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sábado, 13 de junho de 2009

O eleito do sol

O "Prémio Camões" 2009, o mais importante galardão literário em língua portuguesa, foi com alguma surpresa atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, quando talvez todos esperassem que na linha da frente da poesia Cabo Verdiana para um prémio com este significado pudesse estar talvez o poeta Corsino Fortes.
No entanto a distinção de Arménio Vieira, até poderá significar a total liberdade de escolha, análise e gosto pelos membros do júri do Prémio Camões. E além disso, quem é que tem verdadeira autoridade para determinar o que é a justiça na atribuição de um prémio?
Aos 68 anos Arménio Vieira, torna-se o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. O poeta nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor (poeta e ficcionista) é jornalista, com várias colaborações em publicações como o "Boletim de Cabo Verde", a revista "Vértice", de Coimbra, "Raízes", "Ponto & Vírgula", "Fragmentos" e "Sopinha de Alfabeto". Foi ainda redactor no jornal "Voz di Povo".
Arménio Vieira foi um elemento activo da chamada "Geração de 60", em permanente luta pela liberdade e dignidade do homem Cabo-Verdiano.
A atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira é o «reconhecimento da literatura e da visão literária importantíssima» do poeta cabo-verdiano, disse Helena Buescu, presidente do júri e professora da Faculdade de Letras de Lisboa. O poeta possui três das suas quatro obras publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999. Em baixo o poema "Ser Tigre":
Ser Tigre

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo, infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será quando for tempo disso.
...................................Arménio Vieira
..........................................Tito Paris - Danca Ma Mi Criola

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domingo, 12 de abril de 2009

Parte do Arco-Íris

Roxana Crisólogo (Peru), eu e o Zé Luis (Casino da Figueira da Foz).
O livro Lisbon Blues, do meu amigo e poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, é um dos candidatos ao "VII Prémio Portugal Telecom", destinado a livros em Língua Portuguesa publicados no Brasil em 2008. Este livro de José Luís Tavares, lançado na 8ª Bienal Internacional do Ceará, integra a colecção Ponte Velha (criada pelos poetas Carlos Nejar - Brasil e António Osório - Portugal) incluida na editora brasileira Escrituras. Em Maio, o livro deverá ser apresentado na Cidade da Praia. Refira-se que já em 2008, o Ministério da Educação Brasileiro atribuiu a José Luís Tavares o prémio "Literatura para Todos" pelo inédito "Os Secretos Acrobatas". É sem dúvida o merecido reconhecimento de um excelente poeta da língua portuguesa, um dos poetas aliás, que já hoje começa a ter uma das mais relevantes obras do panorama literário cabo-verdiano. De Lisbon Blues o seguinte poema:
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3.
Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.
.............................José Luís Tavares
In, Lisbon Blues, S. Paulo, 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

O estado impenitente da fragilidade

João Vário (1937-2007), estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi investigador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Ao jubilar-se, regressou à sua Mindelo natal. Deixou uma obra poética extensa, mas ainda pouco conhecida do grande público. Foi muito influenciado pela cultural ocidental, tendo como referências Saint-John Perse, T. S. Eliot, Ezra Pound, Aimé Césaire, Dante e a própria Bíblia. Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público em geral - as agruras da escrita.
A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros: Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade. É uma das vozes em língua portuguesa mais injustiçada no reconhecimento público. Sem dúvida uma das vozes maiores a descobrir urgentemente.
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Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo
concede
fim de novo e reconhecimento de novo,
e tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
criminosissimamente crime,
quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
e sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
são os desígnios da medida e, divididos
em dois por eles, com eles indo, se por eles
ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
de indagar que vamos morrer e, um dia, se
o tempo for deles e a memória, de outros,
havemos de ser úteis como mortos há muito,
sem que a causa, o delírio, a designação,
o julgamento nossa medida abandonem,
dividida em duas por eles, e ganhando constância.
.
Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.
João Vário
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Cesária Évora - SODADE

http://memoria-africa.ua.pt/Digital-JoaoVario.aspx

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=25663

http://www.triplov.com/letras/exodo/vario_1.htm

http://www.confrariadovento.com/revista/numero18/phantascopia.htm

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Antologia "Palavra do mundo"

