quarta-feira, 6 de maio de 2009

"Novas oportunidades"

Além as ilhas passam – são os apocalipses
.
Além as ilhas passam - são os apocalipses
as patas queimadas desabrochando
renovadas de pele
e logo regressarão fulgurantes
alastrando pelas águas inteiras
e infundidas
entre corpo e lugar, as vagas
da febre. A garganta escoada pelo fôlego
dos abismos
em opulência de sonho
de palavra nas hastes entregue ao seu silêncio
de verbo obscuro.
.
.
Além passam as ilhas como morcegos
de quem se teme o amor
e no entanto nas ondas da língua
não se teme o bafo mortal de seu carnívoro beijo
onde pulsam as guelras. O espanto ainda
projecta o fulgor inesperado do poema
até ao limite dos corações acesos.
.......................................João Rasteiro
...........Frankie Goes To Hollywood - "The Power of Love"

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da MÃE

......................."Madona" - Edvard Munch

Tenho Saudades do Calor ó Mãe
.
Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis
.
Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto
.
Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes
.
Ó infinita ó infinita mãe.
......................Daniel Faria, in "Dos Líquidos"
.
Um Poema meu - "A dança das mães":

quarta-feira, 29 de abril de 2009

ANACRUSA

Acaba de ser editada pela COSMORAMA a 2º edição (1º edição das edições etc, 1983 ) de "ANACRUSA 68 sonhos", de Ana Hatherly. Deste excelente livro, os dois poemas abaixo:

26/11/60
O terror materializa-se sob a forma de uma pequena luz lilás que se dirige a grande velocidade para a minha janela aberta. Estendo as mãos e colho-a no seu caminho. Afinal era uma pequena e estranha ave violeta e azul marinho. Entretanto queima-me a perna direita. É um sofrimento intenso. Para me aliviar alguém dá-me um golpe e logo imenso sangue começa a jorrar.
.
Janeiro de 1963
Um número incontável de mulheres de todas as idades seguindo em fila indiana, entre as quais me encontro. Somos todas prisioneiras e somos conduzidas involuntariamente através de corredores e escadas, deslizando por elas abaixo como que dormindo. Todas sabemos que somos prisioneiras mas estamos mais ou menos serenas. Eu penso: agora sou prisioneira mas um tempo virá em que serei liberta, eu e todas elas. Entretanto estendo a mão para trás procurando trazer a minha filha para junto de mim, para acelerar a sua libertação.
.
.......................................Carlos Mendes - A festa da vida

domingo, 26 de abril de 2009

Flores

..........Abril

E o sol desce como um falcão,
um relâmpago ígneo celebra-se
no presságio, atalha-se o silêncio
o visível e o invisível das súplicas
que dormem a perversa inocência,
.
no cume das bocas as flores murchas
como incautas candeias adormecidas.
.................................João Rasteiro

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A liberdade da sílaba

Olvido


calaram a tua boca

mas certamente
esqueceram uma pequena sílaba
somente semente
em algum canto

nos recantos de um país
de mim
uma flor livre
sob a terra obsessiva e sagrada
do jardim.

*

calaram a tua voz

mas certamente
esqueceram o odor fresco
semente somente
das rosas e do jasmim.

........................Manuel de Cenáculo

sábado, 18 de abril de 2009

Lugares II

A poeta, ensaísta e investigadora Maria Estela Guedes é membro da A.P.E. - Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, do Instituto São Tomás de Aquino e Directora do site/plataforma TriploV, depois de em 2008 ter publicado o seu mais recente livro de ensaios e/ou critica literária: A Poesia na óptica da Óptica, prepara-se para publicar o seu novo livro de poesia, intitulado: Chão de papel. Poemas que vislumbram o âmago carnal e sensorial da Guiné-Bissau, a fragrância odorífica do refluxo em espiral do coração (dos corações?). Como refere Nicolau Saião no prefácio ao livro: "Neste livro/poema, cujas jornadas incessantemente se questionam tanto quanto se afirmam — pois que é esse o movimento perene da poesia, ir e vir como se fossem as ondas de um mar na noite ou na claridade — a penumbra ilumina-se a dado passo para ganhar um sentido além da devastação e da amargura. Trata-se duma legítima e nostálgica evocação mas igualmente, ou principalmente, duma transfiguração". Independentemente das neblinas que a amizade por vezes oferece, para além de uma excelente crítica literária (essencialmente sobre a poética Herbertiana), Maria Estela Guedes possui uma poética que urge começar a ser olhada com mais atenção. (P.S. - No final do post, "todas as ligações/links à/para a Maria Estela Guedes").

