quinta-feira, 12 de março de 2009

RETRATOS

A minha falta de disponibilidade em participar na "Colectiva" do Jornal VAGALUME, dedicada ao poeta Carlos Felipe Moisés, não tendo por isso respondido ao convite da Cida Sepúlveda, fazem-me pedir desculpas aos dois, publicando do meu amigo Carlos Felipe Moisés o poema "Lagartixa", poema que me faz recordar os bons tempos que passámos em 2004 durante os V Encontros Internacionais de Poetas, realizados em Coimbra desde 1992, pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Universidade de Coimbra.
.
Lagartixa

O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina já não é:
..........limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada de dentro.
.

.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo insuspeitado:
........nuvem
.........algas
milhares de roldanas
........e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
.......e foge
para o céu aberto.
Carlos Felipe Moisés

................................................HUMANOS --- Quero é viver

http://www.revista.agulha.nom.br/cfm.html

http://fotoseliteratura.blogspot.com/2007/11/joo-rasteiro-mrio-lcio-de-sousac.html

http://www.cidasepulveda.com/5201.html

domingo, 8 de março de 2009

Rotas Reinventadas

tratado das veias

É assim o corpo:
como as rosas do metal
em peso sobre as bocas, sangrando devagar,
gota a gota, apocalíptico, inesgotável espaço
pulmonar, sílaba a sílaba como a sagrada perfuração
dos espinhos. O estilo de cantar
a fervura das águas, as gigantes sequóias e
o esquivo beija-flor,
correspondências ébulas
que visam
só uma inviolável e amorosa esfera
de linguagem
nua em suas espécies de verbo,
seu eco de carmesim como teorema biológico:
poesia.


Pétalas negras de dialecto infinito:
natureza e desejo
de constelações, o gerânio e a libélula,
as crias fervilhando inscritas
com os sexos dentro do movimento,
a percussão violenta e obsessiva
da antecipação das veias, o génesis das fendas
sob a palavra centrífuga.
E, para além das chuvas,
o corpo aberto para quem se afoitar no murmúrio
dos inclassificáveis,
nessa ixicial geografia de oiro
onde se ocultam o bdélio e a pedra de ónix.
E há a criança-magnólia de um poema em seu sal único:
ressureição.


E se os lamentos das aves sobre a arte das anopsias
que cobrem a luz dos abismos
avivam a elisão da caligrafia branca
dos afectos, corpo e poema, sós em seu coito:
If you`ll believe in me, I´ll believe in you. Is that a bargain?
João Rasteiro
.
Hoje é o dia mundial da mulher. A minha simples homenagem é feita com a extraordinária canção do Chico, Geni e o Zeplim.
............................"Geni e o Zepelim" - Chico Buarque

quarta-feira, 4 de março de 2009

POESIA...?

O poeta brasileiro e co-editor da CRONÓPIOS, Edson Cruz, tem estado a questionar uma série de poetas, colocando-lhe três "simples" questões que coloca no blogue "SAMBAQUIS", facto que deverá dar origem a um livro organizado por si. As minhas respostas, actualmente no "ar", podem ser lidas na íntegra em: http://sambaquis.blogspot.com/
.
O que é a poesia para você?
.
Na juventude era sobretudo estranhamento, depois passou a ser brincadeira e prosápia, só que agora é medo e sofrimento. Poderia talvez dizer que a poesia é. Talvez substanciá-la como espanto e descoberta, caos e criação, vida e morte, verbo e substantivo. Poderia até dizer que a poesia é o lugar mais recôndito e primordial da alucinada linguagem em seus mundos e corpus de perplexidade. Poderia talvez, como refere Herberto Helder, dizer que ela é (...)
.
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de maneira?
.
Ousar pensar/sonhar a palavra outra, a transgressão outra, a linguagem outra. E naturalmente deverá ler, ler, ler – ler incessantemente. Depois, escrever, escrever, escrever – escrever/ver/reescrever/ser. Até se viciar(...)
.
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético.
.
Por que destas escolhas?Afinal são duas perguntas numa só. Apontar três poetas é tão difícil como apontar um, seis ou até nove – Homero, Dante, Shakespeare, Camões, Rilk, Lorca, Pound, Breton ou Kavafis. E no entanto atrevo-me, embora por múltiplas e variadas razões, a apontar os seguintes poetas:(...)
.
.........................La poesia es... - Paco Ibañez


http://sambaquis.blogspot.com/
http://www.cronopios.com.br/site/default.asp
http://www.germinaliteratura.com.br/ecruz.htm

domingo, 1 de março de 2009

PORNOCRACIA

Gustave Courbet (A Origem do Mundo)

