(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»»
"Só existe o tempo único.
Só existe o Deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica,
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único –
entrando pelas fendas, batendo, rebentando
correndo de lado a lado".
__________ Robert Duncan
Além as ilhas passam – são os apocalipses . Além as ilhas passam - são os apocalipses as patas queimadas desabrochando renovadas de pele e logo regressarão fulgurantes alastrando pelas águas inteiras e infundidas entre corpo e lugar, as vagas da febre. A garganta escoada pelo fôlego dos abismos em opulência de sonho de palavra nas hastes entregue ao seu silêncio de verbo obscuro. . . Além passam as ilhas como morcegos de quem se teme o amor e no entanto nas ondas da língua não se teme o bafo mortal de seu carnívoro beijo onde pulsam as guelras. O espanto ainda projecta o fulgor inesperado do poema até ao limite dos corações acesos. .......................................João Rasteiro ...........Frankie Goes To Hollywood-"The Power of Love"
Acaba de ser editada pela COSMORAMA a 2º edição (1º edição das edições etc, 1983 ) de "ANACRUSA68 sonhos", de Ana Hatherly. Deste excelente livro, os dois poemas abaixo:
26/11/60
O terror materializa-se sob a forma de uma pequena luz lilás que se dirige a grande velocidade para a minha janela aberta. Estendo as mãos e colho-a no seu caminho. Afinal era uma pequena e estranha ave violeta e azul marinho. Entretanto queima-me a perna direita. É um sofrimento intenso. Para me aliviar alguém dá-me um golpe e logo imenso sangue começa a jorrar.
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Janeiro de 1963
Um número incontável de mulheres de todas as idades seguindo em fila indiana, entre as quais me encontro. Somos todas prisioneiras e somos conduzidas involuntariamente através de corredores e escadas, deslizando por elas abaixo como que dormindo. Todas sabemos que somos prisioneiras mas estamos mais ou menos serenas. Eu penso: agora sou prisioneira mas um tempo virá em que serei liberta, eu e todas elas. Entretanto estendo a mão para trás procurando trazer a minha filha para junto de mim, para acelerar a sua libertação.
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.......................................Carlos Mendes - A festa da vida
E o sol desce como um falcão, um relâmpago ígneo celebra-se no presságio, atalha-se o silêncio o visível e o invisível das súplicas que dormem a perversa inocência,
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no cume das bocas as flores murchas
como incautas candeias adormecidas. .................................João Rasteiro
Já calaram a tua boca já mas certamente esqueceram uma pequena sílaba somente semente em algum canto lá nos recantos de um país de mim uma flor livre sob a terra obsessiva e sagrada do jardim. * Já calaram a tua voz pá mas certamente esqueceram o odor fresco semente somente das rosas e do jasmim. ........................Manuel de Cenáculo
A poeta, ensaísta e investigadora Maria Estela Guedes é membro da A.P.E. - Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, do Instituto São Tomás de Aquino e Directora do site/plataforma TriploV, depois de em 2008 ter publicado o seu mais recente livro de ensaios e/ou critica literária: A Poesia na óptica da Óptica, prepara-se para publicar o seu novo livro de poesia, intitulado: Chão de papel. Poemas que vislumbram o âmago carnal e sensorial da Guiné-Bissau, a fragrância odorífica do refluxo em espiral do coração (dos corações?). Como refere Nicolau Saião no prefácio ao livro: "Neste livro/poema, cujas jornadas incessantemente se questionam tanto quanto se afirmam — pois que é esse o movimento perene da poesia, ir e vir como se fossem as ondas de um mar na noite ou na claridade — a penumbra ilumina-se a dado passo para ganhar um sentido além da devastação e da amargura. Trata-se duma legítima e nostálgica evocação mas igualmente, ou principalmente, duma transfiguração". Independentemente das neblinas que a amizade por vezes oferece, para além de uma excelente crítica literária (essencialmente sobre a poética Herbertiana), Maria Estela Guedes possui uma poética que urge começar a ser olhada com mais atenção. (P.S. - No final do post, "todas as ligações/links à/para a Maria Estela Guedes").
