quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Anjos e demónios

XII
.sei que dos olhos do animal fêmea antes do ritual do sacrifício o fogo desce aos olhos do homem e evapora-se no espaço fragmentado das córneas. pois ele gosta de vociferar nas madrugadas aonde se abrem à fortuna as orquídeas. a brecha da pupila. o agudíssimo timbale é um bálsamo pois ele é feliz como o eunuco que não cometeu crimes com suas mãos. deus apenas lhe pediu a prova do beijo na única palavra em que lhe reconhece a cinza do nome. é no casulo da pedra que deflagram as larvas desde a cruz materna ao sumo das uvas demasiadamente vermelhas. a devastação escolta a criação que reverbera a fala de dentro de todas as trovoadas de alicerce estéril. a fragmentação do coração. e a ternura dos labirintos são beijos de metáforas como uma trepadeira oferecidos por judas. mais uma vez em nome do criador dos ciclos. os mapas envoltos em sua túnica e asas de ébano límpido.
........................................João Rasteiro
. Sérgio Godinho - Dancemos no mundo

3 comentários:

L.C. & H. F. disse...

A poesia, sobretudo a moderna, exige do leitor uma entrega sem condicionalismos,
uma espécie de entrega de corpo e alma. Ela exige que ler não seja só ler, seja isto criticamente ou de outra maneira. É necessário sentir-se este ler, é necessário mergulhar-se nas palavras que se lêem.
Por isso pode dizer-se que o leitor reescreve aquilo que lê. Só assim o cerne do poema,
o seu élan vital, poderá ser atingido. Isto é, ler é uma dádiva e uma entrega. O leitor é
também escritor. Sem o leitor o poeta jamais poderia sair da sua escuridão, ou seja, regressar
à luz... Poeta e leitor reinventam-se e complementam-se.
O “ verdadeiro “ leitor subscreve cada poema que lê. “

Foi assim que liz este poema.

L.C. Züschen MMVIII

João Rasteiro disse...

"Por isso pode dizer-se que o leitor reescreve aquilo que lê. Só assim o cerne do poema (...)".
Luis, é um prazer ter um leitor como tu.
Claro que isso poderá ser derivado ao facto de também escreveres,embora nem sempre as duas coisas sejam bipolares.
Um grande abraço,
joão rasteiro

L.C. & H. F. disse...

Caro confrade,

Passo por aqui, por este espaço ou templo da poesia,
para lhe dizer que inseri vários textos no meu ( e da Helena ) blogue
e que há um desses texto que gostaria, especialmente, que lesse. O poema:
“ Quando se nasce poeta. “ Espero poder contar consigo, lá, na
Minha casa.

Evoé!

L.C.