quarta-feira, 20 de maio de 2009

Espaços

A morte de Sócrates
Do livro da Contrição dos Mortos, dos Sopros IV

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser sulco na coroa aberta da terra e renascer

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser a dolorosa geometria e propagar a chama

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque era reincidência e o coração dos animais

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque tinha sede e caçava pelo olfacto das cobras

Preparou o leito da caça com os gânglios da morte

Para ser ventre da morte e a morte em suas flores
A palavra exaltada em suas escoras a florir e a gerar

Preparou a morte a construção fecunda do corpo nu.
.....................................................João Rasteiro

4 comentários:

gabriela rocha martins disse...

acaso alguém prepara a morte ,meu amigo?
não!
a morte é um acidente inevitável no percurso da vida.
esta sim ,poderá ,eventual mente ,ser preparada .a MORTE NUNCA!
( repito à exaustão - nascemos para viver ,não para morrer )


.
um beijo

alice disse...

e o autor preparou e depois escreveu este belo poema, joão. parabéns! um beijinho e um óptimo fim de semana.

João Rasteiro disse...

A morte é o brotar de nova(s) vida(s) de forma brutal e maravilhosa. Sócrates preparou a sua morte sabendo que a iria ressurgir uma nova sílaba...acesa e retumbante. É este o ciclo mágico das vozes.
Bjs.

joão

bonecadetrapos disse...

Existe em cada um de nós a dualidade decorrente de nos prepararmos para que, inevitavelmente um dia viremos a ser "pó, cinza e nada" e a fuga estratégica ao momento da viragem. E, contudo, sabemos que ao morrermos renasceremos em cada atómica partícula constituinte de um novo ser.

E esse é, tal qual diz, a magia de um ciclo de que fazemos todos parte...

Bom, muito bom, vir aqui.
Fica um abraço de estima e apreço

*___bonecadetrapos__*