terça-feira, 11 de março de 2008

"Uma Pedra ao Lado da Evidência "

"em surdina me preparo para morrer" é um verso de Sebastião Alba (Braga, 11/03/1940 - 14/10/2000).
Cedo foi para Moçambique, aí, foi desertor do Exército português, esteve ligado à Frelimo, foi preso, versos seus saíram na revista Caliban, dirigida por João Pedro Grabato Dias (António Quadros) e Rui Knopfli. Já depois da independência frequentou um curso de formação da Frelino e chegou a ser nomeado administrador da província da Zambézia, além de dar aulas de formação politica. Mas o poeta, que José Craveirinha qualificou como "um dos grandiosos deuses humildes da palavra", foi-se desiludindo com a evolução da situação politica e da Frelimo, e em 1983 regressou, com a mulher e as duas filhas, à sua terra natal, Braga. Separa-se, bebe muito, passa a viver em quartos de aluguer e a procurar sucessivos empregos, faz tentativas de desintoxicação. A partir de 1994 refugia sobretudo no álcool e no tabaco. Como referiu Virgílio Alberto Vieira, "Um dia chateou-se com tudo e optou por viver sob um texto de estrelas".
Muitas vezes, metia poemas manuscritos debaixo das portas ou na caixa do correio dos poucos amigos, sobretudo poemas dedicados a animais.
Publicou vários poemas e alguns livros, em 1996, é publicada pela Editora Assírio e Alvim, através da colaboração do poeta Herberto Hélder, "A Noite Dividida", que tenta recuperar o conjunto da sua obra poética, embora incompleta.
Sebastião Alba, faleceu com 60 anos, atropelado numa rodovia. Deixou um bilhete dirigido ao irmão: «Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá»
"O vagabundo pôde por fim habitar a eterna morada do comum dos mortais; o poeta, esse, ainda anda por aí", como referiu Fernando Pinheiro.
Em forma de homenagem e de descoberta deste nome da poesia e literatura em língua portuguesa, que precisa de ser "destapado" e valorizado com urgência, dois belos textos:
A UM FILHO MORTO

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.
.
A ORELHA DE VAN GOGH
"Era em Tete – parece a abetura de “ Salambô “, de Flaubert, deixa lá isso. Tete, uma vila colonial, em Moçambique, tinha dois clubes onde se dançava, em certas datas. Mas, nos outros dias, funcionários jogavam cartas, ouviam música.Uma noite eu ia de nossa casa ao encontro de meu pai que era professor ali, em 1950. Só, por um passeio térreo, sob as acácias comecei a ouvir música. Eu tinha dez anos. Vinha até mim de um dos clubes, pelas janelas abertas. Sabes o que fiz? Corri, com medo que aquilo acabasse. Era a 4a Sinfonia, de Brahms, soube-o depois.Ainda hoje, oiço os primeiros acordes da 4a Sinfonia , de Brahms, e fico arrepiado. É um arrepio físico. Poderás vê-lo na pele dos meus braços quando, um dia, a ouvirmos em qualquer parte os dois.Lembrou-me, ontem, um mito grego. A minha flecha crava-se no teu rosto cego, não falho. Ele também não, desde que se deixe “ guiar “; lê essa frase de Van Gogh. É uma carta estranha esquece-a; esquece-a.Um pintor que sempre me alucinou foi este. Teve no meu destino uma influência decisiva. E nada sei de pintura!Nunca acreditei naquela história da orelha oferecida numa folha de couve a qulquer prostituta. Ele estava com uma alucinação auditiva e à beira da loucura – era o sol de Arles, o Kamesin, o vento do deserto; saía todas as manhãs com o cavalete às costas. Não faltava nada a esse holandês. Só a esperança nos homens do seu tempo e no dos outros".
Sebastião Alba
http://boticelli.no.sapo.pt/sebastiao_alba.htm
http://www.macua.org/livros/sebalba.html

2 comentários:

jorge vicente disse...

caro joão rasteiro,
um poeta a descobrir sem pensar duas vezes. fantástico.

entretanto, convido-lhe para outro poeta. josé félix. o lançamento vai ser sábado, 22 de abril. vai ser o xavier zarco a apresentar.

aqui fica o convite oficial para si:

"A Edium Editores convida-o a participar na sessão de lançamento da obra “Travessia” do poeta José Félix, no dia 22 de Março de 2008.
O evento terá lugar no Porto Palácio Hotel, salão “3 Rios” às 16.30 horas
A obra será apresentada pelo poeta de Coimbra Xavier Zarco
Endereço: Avenida da Boavista nº 1269, Porto."

Rasteiro disse...

Desejos de um excelente lançamento (e apresentação do xavier)desta(s) "Travessia", mas a época não permiterá sequer pensar em poder estar presente. Um abraço, especialmente ao José Félix.