quarta-feira, 20 de maio de 2009

Espaços

A morte de Sócrates
Do livro da Contrição dos Mortos, dos Sopros IV

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser sulco na coroa aberta da terra e renascer

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser a dolorosa geometria e propagar a chama

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque era reincidência e o coração dos animais

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque tinha sede e caçava pelo olfacto das cobras

Preparou o leito da caça com os gânglios da morte

Para ser ventre da morte e a morte em suas flores
A palavra exaltada em suas escoras a florir e a gerar

Preparou a morte a construção fecunda do corpo nu.
.....................................................João Rasteiro

sábado, 16 de maio de 2009

Cânticos da terra

António Salvado, eu e Pedro Salvado
Acaba de ser editado o mais recente livro do poeta António Salvado - "ODES".
O livro agora editado é uma edição de luxo da Caixotim, integrado na série "Da palavra o fruto", sendo de realçar que o próprio nome da série é da autoria de António Salvado. Na obra emerge a pintura de Raul Costa Camelo, aqui num fraterno e excelente diálogo com a poesia do poeta, englovando seis reproduções de pinturas inéditas. Pela poesia que leu, editou e criou, pelo contributo dado à poesia portuguesa (como já vão longe os anos de convívio e criação com Herberto Helder e a revista "Folhas de Poesia"), com mais de 50 anos de vida literária, António Salvado, talvez Castelo Branco seja muito distante(!?!), já mereceria algumas distinções que tantos, ou alguns por aí já granjearam. Pelo menos "nuestros hermanos" e a mágica Salamanca não o deixa(ra)m passar "despercebido".
É uma longa obra onde a energia poética é um valor intrínseco à sua criatividade, uma obra marcada e guiada por um notável equilíbrio que lhe grangeou, pelo menos, um lugar de destaque na sua geração.
Embora se possa afirmar existir na sua obra uma determinada preponderância por um tom lírico, há na poesia de António Salvado uma "reiterada prática de composição que consiste em desmontar as palavras para que, a partir dos inesperados resultados, possa reconstruir um mundo imaginário, que poderíamos chamar de “o seu mundo ou universo poético”, como afirma Majela Colares.
Em baixo um poema de ODES:

Nunca regresso ao ponto de partida,
quando me leva como eremita
a solidão do dia em que viajo,
quando nem horizontes desordenam
com seus fechados véus
a vontade afincada de transpor
as linhas clandestinas.
E porque voltaria? Trabalhoso
seria descobrir
de novo a senda aberta ao retornar,
com poeiras e pedras, sobressaltos,
em toda a dimensão da revoada.
O ponto de partida
diluiu-se aliás no pesadelo
de noites infindáveis, sem contorno,
sem astros pelo céu a tilintarem
e sem segurança do romper
da manhã desejada.
Companheira leal, a solidão
parte sempre comigo
até onde a distância não existe.
.............................António Salvado



http://bibliotecamunicipalcastelobranco.blog.com/4805119/
http://www.urbi.ubi.pt/_urbi/pagina.php?codigo=5874
http://memoriarecenteeantiga.blogspot.com/2009/04/um-livro.html http://antoniosalvado.blogspot.com/

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Antonio_Salvado&op=7&author=21251


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Linguagen(s)

TIRANIA
.
Nunca se aprisionam as súplicas
enquanto súplicas, mas apenas
aprisionamos uma voz noutra
voz, ou mesmo dentro de outra
voz. O espaço sangra rubro como
amoras. Do mesmo modo, nunca
lemos o poema enquanto poema,
mas apenas lemos (n)um poema
outro poema, ou mesmo dentro
de outro poema – inteiro, exposto.
E há a fábula das horas obscuras
com uma terrível doçura de garras
embrionárias - borboletas de voz.
.
A tirania é a agonia do verbo - mapa
que inclina insane a cegueira das flores.
.........................................João Rasteiro

