domingo, 23 de agosto de 2009

BIG ODE nº 7


Foi lançado em Julho o nº 7 da revista BIG ODE – Poesia & Imagem, a qual integra dois poemas meus. Os coordenadores da mesma, Rodrigo Miragaia e Sara Rocio dedicaram este número ao “sublime" e o que se pode dizer é que resultou num excelente conjunto de trabalhos.

A revista inclui desta vez um DVD com pequenos vídeos de 28 artistas internacionais, o que lhe vem dar uma outra dimensão - entre eles, Alberto Guerreiro, Angelo Ricciardi, Antonia Valero, Gustaf Almlof, Jaanika Peerna, Mikey Peterson, Mohamed Ezoubeiri, Patrich Gofre, Sara Rocio ou Steven Hoskins.

A secção que neste número é dedicada à mail art acentua igualmente esse aspecto, com as participações de Arturo Accio, Clemente Padin, Hilda Paz, John Helder Jr., Vittore Baroni, Luc Fierens, Reed Altemus, Maria Arcieu, Rod Summers e Serge Luigetti, entre outros.

Quanto ao “corpo principal" da revista, constituído por poemas, fotografia, desenhos, textos e poemas visuais, tem como alguns nomes Angelo Mazzuchelli, A. Da Silva O., Constança Lucas, Fernando Aguiar, João Rasteiro, Rui Costa, Roberto Keppler, Rodrigo Miragaia, Rui Tinoco e Sérgio Monteiro de Almeida.
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Como um mausoléu
Como um mausoléu enorme e sem ninguém
frágil é a revolução difusa das constelações
que abriram de corola em corola a madrugada
o sentido heróico e excelso da sílaba de oiro
um país inclinado sobre a lírica de Camões.
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A criança e os cravos, um sopro alucinado
no nevoeiro fatigado da espera dos pássaros
os que se foram nus com as primeiras chuvas
emigrantes de outros sonhos que o tempo urde
e há clarões no céu que nunca acendem a terra.
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Talvez ainda regresse o grande guerreiro da luz
o fogo e abril nos marejados olhos das gaivotas
e mulheres transformar-se-ão em pórticos de sal
a grande flor perfumada deleitando-se primavera,
não chegará seu tempo para enlouquecer o meu.
.
Como um mausoléu geométrico e sublime dor
o golpe incide na língua que molha minha voz
ó soluço de palavras maternais e azul profundo
e se esta é ainda a ditosa pátria amada de Afonso
porque como uma concha está meu coração vazio?
................................................................João Rasteiro

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"O Indesejado"

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu atribuir a Medalha de Honra a título póstumo a Jorge de Sena. O poeta falecido em 1978 nos Estados Unidos e cujos restos mortais serão agora trasladados para o cemitério dos Prazeres na primeira quinzena de Setembro, sem dúvida "um dos maiores nomes da poesia portuguesa de todos os tempos e uma das figuras mais marcantes da nossa vida cultural do século XX", "vê" passado 21 anos(!!!) ser-lhe hipocritamente atribuida esta "honraria" - para ele, ou para a SPA?

Esta considera que "o regresso definitivo de Jorge de Sena a Portugal encerra um longo ciclo de desencontro e afastamento que tão profundamente marcou a sua vida e a sua obra, e que tão profundamente marcou a cultura portuguesa do século XX". Desencontros e afastamentos, na verdade foram bastantes, neste país já estamos habituados, não é fácil conviver com (os poucos) os "grandes" que misteriosamente por vezes surgem na cultura e sociedade portuguesa.


Relativamente à sua poesia, Jorge Sena afirmou um dia que ela representava "um desejo de independência partidária da poesia social, um desejo de comprometimento humano da poesia pura, um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista, um desejo de destruir pelo tumulto insólito das imagens qualquer disciplina ultrapassada e sobretudo um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana - uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo". Saberão estes senhores, saberá Portugal, o que isto quer dizer?

Um Epílogo
Quando estes poemas parecerem velhos,

e for risível a esperança deles:

já foi atraiçoado então o mundo novo,

ansiosamente esperado e conseguido

- e são inevitáveis outros poemas novos,

sinal da nova gravidez da Vida

concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,

só perfeito e belo aos olhos de seus pais.

.

E a Vida, prostituta ingénua,

terá, por momentos, olhos maternais.