Corsino Fortes na antologia Palavra do Mundo:
O poema “Não há fonte que não beba da fronte deste homem”, de Corsino Fortes acaba de ser publicado em Havana (Cuba), numa cerimónia que teve lugar na sede da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), como parte da antologia de poesia Palavra do Mundo, um dos mais representativos da poesia vanguardista e contemporânea.
Conforme noticia a agência noticiosa AngolaPress, que cita os organizadores, o livro, editado sob a chancela da Colecção Sul, traz obras de poetas de diversas línguas, geografias e culturas, tendências estéticas e filosóficas, dinâmicas geracionais e maneira de assumir a poesia e o acto poético.
São os porta-vozes do mais genuíno pensamento literário contemporâneo em defesa da humanidade, tais como Ernesto Cardenal (Nicarágua), Thiago de Melo (Brasil) Miguel Barnet (Cuba)), Eugeni Entushenko (Rússia), Dario Alvisio (Itália) Elena L. Popescu (Roménia), Fernando Aguiar (Portugal), Benjamím Prado (Espanha), Tito Alvarado (Chile), António Gonçalves (Angola).
Corsino Fortes nasceu em São Vicente, em 1933. Formou-se em Direito em Lisboa em 1966. Ali, após a independência de Cabo Verde em 1975, tornou-se Embaixador por certo tempo. De 2003 a 2006 foi presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde.
Tem vários livros publicados: “Pão & Fonema”, “Árvore & Tambor”, “Pedras de Sol” e “Substância”, reunidos na trilogia “A Cabeça Calva de Deus”. Os seus textos fazem parte de várias outras antologias em língua inglesa, brasileira, francesa, italiana, holandesa, entre outras.
De acordo com o poeta português João Rasteiro, na poesia de Corsino Fortesa insularidade de Cabo Verde aflora numa sintaxe fragmentária e em síncopes”. Nisso, continua Rasteiro, “há a expressão directa e o coloquialismo, ao lado, às vezes, de um tom alto, sempre contrastado por inflexão brutal, vigorosa”. E assim, conclui o poeta luso, Corsino Fortes consegue que nos seus poemas habitem “os arquipélagos por fora e por dentro
”.
TSF
A semana online - Cabo Verde

sábado, 2 de fevereiro de 2008

"Um beijo no centro do coração"