(...) Espera a tua morte como se tivesse o tempo todo À frente para nele se banhar em incenso Era ali que devias ser sepulta Com a tua carga de afectos e ondas pesadas As lembranças O coração fechado num búzio A murmurar palavras sabe ao ouvido Era ali No fundo das águas a tocar O lodo verde e menstrual do Geba… Vai morrer à Guiné se te apraz Num dia de neblina fria sobre as águas Na linha imperceptível que separa a lua Da luz Vogando para o Oriente Eterno Na barca de Rá Depois de passar pela ilha entre ilhas Bolama A saber a mangos e a melancolia. ..............Maria Estela Guedes
Quem me refrescará antes da morte sob as fontes? Quem perfumará o meu corpo extinto de vida nos jardins odoríficos? Quem atulhará a minha boca de pedras no coração do barro? A mim, lugar, quem me chorará os olhos apagados de Primavera? Quem me sepultará impuro no coração dos amieiros? E as madrugadas acordarão como se a aldeia não fosse o lugar bastante, o coração como a terra inclina o rosto à vida? A luz da chama? . Apesar de tudo continuam a existir as palavras fincadas aos pulmões que nos embebem medo ao rosto do coração. Abro a passagem e invado o teu espaço, aldeia. Palavras, memória, sopros, a frescura do mundo, um corpo, um outro espaço que irrompe da aldeia, das abrigadas ruas, da Rua da Fonte, do passado, de múltiplas e doídas constelações de outras existências, de outros sabores. E sou todas essas realidades inaudíveis, abertas, expostas, incompletas, em movimento por entre as humanas vozes que em mim florescem. Este ainda é o segredo que o amieiro me revelou.
Roxana Crisólogo (Peru), eu e o Zé Luis (Casino da Figueira da Foz).
O livro Lisbon Blues, do meu amigo e poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, é um dos candidatos ao "VII Prémio Portugal Telecom", destinado a livros em Língua Portuguesa publicados no Brasil em 2008. Este livro de José Luís Tavares, lançado na 8ª Bienal Internacional do Ceará, integra a colecção Ponte Velha (criada pelos poetas Carlos Nejar - Brasil e António Osório - Portugal) incluida na editora brasileira Escrituras. Em Maio, o livro deverá ser apresentado na Cidade da Praia. Refira-se que já em 2008, o Ministério da Educação Brasileiro atribuiu a José Luís Tavares o prémio "Literatura para Todos" pelo inédito "Os Secretos Acrobatas". É sem dúvida o merecido reconhecimento de um excelente poeta da língua portuguesa, um dos poetas aliás, que já hoje começa a ter uma das mais relevantes obras do panorama literário cabo-verdiano. De Lisbon Blueso seguinte poema:
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3. Quem te disse adeus quando a manhã se incendiou para o lado das searas? Mar ao fundo, pobre horizonte de turista, agora que a borrasca interdita o polimento da alma nas escadarias do passado
— fica o hálito, um rumor de véspera, que não chega para acender no coração o clarão da culpa, pois onde o látego é consorte e o desterrado sonha uma pátria improvável, não chegam dos deuses o juízo e o preceito.
Quem pode, caminha até ao largo onde o mundo arde em penas virtuais. Mas tu não precisas de razões para saber que nenhum cromado polimento ilude a tua salitrada vocação para a queda, desígnio que ombreia com o tremendo rasgão do vento desacoitando os óxidos embutidos à nascença.
Mesmo se tudo é cinza e passagem, a ti, negro lázaro, que para uma segunda morte hás-de nascer, oferto estes frutos do fraco engenho, mudável reflexo da vã alegria, fogo que ardesse do princípio ao fim do mundo. .............................José Luís Tavares In, Lisbon Blues, S. Paulo, 2008
Para os meus amigos italianos, em particular para todos os da cidade de Aquila e da região de Abruzzo, uma pequena (embora impotente) homenagem. Em nome de todos um poema "Enquanto o silênciodurar", traduzido pelo amigo Alberto Sismondini.