domingo, 10 de maio de 2009

PAISAGENS

O grupo de teatro de Coimbra, A Escola da Noite, acolhe na próxima quinta-feira, dia 14 de Maio, pelas 18h00, a apresentação do livro de poesia Terra e Sangue, de Miriam Reyes, editado pela Cosmorama. Miriam Reyes nasceu em Ourense (Espanha), em 1974. Publicou “Espejo negro” (2001), “Bella durmiente” (2004) e “Desalojos” (2008). A sua poesia está traduzida para italiano e português.
O livro agora editado reúne os dois primeiros títulos, com traduções de Jorge Melícias e Pedro Sena-Lino, respectivamente. A sessão contará com a presença da autora e de Fernando de Castro Branco, que fará a apresentação do livro.
Miriam Reyes, intima, na sua escrita poética, uma densidade carnal, física, orgânica, com uma crueza, por vezes quase no limite da barbaridade, por vezes profundamente nos limites da ironia, da raiva, do íntimo despojamento. É uma poesia que dói e faz doer, é uma poesia de fêmea, mas não no sentido femininista, é essencialmente, no sentido animalesco de mulher em todo o seu esplendor. Poesia sem dúvida que merece profunda atenção. Do seu livro "Espelho negro", com tradução do poeta Jorge Melícias, o poema 6:


6.
Amo este homem misógino.
Desejo o seu sexo descarado que passeia de cá para lá
que entra onde como e quando deseja
vomita seu ódio em mim e parte.
Eu, maravilhosa artesã,
faço do seu asco a minha melhor criação:
uma réplica sua melhorada.
Do vómito incubado no mais repugnante dos seres
nascerá a criatura que o iguale em força
e seja capaz de o destruir por inveja
como eu não pude por amor.
.................................Miriam Reyes

http://miriamreyes.com/

http://cosmorama-edicoes.blogspot.com/

http://weblog.aescoladanoite.pt/

quarta-feira, 6 de maio de 2009

"Novas oportunidades"

Além as ilhas passam – são os apocalipses
.
Além as ilhas passam - são os apocalipses
as patas queimadas desabrochando
renovadas de pele
e logo regressarão fulgurantes
alastrando pelas águas inteiras
e infundidas
entre corpo e lugar, as vagas
da febre. A garganta escoada pelo fôlego
dos abismos
em opulência de sonho
de palavra nas hastes entregue ao seu silêncio
de verbo obscuro.
.
.
Além passam as ilhas como morcegos
de quem se teme o amor
e no entanto nas ondas da língua
não se teme o bafo mortal de seu carnívoro beijo
onde pulsam as guelras. O espanto ainda
projecta o fulgor inesperado do poema
até ao limite dos corações acesos.
.......................................João Rasteiro
...........Frankie Goes To Hollywood - "The Power of Love"

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da MÃE

......................."Madona" - Edvard Munch

Tenho Saudades do Calor ó Mãe
.
Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis
.
Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto
.
Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes
.
Ó infinita ó infinita mãe.
......................Daniel Faria, in "Dos Líquidos"
.
Um Poema meu - "A dança das mães":

quarta-feira, 29 de abril de 2009

ANACRUSA

Acaba de ser editada pela COSMORAMA a 2º edição (1º edição das edições etc, 1983 ) de "ANACRUSA 68 sonhos", de Ana Hatherly. Deste excelente livro, os dois poemas abaixo:

26/11/60
O terror materializa-se sob a forma de uma pequena luz lilás que se dirige a grande velocidade para a minha janela aberta. Estendo as mãos e colho-a no seu caminho. Afinal era uma pequena e estranha ave violeta e azul marinho. Entretanto queima-me a perna direita. É um sofrimento intenso. Para me aliviar alguém dá-me um golpe e logo imenso sangue começa a jorrar.
.
Janeiro de 1963
Um número incontável de mulheres de todas as idades seguindo em fila indiana, entre as quais me encontro. Somos todas prisioneiras e somos conduzidas involuntariamente através de corredores e escadas, deslizando por elas abaixo como que dormindo. Todas sabemos que somos prisioneiras mas estamos mais ou menos serenas. Eu penso: agora sou prisioneira mas um tempo virá em que serei liberta, eu e todas elas. Entretanto estendo a mão para trás procurando trazer a minha filha para junto de mim, para acelerar a sua libertação.
.
.......................................Carlos Mendes - A festa da vida

domingo, 26 de abril de 2009

Flores

..........Abril

E o sol desce como um falcão,
um relâmpago ígneo celebra-se
no presságio, atalha-se o silêncio
o visível e o invisível das súplicas
que dormem a perversa inocência,
.
no cume das bocas as flores murchas
como incautas candeias adormecidas.
.................................João Rasteiro

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A liberdade da sílaba

Olvido


calaram a tua boca

mas certamente
esqueceram uma pequena sílaba
somente semente
em algum canto

nos recantos de um país
de mim
uma flor livre
sob a terra obsessiva e sagrada
do jardim.

