Confusão, brincadeira, provocação? Na verdade, se Toldo Vermelho termina com a seguinte nota: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior”, estamos então na presença de um novo poeta!
A verdade é que, se é perfeitamente legitimo tal acto, uma vez que Joaquim Manuel Magalhães é para o bem e para o mal (infelizmente, penso que para o mal) dono e senhor da sua obra, logo poderá fazer dela o que bem entender (mesmo querer apagá-la), só na sua imaginação (ou falta dela) ou mente told(o)ada, poderia ser concebida a ideia de "apagar" aquilo que existe, que está aí, nas bibliotecas, nas casas particulares, nos livros, nos poemas e essencialmente, na influência em vários poetas, não esquecer que o autor se afirmou como a figura tutelar de uma corrente estilística que ao longo das últimas décadas (vide Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Ana Paula Inácio e outros) se tornou algo central na poesia portuguesa: o prosaísmo e um discurso poético-narrativo assente na permanente olhar e atenção ao quotidiano. Assim, estes poetas em autêntica angústia questionam: se me influenciei em um poeta/poética que não existe/não deverá existir, então a minha poética existe?). Como já comentou o poeta Luís Quintais: "Terá agora Manuel de Freitas ficado órfão?"
Negar livros anteriores ou rescrever e depurar a obra de forma continuada, não é novo, Herberto Helder fá-lo permanentemente, mas, em um Toldo Vermelho, Joaquim Manuel Magalhães nega e estupra, de forma absolutamente radical e violenta toda a sua obra poética desde os anos 70 até ao início deste milénio. O problema surge, quando esta reescrita manifesta não a correcção do gesto, não a renovação do corpo, mas o deliberado refazer de toda a estrutura, num quase sacrilégio iconoclasta. Sim, porque agora, a ilegibilidade das vozes do corpo é quase totalitária.
Certamente haverão de aparecer críticos a louvar esta obra e sua reescrita. O seu conteúdo atingiu um tal grau de ininteligibilidade que, para uns, vai ser complicado atacá-la e, para outros, vai ser delicioso elogiá-la, sendo certo, que será o próprio tempo a determinar se estamos perante um acto de loucura, ou um acto de génio!
Como diria a D. Zulmira, a vizinha a quem fazia os recados na minha aldeia, andou um tal de Joaquim Manuel Magalhães a trabalhar a linguagem uma vida inteira, a alimentar-se no fogo infinito da poesia, para agora, vir este Joaquim Manuel Magalhães mais velho (que não mais sábio) e simplesmente arrasar tudo como bomba atómica, numa espécie de automutilação, entregando-se "à feroz acção de deuses nos vulcões, / ao odor sacrílego de alquimistas mortos" (J.M.M.). De Toldo vermelho, dois poemas:
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O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.
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Eco, fivela, gume.
Eco, fivela, gume.
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Recolhe o júbilo dos invólucros de látex.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.
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Bolça-os à fornalha
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.
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Cadinho hermético,
operário do soturno.
operário do soturno.
....................Joaquim Manuel Magalhães
Segundo livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)
.http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-poemas-de-joaquim-manuel-magalhaes/
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/joaquim_manuel_magalhaes/poetas_jmmagalhaes01.htm
http://poesiailimitada.blogspot.com/2010/03/joaquim-manuel-magalhaes_01.html
http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%C3%AAs/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8502
3 comentários:
Julgo que este "novo" poeta matou o outro, devido a um ataque de pânico. Pânico de ser compreendido. Pânico de não ser considerado um bom poeta, se não for exageradamente hermético. E este transtorno não pode ser tratado com medicamentos nem psicoterapia.
Obrigada, João, pela lucidez desta crítica e pelos bons momentos que ela me proporcionou. :0)
Um abraço
Maria João Oliveira
está bem ,pronto...... e mais não digo .... porque se dissesse ou me matavam ou interditavam
fico pela minha normalidade (in)sana
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um beijo
Sejam bem aparecidas meninas gabriela e maria joão. Eu sei que me arrisco, ou à indiferença, ou à mais dura crítica, tendo em conta os comentários que por vezes faço aqui - mesmo se eles muitas vezes resultam de leituras efectuadas, também já ao nível das críticas de outros aos textos ou poetas mencionados. Se concordo com essas críticas e acho que também as devo subscrever...aí vou eu...depois, seja o que deus quiser. Mesmo se a indiferença. Por isso, a vossa visita e comentários é muitas vezes um autêntico bálsamo. Para as duas, um grande beijinho.
joão
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