........................Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'


http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/jdesena.html

http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Jorge+de+Sena

http://www.jornaldepoesia.jor.br/sena.html

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Jorge_Sena&op=7&author=1110

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

PORTUGUESIA

PORTUGUESIA – Minas entre os povos da mesma língua / antropologia de uma poética”, é a contraantologia organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva (recentemente foi editada pela Cosmorama uma antologia da sua poesia - "Yguarani"), lançada no passado dia 10 de Julho na Casa de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, conforme aqui referi anteriormente e na qual tive a honra de participar (antologia e debates).
Esta enorme e ambiciosa obra , congrega 485 poemas de 101 poetas de Portugal, Brasil (Minas Gerais), Cabo Verde e Guiné-Bissau, com uma particularidade bastante interessante: os poemas foram sequenciados sem uma ordem cronológica, alfabética ou por autor, não estando sequer, assinados ao fundo da página. Cada poema tem apenas uma letra, junto ao número da página que remete então o leitor mais curioso para uma listagem de autores e que, através da letra e do número da página, conseguirá então identificar o autor do(s) poema(s).
Como referiu durante o evento o poeta E.M.Melo e Castro, o nome do autor funcionará assim nesta antologia como verdadeiro índice, e não com mero ícone.
O estratagema criado pelo Wilmar Silva, talvez confira uma maior unidade aos poemas seleccionados/antologiados e poderá dar ao leitor a ideia de uma certa continuidade e a tentativa de através de uma forma inovadora tentar fazer valer os textos/poemas por si mesmo.
A somar ao volume de poemas recolhidos/antologiados, PORTUGUESIA, inclui ainda um DVD com todos os poetas antologiados a lerem/declamarem alguns dos seus poemas (quase todos os poemas que os poetas lêem no DVD, não são os poemas publicados na antologia).
O DVD tem a duração aproximada de 2 horas, mas a alternância de poetas/poéticas, os contextos onde estes lêem os seus poemas e os enquadramentos feitos pelo Wilmar fazem com que esta sequência de vídeos/leituras se torne bastante agradável e sedutora.
Alguns dos nomes que integram esta contraantologia, são Alécio Cunha, António Ramos Rosa, Arménio Vieira, Aroldo Pereira, Babilak Bah, E. M. de Melo e Castro, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Filipa Leal, Gonçalo M. Tavares, Guido Bilharinho, Iacyr Anderson de Freitas, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Jorge Melícias, Jorge Reis-Sá, José Luis Peixoto, José Rui Teixeira, Luís Eustáquio Soares, Luís Serguilha, Márcio Almeida, Milton César Pontes, Nuno Rebocho, Oswaldo Osório, Pedro Mexia, Pedro Sena-Lino, Ronaldo Werneck, Ruy Ventura, Tony Tcheca, valter hugo mãe, Wagner Moreira, Waldir Araújo e o próprio Wilmar Silva.
Em conclusão, um projecto interessantíssimo, de um excelente poeta e que afirma de forma repetida a pretensão de que a palavra/termo "Lusofonia" deveria ser substituída de vez pela palavra "PORTUGUESIA", pois o que está em causa é a língua portuguesa.
Infelizmente, pela sua importância (e afirmo tal facto podendo ser suspeito nesta opinião), o livro/antologia/contraantologia não está à venda em Portugal, pelo que para se conseguir um exemplar terá que ser contactada a própria editora ( anomelivros@anomelivros.com.br ).
Embora existisse o apoio de uma autarquia como Vila Nova de Famalicão, o facto é que não estando envolvidas entidades como a CPLP, Ministério da Cultura Portuguesa, Instituto Camões ou outras que "dominam" os meios de comunicação social, as notícias sobre a "Portuguesia" não são propriamente abundantes. Refira-se no entanto o facto de alguns blogues e páginas literárias online, jornais e rádios regionais, e a RTP África, com uma bela entrevista ao Wilmar Silva, se terem referido ao evento.
Segue-se um dos meus poemas integrados/seleccionados pelo Wilmar Silva :
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Círculo
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Ninguém. Só as mãos e as palavras,
do sulco e das raízes vidradas
que dos membros a brecha do muro
é a imagem partida do outro.
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Nada. Apenas uma obscura mágoa,
só o respirar da luz na teia
os dedos que viajam na carícia
e a visão no centro da distância
o calor materno dos animais.
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Extensa. A memória da sombra morde
e se respiro a boca não atinge
o sopro das palavras em fogo
o movimento cruel em suicídio calculado.
................................In, No Centro do Arco, 2003
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sábado, 8 de agosto de 2009

the war of life

......................Raul Solnado (19/10/2009 - 08/08/2009)

A arte da guerra

Então surgiu um homem sufocado
com a boca semeada de lascas de pedras
na eterna idade das erícias o terrível lugar.