*

calaram a tua voz

mas certamente
esqueceram o odor fresco
semente somente
das rosas e do jasmim.

........................Manuel de Cenáculo

sábado, 18 de abril de 2009

Lugares II

A poeta, ensaísta e investigadora Maria Estela Guedes é membro da A.P.E. - Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, do Instituto São Tomás de Aquino e Directora do site/plataforma TriploV, depois de em 2008 ter publicado o seu mais recente livro de ensaios e/ou critica literária: A Poesia na óptica da Óptica, prepara-se para publicar o seu novo livro de poesia, intitulado: Chão de papel. Poemas que vislumbram o âmago carnal e sensorial da Guiné-Bissau, a fragrância odorífica do refluxo em espiral do coração (dos corações?). Como refere Nicolau Saião no prefácio ao livro: "Neste livro/poema, cujas jornadas incessantemente se questionam tanto quanto se afirmam — pois que é esse o movimento perene da poesia, ir e vir como se fossem as ondas de um mar na noite ou na claridade — a penumbra ilumina-se a dado passo para ganhar um sentido além da devastação e da amargura. Trata-se duma legítima e nostálgica evocação mas igualmente, ou principalmente, duma transfiguração". Independentemente das neblinas que a amizade por vezes oferece, para além de uma excelente crítica literária (essencialmente sobre a poética Herbertiana), Maria Estela Guedes possui uma poética que urge começar a ser olhada com mais atenção. (P.S. - No final do post, "todas as ligações/links à/para a Maria Estela Guedes").

(...)
Espera a tua morte como se tivesse o tempo todo
À frente para nele se banhar em incenso
Era ali que devias ser sepulta
Com a tua carga de afectos e ondas pesadas
As lembranças
O coração fechado num búzio
A murmurar palavras sabe ao ouvido
Era ali
No fundo das águas a tocar
O lodo verde e menstrual do Geba…
Vai morrer à Guiné se te apraz
Num dia de neblina fria sobre as águas
Na linha imperceptível que separa a lua
Da luz
Vogando para o Oriente Eterno
Na barca de Rá
Depois de passar pela ilha entre ilhas
Bolama
A saber a mangos e a melancolia.
..............Maria Estela Guedes

http://www.triplov.com/estela_guedes/index.html

http://www.triplov.com/estela_guedes/2009/Chao-de-Papel/Nicolau-Saiao.html

http://www.triplov.com/estela_guedes/2009/Chao-de-Papel/index.html

http://fitei.blogspot.com/2008/03/boba-de-maria-estela-guedes.html

http://www.artepoetica.net/Maria_Guedes.pdf

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Lugares

...........................Alfredo Luz
Quem me refrescará antes da morte sob as fontes? Quem perfumará o meu corpo extinto de vida nos jardins odoríficos? Quem atulhará a minha boca de pedras no coração do barro? A mim, lugar, quem me chorará os olhos apagados de Primavera? Quem me sepultará impuro no coração dos amieiros? E as madrugadas acordarão como se a aldeia não fosse o lugar bastante, o coração como a terra inclina o rosto à vida? A luz da chama?
.
Apesar de tudo continuam a existir as palavras fincadas aos pulmões que nos embebem medo ao rosto do coração. Abro a passagem e invado o teu espaço, aldeia. Palavras, memória, sopros, a frescura do mundo, um corpo, um outro espaço que irrompe da aldeia, das abrigadas ruas, da Rua da Fonte, do passado, de múltiplas e doídas constelações de outras existências, de outros sabores. E sou todas essas realidades inaudíveis, abertas, expostas, incompletas, em movimento por entre as humanas vozes que em mim florescem. Este ainda é o segredo que o amieiro me revelou.
........................................................João Rasteiro
In, O BÚZIO de ISTAMBUL, 2008 (Palimage)
..................................Verdes são os campos - Zeca Afonso