(...)
Espera a tua morte como se tivesse o tempo todo
À frente para nele se banhar em incenso
Era ali que devias ser sepulta
Com a tua carga de afectos e ondas pesadas
As lembranças
O coração fechado num búzio
A murmurar palavras sabe ao ouvido
Era ali
No fundo das águas a tocar
O lodo verde e menstrual do Geba…
Vai morrer à Guiné se te apraz
Num dia de neblina fria sobre as águas
Na linha imperceptível que separa a lua
Da luz
Vogando para o Oriente Eterno
Na barca de Rá
Depois de passar pela ilha entre ilhas
Bolama
A saber a mangos e a melancolia.
..............Maria Estela Guedes

http://www.triplov.com/estela_guedes/index.html

http://www.triplov.com/estela_guedes/2009/Chao-de-Papel/Nicolau-Saiao.html

http://www.triplov.com/estela_guedes/2009/Chao-de-Papel/index.html

http://fitei.blogspot.com/2008/03/boba-de-maria-estela-guedes.html

http://www.artepoetica.net/Maria_Guedes.pdf

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Lugares

...........................Alfredo Luz
Quem me refrescará antes da morte sob as fontes? Quem perfumará o meu corpo extinto de vida nos jardins odoríficos? Quem atulhará a minha boca de pedras no coração do barro? A mim, lugar, quem me chorará os olhos apagados de Primavera? Quem me sepultará impuro no coração dos amieiros? E as madrugadas acordarão como se a aldeia não fosse o lugar bastante, o coração como a terra inclina o rosto à vida? A luz da chama?
.
Apesar de tudo continuam a existir as palavras fincadas aos pulmões que nos embebem medo ao rosto do coração. Abro a passagem e invado o teu espaço, aldeia. Palavras, memória, sopros, a frescura do mundo, um corpo, um outro espaço que irrompe da aldeia, das abrigadas ruas, da Rua da Fonte, do passado, de múltiplas e doídas constelações de outras existências, de outros sabores. E sou todas essas realidades inaudíveis, abertas, expostas, incompletas, em movimento por entre as humanas vozes que em mim florescem. Este ainda é o segredo que o amieiro me revelou.
........................................................João Rasteiro
In, O BÚZIO de ISTAMBUL, 2008 (Palimage)
..................................Verdes são os campos - Zeca Afonso

domingo, 12 de abril de 2009

Parte do Arco-Íris

Roxana Crisólogo (Peru), eu e o Zé Luis (Casino da Figueira da Foz).
O livro Lisbon Blues, do meu amigo e poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, é um dos candidatos ao "VII Prémio Portugal Telecom", destinado a livros em Língua Portuguesa publicados no Brasil em 2008. Este livro de José Luís Tavares, lançado na 8ª Bienal Internacional do Ceará, integra a colecção Ponte Velha (criada pelos poetas Carlos Nejar - Brasil e António Osório - Portugal) incluida na editora brasileira Escrituras. Em Maio, o livro deverá ser apresentado na Cidade da Praia. Refira-se que já em 2008, o Ministério da Educação Brasileiro atribuiu a José Luís Tavares o prémio "Literatura para Todos" pelo inédito "Os Secretos Acrobatas". É sem dúvida o merecido reconhecimento de um excelente poeta da língua portuguesa, um dos poetas aliás, que já hoje começa a ter uma das mais relevantes obras do panorama literário cabo-verdiano. De Lisbon Blues o seguinte poema:
.
3.
Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.
.............................José Luís Tavares
In, Lisbon Blues, S. Paulo, 2008

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O silêncio de deus

Para os meus amigos italianos, em particular para todos os da cidade de Aquila e da região de Abruzzo, uma pequena (embora impotente) homenagem. Em nome de todos um poema "Enquanto o silêncio durar", traduzido pelo amigo Alberto Sismondini.