Deus é deus
esteja lá onde estiver e
o poeta moribundo preso na teia
por canais subtis na boca dos líquidos
segredos que fermentaram a cega luz
para matar a palavra sob os bichos cintilantes.


Deus é deus
seja lá ele quem for e
o chão de onde saíram os demónios
é o eixo de mármore implacável
a carne as pedras mais pontiagudas
vísceras como ele sangue límpido terra e pó.

Deus é deus
queira lá ele o que quiser e
a língua é como um véu transparente
uma criatura viva de bocas vivas
promessas de dois pilares cravados na sílaba
ungida batalha a fala que respira antes da morte.

Deus é deus
invente lá ele o que inventar.
Batalha é horto
ocorra ela onde ocorrer.
Espelho em mim
espelho em que ousar
viver – vivo como o oficio inquieto.

A celebração continua agora desfocada
numa zona de caça rudimentar e desfechada
onde as palavras escorridas se devoram entre si.
.................................................João Rasteiro

http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Solnado
http://www.macua.org/biografias/raulsolnado.html
http://www.youtube.com/watch?v=htvVRM4K8MY&feature=related
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1329587

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Bigorna e o Anjo

Eram boas pois, mas acabaram: as benditas e simultâneamente malditas FÉRIAS! Durante os dias em que o No Centro do Arco esteve de férias, participei em Vila Nova de Famalicão no PORTUGUESIA: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, o meu novo livro, Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, foi apresentado na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, entretanto saiu mais um número, o #7, da revista BIG ODE – Poesia & Imagem, na qual participei. Estes são alguns assuntos que voltarei a trazer aqui para o "centro do arco".
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Mas, agora quero falar da exposição individual de pintura A BIGORNA E O ANJO do surrealista holandês RIK LINA (na imagem com Mário Cesariny), a inaugurar no próximo dia 7 de Agosto na Fundação Escultor José Rodrigues (Fábrica Social) pelas 18:00, na Rua da Fabrica Social no Porto. A inauguração contará com a presença do pintor. Haverá ainda lugar a declamação de poesia, que será efectuada por mim, aliás com muito prazer, não só pelo extraordinário pintor que é o Rik Lina, mas sobretudo pela amizade que nos une. Haverá ainda uma sessão de trabalho colectivo por parte do Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism e ainda a apresentação do documentário audiovisual de Rik Lina com musica experimental do compositor norte americano Paul Goodman. O evento contará também com a apresentação de um belo livro com o mesmo nome, A Bigorna e o anjo, editado pela editora dEbOUt sUr ´L´OEUF.
Em baixo um poema meu que integra o livro acima referido.
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A morte em suas cores de vida
...................................ao Rik Lina
I
Mas vede como o altivo mundo
envolto em seus trilhos de sonhos e abismos
vem orvalhando as cores em seus ardis,
um homem esconjurado em sua boca de múrias
até que a morte o estilhace em mil pedaços
nos desmedidos voos em círculos prolongados,
sob o apocalíptico branco fulgor da eternidade
as pigmentações inacessíveis dos oceanos
conjecturam que o amor absorva a melancolia
em todo os ângulos da paisagem dos naufrágios.

II
E usarei as tuas tintas na minha carne
estancando no cheiro dos dias cegueira e piedade
uma imagem de deus ou bicho circunscrito
pois uma só gota será o sangue da mancha informal
o redemoinho unívoco do coração aceso
nos sopros que desconcertam a oração das cores.

III

Há sempre o ofício de incendiar os olhos
e a luz dobra-se desnuda no âmago dos espasmos
até os dedos caírem dentro dos dedos invisíveis.
As primeiras chamas. A morte em suas cores de vida.
.....................................................João Rasteiro
...Kenny Barron Trio - Jazz Baltica 2007

terça-feira, 14 de julho de 2009

Novo livro, Poesia e...FÉRIAS!!!

