domingo, 10 de fevereiro de 2008

"A prostituição da palavra" I

Desde sempre se assistiu à atribuição de prémios (pelo menos os mais relevantes) na literatura e neste caso específico, na poesia portuguesa, assentes em critérios quase sempre altamente discutíveis. No entanto, neste início de um desencantado século XXI, esses critérios (mesmo existindo algumas excepções) estão a atingir patamares de uma sublime vergonha, de uma troca de favores infectos, pestilentos e inenarráveis (quer sejam devido ao arranhar dos dedos ignóbeis de algumas editoras, ou simplesmente devido a um qualquer código, adaptado provavelmente do "Código de Honra" da Máfia Siciliana, uma vez que agora se tornou prática corrente atribuir o prémio a alguém que na edição anterior foi membro do júri - por coincidência dos deuses, o anterior vencedor é agora júri) que apenas glorificarão as múmias da palavra agonizante, apenas girando e girando e girando num oco espaço - ó vates presumidos do vazio!!!
Inclusive, alguns livros premiados são tão maus, que não só esses prémios envergonham a (infelizmente) pequena comunidade da poesia, mas, em alguns casos, até os primeiros livros do laureado - ai como é(era) bom, independentemente da qualidade poético literária, lapidar a sílaba na honestidade do eco! Penso, sem querer ferir susceptibilidades, que estamos a entrar numa espiral que proporcionará um caminho muito negativo para a poesia e literatura portuguesa em geral, um caminho que apenas se poderá apelidar de desonestidade intelectual.
Como referia o caçador de proxenetas da palavra Luís Pacheco: É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu.//E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...
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Prémio e castigo
O Prémio D. Dinis da Fundação casa de Mateus foi este ano atribuído a Manuel Alegre, pelo livro de poesia Doze Naus, por decisão de um júri constituído por Fernando Pinto do Amaral, Nuno júdice e Vasco da Graça Moura. O prémio tem prestígio, o júri é de peso, o poeta é consagrado, e colocar objecções ao seu processo de canonização passou a ser uma heresi. Mas o livro, esse, é um sério obstáculo à festa prometida e, para não perturbar tão glorioso momento da instituição literária, o melhor seria declará-lo não existente.
Tarefa simpática é, pois, a de dizer que uma das manifestações da existência do livro premiado é este poema de contemplação do “surf”: “De pé na frágil tábua/ onda a onda ele escrevia/ poesia sobre a água// Era uma escrita tão una/ de tão perfeita harmonia/ que o que ficava na espuma// não se poderia apagar;/ era a própria grafia/ do poema do mar”; ou estes versos de um “Requiem”: “Crepita a Madeira na lareira/ crepita a velha ameixieira/ seus veios são as minhas próprias veias/ vejo arder as ameixas e o verão/ crepita aquela que deu sombra e agora dá calor (…)”; ou ainda este “Adeus”: “Quando vieram dizer-me que morres-te/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.” Para o juízo soberano do júri também muito deve ter contado este final de uma “Breve Canção do vento oeste”: “Em cada verso há um naufrágio/ não sei de poema que não seja mar.” E quem se pela por coisas de poesia também não terá ficado indiferente ao mar alegriano, que “traz às praias do dizível/ a musica e a melancolia dos crepúsculos”.
Mar, crepúsculo, vento, aurora, melancolia, viagem, naufrágio e muito mais: Manuel Alegre vai ao arquivo dos significados “poéticos” cristalizados e constrói com eles um edifício de metáforas e símbolos vazios, bem mortos. Esta poeto-metaforização que se quer fazer passar por poesia – mas não passa de mera imitação da poesia – é um logro tão grande como a grandiloquência “kitsch” do vate presumido: “Um peso em mim: a História foi demais./ País do mar. Agora outrora./ e todos os navios a sair do cais/ para outro espaço outro crepúsculo outra aurora.”
Inclinando-se com reverência enfática, a poesia que nos oferece este livro não se satisfaz senão imaginando que é um performativo do inefável ou que é consubstancial ao mundo, como no pensamento mágico: “As aves voam por dentro/ da espingarda e da caneta/ na paisagem nunca vista.” Mas, com meios que não vão além de simbolismos de pacotilha e eufonias de salão, bem pode Manuel Alegre invocar o mar, convocar tempestades e evocar ondas que nem a mais leve brisa por aqui passa, quanto mais “um cheiro de alfazema e de salgema”. A não ser que sejamos tão supersticiosos como o júri deste prémio.
António Guerreiro ( aguerreiro@expresso.pt )
actual – Expresso, 9/2/2008
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Vergonha. Indignidade. Impotência. Ao contemplar tudo isto, advém-me uma enorme sensação de vergonha e raiva como português e poeta face a esta desonestidade, indignidade e vileza permanente. A forma como década após década, ano após ano, prémio após prémio (reafirmo, ao nível de quase todos os prémios mais importantes, porque como sempre, vão germinando excepções), este país poético e literário agiu e age, só me leva a fazer meus os versos de M.Cesariny:
Faz-me o favor...
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny

3 comentários:

Anónimo disse...

Sim senhor.
e esta hem!
pois é...

P.

alice disse...

bom dia, joão. adorei ler e fechar assim com cesariny é fantástico *

beijinho grande *

Rasteiro disse...

Alice, infelizmente a poesia actualmente em Portugal é tratada desta forma.
O que nos alegra um pouco ainda, são poemas como o do M. Cesariny que ainda nos obrigam a reagir um pouco a estas barbaridades.
Obrigado por continuares a “aparecer”.
Um grande beijinho,

joão