Dorme que eu velo
Sedutora imagem
Terna miragem
................................
Nada em mim é risonho
Ou anseia viagem.
Quero-te para sonho
Não para gozo e dor.
.
Tua carne psalma
Fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços
Nem quero ter nos braços
............................................
Dorme, filha, dorme,
Vaga em teu sorrir.
Sonho-te tão bem
Que o corpo me vem
E me venho sem ir.
Mário Cesariny

.....Pedro Abrunhosa & Bandemónio - Talvez Foder

http://jn.sapo.pt/Domingo/Interior.aspx?content_id=1157101

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/cesariny.html

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Distâncias

A geometria do silêncio

Respiro e escrevo silêncio
no acto de escrever e silêncio
até à distância extrema
e na língua o silêncio ferve
a grande terra da garganta branca
lâmina e dedos quase míticos
a líquida frescura dos golfos
onde se renovam os silêncios
sob a cúpula acolhedora do sangue
o excesso do corpo dos mortos
o silêncio que se deixa respirar.
João Rasteiro
.................................Buena Vista Social Club

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

José Afonso - Agora e Sempre !

José Afonso: Aveiro, 2/08/1929 — Setúbal, 23/02/1987
Que amor não me engana
.
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
.
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
.
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
.
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
.
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
.
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
José Afonso

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Poesia Verde

António Ramos Rosa é candidato à 18º edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, um dos galardões literários de maior prestígio no espaço hispânico. Já no ano passado, a SPA apresentara a candidatura de A. Ramos Rosa ao prémio, (facto inédito, a candidatuta dois anos seguidos do mesmo poeta) que tem a dotação pecuniária de 42100 euros. Prémio que apenas foi ganho uma vez por um(a) português(a), Sophia de Mello Breyner Andresen na edição de 2003. Sendo um dos mais prestigiados prémios literários, pretende distinguir o conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor e impacto literário, constitua uma contribuição extremamente relevante para o património literário e cultural, partilhado por toda a comunidade ibero-americana. Poetas como Antonio Gamoneda, Mario Benedetti ou João Cabral de Melo Neto (para além de Sofia) já conquistaram o prémio.
Estou vivo e escrevo sol


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.
António Ramos Rosa
............................................The Animals - House of the Rising Sun

http://www.triplov.com/poesia/ramos_rosa/index.htm
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1366039&idCanal=14
http://www.ucm.es/info/especulo/numero33/aramosro.html

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PAISAGENS


..........................................Alfredo Luz
O corpo profuso flutua incendiado
como os tendões duros da terra,

eu sigo o eco da maturação perfeita,
um círculo fechado no halo dos enigmas
que ignora a extensão da sua teia púrpura

(...)

Há bocas cheias de secretos signos
que a água não escondeu dentro do fogo
mães rasgando um lento solo sagrado

(...)

Olho os favos de mel da idade inicial
o lugar em que se simula a ressurreição
e as veias são um rastro de estrela.

João Rasteiro - In, Os Cílios Maternos, 2005

............................................Joan Baez - Diamonds & Rust

sábado, 14 de fevereiro de 2009

RAUL PEREZ - "sem título"