Acabado de participar no passado fim-de-semana em Vila Nova de Famalicão, no encontro literário “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva, evento que para além das várias mesas de debate, proporcionou o lançamento da antologia acima referida através de um livro-DVD, e já fazendo as malas para partir à procura do "sabor do mar", será lançado pelas 21h 30 do dia 16 de Julho na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, o meu mais recente livro de poesia intitulado “Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas", que possuirá um prefácio do Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
Como é referido no prefácio, estamos perante uma poesia, um canto, num “trajecto de maturidade já provada, que não se pode configurar nem dar a ler sem alguma convocação palimpséstica dos legados do Modernismo orfaico e do Neo-Modernismo que o refracta na charneira do século XX. “ E para além disso, perante “O tom evocativo que ganha a expectação de uma «utopia que acorde as águas do Mondego» corresponde ao ânimo melancólico do canto que se sabe prometido, após Ruy Belo e Eugénio de Andrade, às margens da memória de alegria”.

O lançamento ocorrerá durante a sessão especial "os poetas da Apenas". Esta será uma sessão especial das Noites Com Poemas, no próximo dia 16 de Julho, a partir das 17h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em Sâo Domingos de Rana, para a qual vos convido.
Com várias actividades a partir das 17h30, pelas 21h 30, terá início o encontro de escritores da Apenas Livros, com obra publicada já no ano de 2009. A sessão decorrerá com a informalidade habitual, mantendo-se, também como é uso da casa, o apelo à participação de todos os presentes.
Enriquecendo o encontro, Júlia Zulus (oboé) e Luís Morais (violino) interpretarão obras de Mozart, Telemann e Bach.
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Mas porque falar de poesia nunca é demais, chamo a atenção para o dia de amanhã (15/07) uma vez que no café-teatro do Centro Cultural da Malaposta, por volta das 20:30, o poeta e amigo Wilmar Silva, novamente de visita a Portugal, devido ao "Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética" apresentará o seu "Yguarani" acabado de sair pela Cosmorama, dando-nos a conhecer parte da sua obra poética.
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Ah, e agora ... Hasta la vista mis amigos - o mar me espera em sua boca de espuma e coração salgado!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PORTUGUESIA: Festa da Poesia Lusófona

- Nos próximos dias 10 e 11 de Julho estarei em Vila Nova de Famalicão a participar num evento que de uma forma extraordinária o poeta Wilmar Silva erigiu com toda a sua força e amor pela poesia. Vila Nova de Famalicão (com o apoio essencial da Câmara Municipal) transforma-se na capital da poesia lusófona, com o lançamento do projecto “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva. Constituído por um livro-DVD e 2 horas de vídeo-poemas (antologia com 100 poetas), o projecto será apresentado na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide.
Entre os vários autores participantes da antologia, destaque para o cabo-verdiano Arménio Vieira, vencedor do Prémio Camões 2009, António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro, Gonçalo M. Tavares, Luis Quintais, valter hugo mãe, Maria do Rosário Pedreira, Filipa Leal, etc, só para falar de poetas portugueses.
A abertura do evento está marcada para as 21h30, de sexta-feira, dia 10 de Julho, com a apresentação do projecto. Segue-se o primeiro de vários debates, que só terminarão pelas 18h00 de sábado. Neste mesmo dia pelas 16h00 efectua-se a projecção do DVD "Portuguesia", Vol. 1
Eu estarei pelas 11h30 de sábado no debate sobre “Poesia: Linhas de Fuga e Transmigração”, com Fernando Aguiar e Luís Serguilha. A moderação será da Ana Gusmão.
“Portuguesia” é um programa aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Minas Gerais, patrocinado pela Usiminas-Usinas Siderúrgicas de MG. Em Portugal tem como parceiro o município de Vila Nova de Famalicão.
A seguir ao fabuloso vídeo sobre a história da língua portuguesa (narração da extraordinária Fernanda Montenegro) seguem-se alguns links *** (depois do vídeo) sobre o evento, onde poderão ver o programa completo e outras notícias sobre o evento.
Lá se esperam todos os amigos e amantes e estudiosos da poesia. O evento e o Wilmar também merecem uma boa afluência e interesse do público em geral. Então lá nos encontraremos. Até!



***
http://www.cm-vnfamalicao.pt/Portuguesia-Programa.pdf

http://www.cm-vnfamalicao.pt/noticias/desenv_noticias.php?ntid=2496

http://www.acorianooriental.pt/noticias/view/188141

http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2008/Wilmar-Silva/index.htm



domingo, 5 de julho de 2009

(des)GOVERNO...de Portugal!


