=1089&Action=noticia

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Novas Vozes

-----------------João Rasteiro e Andityas Soares de Moura----------------------
No próximo dia 14 de Janeiro pelas 19h na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, proceder-se-á ao lançamento da antologia de poesia Algo Indecifravelmente Veloz, do poeta ANDITYAS SOARES DE MOURA, hoje já um dos nomes mais representativos da nova vaga da poesia brasileira. Autor e obra serão apresentados pela Dra. Graça Capinha da Universidade de Coimbra, no âmbito da Oficina de Poesia da FLUC e do Projecto de investigação "Novas Poéticas de Resistência".
Andityas Soares de Moura, mineiro de Barbacena, é poeta, tradutor e ensaísta, além de professor universitário e Mestre em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, instituição onde atualmente cursa o Doutorado em Direito.
Publicou: Ofuscações (Barbacena, edição do autor, 1997), Lentus in umbra (Barbacena, edição do autor, 2001), OS enCANTOS (Belo Horizonte, in vento, 2003) e FOMEFORTE (Belo Horizonte, in vento/Crisálida, 2005). Lentus in umbra foi traduzido para o castelhano pelo poeta e professor Francisco Álvarez Velasco e lançado na Espanha (Gijón, Trea, 2002).
No campo da crítica literária publicou em Portugal o estudo A letra e o ar: palavra-liberdade na poesia de Xosé Lois García (Lisboa, Universitária, 2004) e organizou uma edição da Lírica de Camões (Belo Horizonte, Crisálida, 2004).
Selecionou, introduziu, traduziu e anotou os poemas da escritora galega Rosalía de Castro reunidos em A rosa dos claustros (Belo Horizonte, Crisálida, 2004). Traduziu vários livros do poeta argentino Juan Gelman, a exemplo de Isso (em parceria com Leonardo Gonçalves, Brasília, UnB, 2004) e Com/posições (Belo Horizonte, Crisálida, 2007). Traduziu também À boa teta e outros quatro licenciosos poemas da França renascentista (Belo Horizonte, Crisálida, 2005). Tem traduções inéditas do catalão Joan Brossa e do galego Manuel Antonio.
Um breve comentário/análise da minha parte, a convite (que muito me honrou) do Andityas Soares de Moura e incluido na badana/orelha do livro.
"Não se nasce poeta. No entanto acredito que alguns nascem com algumas propensões para poderem vir a emboscar-se no acto poético. Contudo, a leitura, o estudo, a prática, o intenso exercício de oficina, escrevendo e reescrevendo, são essenciais para talvez se vir a ser um excelente poeta. E é tudo isso que Andityas Soares de Moura é, fez e continua a fazer. Conjuntamente com nomes como Iacyr Anderson de Freitas, Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo, Claudio Daniel, Fabrício Carpinejar ou Márcio André, é, sem dúvida, hoje, um dos mais expressivos poetas da poesia contemporânea brasileira.
Soares de Moura possui a capacidade de conjugar a sua alta erudição (ao grande domínio da língua e cultura latinas, alia um tratamento de grande intimidade com os poetas provençais e escreve com a mesma facilidade e docilidade com que fala mineiro) com a realidade que o cerca como espigões acesos, um/som//:o do peito sendo aberto/.
Em Soares de Moura encontramos uma poesia quase sempre espalhada no branco da página, assente em formas rebeldes, mas ajustadas numa escrita concisa, onde a preocupação extrema com a estética das palavras é reflectida na sua sonoridade. Sendo um poeta virado para o real, para quem a poesia é a arte do fazer, é a arte e faculdade poética, mas sempre como poiesis – criação, cri(ação) sob todas as arestas- a sua poesia é tudo que respira/canta a glória de estar/por enquanto,//e só por enquanto,//vivo/.
Soares de Moura não concebe a arte poética, se esta não questionar constantemente o real, como se a poesia fosse o último guerreiro atento à tirania do poder, à tirania da própria linguagem. A arte e a poesia ao serviço do carpe diem, do ensejo único, o nosso.
Como refere o poeta Glauco Mattoso, a poesia de Andityas Soares de Moura, oscila entre o moderno e o arcaico, com traços concretistas namoriscando o mais arrevesado latinório, que embebida numa alta tensão lírica, fará decerto de Andityas Soares de Moura um dos nomes maiores da poesia brasileira deste desencorajado início de século". (João Rasteiro)
Incluidos na antologia, os poemas: Epitáfio para as ilhas e Procissão
EPITÁFIO PARA AS ILHAS
no alto,
o cansaço, o
espasmo

