(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»» "Só existe o tempo único. Só existe o Deus único. Só existe a promessa única, e da sua chama e das margens da página todos se incendeiam. Só existe a página única, o resto fica, em cinzas. Só existem o continente único, o mar único – entrando pelas fendas, batendo, rebentando correndo de lado a lado". __________ Robert Duncan
domingo, 23 de agosto de 2009
BIG ODE nº 7
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
"O Indesejado"
Esta considera que "o regresso definitivo de Jorge de Sena a Portugal encerra um longo ciclo de desencontro e afastamento que tão profundamente marcou a sua vida e a sua obra, e que tão profundamente marcou a cultura portuguesa do século XX". Desencontros e afastamentos, na verdade foram bastantes, neste país já estamos habituados, não é fácil conviver com (os poucos) os "grandes" que misteriosamente por vezes surgem na cultura e sociedade portuguesa.
Relativamente à sua poesia, Jorge Sena afirmou um dia que ela representava "um desejo de independência partidária da poesia social, um desejo de comprometimento humano da poesia pura, um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista, um desejo de destruir pelo tumulto insólito das imagens qualquer disciplina ultrapassada e sobretudo um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana - uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo". Saberão estes senhores, saberá Portugal, o que isto quer dizer?
Um Epílogo
Quando estes poemas parecerem velhos,
e for risível a esperança deles:
já foi atraiçoado então o mundo novo,
ansiosamente esperado e conseguido
- e são inevitáveis outros poemas novos,
sinal da nova gravidez da Vida
concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,
só perfeito e belo aos olhos de seus pais.
.
E a Vida, prostituta ingénua,
terá, por momentos, olhos maternais.
........................Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'
http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/jdesena.html
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Jorge+de+Sena
http://www.jornaldepoesia.jor.br/sena.html
http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Jorge_Sena&op=7&author=1110
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
PORTUGUESIA
sábado, 8 de agosto de 2009
the war of life
.jpg)
A arte da guerra
Então surgiu um homem sufocado
com a boca semeada de lascas de pedras
na eterna idade das erícias o terrível lugar.
Deus é deus
esteja lá onde estiver e
o poeta moribundo preso na teia
por canais subtis na boca dos líquidos
segredos que fermentaram a cega luz
para matar a palavra sob os bichos cintilantes.
Deus é deus
seja lá ele quem for e
o chão de onde saíram os demónios
é o eixo de mármore implacável
a carne as pedras mais pontiagudas
vísceras como ele sangue límpido terra e pó.
Deus é deus
queira lá ele o que quiser e
a língua é como um véu transparente
uma criatura viva de bocas vivas
promessas de dois pilares cravados na sílaba
ungida batalha a fala que respira antes da morte.
Deus é deus
invente lá ele o que inventar.
Batalha é horto
ocorra ela onde ocorrer.
Espelho em mim
espelho em que ousar
viver – vivo como o oficio inquieto.
A celebração continua agora desfocada
numa zona de caça rudimentar e desfechada
onde as palavras escorridas se devoram entre si.
.................................................João Rasteiro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Solnado
http://www.macua.org/biografias/raulsolnado.html
http://www.youtube.com/watch?v=htvVRM4K8MY&feature=related
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1329587
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
A Bigorna e o Anjo
Eram boas pois, mas acabaram: as benditas e simultâneamente malditas FÉRIAS! Durante os dias em que o No Centro do Arco esteve de férias, participei em Vila Nova de Famalicão no PORTUGUESIA: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, o meu novo livro, Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, foi apresentado na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, entretanto saiu mais um número, o #7, da revista BIG ODE – Poesia & Imagem, na qual participei. Estes são alguns assuntos que voltarei a trazer aqui para o "centro do arco".I
Mas vede como o altivo mundo
envolto em seus trilhos de sonhos e abismos
vem orvalhando as cores em seus ardis,
um homem esconjurado em sua boca de múrias
até que a morte o estilhace em mil pedaços
nos desmedidos voos em círculos prolongados,
sob o apocalíptico branco fulgor da eternidade
as pigmentações inacessíveis dos oceanos
conjecturam que o amor absorva a melancolia
em todo os ângulos da paisagem dos naufrágios.