Raúl Perez, aqui em amena conversa, comigo e com o pintor Seixas Peixoto, durante a inauguração da exposição "A Voz dos Espelhos", Amadora/08, nasceu em Lovelhe-Minho em 1944. Realizou a sua 1º exposição individual em 1972 a convite de Cruzeiro Seixas. Depois de em 1973 integrar o Movimento Phases, expôs em vários locais, quer em Portugal, quer no estrangeiro, tendo ao longo dos anos integrado algumas das mais importantes exposições do surrealismo internacional, mesmo recusando-se a integrar explicitamente um movimento artístico, partido, clube ou religião. A sua pintura, ditada essencialmente pelo automatismo, cria uma imagética organicista e contagiante de seres híbridos, de contornos moles e ondulantes, em áridas arquitecturas e crepusculares ambientes metafísicos (Gonçalves & Cuadrado, 2004). É sem dúvida hoje, um dos mais importantes pintores portugueses contemporâneos.
O Museu Colecção Berardo apresenta a maior exposição de sempre do pintor Raúl Perez - Cerca de 90 desenhos e pinturas criadas entre 1960 e 2008 por Raúl Perez vão ser apresentados segunda-feira no Museu Colecção Berardo, naquela que é a maior exposição de sempre dedicada ao universo plástico deste artista português."Raúl Perez - Desenho e Pintura" será apresentada em colaboração com a Fundação Cupertino de Miranda, com sede em Famalicão, onde, em 2006, o pintor de 64 anos apresentou uma outra exposição com cerca de setenta obras. Foi a partir dessa exposição que decidiu fazer uma mais alargada, com uma selecção de obras "mais apurada", totalmente dedicada a uma fase iniciada a partir dos anos 1960, explicou Raúl Perez em entrevista à Lusa a poucos dias da inauguração. (In, Público).
Em sua homenagem, um poema de Mário Cesariny, um pintor e poeta que sempre admirou.
"Eu, Sempre..."
.
Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
Mário Cesariny
.........................................Madredeus - "Silêncio"

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1365058&idCanal=14

http://www.timeout.pt/news.asp?id_news=3017

http://www.museuberardo.com/

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A idade do homem


Crateras de pedra acesa
...........................A Jesús Hilário Tundidor

Deves ser a derradeira cidade
dos primitivos animais doirados
que aspergiam a pedra do interior dos pulmões
as bárbaras vísceras do Minotauro
na polpa crua que se adoça em minha fronte,
.
como o seixo que se desabrocha puro
do âmago corrompido da terra
trepando para beber a sede irada do Tormes
e em seu flanco esperar pelo sol que fulge o fogo.
.
Procuras a deflagração ao centro,
um modo de te amar as crias dentro do tempo
aonde se ampara o precipício imediato da sílaba.
.............................................João Rasteiro
.
JOSÉ CARRERAS - GLORIA (MISA CRIOLLA)

.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Salamanca
http://images.google.pt/images?hl=pt-PT&q=salamanca&um=1&ie=UTF-8&ei=VzmTSYX1F5WN-gaqxemJCw&sa=X&oi=image_result_group&resnum=5&ct=title

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os dias do amor

Foi editada recentemente a antologia "Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano", 365 poemas de amor escritos por 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares. A recolha, selecção e organização foi efectuada pela Inês Ramos e inclui prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. A obra conta com nomes variados, portugueses e estrangeiros, poetas com obra e nome já "feito" e também com poetas menos reconhecidos, ou menos visíveis, mas que no seu conjunto contribuem para um belo livro de poesia. A antologia conta com nomes como, António Ramos Rosa (Portugal), Affonso Romano de Sant'Anna (Brasil), Luís de Camões (Portugal), Almeida Garrett (Portugal), Al-Mu’tamid (Alandalus), Bocage (Portugal), D. Dinis (Portugal), Daniel Faria (Portugal), Dante Alighieri (Florença), Emily Dickinson (EUA), Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal), Nuno Júdice (Portugal), Gabriela Rocha Martins (Portugal), etc. E é da Gabriela R. Martins o poema que se segue e incluido na antologia, até porque sem falso pudor, me sinto bastante lisonjeado por o poema me ser dedicado.
-O Caçador.Cativo
............................ao João Rasteiro
.
haviam.se em vão procurado nas cidades
.
percorrera continentes
quando desistira
encontrara.se solto no ritmo lento
de uma valsa
dançada em contra.mão
.
desintegrado
.
sentira as ondulações das cearas
que cearara em dança lenta
regressara estranho às recordações de antanho
antanho era a linguagem de seus avós
.
havia crescido junto à terra gretada
pela fome das manhãs abertas
desde cedo havia sentido a boca
apagada de desejo de terra pão
fustigada pelo vento
.
havia pulado a cerca
construída sobre os dias
como as copas das árvores que
costumava ouvir à noite entregue
aos seus passos de caçador furtivo
fora numa dessas deambulações que a encontrara
solta
aproximou.se
ela a medo levantou as asas
no voo ferido
.
soltou os cães
ficou suspenso à dança do animal
em voo
primeiro raso
depois mais alto
arribando em direcção ao mundo
em tons de mel
engrossou o batimento das asas
ao som da pressa
do homem / caçador / cativo
daquele voar
enquanto filados
os cães esperavam a voz de comando
.
ele muito aquém da aventura
seguia.lhe o volteio
o silêncio da terra era o elo que os unia
.
ele o caçador cativo
ela solta à migração
.
o desejo deixava.os sob um manto de horas
semeadas a esmo
que estranho aquele olhar que
se projectava na mira do caçador
tornando.a vulnerável ao cúmplice
jogo do agarra e foge
ele o enfabulador
regressava caçador
ela de asas fechadas
pronta a deixar.se prender
olhou.o
ele viu.se
projectado no olhar em flash
.
uma ave / dona.
Gabriela Rocha Martins
.............................."Dancemos no Mundo" - Sérgio Godinho