murmúrios travam
conhecimento conosco

que solos negros!
duros como as orações
de antigos capatazes

sabor de milho
no pescoço

enfim, a porteira aberta

cercada
de musgos
doces
-----ooo-------------
PROCISSÃO
é uma névoa bisonha

dedos debaixo
da língua

eu vi o incenso roxo
brotar como feijão

ladainhas fervorosas
de sexos
aduncos
sérios mesmo

esta agremiação

de interior mais fundo
que
a raiva
Andityas Soares de Moura

domingo, 16 de dezembro de 2007

LIVROS

A editora COSMORAMA acaba de editar o excelente livro Cabeças de Pedro Marqués de Armas, com tradução do poeta Jorge Melícias. Pedro Marqués de Armas [Havana, 1965]. Poeta e ensaísta. Publicou os livros de poesia Fondo de ojo [1988], Los altos manicomios [1993] e Cabezas [2001] e o ensaio Fascículos sobre José Lezama Lima [1994]. Foi redactor da revista alternativa Diásporas, publicada em Cuba entre 1997 e 2003. Poemas e ensaios seus saíram no Diario de Poesía, Crítica, Tsé-tsé, Encuentro de la Cultura Cubana, Lichtungen ou Oficina de Poesia. Entre 2005 e 2007 residiu em Coimbra, ao abrigo do projecto Rede Internacional de Cidades Refúgio. Actualmente reside em Barcelona onde é médico psiquiatra.
Aquando da sua partida para Barcelona, Pedro Marqués de Armas afirmou que «Coimbra será sempre para mim lugar de escrita», garantindo que na sua mente levaria sempre o sentimento de que estaria «a perder algo, o Mondego, as ruas estreitas da Baixa» e especialmente o contacto com os muitos amigos que fez. De Coimbra, como afirmou, levou as melhores recordações culturais. «É, sem dúvida, uma cidade de cultura, embora lhe falte intensidade a nível cultural», constatou, recordando os escritores portugueses que teve oportunidade de ler, de conhecer e até de viver, inspirando-se neles para enriquecer uma vida literária dividida entre livros sobre a História da Psiquiatria em Cuba e a poesia.
Coimbra inspirou a sua escrita e marcou a sua vida, de tal maneira que promete voltar em breve, e várias vezes. «Barcelona não fica assim tão longe…» e afinal, tal como havia prometido em Abril de 2005, quando chegou, não só fez vários amigos em Coimbra, e especialmente na Oficina da Poesia, na Faculdade de Letras, a que aderiu logo em 2005 e que hoje considera «o lugar mais acolhedor para a minha escrita e para interagir com os poetas da cidade», não só se dedicou a vários projectos culturais da cidade, como também escreveu aqui dois livros que pretende lançar em breve, na cidade que o acolheu durante um período importante da sua história enquanto escritor e pessoa.

Não sei se é exagero, mas o poeta brasileiro Régis Bonvicino afirmou recentemente, ser Pedro Marqués de Armas, não só um belíssimo poeta, mas estar entre os melhores poetas jovens da actual poesia mundial.
Do livro Cabeças (Cabezas, vencedor do prémio UNEAC de Poesia 2001, em Cuba) o poema:

Mandrágora

Na margem interior da fronteira, que outros preferem chamar beco sem saída, - B. matou-se.

Claro que todas as fronteiras são mentais, e no caso de B. melhor seria falar de duas.

De modo que B. se matou entre a margem interior e a crista de um pensamento que já não se desviava dele.

Para capultar-se, tomou aquelas raízes de um alcalóide que tinha classificado, e, lançando-se sobre a enxerga de troços fusiformes, encontrou por fim o que buscava: rua de uma só direcção em que todos os números estão apagados, e os brancos pedúnculos mentais desvanecem-se numa matéria de sonho.

Pedro Marqués de Armas

(Tradução de Jorge Melícias)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

É amanhã, dia 22 de Novembro, pelas 18h00, na Sala de Conferências da Casa Municipal da Cultura (Rua Pedro Monteiro), em Coimbra, que se realiza a sessão de apresentação do último livro do poeta Xavier Zarco: "Variações sobre tema de Vítor Matos e Sá: Invenção de Eros", que foi distinguido com o Prémio de Poesia Vítor Matos e Sá - 2007, certame organizado pelo Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Esta obra é editada pela edium editores. A apresentação da obra será feita pelo escritor António Vilhena.
Como referiu no prefácio José Félix, "O poema de Xavier Zarco é um corpo textual que permite uma viagem de gestos numa relação amorosa onde a palavra, o verso, inicia o canto musical que o tempo compõe na partitura da "Invenção de Eros".
Este ciclo nasce, tal como o próprio título indicia, de um tema, um poema de Vítor Matos e Sá intitulado “Invenção de Eros”.
1.
Há um lago no rosto da casa
aberta
na face das tuas mãos.
O
Talvez
somente os teus olhos
o desvendem.
O
Talvez o vento
de passagem
em ti recolha
O
a Invenção de Eros.
Xavier Zarco