segunda-feira, 3 de março de 2008

"Um falcão no punho"

Faleceu hoje aos 76 anos, talvez, uma das mais reservadas e extraordinárias escritoras portuguesas do século XX, MARIA GABRIELA LLANSOL. E como refere, Eduardo Pitta, "provavelmente a maior prosadora portuguesa do século XX", alguém que terá inaugurado uma nova escrita na literatura portuguesa.
"Voz das mais secretas e discretas na literatura portuguesa contemporânea de difícil classificação porquanto a sua escrita quebra constantemente as fronteiras - em cada um dos seus livros ou no Livro único que pareceu escrever ao longo dos anos - entre prosa e poesia, ficção e diário, romance e novela. É de resto uma autora que poderíamos colocar sob o signo da fronteira"(IPLB).
Falecida esta madrugada, Maria Gabriela Llansol destacou-se na ficção contemporânea pela originalidade de obras como Um Falcão no Punho (1985, Prémio Dom Dinis), Os Pregos na Erva, O Livro das Comunidades, A Restante Vida, Um Beijo Dado mais Tarde(1987, Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e Prémio da Crítica), Amigo e Amiga (2006, Grande Prémio de Romance e Novela da APE) e Lisboaleipzig.
Autora de uma poética extraordinária e muito singular, Maria Gabriela Llansol, era possuidora de uma escrita de grande qualidade, quer ao nível estético, quer filosófico, o que sem favor a coloca como um dos nomes mais marcantes da literatura portuguesa das últimas décadas. Alguém que, como disse Eduardo Prado Coelho, está no ponto em que «a escrita salva, redime, sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho, e a literatura, essa, já começou a ficar para trás».
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"(...)bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real
bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano
bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível
bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança
bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos
bem-aventurada sejas tu, ó Terra, porque tua será a explosão que levará o vivo a todo o Universo."
In, Ardente texto Joshua - Maria Gabriela Llansol

2 comentários:

Maria João disse...

"(...) bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos (...)".
Ainda não tinha conhecimento da morte de Maria Gabriela Llansol, ao passar por aqui no dia três... Fiquei chocada com o seu desaparecimento.
Ela está à frente do seu tempo, não é verdade? E várias obras irão sair dos manuscritos que deixou.
Olho a foto da sua mesa de trabalho, onde se sentia "inteiramente feliz" e sinto a sua falta.
Permite-me, João, que deixe aqui estas palavras de Maria Gabriela Llansol : "Quem traz algumas mutações estilísticas, algumas propostas poderosas de mutação do olhar pode não ser bem-vindo, mas não pode, de certeza, ser dispensado."
Obrigada, João!

Um abraço

Maria João Oliveira

Rasteiro disse...

O nosso muito obrigado, é para a grande Maria Gabriela Llansol.
Na verdade, ela sem se aperceber estava a falar dela própria(a citação que a Maria João referiu).
Um beijinho e o Blog agradece novas visitas.