Conheço o valter hugo mãe desde 2001, quando durante os "IV Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra", me foi apresentado pelo Jorge Melícias na esplanada do Café Santa Cruz e ele me evidenciou alguma surpresa pela rejeição liminar do manuscrito do meu primeiro livro acabado de editar, "A Respiração das Vértebras" (Editora Sagesse) pelas edições "Quasi". Mas isso é um outro assunto.
O valter é alguém que pode e deve ser apelidado de um artista na sua verdadeira acepção.Como refere o José Rui Teixeira, é alguém profundamente "inconstante e surpreendente nos seus tão idiossincráticos processos criativos", ou seja, é um artista. É poeta, ficcionista, (já foi editor, em projectos editoriais diferentes) desenha, escreve livros para crianças… e agora também canta. Mas, como refere ainda o José Rui teixeira, aquilo que distingue, "não é a excentricidade ou o carácter polissémico da sua criatividade, o que realmente o diferencia é a qualidade intrínseca de tudo aquilo que faz". Mas como já referi, o valter agora canta!
Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo colocado mais abaixo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio. Agora, como não poderia deixar de ser, um poema da sua poesia reunida em 2008 pela Cosmorama - "folclore íntimo":
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mieloma, um
.
os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós
.
a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora
.......................valter hugo mãe
....................................GOVERNO - Meio Bicho e Fogo

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"No tempo dividido"

Sophia de Mello Breyner Andresen (nasceu Porto em 06 de Novembro de 1919, e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004). Foi sem dúvida uma das mais importantes e extraordinárias poetas portuguesas. Talvez por isso, acabou por ser a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, em 1999 - o Prémio Camões.
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A poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen é (...) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações.” (Jorge de Sena).
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Aquele que partiu
.
Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
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Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas
.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo
.
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento
.
E que ninguém repita o seu nome proibido.
................Sophia de Mello Breyner Andresen
........................Chris Cornell - Billie Jean (Michael Jackson)

sábado, 27 de junho de 2009

Intemporalidades

1.
No íntimo do caos
o corpo flutua no infinito desigual
dos últimos milénios
às vezes troca de morada
e na casca trémula da pedra
ensaia uma fuga abstracta
em volta do seu corpo
um poder feminino
o misterioso feminino que dizem ser
uma pequena concha imortal.

2.
O corpo não descobre nada
encontra apenas um palco vazio
talvez o corpo não seja bastante
há máscaras que escondem outras máscaras
a arte do silêncio
todas as visões circundantes às pálpebras
encontram o caos
antes do paradoxo inesgotável do pó
a morte que se tece com o próprio corpo.
................................................João Rasteiro
In, "A Respiração das Vértebras - 2001
.
.......................Michael Jackson - Black or White

quarta-feira, 24 de junho de 2009

LUGARES

...............................Ivan Shishkin (A chuva na floresta, 1891)

Arseny Tarkovsky (n. 25/06/1907 – m. 27/05/1989 ).
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Quando sob os pinheiros, e quando escrava,
minha alma vestia um corpo torturado,
ainda a terra voava célere para mim
e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos,
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Agulhas negras, escamas dos pinheiros,
as cascas
e rubro sob os pés jorra
o mirtilo,
e meus furiosos dedos rasgam pálpebras,
meu corpo quer viver. Será que este
sou eu?
.
Serei eu de carbonizada boca procurandoos

joelhos das raízes secas, e que a terra
engole como outrora o sangue, e as irmãs
de Faetonte se transfiguram, choram âmbar?
.............................................Arseny Tarkovsky
.
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
..................................O Lago dos Cisnes - Tchaikovsky

domingo, 21 de junho de 2009

LUGARES

Santa Cruz

Estou só sob a carnal mareação das pedras
plenas de inocência mineral
até à carnívora cortesia
onde os enigmas adquirem o clamor noctívago
da cidade altiva
em suas folhas de acanto.
...............É o corpo divino de um fecundo júbilo.