Mentre il silenzio perdura
Nel centro docile dell’attesa cattedrali sanguinano gli occhi mordenti la calma. E l’olio e il vino, sciolsero il seme in bozzoli dorati, che gli alberi fendettero. Il corpo, lo divorano i metalli incendiati nella danza dei polmoni, che bambini rinnegarono nell’eclissi. Forse nel marmo calcificato di promesse l’orto si purifichi, cercando nel candore della luce, il puro tatto dei suoni. E l’uomo strazia il respiro, lapidato nella saliva delle unghie, dove uccellini volano tra le dita curvate sul volto di acacie. Nel sale di questo pianto, l’apprendista segreto di sogni e luce. Su queste vetrate dal veder passar le parole, dalla polvere che si scuote, accetto il silenzio come un amante. ...............................................João Rasteiro In, Antologia Poesie Sulle Piastrelle - Zacem, 2001 ----------(Tradução:Alberto Sismondini) ...................................Pavarotti - Ave Maria (Schubert)
.......................RAFAEL (n. 6/04/1483 - m. 6/04/1520) - "Galatea"
XIV .tal como os fungos dos poços de jerusalém a memória sagrada das tábuas é uma crisálida indecisa que se perdeu para sempre no fundo inóspito do próprio ventre de bunho. e parte larva parte meretriz chegaram os novos seres para talhar as cidades em metálicos e encorpados pulmões de cobre. alguns homens que já só rastejam como as ofídias percorrem as cisternas em noites de lua cheia. o violento delírio de se verem reflectidos nos olhos da água. sob o nenúfar as suas escamas repousarão desinquietas pela última miragem. a outra face do pai que tecia argênteas teias de melancolia. é preciso recordar as prefigurações das trevas para se acolherem as metamorfoses. a benévola carícia. a ressurreição hodierna das crias. o eco colorido.
A obra de Agostinho da Silva estará em debate na sexta-feira no colóquio "O Legado de Agostinho da Silva: quinze anos após a sua morte" organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e em que participarão, entre outros, Adriano Moreira e António Braz Teixeira. Organizado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e pela Associação Agostinho da Silva, o colóquio tem agendadas diversas sessões ligadas aos estudos desenvolvidos pelo filósofo. Renato Epifânio, docente do Departamento de Filosofia da FLUL, parte da Direcção da Associação Agostinho da Silva e um dos organizadores do colóquio, reconheceu à Lusa a dificuldade em centrar o legado de Agostinho da Silva "num só campo". "Agostinho da Silva teve um pensamento complexo com múltiplas facetas", refere. Numa visão "mais pessoal", o docente descreve o "sentido de uma consciência lusófona" como o legado maior deixado pelos estudos de Agostinho da Silva, particularmente no que refere ao seu impacto enquanto "um dos mentores da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)". Agostinho da Silva, referenciado como um dos principais intelectuais portugueses do século XX, nasceu no Porto em 1906, tendo vindo a falecer em Lisboa em 1994, aos 88 anos de idade. O colóquio decorre a partir das 10h00 no Anfiteatro I da FLUL e terá ao longo do dia participações de Adriano Moreira, António Braz Teixeira, Paulo Borges e Manuel Ferreira Patrício, entre outros. - (Público Online)
Agostinho da Silva (n.13/2/1906; m.3/04/1994), filósofo, poeta e ensaísta português, é tido por muitos como o nome mais importante da segunda metade do século XX em Portugal - a primeira metade foi mesmo de Fernando Pessoa. Como referiu Romana Valente Pinho, "a idéia agostiniana de um homem em busca de seu próprio sentido e do sentido dos outros – sejam transcendentes ou não-, um “eu” que só é pleno e completo na e pela relação com o outro e disto, da consciência do “eu” através do “outro” (...) Desta “dialética das consciências” conclui-se que não vale a pena separar-se dos outros, pois tal cisão é a quebra do próprio ser. Em outras palavras, não há dialética das consciências sem pluralidade. E como afirmou o próprio Agostinho da Silva, "Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas". Um homem e essencialmente uma obra que Portugal tem de redescobrir e não deixar esquecer nos bosques da mediocridade que cada vez mais alastra e nos penetra. De mestre Agostinho da Silva,um poema:
Cérebro quando poesia .....................Tive de descrever a tua grandeza, ó meu cérebro, .....................corola macerada pelo poder da cultura. ................................Fiama Hasse Pais Brandão
.água poesia da largura em si mesmo a estuar o animal das línguas dos balidos como espáduas ambas em seu perfil único de margem flanco poesia outra para corpo,
coração do fragmento ao longo das lascas palavras nervura que se desfralda frontes o equilíbrio fugidio das actínias feições contra o pó poesia entre pedra e silêncio,
abelha ofusca desnuda sombra no tronco muro poesia ou hortos alvuras dos campos extensos um olhar do detrás pulsos de luz,