domingo, 12 de abril de 2009

Parte do Arco-Íris

Roxana Crisólogo (Peru), eu e o Zé Luis (Casino da Figueira da Foz).
O livro Lisbon Blues, do meu amigo e poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, é um dos candidatos ao "VII Prémio Portugal Telecom", destinado a livros em Língua Portuguesa publicados no Brasil em 2008. Este livro de José Luís Tavares, lançado na 8ª Bienal Internacional do Ceará, integra a colecção Ponte Velha (criada pelos poetas Carlos Nejar - Brasil e António Osório - Portugal) incluida na editora brasileira Escrituras. Em Maio, o livro deverá ser apresentado na Cidade da Praia. Refira-se que já em 2008, o Ministério da Educação Brasileiro atribuiu a José Luís Tavares o prémio "Literatura para Todos" pelo inédito "Os Secretos Acrobatas". É sem dúvida o merecido reconhecimento de um excelente poeta da língua portuguesa, um dos poetas aliás, que já hoje começa a ter uma das mais relevantes obras do panorama literário cabo-verdiano. De Lisbon Blues o seguinte poema:
.
3.
Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.
.............................José Luís Tavares
In, Lisbon Blues, S. Paulo, 2008

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O silêncio de deus

Para os meus amigos italianos, em particular para todos os da cidade de Aquila e da região de Abruzzo, uma pequena (embora impotente) homenagem. Em nome de todos um poema "Enquanto o silêncio durar", traduzido pelo amigo Alberto Sismondini.

Mentre il silenzio perdura

Nel centro docile dell’attesa
cattedrali sanguinano gli occhi mordenti la calma.
E l’olio e il vino, sciolsero
il seme in bozzoli dorati, che
gli alberi fendettero.
Il corpo, lo divorano i metalli incendiati
nella danza dei polmoni, che bambini
rinnegarono nell’eclissi.
Forse nel marmo calcificato di promesse
l’orto si purifichi, cercando nel candore
della luce, il puro tatto dei suoni.
E l’uomo strazia il respiro, lapidato nella
saliva delle unghie, dove uccellini volano tra le dita
curvate sul volto di acacie.
Nel sale di questo pianto, l’apprendista segreto
di sogni e luce.
Su queste vetrate dal veder passar
le parole, dalla polvere che si scuote,
accetto il silenzio come un amante.
............................................... João Rasteiro
In, Antologia Poesie Sulle Piastrelle - Zacem, 2001
----------(Tradução: Alberto Sismondini)
...................................Pavarotti - Ave Maria (Schubert)

Poema em português:

http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/search/label/Poesia%20de%20Jo%C3%A3o%20Rasteiro%20-%20Italiano

segunda-feira, 6 de abril de 2009

GALA(N)TE(I)A



.......................RAFAEL (n. 6/04/1483 - m. 6/04/1520) - "Galatea"
XIV
.tal como os fungos dos poços de jerusalém a memória sagrada das tábuas é uma crisálida indecisa que se perdeu para sempre no fundo inóspito do próprio ventre de bunho. e parte larva parte meretriz chegaram os novos seres para talhar as cidades em metálicos e encorpados pulmões de cobre. alguns homens que já só rastejam como as ofídias percorrem as cisternas em noites de lua cheia. o violento delírio de se verem reflectidos nos olhos da água. sob o nenúfar as suas escamas repousarão desinquietas pela última miragem. a outra face do pai que tecia argênteas teias de melancolia. é preciso recordar as prefigurações das trevas para se acolherem as metamorfoses. a benévola carícia. a ressurreição hodierna das crias. o eco colorido.
...........................................João Rasteiro
...........L. Pavaroti, J. Carreras, P. Domingo - "Maria, Mari"