Mentre il silenzio perdura

Nel centro docile dell’attesa
cattedrali sanguinano gli occhi mordenti la calma.
E l’olio e il vino, sciolsero
il seme in bozzoli dorati, che
gli alberi fendettero.
Il corpo, lo divorano i metalli incendiati
nella danza dei polmoni, che bambini
rinnegarono nell’eclissi.
Forse nel marmo calcificato di promesse
l’orto si purifichi, cercando nel candore
della luce, il puro tatto dei suoni.
E l’uomo strazia il respiro, lapidato nella
saliva delle unghie, dove uccellini volano tra le dita
curvate sul volto di acacie.
Nel sale di questo pianto, l’apprendista segreto
di sogni e luce.
Su queste vetrate dal veder passar
le parole, dalla polvere che si scuote,
accetto il silenzio come un amante.
............................................... João Rasteiro
In, Antologia Poesie Sulle Piastrelle - Zacem, 2001
----------(Tradução: Alberto Sismondini)
...................................Pavarotti - Ave Maria (Schubert)

Poema em português:

http://alapidacaodasilaba.blogspot.com/search/label/Poesia%20de%20Jo%C3%A3o%20Rasteiro%20-%20Italiano

segunda-feira, 6 de abril de 2009

GALA(N)TE(I)A



.......................RAFAEL (n. 6/04/1483 - m. 6/04/1520) - "Galatea"
XIV
.tal como os fungos dos poços de jerusalém a memória sagrada das tábuas é uma crisálida indecisa que se perdeu para sempre no fundo inóspito do próprio ventre de bunho. e parte larva parte meretriz chegaram os novos seres para talhar as cidades em metálicos e encorpados pulmões de cobre. alguns homens que já só rastejam como as ofídias percorrem as cisternas em noites de lua cheia. o violento delírio de se verem reflectidos nos olhos da água. sob o nenúfar as suas escamas repousarão desinquietas pela última miragem. a outra face do pai que tecia argênteas teias de melancolia. é preciso recordar as prefigurações das trevas para se acolherem as metamorfoses. a benévola carícia. a ressurreição hodierna das crias. o eco colorido.
...........................................João Rasteiro
...........L. Pavaroti, J. Carreras, P. Domingo - "Maria, Mari"

quarta-feira, 1 de abril de 2009

LIBERDADE

A obra de Agostinho da Silva estará em debate na sexta-feira no colóquio "O Legado de Agostinho da Silva: quinze anos após a sua morte" organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e em que participarão, entre outros, Adriano Moreira e António Braz Teixeira. Organizado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e pela Associação Agostinho da Silva, o colóquio tem agendadas diversas sessões ligadas aos estudos desenvolvidos pelo filósofo. Renato Epifânio, docente do Departamento de Filosofia da FLUL, parte da Direcção da Associação Agostinho da Silva e um dos organizadores do colóquio, reconheceu à Lusa a dificuldade em centrar o legado de Agostinho da Silva "num só campo". "Agostinho da Silva teve um pensamento complexo com múltiplas facetas", refere. Numa visão "mais pessoal", o docente descreve o "sentido de uma consciência lusófona" como o legado maior deixado pelos estudos de Agostinho da Silva, particularmente no que refere ao seu impacto enquanto "um dos mentores da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)". Agostinho da Silva, referenciado como um dos principais intelectuais portugueses do século XX, nasceu no Porto em 1906, tendo vindo a falecer em Lisboa em 1994, aos 88 anos de idade. O colóquio decorre a partir das 10h00 no Anfiteatro I da FLUL e terá ao longo do dia participações de Adriano Moreira, António Braz Teixeira, Paulo Borges e Manuel Ferreira Patrício, entre outros. - (Público Online)