deus usurpando o verbo inicial de Platão espaço se pétalas e madrugada de astros geme a magnólia poema em murcha sílaba,
demónios nus do cosmos das comparações místicas chamas da barbárie a nova ordem no círculo aberto como se única contrição,
poesia flor - uma como cérebro do eco, poços ou uma força inacessível em secretos cicios, odores em distâncias mortas vincadas hélices,
centelhas nuas – mas que dobram áleas, poesia e nas costas do metal uma figura nova desova, animais que só procriam a activação das forças,
hoje, da não promessa pragas de eternidade sob o diluído âmago de profundos centros, a poesia de múltiplas mortes, gotas do renascer acto pó formas de fluidas formas da sentença – quando,
em si mesmo da largura poesia água – silêncio. João Rasteiro .................................Blind Zero -Tree
Eu, com Seamus Heaney, no Palácio de S. Marcos, após um "grandioso repasto" - 2004
O prémio Nobel de 1995, o irlandês Seamus Heaney acaba de receber o prémio David Cohen, atribuído de dois em dois anos a grandes nomes da literatura, como V.S. Naipaul (1993), Harold Pinter (1995) ou Doris Lessing (2001). Poeta presente em Coimbra, como figura principal dos V Encontros Internacionais de Poetas (2004), organizados de três em três anos pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi sem dúvida um dos mais "simples, gentis e disponíveis" dos poetas presentes, não parecendo a ninguém estarmos em presença de um Nobel da Literatura. Daí, ficar muito satisfeito por mais este importante prémio que lhe foi atribuído. Seamus Heaney é um poeta grandioso e magestoso como as sublimes planícies de seu país, é contado e cantador da área rural, dos dias nebulosos, da nostalgia familiar, dos antepessados, da visão arqueológica da própria Irlanda em sua magia, com muitas histórias, épicas ou não, para contar. Aliás, muitos de seus poemas são narrativos - alguns curtos, como A Musa Gutural; outros, mais longos, como a Ilha das Estações. Em baixo dois poemas:
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"O Fragmento"
"Veio a luz do oriente", cantava ele, "radiosa garantia de Deus, e as ondas aquietaram-se. Eu podia ver línguas de terra e rochedos acossados. Muitas vezes, pela coragem mostrada, o fado poupa o homem se não o marcou já."
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. E quando a objecção deles lhe foi dita - em especial que a sua obra se fizera em fragmentos, que já não podiam dizer onde estavam com ele, que já não distinguiam primeira linha ou última linha - respondeu com uma questão. "Desde quando", perguntou, a primeira e a última linha de qualquer poema são onde o poema principia e termina?"
Hoje é o dia mundial da poesia. Para assinalar o acto, a Fnac comemora-o em todas as suas lojas fazendo uma homenagem a vários poetas (cada loja fnac homenageará um poeta), tais como, Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Mário Cesariny, António Aleixo, etc. Em Coimbra, o poeta homenageado será Fernando Assis Pacheco. Para tal acção foi convidada a Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que também aproveitará para lançar os dois últimos números da sua revista. Assim, lá estarei com mais alguns membros da Oficina de Poesia para lermos poesia e bebermos um copo com quem aparecer. São todos bem vindos. Lá vos esperamos pelas 21h30. Apareçam! A Profissão Dominante . Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual
. de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical-
. receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
.................................Fernando Assis Pacheco In, A Musa Irregular, 1996
António Nobre: n.16/08/1867 - m. 18/03/1900 MEMÓRIA
Aquele que partiu no brigue Boa Nova E na barca Oliveira, anos depois, voltou; Aquele santo (que é velhinho e lá corcova) Uma vez, uma vez, linda menina amou: Tempos depois, por uma certa lua-nova, Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou, Mas ela disse: – «Vou, ali adiante, à Cova, António, e volto já...» E ainda não voltou! António é vosso. Tomai lá a vossa obra! «Só» é o poeta-nato, a lua, o santo, o cobra! Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever... Lede-o e vereis surgir do Poente as idas mágoas, Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas, E sobe aos alcantis para o tornar a ver! . ...................ZECA AFONSO-Do choupal até à Lapa
...........................................Susanne S. D. Themlitz
Luz . A luz que aflui errática das pedras e anuncia o dia na chama dos corpos derretendo o aço que nos corta procura um ninho por entre as mãos e ramifica-se linguagem entre os dedos. . Na perfeição da luz está a poeira no fundo um templo ou uma garganta a sombra desfocada em que nos projectamos o silêncio alumbrado em suas formas nuas, . adiro dobrado ao grande segredo da luz e desenho sobre ela as veias que vão doendo.