II
E usarei as tuas tintas na minha carne
estancando no cheiro dos dias cegueira e piedade
uma imagem de deus ou bicho circunscrito
pois uma só gota será o sangue da mancha informal
o redemoinho unívoco do coração aceso
nos sopros que desconcertam a oração das cores.
III
Há sempre o ofício de incendiar os olhos
e a luz dobra-se desnuda no âmago dos espasmos
até os dedos caírem dentro dos dedos invisíveis.
As primeiras chamas. A morte em suas cores de vida.
.....................................................João Rasteiro
http://docs.google.com/gview?a=v&pid=gmail&attid=0.1&thid=122ec0242ebfbfaf&mt=application%2Fpdf
terça-feira, 14 de julho de 2009
Novo livro, Poesia e...FÉRIAS!!!
Como é referido no prefácio, estamos perante uma poesia, um canto, num “trajecto de maturidade já provada, que não se pode configurar nem dar a ler sem alguma convocação palimpséstica dos legados do Modernismo orfaico e do Neo-Modernismo que o refracta na charneira do século XX. “ E para além disso, perante “O tom evocativo que ganha a expectação de uma «utopia que acorde as águas do Mondego» corresponde ao ânimo melancólico do canto que se sabe prometido, após Ruy Belo e Eugénio de Andrade, às margens da memória de alegria”.
Enriquecendo o encontro, Júlia Zulus (oboé) e Luís Morais (violino) interpretarão obras de Mozart, Telemann e Bach.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
PORTUGUESIA: Festa da Poesia Lusófona
A abertura do evento está marcada para as 21h30, de sexta-feira, dia 10 de Julho, com a apresentação do projecto. Segue-se o primeiro de vários debates, que só terminarão pelas 18h00 de sábado. Neste mesmo dia pelas 16h00 efectua-se a projecção do DVD "Portuguesia", Vol. 1
Eu estarei pelas 11h30 de sábado no debate sobre “Poesia: Linhas de Fuga e Transmigração”, com Fernando Aguiar e Luís Serguilha. A moderação será da Ana Gusmão.
“Portuguesia” é um programa aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Minas Gerais, patrocinado pela Usiminas-Usinas Siderúrgicas de MG. Em Portugal tem como parceiro o município de Vila Nova de Famalicão.
A seguir ao fabuloso vídeo sobre a história da língua portuguesa (narração da extraordinária Fernanda Montenegro) seguem-se alguns links *** (depois do vídeo) sobre o evento, onde poderão ver o programa completo e outras notícias sobre o evento.
***
http://www.cm-vnfamalicao.pt/Portuguesia-Programa.pdfhttp://www.cm-vnfamalicao.pt/noticias/desenv_noticias.php?ntid=2496
http://www.acorianooriental.pt/noticias/view/188141
http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2008/Wilmar-Silva/index.htm
domingo, 5 de julho de 2009
(des)GOVERNO...de Portugal!
O valter é alguém que pode e deve ser apelidado de um artista na sua verdadeira acepção.Como refere o José Rui Teixeira, é alguém profundamente "inconstante e surpreendente nos seus tão idiossincráticos processos criativos", ou seja, é um artista. É poeta, ficcionista, (já foi editor, em projectos editoriais diferentes) desenha, escreve livros para crianças… e agora também canta. Mas, como refere ainda o José Rui teixeira, aquilo que distingue, "não é a excentricidade ou o carácter polissémico da sua criatividade, o que realmente o diferencia é a qualidade intrínseca de tudo aquilo que faz". Mas como já referi, o valter agora canta!
Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo colocado mais abaixo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio. Agora, como não poderia deixar de ser, um poema da sua poesia reunida em 2008 pela Cosmorama - "folclore íntimo":
quinta-feira, 2 de julho de 2009
"No tempo dividido"
Sophia de Mello Breyner Andresen (nasceu Porto em 06 de Novembro de 1919, e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004). Foi sem dúvida uma das mais importantes e extraordinárias poetas portuguesas. Talvez por isso, acabou por ser a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, em 1999 - o Prémio Camões.Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento
E que ninguém repita o seu nome proibido.
........................Chris Cornell - Billie Jean (Michael Jackson)
sábado, 27 de junho de 2009
Intemporalidades
No íntimo do caos
o corpo flutua no infinito desigual
dos últimos milénios
às vezes troca de morada
e na casca trémula da pedra
ensaia uma fuga abstracta
em volta do seu corpo
um poder feminino
o misterioso feminino que dizem ser
uma pequena concha imortal.
2.
O corpo não descobre nada
encontra apenas um palco vazio
talvez o corpo não seja bastante
há máscaras que escondem outras máscaras
a arte do silêncio
todas as visões circundantes às pálpebras
encontram o caos
antes do paradoxo inesgotável do pó
a morte que se tece com o próprio corpo.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
LUGARES
.
Quando sob os pinheiros, e quando escrava,
minha alma vestia um corpo torturado,
ainda a terra voava célere para mim
e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos,
.
Agulhas negras, escamas dos pinheiros,
as cascas
e rubro sob os pés jorra
o mirtilo,
e meus furiosos dedos rasgam pálpebras,
meu corpo quer viver. Será que este
sou eu?
.
Serei eu de carbonizada boca procurandoos
joelhos das raízes secas, e que a terra
engole como outrora o sangue, e as irmãs
de Faetonte se transfiguram, choram âmbar?
.............................................Arseny Tarkovsky
.
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
..................................O Lago dos Cisnes - Tchaikovsky
domingo, 21 de junho de 2009
LUGARES
Santa CruzEstou só sob a carnal mareação das pedras
plenas de inocência mineral
até à carnívora cortesia
onde os enigmas adquirem o clamor noctívago
da cidade altiva
em suas folhas de acanto.
...............É o corpo divino de um fecundo júbilo.
A forma como o eco regressa ideia de labareda
granítica memória
como a genuína dicção dos lábios
coincide com o discernimento dos cantos
levantados em seu arcanjo
estendendo a fluorescência acesa dos vitrais
o clarão aberto. Como os brancos arquipélagos
de uma geometria obstinada
santa cruz
toda a compaixão do verbo sobre o ímpeto
na respiração doída do mundo
o espaldar primitivo.
.........A minuciosa profusão das bocas expostas.
Ela encerra a sua própria concentração
de sonhos
toda a claridade no coração das cores da brancura
e o rosto de deus batido de luz rara
em olhos de oiro e azul celeste
por dentro da maturação da cidade das lágrimas
os seres que vivem junto ao rio
onde a indução do amor
celebrou o desígnio de um corpo que brota
de desejos de casta da flor de lótus
toda a punção da pedra acesa. E há uma magia de cores
afrontando o cordeiro, o sol e a lua.
.................Porque toda a morada é a própria alegoria.
O seu silêncio é a sílaba que respira os olhares
a distância dos remoinhos
que apaziguam a paixão do primordial ser – que dizem
ser a alma dos mortos em que os vivos
mergulham em sucessivas e maternais primaveras
brancas. O coração e o círculo dos deuses em sua cruz.
..........................................................João Rasteiro
.............................Clave de Fado - Igreja de Santa Cruz
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caf%C3%A9_Santa_Cruz
http://www.cafesantacruz.com/
quarta-feira, 17 de junho de 2009
A festa da vida
A terra chegou-me
até à garganta.
sábado, 13 de junho de 2009
O eleito do sol
No entanto a distinção de Arménio Vieira, até poderá significar a total liberdade de escolha, análise e gosto pelos membros do júri do Prémio Camões. E além disso, quem é que tem verdadeira autoridade para determinar o que é a justiça na atribuição de um prémio?