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

LIVRE para fracassar...

Hilda Hilst: n.21/04/1930 - m.04/02/2004

"Hilda Hilst, uma das maiores escritoras brasileiras e falo escritor, do porte de uma Clarice Lispector sem desmerecer Guimarães Rosa , foi uma mulher muito injustiçada. Dona de um estilo único, ela nunca teve no grande público a repercussão que merecia (...)Morreu na solidão e morreu na incompreensão.". - Ignácio de Loyola Brandão
da morte. odes mínimas
.
Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.
.
Morte , teu nome.
Um quase chegar perto.
Um pouco mais (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mais, tu O terias visto.
.
Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.
.
Árias Pequenas. Para Bandolim
.
Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
.
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
.
Via Vazia VIII
.
Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

Hilda Hilst - A sublime Senhora H. - Música de Mallu Magalhães

http://hildahilst.cjb.net/

http://www.youtube.com/watch?v=f06OE-1_R8E&feature=related

http://www.hildahilst.com.br/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst

http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2004/not20040204p4461.htm

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Repto

Respondendo ao excelente repto da Gabriela Rocha Martins (Blogue: .canto.chão.), transcrevo a 6º linha, da página 161 da obra "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, 3º Edição, 1970, a partir da qual "saiu" o poema que se segue - "Pequena oração para uma geografia familiar". Eu também irei lançar os meus reptos.
.
........"Era uma velha mãe em fundo de jarrão verde com (...)"


Pequena oração para uma geografia familiar

Esperava cobrir a terra novamente de júbilo
ser oferenda madura como uma tâmara
imitando a densa voracidade de uma velha mãe
que intransigente é o arco de si própria
mas tu estarás pomar em fundo de jarrão verde
dobrado sobre a dilatação das casas acesas
anteriores ao fogo louco da sílaba.
.
E sei que há um silêncio de primaveras negras
e digo que todo o amor é uma abóbada
de pequenos vulcões que adormecem junto ao barro
morrendo entre lírios e chuva regeneradora
e vejo o odor maternal fundir barro e cor
corpos metidos em conchas verdes sob o coração.
.
Mas tu, ó relâmpago que esmagas a prumo fundo
a luz arrancada das ciladas nocturnas,
ó cometa obscuro atravessado por dentro do milagre?
.
Do lugar circunscrito às talhas espero a obra
cega no segredo da traqueia das mulheres que criam
nas cisternas mais fundas sob o verde puro da laranjeira
uma ave-maria como uma desmesurada boca viva
uma velha geografia - a força magnética da criação
dobrada em si mesma por doces lágrimas envelhecidas.
João Rasteiro
..............................Pink Floyd - Mother

http://cantochao.blogspot.com/

http://sulmoura.blogspot.com/

http://romadevidro.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Rotas Reinventadas

.........................................Miguel Carvalho................................
A visita do amor que não virá

Acerca do lírico amor obscuro
de mim o tempo acúleo cogitava
a morte inclinada em contrição
na geometria mais invisível ele
o rosto oxidado na cegueira fincada
a cítara dos acesos sexos lascados
os clarões do crime nas máscaras
bebendo a luz dos prodígios em bocas
líquidas sementes do cordeiro de deus
sangram os espinhos da ácida língua.