João Rasteiro
In, No Centro do Arco- 2003
.........Vinicius de Moraes- Pela Luz dos Olhos Teus
A minha falta de disponibilidade em participar na "Colectiva" do Jornal VAGALUME, dedicada ao poeta Carlos Felipe Moisés, não tendo por isso respondido ao convite da Cida Sepúlveda, fazem-me pedir desculpas aos dois, publicando do meu amigo Carlos Felipe Moisés o poema "Lagartixa", poema que me faz recordar os bons tempos que passámos em 2004 durante os V Encontros Internacionais de Poetas, realizados em Coimbra desde 1992, pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Universidade de Coimbra.
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Lagartixa
O peito é de vidro. Os olhos, porcelana delicada e astuta. Da língua escorre o néctar sutil. As patas são de estanho, mas sabem se mover imóveis: mal flutuam. O ventre é quase nada, pura transparência onde se escondem o dorso e seus andaimes. Não tem entranhas. A pele de tão fina já não é: ..........limita semovente o nada de fora e o quase nada de dentro. .
. O peito é de vidro mas às vezes se desmancha em pétalas. Dentro pulsa um coração que imobiliza tudo em torno. O rabo, sim, é feito de algo insuspeitado: ........nuvem .........algas milhares de roldanas ........e desejos enrodilhados na engrenagem que espaneja o chão .......e foge para o céu aberto. Carlos Felipe Moisés
................................................HUMANOS---Quero é viver
É assim o corpo: como as rosas do metal em peso sobre as bocas, sangrando devagar, gota a gota, apocalíptico, inesgotável espaço pulmonar, sílaba a sílaba como a sagrada perfuração dos espinhos. O estilo de cantar a fervura das águas, as gigantes sequóias e o esquivo beija-flor, correspondências ébulas que visam só uma inviolável e amorosa esfera de linguagem nua em suas espécies de verbo, seu eco de carmesim como teorema biológico: poesia.
Pétalas negras de dialecto infinito: natureza e desejo de constelações, o gerânio e a libélula, as crias fervilhando inscritas com os sexos dentro do movimento, a percussão violenta e obsessiva da antecipação das veias, o génesis das fendas sob a palavra centrífuga. E, para além das chuvas, o corpo aberto para quem se afoitar no murmúrio dos inclassificáveis, nessa ixicial geografia de oiro onde se ocultam o bdélio e a pedra de ónix. E há a criança-magnólia de um poema em seu sal único: ressureição.
E se os lamentos das aves sobre a arte das anopsias que cobrem a luz dos abismos avivam a elisão da caligrafia branca dos afectos, corpo e poema, sós em seu coito: If you`ll believe in me, I´ll believe in you. Is that a bargain? João Rasteiro . Hoje é o dia mundial da mulher. A minha simples homenagem é feita com a extraordinária canção do Chico, Geni e o Zeplim. ............................"Geni e o Zepelim" -Chico Buarque
O poeta brasileiro e co-editor da CRONÓPIOS, Edson Cruz, tem estado a questionar uma série de poetas, colocando-lhe três "simples" questões que coloca no blogue "SAMBAQUIS", facto que deverá dar origem a um livro organizado por si. As minhas respostas, actualmente no "ar", podem ser lidas na íntegra em:http://sambaquis.blogspot.com/ . O que é a poesia para você? .