A forma como o eco regressa ideia de labareda
granítica memória
como a genuína dicção dos lábios
coincide com o discernimento dos cantos
levantados em seu arcanjo
estendendo a fluorescência acesa dos vitrais
o clarão aberto. Como os brancos arquipélagos
de uma geometria obstinada
santa cruz
toda a compaixão do verbo sobre o ímpeto
na respiração doída do mundo
o espaldar primitivo.
.........A minuciosa profusão das bocas expostas.


Ela encerra a sua própria concentração
de sonhos
toda a claridade no coração das cores da brancura
e o rosto de deus batido de luz rara
em olhos de oiro e azul celeste
por dentro da maturação da cidade das lágrimas
os seres que vivem junto ao rio
onde a indução do amor
celebrou o desígnio de um corpo que brota
de desejos de casta da flor de lótus
toda a punção da pedra acesa. E há uma magia de cores
afrontando o cordeiro, o sol e a lua.
.................Porque toda a morada é a própria alegoria.


O seu silêncio é a sílaba que respira os olhares
a distância dos remoinhos
que apaziguam a paixão do primordial ser – que dizem
ser a alma dos mortos em que os vivos
mergulham em sucessivas e maternais primaveras
brancas. O coração e o círculo dos deuses em sua cruz.
..........................................................João Rasteiro
.............................Clave de Fado - Igreja de Santa Cruz

http://pt.wikipedia.org/wiki/Caf%C3%A9_Santa_Cruz
http://www.cafesantacruz.com/

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A festa da vida

No dia em que José Sócrates apontou como exemplo de um erro (erro grave, um daqueles que demonstram claramente a falta de visão para o futuro de um país) cometido pelo seu Governo nesta legislatura, a ausência de um investimento volumoso na área da cultura (as peripécias nos Teatros de São Carlos, Teatro Nacional D. Maria II ou Museu Nacional de Arte Antiga e agora a extinção vergonhosa de Belgais - independentemente dos erros de Maria João Pires, o seu maior terá sido não ter na década de 90 instalado "Belgais" em Inglaterra, após lhe ter sido solicitado tal projecto pelo príncipe Carlos), Portugal perde mais um dos poucos grandes nomes da cultura portuguesa. O maestro e compositor José Calvário morreu hoje, aos 58 anos, em Oeiras. Fernando Tordo considerou José Calvário "um músico de eleição, um grande talento, um grande orquestrador e excelente compositor", cujo desaparecimento é de "lamentar profundamente".
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HAIKU
Abri a passagem:
A terra chegou-me
até à garganta.
........João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul
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.........."A festa da vida" - Carlos Mendes - Música: José Calvário

sábado, 13 de junho de 2009

O eleito do sol

O "Prémio Camões" 2009, o mais importante galardão literário em língua portuguesa, foi com alguma surpresa atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, quando talvez todos esperassem que na linha da frente da poesia Cabo Verdiana para um prémio com este significado pudesse estar talvez o poeta Corsino Fortes.
No entanto a distinção de Arménio Vieira, até poderá significar a total liberdade de escolha, análise e gosto pelos membros do júri do Prémio Camões. E além disso, quem é que tem verdadeira autoridade para determinar o que é a justiça na atribuição de um prémio?
Aos 68 anos Arménio Vieira, torna-se o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. O poeta nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor (poeta e ficcionista) é jornalista, com várias colaborações em publicações como o "Boletim de Cabo Verde", a revista "Vértice", de Coimbra, "Raízes", "Ponto & Vírgula", "Fragmentos" e "Sopinha de Alfabeto". Foi ainda redactor no jornal "Voz di Povo".
Arménio Vieira foi um elemento activo da chamada "Geração de 60", em permanente luta pela liberdade e dignidade do homem Cabo-Verdiano.
A atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira é o «reconhecimento da literatura e da visão literária importantíssima» do poeta cabo-verdiano, disse Helena Buescu, presidente do júri e professora da Faculdade de Letras de Lisboa. O poeta possui três das suas quatro obras publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999. Em baixo o poema "Ser Tigre":
Ser Tigre

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo, infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será quando for tempo disso.
...................................Arménio Vieira
..........................................Tito Paris - Danca Ma Mi Criola

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Portugal, Portugal...!

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas estarei em Alvaiázere, na Biblioteca Municipal de Alvaiázere, em representação da "Oficina de Poesia" da FLUC. A leitura integra-se no "Letras à Conversa" e irá decorrer pelas 19hoo. Todos os que puderem aparecer serão bem vindos.