*
Não há lugares profusos nos alfabetos
a paisagem dos acasos - nos corações
transbordam vertiginosas superfícies
as tecedeiras sobre o linho respirando
inversas – o âmago do mistério da voz.

*

- Um dia alguém terá nos dentes lágrimas vivas.

João Rasteiro - In, Se a boca virar faca cortará os lábios (inédito)
.
..............................."A gente vai continuar" - Jorge Palma

sábado, 24 de janeiro de 2009

QUASI, Quasi, quasi...

Já foi tornada pública a lista dos 12 livros finalistas, candidatos ao Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas. O evento vai decorrer entre os dias 11 e 14 de Fevereiro de 2009. A eleição do poeta dos poetas relativo à presente edição está quase a chegar e sairá das seguintes obras:

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• Gastão Cruz, A Moeda do Tempo, Assírio e Alvim
• Nuno Júdice, As Coisas Mais Simples, Dom Quixote
• José Agostinho Baptista, Filho Pródigo, Assírio e Alvim
• Maria Teresa Horta, Inquietude, Quasi
• Jorge Gomes Miranda, O Acidente, Assírio e Alvim
• Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês, Assírio e Alvim
• José Rui Teixeira, Oráculo, Quasi
• António Cícero, A Cidade dos Livros, Quasi
• Eucanaã Ferraz, Rua do Mundo, Quasi
• Eduardo White, Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva, Campo das Letras
• Antonio Gamoneda, Descrição da Mentira, Quasi
• A.M. Pires Cabral, As Têmporas da Cinza, Cotovia

Um pequeno trecho da obra finalista, "Oráculo" de José Rui Teixeira:
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Quando eu era criança anoitecia
sobre a verdade intrínseca de haver ruas
pequenas e horizontes pequenos no fundo
das ruas. Os velhos sentavam-se na soleira
da porta nas noites de verão e as raparigas
sangravam demoradamente o calor
para dentro dos pulmões e cresciam-lhes
os seios, e fechavam-se em casa. Quando eu
era criança a minha mãe pousava na superfície
do outono como um anjo ferido.
.................................A Naifa - Desfolhada

http://www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas

http://www.pnetliteratura.pt/noticia.asp?id=3785

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SAUDADE(S)


A tumba do poeta - Rik Lina
Fiama Hasse Pais Brandão - (n.15/08/1938-m.19/01/2007)
.
Espaços
Todas as coisas e seres
são dados aos poemas e exigem estar.
Próximas paisagens distantes,
seres presentes.
Entre o aparo e a escrita.
Próxima, não a respiração
mas a presentificação das coisas,
infindos riscos.

.
Nessa parede verde da hera
Nessa parede verde da hera

o teu rosto cada vez ganha mais forma,
entre as mãos de verdura estendidas
aos ventos que as dobram e movem.
.
Quando te vejo na luz ou nessa sombra
estar vago e ser tão próximo,
só tu sendo não sabes onde te vejo,
só eu muda não digo onde te guardo.
Fiama Hasse Pais Brandão
..........................///.....................................
João Aguardela - (n.1969-m.18/01/2009)
...................................SITIADOS - Esta vida de marinheiro

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

LUZ

No próximo fim de semana estarei no Algarve, mais concretamente em Lagoa, onde irei efectuar uma leitura de poesia englobada na inauguração da exposição internacional "Iluminações Descontínuas" - surrealismo actual. A inauguração da exposição acontecerá pelas 17h00, sábado 17 de Janeiro e estará em exibição na Sala de Exposições Temporárias Manuel Gamboa, no Convento de S. José, em Lagoa, de 17 de Janeiro a 28 de Fevereiro de 2009. Esta conta com poetas e pintores de vários países, nomeadamente, Espanha, França, Chile, Holanda, Portugal, Argentina, Brasil, Canadá, Costa Rica, Indonésia, Rep. Checa, África do Sul, Colômbia, Roménia e Hungria. Em Lagoa irão marcar presença alguns nomes como Maria Estela Guedes, Sérgio Lima(Brasil), Miguel Carvalho, Rik Lina(Holanda), Alfredo Luz, Allan Graubard (EUA), Seixas Peixoto, etc. Na inauguração, para além da pintura e da poesia, haverá também música. Nos links(*) abaixo indicados, encontrarão notícias e nomeadamente a lista de todos os participantes do evento, que diga-se, reúne um dos maiores - em quantidade e qualidade - conjuntos de artistas (sobretudo na pintura) do actual surrealismo internacional. Na inauguração, ou durante o período em que decorre a exposição, que aliás possuirá uma bela brochura com algumas obras (pintura e poesia) dos intervenientes, o Convento S. José aguarda a vossa visita.
Segue-se um dos poemas com que participo no evento: "Iluminações Descontínuas".
Biografia II
E tudo ocorre na melancoliada
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto do corpo
no linho que se alinha à mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífera
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada,
ser bardo
é tocar o fogo
o espectro desatando-se
sílaba que afeiçoa às matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu.
João Rasteiro
.......................Mão Morta - Floresta Em Sonho