Na juventude era sobretudo estranhamento, depois passou a ser brincadeira e prosápia, só que agora é medo e sofrimento. Poderia talvez dizer que a poesia é. Talvez substanciá-la como espanto e descoberta, caos e criação, vida e morte, verbo e substantivo. Poderia até dizer que a poesia é o lugar mais recôndito e primordial da alucinada linguagem em seus mundos e corpus de perplexidade. Poderia talvez, como refere Herberto Helder, dizer que ela é (...)
. O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de maneira? .
Ousar pensar/sonhar a palavra outra, a transgressão outra, a linguagem outra. E naturalmente deverá ler, ler, ler – ler incessantemente. Depois, escrever, escrever, escrever – escrever/ver/reescrever/ser. Até se viciar(...)
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Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. .
Por que destas escolhas?Afinal são duas perguntas numa só. Apontar três poetas é tão difícil como apontar um, seis ou até nove – Homero, Dante, Shakespeare, Camões, Rilk, Lorca, Pound, Breton ou Kavafis. E no entanto atrevo-me, embora por múltiplas e variadas razões, a apontar os seguintes poetas:(...)
Dorme que eu velo Sedutora imagem Terna miragem ................................ Nada em mim é risonho Ou anseia viagem. Quero-te para sonho Não para gozo e dor. . Tua carne psalma Fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços Nem quero ter nos braços ............................................ Dorme, filha, dorme, Vaga em teu sorrir. Sonho-te tão bem Que o corpo me vem E me venho sem ir. Mário Cesariny
Respiro e escrevo silêncio no acto de escrever e silêncio até à distância extrema e na língua o silêncio ferve a grande terra da garganta branca lâmina e dedos quase míticos a líquida frescura dos golfos onde se renovam os silêncios sob a cúpula acolhedora do sangue o excesso do corpo dos mortos o silêncio que se deixa respirar. João Rasteiro .................................Buena Vista Social Club
José Afonso: Aveiro, 2/08/1929 — Setúbal, 23/02/1987 Que amor não me engana . Que amor não me engana Com a sua brandura Se de antiga chama Mal vive a amargura . Duma mancha negra Duma pedra fria Que amor não se entrega Na noite vazia . E as vozes embarcam Num silêncio aflito Quanto mais se apartam Mais se ouve o seu grito . Muito à flor das águas Noite marinheira Vem devagarinho Para a minha beira . Em novas coutadas Junto de uma hera Nascem flores vermelhas Pela Primavera . Assim tu souberas Irmã cotovia Dizer-me se esperas O nascer do dia José Afonso
António Ramos Rosa é candidato à 18º edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, um dos galardões literários de maior prestígio no espaço hispânico. Já no ano passado, a SPA apresentara a candidatura de A. Ramos Rosa ao prémio, (facto inédito, a candidatuta dois anos seguidos do mesmo poeta) que tem a dotação pecuniária de 42100 euros. Prémio que apenas foi ganho uma vez por um(a) português(a), Sophia de Mello Breyner Andresen na edição de 2003. Sendo um dos mais prestigiados prémios literários, pretende distinguir o conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor e impacto literário, constitua uma contribuição extremamente relevante para o património literário e cultural, partilhado por toda a comunidade ibero-americana. Poetas como Antonio Gamoneda, Mario Benedetti ou João Cabral de Melo Neto (para além de Sofia) já conquistaram o prémio.
Estou vivo e escrevo sol
Eu escrevo versos ao meio-dia e a morte ao sol é uma cabeleira que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo Estou vivo e escrevo sol Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam no vazio fresco é porque aboli todas as mentiras e não sou mais que este momento puro a coincidência perfeita no acto de escrever e sol A vertigem única da verdade em riste a nulidade de todas as próximas paragens navego para o cimo tombo na claridade simples e os objectos atiram suas faces e na minha língua o sol trepida Melhor que beber vinho é mais claro ser no olhar o próprio olhar a maravilha é este espaço aberto a rua um grito a grande toalha do silêncio verde. António Ramos Rosa ............................................The Animals-House of the Rising Sun
..........................................Alfredo Luz O corpo profuso flutua incendiado como os tendões duros da terra, eu sigo o eco da maturação perfeita, um círculo fechado no halo dos enigmas que ignora a extensão da sua teia púrpura
(...)
Há bocas cheias de secretos signos que a água não escondeu dentro do fogo mães rasgando um lento solo sagrado
(...)