Como um mausoléu
.
Como um mausoléu enorme e sem ninguém
frágil é a revolução difusa das constelações
que abriram de corola em corola a madrugada
o sentido heróico e excelso da sílaba de oiro
um país inclinado sobre a lírica de Camões.
.
A criança e os cravos, um sopro alucinado
no nevoeiro fatigado da espera dos pássaros
os que se foram nus com as primeiras chuvas
emigrantes de outros sonhos que o tempo urde
e há clarões no céu que nunca acendem a terra.
.
Talvez ainda regresse o grande guerreiro da luz
o fogo e abril nos marejados olhos das gaivotas
e mulheres transformar-se-ão em pórticos de sal
a grande flor perfumada deleitando-se primavera,
não chegará seu tempo para enlouquecer o meu.
.
Como um mausoléu geométrico e sublime dor
o golpe incide na língua que molha minha voz
ó soluço de palavras maternais e azul profundo
e se esta é ainda a ditosa pátria amada de Afonso
porque como uma concha está meu coração vazio?
.................................................João Rasteiro
........................................Portugal, Portugal - Jorge Palma

domingo, 7 de junho de 2009

O Amor e a Poesia

Faz hoje 719 anos (em 1290) que faleceu Beatrice Portinari, musa de Dante Alighieri. Mal sonharia a dama que iria representar para sempre uma das mais cantadas formas de amor na voz de um dos mais extraordinários poetas de todos os tempos. Ela foi a própria simbologia do amor, de um amor cristalino e divinal e por isso Dante exaltou Beatrice de uma forma cortês, escrevendo não poder compará-la com outra mulher, e por isso chama-a de beatitude nobilíssima, fazendo referência a algo puro e nobre que não se pode comparar. Beatrice e esse amor aparece como a justificativa da poesia e da própria vida, quase se confundindo com as paixões políticas, igualmente importantes para Dante Alighieri. É sob o signo desse amor que Dante deixará a sua excepcional marca distintiva no Dolce Stil Nuovo e em toda a poesia lírica italiana, vindo a abrir caminho aos poetas e escritores que se lhe seguiram para desenvolverem o tema do Amor (Amore) que, até então, não tinha sido cantado e enfatizado tão profundamente.
..................Dante e Beatriz, Marie Spartali Stillman (1844-1927)
[É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR]
.
É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
.
Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
.
Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
.
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"
...........................DANTE ALIGHIERI
(Tradução: Augusto de Campos)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

PAISAGENS

Os passos em volta

Aqui é a aldeia da boca mais ávida:
liberta o círculo da cabeça, o fulgor do amieiro,
diz adeus à maldição dos campos álgidos, nus,
com o fulgor de aguilhões sobre o poente
o lugar é uma epifania das vozes dos grandes ritos.
E o coração acolhe-as, acendendo archotes
nos dedos secretos da chuva. Cheguei.
.
A aldeia pega nesse corpo tão sonhador
e projecta-o para o espaço da ternura.
Sou amado - e é um corpo divino e instável
que sob as trovoadas mastiga e sangra as próprias asas.
.
Nada há como o afago das árvores simples
na gostosa e plena rasura das íntimas enxurradas.
...............................................João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul, 2008
.........................................Alceu Valença
- ANUNCIAÇÃO