O Instituto Politécnico de Leiria organizou o II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Subordinada ao tema “A escrita e a cidadania”, esta iniciativa que decorreu nos dias 24 e 25 de Janeiro de 2008, no auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão, em Leiria pretendeu acolher autores de expressão portuguesa de várias nacionalidades e continentes, tendo contado contando com a presença de cerca de duas dezenas de prestigiados escritores, não só portugueses, mas também provenientes de países como o Brasil, São Tomé e Príncipe, Angola e Cabo Verde. Destaco entre outros, a participação de António Torrado, Vasco Graça Moura, Ana Maria Magalhães, Rui Zink, Carlos Pinto Coelho ou Nuno Júdice, e no panorama Afro-lusófono, Ana Maria Machado, Ruy Duarte de Carvalho, Olinda Beja ou Corsino Fortes
E foi precisamente com Corsino Fortes, poeta maior da língua portuguesa, e com quem estive pessoalmente pela primeira vez, que confraternizei e sobretudo aprendi. E, sobretudo, fiquei profundamente admirado, por Corsino Fortes me referir o facto de já algum tempo tentar saber quem era este humilde escriva, só pelo facto de ter tido acesso a um pequeno ensaio - "CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO ou OS ARTÍFICES da PALAVRA" - que elaborei para a cadeira de Lietraturas Africanas II, ensaio que logicamente possui determinados "defeitos" e condicionalismos inerentes ao seu objectivo, mas que de alguma forma terá agradado ao poeta, que o leu no site. (www.TRIPLOV.COM).
Corsino Fortes, esposa e João Rasteiro
Corsino Fortes nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1933. Formou-se em Direito (em Lisboa), fez parte de alguns governos de Cabo Verde e foi embaixador em Lisboa. De 2003 a 2006, foi Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Tem vários livros publicados, entre os quais Pão & Fonema, Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância. Em 2002 é editada então a antologia (integra as 3 obras já mencionadas) A cabeça calva de deus.
Como refiro no ensaio, "CORSINO FORTES é sem sombra de dúvidas uma das maiores vozes da poesia em língua portuguesa das últimas décadas. É inegável, que a osmose e a identificação entre o Poeta e a Palavra, entre a Palavra e a consciência nacional, ou sentido de Pátria, é não só um facto, mas o facto capital da sua poesia. Para Corsino, na sua poesia, embora escrita e "cantada" em Português, todo o "material e/ou mobiliário" deverá ser, é, de identificação Cabo-Verdiana, na sua fatia universal, da sua experiência humana, da sua coexistência, do seu conteúdo e podendo-se inclusive afirmar, da sua semântica".
Por isso, reafirmo, de que "é nesse contexto que o primeiro livro, Pão & Fonema, da trilogia A cabeça calva de Deus, que incorpora também Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância, procura de forma emblemática e até de forma telúrica, expressar essa luta titânica de afirmação do homem cabo-verdiano, entre a secura do céu e a cabeça calva da Ilha".
A Cabeça calva de Deus
apresenta-se-nos como uma trilogia fundacional e épica da história do país, e que nos revela com o último livro, fundamentalmente, a vertente arqueológica e cultural, ao executar nos três cantos a substância solar da criatividade cabo-verdiana, nas suas múltiplas vertentes, quer seja ao nível musical, pictórica, literária, política, etc, que ductilizam a dureza mineral das ilhas no paciente requebro nostálgico da morna, na ordem compassada do rondó, ou no ritmo agitado e harmónico da antiga mazurca ou do funaná. (www.TRIPLOV.COM).
"A sua poesia é assim, uma poesia fundacional e da identidade, condensando o universo Cabo-Verdiano, configurado num percurso que vai da anunciação da libertação do país(primeira fase), passando pela sua exaltação(segunda fase) e acabando na sua mitificação". (www.TRIPLOV.COM).(...)
Da antologia, A Cabeça calva de deus, três poemas exemplificativos, não só do que afirmei no ensaio referido, mas e essencialmente o espelho de que Corsino Fortes, que nutre um admiração profunda por outros dois grandes da poesia em língua portuguesa, Cesário Verde e João Cabral de Melo Neto, é o artíficie que trabalha a palavra como o moldador do fogo, é sem qualquer dúvida um dos poetas mais poderosos no trabalho da linguagem poética em língua portuguesa. O poeta em diálogo e interacção perante o mundo (ou o “seu mundo”), perante a palavra, perante o “poder da palavra e da linguagem”, sempre com um objectivo essencial e permanente: FAZER!

A cabana oca de vocábulos
I
Agosto arranca as âncoras do deserto
Depondo-as
....................................Às portas do povoado
Setembro cresce ossos & ventre
E da barriga de Outubro
................................Ouvia-se
O crocitar das sementes da erosão
Aqueles que sem embargos do sétimo dia
Partem do umbigo das três ribeiras
Trazem no enlaço dos destinos
A cana-de-açúcar como oxiúros
Quem não ama? os navios loucos da minha aldeia
Abalroam na planura! nos baixios
..................................Os casebres da vizinhança
À procura de mastro & oceano no olho das salinas
De Boca a Barlavento I
Esta
.........a minha mão de milho & marulho
Este
.........o sól a gema E não
.........o esboroar do osso na bigorna
.....................................................E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
..........................esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que.g
......................................o
......................................t
......................................e
......................................j
......................................a
.............................De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
...................para dentro das violas
ILHA
Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som
Que floresce
A cabeça calva de Deus.
Corsino Fortes