Agostinho da Silva (n.13/2/1906; m.3/04/1994), filósofo, poeta e ensaísta português, é tido por muitos como o nome mais importante da segunda metade do século XX em Portugal - a primeira metade foi mesmo de Fernando Pessoa. Como referiu Romana Valente Pinho, "a idéia agostiniana de um homem em busca de seu próprio sentido e do sentido dos outros – sejam transcendentes ou não-, um “eu” que só é pleno e completo na e pela relação com o outro e disto, da consciência do “eu” através do “outro” (...) Desta “dialética das consciências” conclui-se que não vale a pena separar-se dos outros, pois tal cisão é a quebra do próprio ser. Em outras palavras, não há dialética das consciências sem pluralidade. E como afirmou o próprio Agostinho da Silva, "Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas". Um homem e essencialmente uma obra que Portugal tem de redescobrir e não deixar esquecer nos bosques da mediocridade que cada vez mais alastra e nos penetra. De mestre Agostinho da Silva, um poema:

Algum dia

Algum dia um novo Papa

anunciará altivo

que Deus é raiz quadradade

um quantum negativo

*
e o Deus que tanto procuro

em que atingido me afundo

é aquele ser-não-ser

do que acontece no mundo

*
da matéria mais que densa

é que é divertido ser

ali se nada acontece

tudo pode acontecer.

NEY MATOGROSSO - Balada do louco

http://ebicuba.drealentejo.pt/ebicuba/jornal/jornal08/pagina-personalidades/agostinho_da_silva.htm

http://joseeduardolopes.tripod.com/id28.html

sábado, 28 de março de 2009

Rotas Reinventadas II

.................................Imagem de MIUKI

Cérebro quando poesia
.....................Tive de descrever a tua grandeza, ó meu cérebro,
.....................corola macerada pelo poder da cultura.
................................Fiama Hasse Pais Brandão


.água poesia da largura em si mesmo
a estuar o animal das línguas dos balidos
como espáduas ambas em seu perfil único
de margem flanco poesia outra para corpo,

coração do fragmento ao longo das lascas
palavras nervura que se desfralda frontes
o equilíbrio fugidio das actínias feições
contra o pó poesia entre pedra e silêncio,

abelha ofusca desnuda sombra no tronco
muro poesia ou hortos alvuras dos campos
extensos um olhar do detrás pulsos de luz,

deus usurpando o verbo inicial de Platão
espaço se pétalas e madrugada de astros
geme a magnólia poema em murcha sílaba,

demónios nus do cosmos das comparações
místicas chamas da barbárie a nova ordem
no círculo aberto como se única contrição,

poesia flor - uma como cérebro do eco, poços
ou uma força inacessível em secretos cicios,
odores em distâncias mortas vincadas hélices,

centelhas nuas – mas que dobram áleas, poesia
e nas costas do metal uma figura nova desova,
animais que só procriam a activação das forças,

hoje, da não promessa pragas de eternidade sob
o diluído âmago de profundos centros, a poesia
de múltiplas mortes, gotas do renascer acto pó
formas de fluidas formas da sentença – quando,

em si mesmo da largura poesia água – silêncio.
João Rasteiro
.................................
Blind Zero - Tree

quarta-feira, 25 de março de 2009

Da terra à luz

Eu, com Seamus Heaney, no Palácio de S. Marcos, após um "grandioso repasto" - 2004
O prémio Nobel de 1995, o irlandês Seamus Heaney acaba de receber o prémio David Cohen, atribuído de dois em dois anos a grandes nomes da literatura, como V.S. Naipaul (1993), Harold Pinter (1995) ou Doris Lessing (2001). Poeta presente em Coimbra, como figura principal dos V Encontros Internacionais de Poetas (2004), organizados de três em três anos pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi sem dúvida um dos mais "simples, gentis e disponíveis" dos poetas presentes, não parecendo a ninguém estarmos em presença de um Nobel da Literatura. Daí, ficar muito satisfeito por mais este importante prémio que lhe foi atribuído. Seamus Heaney é um poeta grandioso e magestoso como as sublimes planícies de seu país, é contado e cantador da área rural, dos dias nebulosos, da nostalgia familiar, dos antepessados, da visão arqueológica da própria Irlanda em sua magia, com muitas histórias, épicas ou não, para contar. Aliás, muitos de seus poemas são narrativos - alguns curtos, como A Musa Gutural; outros, mais longos, como a Ilha das Estações. Em baixo dois poemas:
.
"O Fragmento"