(*)
http://porosidade-eterea.blogspot.com/2009/01/iluminaes-descontnuas-surrealismo.html
http://www.municipiodelagoa.net/website/index.php?Agenda:Cultural

domingo, 11 de janeiro de 2009

Horto de Incêndio

Al Berto: n.Coimbra, 11/01/1948, m.Lisboa, 13/06/1997
.

A Invisibilidade de Deus


dizem que em sua boca se realiza a flor

outros afirmam:

.......................a sua invisibilidade é aparente

mas nunca toquei deus nesta escama de peixe

onde podemos compreender todos os oceanos

nunca tive a visão de sua bondosa mão
.
.
.
o certo

é que por vezes morremos magros até ao osso

sem amparo e sem deus

apenas um rosto muito belo surge etéreo

na vasta insónia que nos isolou do mundo

e sorri

dizendo que nos amou algumas vezes

mas não é o rosto de deus

nem o teu nem aquele outro

que durante anos permaneceu ausente

e o tempo revelou não ser o meu

Al Berto
.
Acordar Tarde - Al Berto / Jorge Palma


href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Al_Berto">http://pt.wikipedia.org/wiki/Al_Berto

http://www.astormentas.com/alberto.htm
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/al_berto/poetas_alberto01.htm

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

DANÇAS

inês subtil
.
talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efêmeras
.
talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo
.
talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome
.
não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quanto te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração
.
como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti
.
também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo
.
.
o poeta como nu
.
um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se vira.sem pétalas, dizia-
se, estava igual a nu, coberto de nadaque o diferisse, como se ser poeta não
trouxesse marcas à flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e
só por isso o estranho poeta se foi embora sem outra notícia
valter hugo mãe
In, folclore íntimo, COSMORAMA Edições, 2008
....................................TERESA SALGUEIRO - Amanhã

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sábado, 3 de janeiro de 2009

S.O.S. Barbárie



O território dos anjos

esta é a nascente o horto

dos anjos

a luz interrompida do espigão

velhas falas do jardim do éden

Hebrom entrançado

talhado em línguas de delírio torrente espraiada

o milagre em ti sedento ser rupestre

das acácias tenras no golpe

coroas vermelho-cereja geografias

um jardim flor as entranhas do casulo

florindo o desastre

a reincidência das cobras

a terra do júbilo o sémen demoníaco

sob as luas da velha cidade esférula

tanta chuva vermelha

manhãs ausentes de vozes concêntricas

OOO

o dia os dias das preces

sílabas dos lábios do Mediterrâneo raiado

o metal despojado dobrado fundente

brilho do mar o sal nas veias abertas

os antigos corpos fendas à saída de Khan Yunis

vulcões de roseiras bravas

animais cegos

vagueando em círculos a verdade

na convulsão dos anjos

a extracção do ferrão

OOO

toda a cegueira

os olhos de pedra numa cidade de chumbo feroz

na hora das silhuetas o metal irrompemdo fresco

o coração dos sábios

o sísmico fascínio

do crime indistinto

procurando o equilíbrio sagrado da estocada

no monte das tentações

corpos anjos demónios a respiração

o hálito carnívoro das raízes do mel

um rasgão de asas na súplica do verbo.

João Rasteiro - In, O Búzio de Istambul, 2008

.........................A cada não que dizes - Pedro Abrunhosa


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