Olho os favos de mel da idade inicial o lugar em que se simula a ressurreição e as veias são um rastro de estrela.
Raúl Perez, aqui em amena conversa, comigo e com o pintor Seixas Peixoto, durante a inauguração da exposição "A Voz dos Espelhos", Amadora/08, nasceu em Lovelhe-Minho em 1944. Realizou a sua 1º exposição individual em 1972 a convite de Cruzeiro Seixas. Depois de em 1973 integrar o Movimento Phases, expôs em vários locais, quer em Portugal, quer no estrangeiro, tendo ao longo dos anos integrado algumas das mais importantes exposições do surrealismo internacional, mesmo recusando-se a integrar explicitamente um movimento artístico, partido, clube ou religião. A sua pintura, ditada essencialmente pelo automatismo, cria uma imagética organicista e contagiante de seres híbridos, de contornos moles e ondulantes, em áridas arquitecturas e crepusculares ambientes metafísicos (Gonçalves & Cuadrado, 2004). É sem dúvida hoje, um dos mais importantes pintores portugueses contemporâneos.
O Museu Colecção Berardo apresenta a maior exposição de sempre do pintor Raúl Perez-Cerca de 90 desenhos e pinturas criadas entre 1960 e 2008 por Raúl Perez vão ser apresentados segunda-feira no Museu Colecção Berardo, naquela que é a maior exposição de sempre dedicada ao universo plástico deste artista português."Raúl Perez - Desenho e Pintura" será apresentada em colaboração com a Fundação Cupertino de Miranda, com sede em Famalicão, onde, em 2006, o pintor de 64 anos apresentou uma outra exposição com cerca de setenta obras. Foi a partir dessa exposição que decidiu fazer uma mais alargada, com uma selecção de obras "mais apurada", totalmente dedicada a uma fase iniciada a partir dos anos 1960, explicou Raúl Perez em entrevista à Lusa a poucos dias da inauguração. (In, Público).
Em sua homenagem, um poema de Mário Cesariny, um pintor e poeta que sempre admirou.
Crateras de pedra acesa ...........................A Jesús Hilário Tundidor
Deves ser a derradeira cidade dos primitivos animais doirados que aspergiam a pedra do interior dos pulmões as bárbaras vísceras do Minotauro na polpa crua que se adoça em minha fronte, . como o seixo que se desabrocha puro do âmago corrompido da terra trepando para beber a sede irada do Tormes e em seu flanco esperar pelo sol que fulge o fogo. . Procuras a deflagração ao centro, um modo de te amar as crias dentro do tempo aonde se ampara o precipício imediato da sílaba. .............................................João Rasteiro . JOSÉ CARRERAS -GLORIA (MISA CRIOLLA)
Foi editada recentemente a antologia "Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano", 365 poemas de amor escritos por 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares. A recolha, selecção e organização foi efectuada pela Inês Ramos e inclui prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. A obra conta com nomes variados, portugueses e estrangeiros, poetas com obra e nome já "feito" e também com poetas menos reconhecidos, ou menos visíveis, mas que no seu conjunto contribuem para um belo livro de poesia. A antologia conta com nomes como, António Ramos Rosa (Portugal), Affonso Romano de Sant'Anna (Brasil), Luís de Camões (Portugal), Almeida Garrett (Portugal), Al-Mu’tamid (Alandalus), Bocage (Portugal), D. Dinis (Portugal), Daniel Faria (Portugal), Dante Alighieri (Florença), Emily Dickinson (EUA), Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal), Nuno Júdice (Portugal), Gabriela Rocha Martins (Portugal), etc. E é da Gabriela R. Martins o poema que se segue e incluido na antologia, até porque sem falso pudor, me sinto bastante lisonjeado por o poema me ser dedicado.