"Veio a luz do oriente", cantava ele,
"radiosa garantia de Deus, e as ondas aquietaram-se.
Eu podia ver línguas de terra e rochedos acossados.
Muitas vezes, pela coragem mostrada, o fado poupa o homem
se não o marcou já."
.
.
E quando a objecção deles lhe foi dita -
em especial que a sua obra se fizera em fragmentos,
que já não podiam dizer onde estavam com ele,
que já não distinguiam primeira linha ou última linha -
respondeu com uma questão.
"Desde quando", perguntou,
a primeira e a última linha de qualquer poema
são onde o poema principia e termina?"
............................Tradução - Vasco Graça Moura
.
"PARA BERNARD E JANICE MCCABE"
.
Leito do rio, seco, cheio de folhas quase.
Nós, a escutar um rio nas árvores.
.
.................Tradução - José Antonio Arantes
.
........................................U2 - BAD Live Aid, 1985

sábado, 21 de março de 2009

POESIA 21

Hoje é o dia mundial da poesia. Para assinalar o acto, a Fnac comemora-o em todas as suas lojas fazendo uma homenagem a vários poetas (cada loja fnac homenageará um poeta), tais como, Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Mário Cesariny, António Aleixo, etc. Em Coimbra, o poeta homenageado será Fernando Assis Pacheco. Para tal acção foi convidada a Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que também aproveitará para lançar os dois últimos números da sua revista. Assim, lá estarei com mais alguns membros da Oficina de Poesia para lermos poesia e bebermos um copo com quem aparecer. São todos bem vindos. Lá vos esperamos pelas 21h30. Apareçam!
A Profissão Dominante
.
Meu Deus como eu sou paraliterário

à quinta-feira véspera do jornal

nadando em papel como num aquário

ejectando a minha bolha pontual

.
de prosa tirada do receituário

onde aprendi o cozido nacional

do boçal fingido o lapidário

- fora algum deslize gramatical-

.
receio que me chamem extraordinário

quando esta é uma prática trivial

roçando mesmo o parasitário

meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
.................................Fernando Assis Pacheco
In, A Musa Irregular, 1996

quarta-feira, 18 de março de 2009

António Nobre: n.16/08/1867 - m. 18/03/1900
MEMÓRIA

Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e lá corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: – «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já...» E ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, a lua, o santo, o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever...
Lede-o e vereis surgir do Poente as idas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
.
...................ZECA AFONSO - Do choupal até à Lapa

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pereira_Nobre
http://www.triplov.com/poesia/antonio_nobre/index.htm

domingo, 15 de março de 2009

Fulgurações

...........................................Susanne S. D. Themlitz

Luz
.
A luz que aflui errática das pedras
e anuncia o dia na chama dos corpos
derretendo o aço que nos corta
procura um ninho por entre as mãos
e ramifica-se linguagem entre os dedos.
.
Na perfeição da luz está a poeira
no fundo um templo ou uma garganta
a sombra desfocada em que nos projectamos
o silêncio alumbrado em suas formas nuas,
.
adiro dobrado ao grande segredo da luz
e desenho sobre ela as veias que vão doendo.