quarta-feira, 1 de abril de 2009

LIBERDADE

A obra de Agostinho da Silva estará em debate na sexta-feira no colóquio "O Legado de Agostinho da Silva: quinze anos após a sua morte" organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e em que participarão, entre outros, Adriano Moreira e António Braz Teixeira. Organizado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e pela Associação Agostinho da Silva, o colóquio tem agendadas diversas sessões ligadas aos estudos desenvolvidos pelo filósofo. Renato Epifânio, docente do Departamento de Filosofia da FLUL, parte da Direcção da Associação Agostinho da Silva e um dos organizadores do colóquio, reconheceu à Lusa a dificuldade em centrar o legado de Agostinho da Silva "num só campo". "Agostinho da Silva teve um pensamento complexo com múltiplas facetas", refere. Numa visão "mais pessoal", o docente descreve o "sentido de uma consciência lusófona" como o legado maior deixado pelos estudos de Agostinho da Silva, particularmente no que refere ao seu impacto enquanto "um dos mentores da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)". Agostinho da Silva, referenciado como um dos principais intelectuais portugueses do século XX, nasceu no Porto em 1906, tendo vindo a falecer em Lisboa em 1994, aos 88 anos de idade. O colóquio decorre a partir das 10h00 no Anfiteatro I da FLUL e terá ao longo do dia participações de Adriano Moreira, António Braz Teixeira, Paulo Borges e Manuel Ferreira Patrício, entre outros. - (Público Online)

Agostinho da Silva (n.13/2/1906; m.3/04/1994), filósofo, poeta e ensaísta português, é tido por muitos como o nome mais importante da segunda metade do século XX em Portugal - a primeira metade foi mesmo de Fernando Pessoa. Como referiu Romana Valente Pinho, "a idéia agostiniana de um homem em busca de seu próprio sentido e do sentido dos outros – sejam transcendentes ou não-, um “eu” que só é pleno e completo na e pela relação com o outro e disto, da consciência do “eu” através do “outro” (...) Desta “dialética das consciências” conclui-se que não vale a pena separar-se dos outros, pois tal cisão é a quebra do próprio ser. Em outras palavras, não há dialética das consciências sem pluralidade. E como afirmou o próprio Agostinho da Silva, "Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas". Um homem e essencialmente uma obra que Portugal tem de redescobrir e não deixar esquecer nos bosques da mediocridade que cada vez mais alastra e nos penetra. De mestre Agostinho da Silva, um poema:

Algum dia

Algum dia um novo Papa

anunciará altivo

que Deus é raiz quadradade

um quantum negativo

*
e o Deus que tanto procuro

em que atingido me afundo

é aquele ser-não-ser

do que acontece no mundo

*
da matéria mais que densa

é que é divertido ser

ali se nada acontece

tudo pode acontecer.

NEY MATOGROSSO - Balada do louco

http://ebicuba.drealentejo.pt/ebicuba/jornal/jornal08/pagina-personalidades/agostinho_da_silva.htm

http://joseeduardolopes.tripod.com/id28.html

sábado, 28 de março de 2009

Rotas Reinventadas II

.................................Imagem de MIUKI

Cérebro quando poesia
.....................Tive de descrever a tua grandeza, ó meu cérebro,
.....................corola macerada pelo poder da cultura.
................................Fiama Hasse Pais Brandão


.água poesia da largura em si mesmo
a estuar o animal das línguas dos balidos
como espáduas ambas em seu perfil único
de margem flanco poesia outra para corpo,

coração do fragmento ao longo das lascas
palavras nervura que se desfralda frontes
o equilíbrio fugidio das actínias feições
contra o pó poesia entre pedra e silêncio,

abelha ofusca desnuda sombra no tronco
muro poesia ou hortos alvuras dos campos
extensos um olhar do detrás pulsos de luz,

deus usurpando o verbo inicial de Platão
espaço se pétalas e madrugada de astros
geme a magnólia poema em murcha sílaba,

demónios nus do cosmos das comparações
místicas chamas da barbárie a nova ordem
no círculo aberto como se única contrição,

poesia flor - uma como cérebro do eco, poços
ou uma força inacessível em secretos cicios,
odores em distâncias mortas vincadas hélices,

centelhas nuas – mas que dobram áleas, poesia
e nas costas do metal uma figura nova desova,
animais que só procriam a activação das forças,

hoje, da não promessa pragas de eternidade sob
o diluído âmago de profundos centros, a poesia
de múltiplas mortes, gotas do renascer acto pó
formas de fluidas formas da sentença – quando,

em si mesmo da largura poesia água – silêncio.
João Rasteiro
.................................
Blind Zero - Tree