domingo, 31 de maio de 2009

A faísca dos corpos

A Cosmorama publicou recentemente quase toda a obra poética de Jorge Melícias compilada num interessante volume cognominado "disrupção". Para além de incluir todos os livros desde "iniciação ao remorso" (1998), acresce ainda o inédito - "agma", onde Melícias intenta quase obsessivamente numa busca pela enunciação e representação em perfeito estado de contenção, que permita ser possível transpor toda a potência, toda a energia e violência (palavras-ícones da sua poesia) latentes no universo para as categorias da linguagem e desse modo ambicionar operar na consciência dos corpos, essa profunda e maravilhosa devastação física que é/será o acto de destruição/transmutação da matéria ou lava arrasadora, mas simultaneamente renovadora do sopro. O sopro da poesia, da vida, da linguagem em sua disrupção.
A poesia de Melícias como refere Luís Adriano Carlos, é possuidora de "características quase sem paralelo na sua geração: delicadeza analítica, consciência rítmica, identidade de tom, limpidez de dicção e intensidade figurativa, exercidas numa base mínima de materiais e instrumentos". Em Melícias, julgo podermos moldarmo-nos a uma poesia de profunda tensão, através de uma imagética pujante que pode ser compreendida como um brutal confronto com o cosmos e às crenças inquestionáveis dos valores representativos deste (ou destes) mundo(s). Poesia do “horror” e da “violência”, é um registo da experiência e essencialmente da experiência da linguagem. Brian Strang defende ser esta uma poesia que move o leitor em direcção ao impensável, arrastando-o para o seu interior, para o seu epicentro, para um mundo dado ao estímulo e à imaginação. Assim, estamos sem dúvida perante uma poesia que perturba e obriga quase sempre a reagir. Do inédito "agma" e incluído nesta antologia:
1.
Sobre a imposição dos abismos
encimarei os gárrulos.
.
Erguer-me-ei das jugulares
como a pura dicção do medo.
2.
Descerei das canas
para a rasura da redenção.
.
No dorso o relâmpago
como uma carena blasfémica.
.
E um amor profundo pela impiedade.
3.
Caminharei entre os homens
com um punção virado ao medo.
.
As meninges
recrudescendo nas navalhas
como um apostema.
.
Todo o metal sitiado
pela injunção das ínguas.
...........................Jorge Melícias
.......................................................Mão Morta - Gnoma

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Lugares III

...........................................VAN GOGH
Mil luas passaram, mil sóis procriaram, mil amantes se imaginaram, mil jogos inocentes se perpetuaram, mil desejos se refrearam, mil vozes se escutaram e agora as tuas memórias cíclicas, talvez sonhadas ou inventadas, não conseguem suportar o peso do mundo, o simples peso de uma aldeia que respira abruptamente em metamorfoses, enquanto a terra se afasta e o temporal inunda de seiva a selvagem ternura dos animais cosidos ao corpo da terra. Uma arquitectura de lugar, um espaço originário dos plantadores de amieiros. O céu é um pássaro descomunal envolto em chamas sobre as vozes dos mortos, sobre os livros onde se aprisiona a formosura das palavras, como se fosse possível guardar a transparência do júbilo.
Desde as remotas tardes das chuvas que não consigo enumerar os desejos, que exercem com tão grande rigor o domínio das suas formas.
...............................................................João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul - Palimage, 2008

domingo, 24 de maio de 2009

O(s) Errante(s)

Joseph Brodsky nasceu em 25 de Maio de 1940 em Leningrado - Rússia. Começou a publicar poesia em 1958, essencialmente em revistas clandestinas. Logicamente foi perseguido e preso na década de 60. Acabou condenado a um campo de trabalho no norte da Rússia. Mais tarde foi expulso da Rússia em 1972, passando a morar nos Estados Unidos onde se veio a naturalizar cidadão norte-americano. Aí, começou por traduzir a sua poesia para o inglês e a escrever essencialmente nessa língua. Em 1987, obteve o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Nova York, em 1996, com 56 anos, sem nunca mais ter voltado ao seu país natal, onde a sua extraordinária obra só veio a ser publicada em grande escala, após a derrocada da União Soviética, em 1991. Actualmente encontra-se sepultado no cemitério da ilha de San Michelle, em Veneza, Itália, junto de outros dois russos ilustres, Diaghliev e Stravinsky.
Tendo sempre predominado na sua poesia uma "estética de vida", onde coexistem os assuntos do tempo (a voz do futuro) e do espaço (o eco da cidade), da dignidade e da política, da honra e do orgulho, do amor e da morte. As metáforas em Brodsky, como refere Carlos Leite, seu tradutor para o português, "geralmente não são precisas em termos visuais, mas improváveis, exageradas, implausíveis mesmo. Decorrem mais da persistência do pensamento, da dificuldade de pensar, do que do simples olhar, fotográfico ou contemplativo.” É sem dúvida um dos grandes poetas da segunda metade do século XX, que continua a merecer ser redescoberto.
M.B.

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro~
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
.
Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
..........................................................Joseph Brodsky
In "Paisagem com Inundação”, traduzido do russo por Carlos Leite

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/NLJoBrod.html
http://revistaliterariaazularte.blogspot.com/2008/01/joseph-brodskypoesa-revista-arquitrave.html
http://poemaseningles.blogspot.com/2003/04/joseph-brodsky.html
http://www.mgrande.com/weblog/index.php/partosdepandora/comments/seria_hoje_dia_do_seu_aniversario/