Aos 68 anos Arménio Vieira, torna-se o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. O poeta nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor (poeta e ficcionista) é jornalista, com várias colaborações em publicações como o "Boletim de Cabo Verde", a revista "Vértice", de Coimbra, "Raízes", "Ponto & Vírgula", "Fragmentos" e "Sopinha de Alfabeto". Foi ainda redactor no jornal "Voz di Povo".
Arménio Vieira foi um elemento activo da chamada "Geração de 60", em permanente luta pela liberdade e dignidade do homem Cabo-Verdiano.
A atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira é o «reconhecimento da literatura e da visão literária importantíssima» do poeta cabo-verdiano, disse Helena Buescu, presidente do júri e professora da Faculdade de Letras de Lisboa. O poeta possui três das suas quatro obras publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999. Em baixo o poema "Ser Tigre":
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Portugal, Portugal...!
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Como um mausoléu enorme e sem ninguém
frágil é a revolução difusa das constelações
que abriram de corola em corola a madrugada
o sentido heróico e excelso da sílaba de oiro
um país inclinado sobre a lírica de Camões.
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A criança e os cravos, um sopro alucinado
no nevoeiro fatigado da espera dos pássaros
os que se foram nus com as primeiras chuvas
emigrantes de outros sonhos que o tempo urde
e há clarões no céu que nunca acendem a terra.
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Talvez ainda regresse o grande guerreiro da luz
o fogo e abril nos marejados olhos das gaivotas
e mulheres transformar-se-ão em pórticos de sal
a grande flor perfumada deleitando-se primavera,
não chegará seu tempo para enlouquecer o meu.
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Como um mausoléu geométrico e sublime dor
o golpe incide na língua que molha minha voz
ó soluço de palavras maternais e azul profundo
e se esta é ainda a ditosa pátria amada de Afonso
porque como uma concha está meu coração vazio?
.................................................João Rasteiro
........................................Portugal, Portugal - Jorge Palma
domingo, 7 de junho de 2009
O Amor e a Poesia
[É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR]
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É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
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Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
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Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
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E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"
...........................DANTE ALIGHIERI
(Tradução: Augusto de Campos)
quarta-feira, 3 de junho de 2009
PAISAGENS
Os passos em voltaAqui é a aldeia da boca mais ávida:
liberta o círculo da cabeça, o fulgor do amieiro,
diz adeus à maldição dos campos álgidos, nus,
com o fulgor de aguilhões sobre o poente
o lugar é uma epifania das vozes dos grandes ritos.
E o coração acolhe-as, acendendo archotes
nos dedos secretos da chuva. Cheguei.
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A aldeia pega nesse corpo tão sonhador
Sou amado - e é um corpo divino e instável
que sob as trovoadas mastiga e sangra as próprias asas.
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Nada há como o afago das árvores simples
na gostosa e plena rasura das íntimas enxurradas.
...............................................João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul, 2008
.........................................Alceu Valença - ANUNCIAÇÃO
domingo, 31 de maio de 2009
A faísca dos corpos
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Lugares III
Desde as remotas tardes das chuvas que não consigo enumerar os desejos, que exercem com tão grande rigor o domínio das suas formas.
domingo, 24 de maio de 2009
O(s) Errante(s)
Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
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Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro~
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
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Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
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Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
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Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
..........................................................Joseph Brodsky
In "Paisagem com Inundação”, traduzido do russo por Carlos Leite
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/NLJoBrod.html
http://revistaliterariaazularte.blogspot.com/2008/01/joseph-brodskypoesa-revista-arquitrave.html
http://poemaseningles.blogspot.com/2003/04/joseph-brodsky.html
http://www.mgrande.com/weblog/index.php/partosdepandora/comments/seria_hoje_dia_do_seu_aniversario/