quarta-feira, 25 de março de 2009

Da terra à luz

Eu, com Seamus Heaney, no Palácio de S. Marcos, após um "grandioso repasto" - 2004
O prémio Nobel de 1995, o irlandês Seamus Heaney acaba de receber o prémio David Cohen, atribuído de dois em dois anos a grandes nomes da literatura, como V.S. Naipaul (1993), Harold Pinter (1995) ou Doris Lessing (2001). Poeta presente em Coimbra, como figura principal dos V Encontros Internacionais de Poetas (2004), organizados de três em três anos pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi sem dúvida um dos mais "simples, gentis e disponíveis" dos poetas presentes, não parecendo a ninguém estarmos em presença de um Nobel da Literatura. Daí, ficar muito satisfeito por mais este importante prémio que lhe foi atribuído. Seamus Heaney é um poeta grandioso e magestoso como as sublimes planícies de seu país, é contado e cantador da área rural, dos dias nebulosos, da nostalgia familiar, dos antepessados, da visão arqueológica da própria Irlanda em sua magia, com muitas histórias, épicas ou não, para contar. Aliás, muitos de seus poemas são narrativos - alguns curtos, como A Musa Gutural; outros, mais longos, como a Ilha das Estações. Em baixo dois poemas:
.
"O Fragmento"

"Veio a luz do oriente", cantava ele,
"radiosa garantia de Deus, e as ondas aquietaram-se.
Eu podia ver línguas de terra e rochedos acossados.
Muitas vezes, pela coragem mostrada, o fado poupa o homem
se não o marcou já."
.
.
E quando a objecção deles lhe foi dita -
em especial que a sua obra se fizera em fragmentos,
que já não podiam dizer onde estavam com ele,
que já não distinguiam primeira linha ou última linha -
respondeu com uma questão.
"Desde quando", perguntou,
a primeira e a última linha de qualquer poema
são onde o poema principia e termina?"
............................Tradução - Vasco Graça Moura
.
"PARA BERNARD E JANICE MCCABE"
.
Leito do rio, seco, cheio de folhas quase.
Nós, a escutar um rio nas árvores.
.
.................Tradução - José Antonio Arantes
.
........................................U2 - BAD Live Aid, 1985

sábado, 21 de março de 2009

POESIA 21

Hoje é o dia mundial da poesia. Para assinalar o acto, a Fnac comemora-o em todas as suas lojas fazendo uma homenagem a vários poetas (cada loja fnac homenageará um poeta), tais como, Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Mário Cesariny, António Aleixo, etc. Em Coimbra, o poeta homenageado será Fernando Assis Pacheco. Para tal acção foi convidada a Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que também aproveitará para lançar os dois últimos números da sua revista. Assim, lá estarei com mais alguns membros da Oficina de Poesia para lermos poesia e bebermos um copo com quem aparecer. São todos bem vindos. Lá vos esperamos pelas 21h30. Apareçam!
A Profissão Dominante
.
Meu Deus como eu sou paraliterário

à quinta-feira véspera do jornal

nadando em papel como num aquário

ejectando a minha bolha pontual

.
de prosa tirada do receituário

onde aprendi o cozido nacional

do boçal fingido o lapidário

- fora algum deslize gramatical-

.
receio que me chamem extraordinário

quando esta é uma prática trivial

roçando mesmo o parasitário

meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
.................................Fernando Assis Pacheco
In, A Musa Irregular, 1996

quarta-feira, 18 de março de 2009

António Nobre: n.16/08/1867 - m. 18/03/1900
MEMÓRIA

Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e lá corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: – «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já...» E ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, a lua, o santo, o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever...
Lede-o e vereis surgir do Poente as idas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
.
...................ZECA AFONSO - Do choupal até à Lapa

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pereira_Nobre
http://www.triplov.com/poesia/antonio_nobre/index.htm

domingo, 15 de março de 2009

Fulgurações

...........................................Susanne S. D. Themlitz

Luz
.
A luz que aflui errática das pedras
e anuncia o dia na chama dos corpos
derretendo o aço que nos corta
procura um ninho por entre as mãos
e ramifica-se linguagem entre os dedos.
.
Na perfeição da luz está a poeira
no fundo um templo ou uma garganta
a sombra desfocada em que nos projectamos
o silêncio alumbrado em suas formas nuas,
.
adiro dobrado ao grande segredo da luz
e desenho sobre ela as veias que vão doendo.

João Rasteiro

In, No Centro do Arco - 2003

.........Vinicius de Moraes - Pela Luz dos Olhos Teus