-O Caçador.Cativo ............................ao João Rasteiro
.
haviam.se em vão procurado nas cidades
.
percorrera continentes
quando desistira
encontrara.se solto no ritmo lento
de uma valsa
dançada em contra.mão
.
desintegrado
.
sentira as ondulações das cearas
que cearara em dança lenta
regressara estranho às recordações de antanho
antanho era a linguagem de seus avós
.
havia crescido junto à terra gretada
pela fome das manhãs abertas
desde cedo havia sentido a boca
apagada de desejo de terra pão
fustigada pelo vento
.
havia pulado a cerca
construída sobre os dias
como as copas das árvores que
costumava ouvir à noite entregue
aos seus passos de caçador furtivo
fora numa dessas deambulações que a encontrara
solta
aproximou.se
ela a medo levantou as asas
no voo ferido
.
soltou os cães
ficou suspenso à dança do animal
em voo
primeiro raso
depois mais alto
arribando em direcção ao mundo
em tons de mel
engrossou o batimento das asas
ao som da pressa
do homem / caçador / cativo
daquele voar
enquanto filados
os cães esperavam a voz de comando
.
ele muito aquém da aventura
seguia.lhe o volteio
o silêncio da terra era o elo que os unia
.
ele o caçador cativo
ela solta à migração
.
o desejo deixava.os sob um manto de horas
semeadas a esmo
que estranho aquele olhar que
se projectava na mira do caçador
tornando.a vulnerável ao cúmplice
jogo do agarra e foge
ele o enfabulador
regressava caçador
ela de asas fechadas
pronta a deixar.se prender
olhou.o
ele viu.se
projectado no olhar em flash . uma ave / dona.
Gabriela Rocha Martins .............................."Dancemos no Mundo" -Sérgio Godinho
"Hilda Hilst, uma das maiores escritoras brasileiras e falo escritor, do porte de uma Clarice Lispector sem desmerecer Guimarães Rosa , foi uma mulher muito injustiçada. Dona de um estilo único, ela nunca teve no grande público a repercussão que merecia (...)Morreu na solidão e morreu na incompreensão.". - Ignácio de Loyola Brandão da morte. odes mínimas . Teu nome é Nada. Um sonhar o Universo No pensamento do homem: Diante do eterno, nada. . Morte , teu nome. Um quase chegar perto. Um pouco mais (me dizem) E terias o Todo no teu gesto. Um pouco mais, tu O terias visto. . Teu nome é Nada. Haste, pata. Sem ponta, sem ronda. Um pensar duas palavras diante da Graça: Terias tido. . Árias Pequenas. Para Bandolim . Antes que o mundo acabe, Túlio, Deita-te e prova Esse milagre do gosto Que se fez na minha boca Enquanto o mundo grita Belicoso. E ao meu lado Te fazes árabe, me faço israelita E nos cobrimos de beijos E de flores . Antes que o mundo se acabe Antes que acabe em nós Nosso desejo. . Via Vazia VIII . Descansa. O Homem já se fez O escuro cego raivoso animal Que pretendias.
Hilda Hilst - A sublime SenhoraH. - Música de Mallu Magalhães
Respondendo ao excelente repto da Gabriela Rocha Martins (Blogue: .canto.chão.), transcrevo a 6º linha, da página 161 da obra "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, 3º Edição, 1970, a partir da qual "saiu" o poema que se segue - "Pequena oração para uma geografia familiar". Eu também irei lançar os meus reptos.
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........"Era uma velha mãe em fundo de jarrão verde com (...)"
Pequena oração para uma geografia familiar
Esperava cobrir a terra novamente de júbilo ser oferenda madura como uma tâmara imitando a densa voracidade de uma velha mãe que intransigente é o arco de si própria mas tu estarás pomar em fundo de jarrão verde dobrado sobre a dilatação das casas acesas anteriores ao fogo louco da sílaba. . E sei que há um silêncio de primaveras negras e digo que todo o amor é uma abóbada de pequenos vulcões que adormecem junto ao barro morrendo entre lírios e chuva regeneradora e vejo o odor maternal fundir barro e cor corpos metidos em conchas verdes sob o coração. . Mas tu, ó relâmpago que esmagas a prumo fundo a luz arrancada das ciladas nocturnas, ó cometa obscuro atravessado por dentro do milagre? . Do lugar circunscrito às talhas espero a obra cega no segredo da traqueia das mulheres que criam nas cisternas mais fundas sob o verde puro da laranjeira uma ave-maria como uma desmesurada boca viva uma velha geografia - a força magnética da criação dobrada em si mesma por doces lágrimas envelhecidas. João Rasteiro ..............................Pink Floyd - Mother