quinta-feira, 27 de março de 2008

Lugares

(...)Aproximam-se paulatinamente os ciclos finais das cidades, dos lugares com corações de ferro enxuto, embriagados em jogos de nocturnas deambulações com os seus insectos negros, de um negro faiscante. Neste espaço, os sítios da revelação eram as caves, os sótãos e o silêncio que ainda subsistiam como memória de vidas e deuses, cuja posteridade e sombra se deixou reduzir a precários vestígios de granito sombrio, de bocas cozidas na pedra.
Cidades delineadas na incandescência da blasfémia que imagina a linguagem dos campos inaugurados e renovados, dos campos no centro dos homens inquietos. Os campos vibrando nas hastes aguçadas do centeio.
Passou bastante tempo antes que a memória voltasse à sua paisagem. E quando o fez, foi ao encontro dos amieiros e do sabor da terra húmida.
A aldeia, porém, é um corpo de palavras e crianças – e as suas mãos fixam-se de forma enigmática ao tumulto do mel que irrompe do coração da terra, fazendo com que os sonhos despertem e a vida recomece, por essa força que a devora por dentro como uma queimadura polida, restituindo a memória dos gnomos ao sonâmbulo que se fantasiou neste sonho alquímico.
(...)
In, O Búzio de Istambul - 2008

1 comentário:

alice disse...

este excerto é uma delícia. apetece logo ler o texto completo. aceita uma encomenda de um búzio para mim, sim? e retribuo os beijinhos do teu comentário abaixo ;) bom fim de semana, joão.