sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Novas Vozes

-----------------João Rasteiro e Andityas Soares de Moura----------------------
No próximo dia 14 de Janeiro pelas 19h na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, proceder-se-á ao lançamento da antologia de poesia Algo Indecifravelmente Veloz, do poeta ANDITYAS SOARES DE MOURA, hoje já um dos nomes mais representativos da nova vaga da poesia brasileira. Autor e obra serão apresentados pela Dra. Graça Capinha da Universidade de Coimbra, no âmbito da Oficina de Poesia da FLUC e do Projecto de investigação "Novas Poéticas de Resistência".
Andityas Soares de Moura, mineiro de Barbacena, é poeta, tradutor e ensaísta, além de professor universitário e Mestre em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, instituição onde atualmente cursa o Doutorado em Direito.
Publicou: Ofuscações (Barbacena, edição do autor, 1997), Lentus in umbra (Barbacena, edição do autor, 2001), OS enCANTOS (Belo Horizonte, in vento, 2003) e FOMEFORTE (Belo Horizonte, in vento/Crisálida, 2005). Lentus in umbra foi traduzido para o castelhano pelo poeta e professor Francisco Álvarez Velasco e lançado na Espanha (Gijón, Trea, 2002).
No campo da crítica literária publicou em Portugal o estudo A letra e o ar: palavra-liberdade na poesia de Xosé Lois García (Lisboa, Universitária, 2004) e organizou uma edição da Lírica de Camões (Belo Horizonte, Crisálida, 2004).
Selecionou, introduziu, traduziu e anotou os poemas da escritora galega Rosalía de Castro reunidos em A rosa dos claustros (Belo Horizonte, Crisálida, 2004). Traduziu vários livros do poeta argentino Juan Gelman, a exemplo de Isso (em parceria com Leonardo Gonçalves, Brasília, UnB, 2004) e Com/posições (Belo Horizonte, Crisálida, 2007). Traduziu também À boa teta e outros quatro licenciosos poemas da França renascentista (Belo Horizonte, Crisálida, 2005). Tem traduções inéditas do catalão Joan Brossa e do galego Manuel Antonio.
Um breve comentário/análise da minha parte, a convite (que muito me honrou) do Andityas Soares de Moura e incluido na badana/orelha do livro.
"Não se nasce poeta. No entanto acredito que alguns nascem com algumas propensões para poderem vir a emboscar-se no acto poético. Contudo, a leitura, o estudo, a prática, o intenso exercício de oficina, escrevendo e reescrevendo, são essenciais para talvez se vir a ser um excelente poeta. E é tudo isso que Andityas Soares de Moura é, fez e continua a fazer. Conjuntamente com nomes como Iacyr Anderson de Freitas, Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo, Claudio Daniel, Fabrício Carpinejar ou Márcio André, é, sem dúvida, hoje, um dos mais expressivos poetas da poesia contemporânea brasileira.
Soares de Moura possui a capacidade de conjugar a sua alta erudição (ao grande domínio da língua e cultura latinas, alia um tratamento de grande intimidade com os poetas provençais e escreve com a mesma facilidade e docilidade com que fala mineiro) com a realidade que o cerca como espigões acesos, um/som//:o do peito sendo aberto/.
Em Soares de Moura encontramos uma poesia quase sempre espalhada no branco da página, assente em formas rebeldes, mas ajustadas numa escrita concisa, onde a preocupação extrema com a estética das palavras é reflectida na sua sonoridade. Sendo um poeta virado para o real, para quem a poesia é a arte do fazer, é a arte e faculdade poética, mas sempre como poiesis – criação, cri(ação) sob todas as arestas- a sua poesia é tudo que respira/canta a glória de estar/por enquanto,//e só por enquanto,//vivo/.
Soares de Moura não concebe a arte poética, se esta não questionar constantemente o real, como se a poesia fosse o último guerreiro atento à tirania do poder, à tirania da própria linguagem. A arte e a poesia ao serviço do carpe diem, do ensejo único, o nosso.
Como refere o poeta Glauco Mattoso, a poesia de Andityas Soares de Moura, oscila entre o moderno e o arcaico, com traços concretistas namoriscando o mais arrevesado latinório, que embebida numa alta tensão lírica, fará decerto de Andityas Soares de Moura um dos nomes maiores da poesia brasileira deste desencorajado início de século". (João Rasteiro)
Incluidos na antologia, os poemas: Epitáfio para as ilhas e Procissão
EPITÁFIO PARA AS ILHAS
no alto,
o cansaço, o
espasmo

murmúrios travam
conhecimento conosco

que solos negros!
duros como as orações
de antigos capatazes

sabor de milho
no pescoço

enfim, a porteira aberta

cercada
de musgos
doces
-----ooo-------------
PROCISSÃO
é uma névoa bisonha

dedos debaixo
da língua

eu vi o incenso roxo
brotar como feijão

ladainhas fervorosas
de sexos
aduncos
sérios mesmo

esta agremiação

de interior mais fundo
que
a raiva
Andityas Soares de Moura

5 comentários:

Anónimo disse...

O vómito.

Anónimo disse...

(...) encontramos uma poesia quase sempre espalhada no branco da página, assente em formas rebeldes, mas ajustadas numa escrita concisa, Rs,rs,rs

Anónimo disse...

dedos debaixo
da língua

= vómito

rasteiro disse...

V.Ex. deve deitar tudo para fora, faz bem ao estomago e principalmente a bílis!!!
E...não desistir de persistir de ir...

Xavier Zarco disse...

Sempre gostei do anonimato... tem um certo requinte, a silhueta quando surge...
Quanto ao vómito propriamente dito, duas opções:
1 - Não percebe nada de Poesia por isso não justifica;
2 - É seguidor de hábitos da Antiguidade, vomita para comer mais.
Seja como for, para mim, claro, Andityas Soares de Moura está num patamar bem superior. A sua Poesia é de rara qualidade.