quarta-feira, 25 de junho de 2008

ESPAÇOS

Sebastiano RICCI - Fall Phaeton
O desconcerto de deus
IX
todos os machos farão de forma metódica o luto e no entanto cada um deles será um corpo anómalo e irredutível no principio das noites enquanto as lágrimas continuam brancas e indecisas. mas é certo que os céus arranjarão outras têmporas para recolherem os pássaros que habitam as bocas das mulheres fechadas sobre estacas divinas. sob a contínua obscuridade a contorção benigna da raiva e do abstruso corpo maravilhosamente efémero até à oblíqua exactidão das gargantas. e em cada estertor floresce um indício de bem-querer atravessando a extremidade dos ganchos onde se delonga a geometria dos aromas e os sulcos do sangue. sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas onde se abrem à fortuna a brecha da pupila e o agudíssimo timbale porque ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril.
João Rasteiro
Placido Domingo - Granada

3 comentários:

alice disse...

cada vz mai a crteza de que, ao contrário do corpo, nunca o teu nome será pó. um grande beijinho joão.

gabriela rocha martins disse...

leio
e
re leio.te

incansavel mente
até ao dia do JUÍZO FINAL
( será que então o terei? )


.
um beijo

Anónimo disse...

ah , e ouvi o tenor inesperadamente ... no sábado , e ouvi também cantar no Alentejo... Boa Malha , João !
abraço amigo!
Zé Marto