João Rasteiro

In, No Centro do Arco - 2003

.........Vinicius de Moraes - Pela Luz dos Olhos Teus

quinta-feira, 12 de março de 2009

RETRATOS

A minha falta de disponibilidade em participar na "Colectiva" do Jornal VAGALUME, dedicada ao poeta Carlos Felipe Moisés, não tendo por isso respondido ao convite da Cida Sepúlveda, fazem-me pedir desculpas aos dois, publicando do meu amigo Carlos Felipe Moisés o poema "Lagartixa", poema que me faz recordar os bons tempos que passámos em 2004 durante os V Encontros Internacionais de Poetas, realizados em Coimbra desde 1992, pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Universidade de Coimbra.
.
Lagartixa

O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina já não é:
..........limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada de dentro.
.

.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo insuspeitado:
........nuvem
.........algas
milhares de roldanas
........e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
.......e foge
para o céu aberto.
Carlos Felipe Moisés

................................................HUMANOS --- Quero é viver

http://www.revista.agulha.nom.br/cfm.html

http://fotoseliteratura.blogspot.com/2007/11/joo-rasteiro-mrio-lcio-de-sousac.html

http://www.cidasepulveda.com/5201.html

domingo, 8 de março de 2009

Rotas Reinventadas

tratado das veias

É assim o corpo:
como as rosas do metal
em peso sobre as bocas, sangrando devagar,
gota a gota, apocalíptico, inesgotável espaço
pulmonar, sílaba a sílaba como a sagrada perfuração
dos espinhos. O estilo de cantar
a fervura das águas, as gigantes sequóias e
o esquivo beija-flor,
correspondências ébulas
que visam
só uma inviolável e amorosa esfera
de linguagem
nua em suas espécies de verbo,
seu eco de carmesim como teorema biológico:
poesia.


Pétalas negras de dialecto infinito:
natureza e desejo
de constelações, o gerânio e a libélula,
as crias fervilhando inscritas
com os sexos dentro do movimento,
a percussão violenta e obsessiva
da antecipação das veias, o génesis das fendas
sob a palavra centrífuga.
E, para além das chuvas,
o corpo aberto para quem se afoitar no murmúrio
dos inclassificáveis,
nessa ixicial geografia de oiro
onde se ocultam o bdélio e a pedra de ónix.
E há a criança-magnólia de um poema em seu sal único:
ressureição.


E se os lamentos das aves sobre a arte das anopsias
que cobrem a luz dos abismos
avivam a elisão da caligrafia branca
dos afectos, corpo e poema, sós em seu coito:
If you`ll believe in me, I´ll believe in you. Is that a bargain?
João Rasteiro
.
Hoje é o dia mundial da mulher. A minha simples homenagem é feita com a extraordinária canção do Chico, Geni e o Zeplim.
............................"Geni e o Zepelim" - Chico Buarque

quarta-feira, 4 de março de 2009

POESIA...?

O poeta brasileiro e co-editor da CRONÓPIOS, Edson Cruz, tem estado a questionar uma série de poetas, colocando-lhe três "simples" questões que coloca no blogue "SAMBAQUIS", facto que deverá dar origem a um livro organizado por si. As minhas respostas, actualmente no "ar", podem ser lidas na íntegra em: http://sambaquis.blogspot.com/
.
O que é a poesia para você?
.
Na juventude era sobretudo estranhamento, depois passou a ser brincadeira e prosápia, só que agora é medo e sofrimento. Poderia talvez dizer que a poesia é. Talvez substanciá-la como espanto e descoberta, caos e criação, vida e morte, verbo e substantivo. Poderia até dizer que a poesia é o lugar mais recôndito e primordial da alucinada linguagem em seus mundos e corpus de perplexidade. Poderia talvez, como refere Herberto Helder, dizer que ela é (...)
.
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de maneira?
.
Ousar pensar/sonhar a palavra outra, a transgressão outra, a linguagem outra. E naturalmente deverá ler, ler, ler – ler incessantemente. Depois, escrever, escrever, escrever – escrever/ver/reescrever/ser. Até se viciar(...)
.
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético.
.
Por que destas escolhas?Afinal são duas perguntas numa só. Apontar três poetas é tão difícil como apontar um, seis ou até nove – Homero, Dante, Shakespeare, Camões, Rilk, Lorca, Pound, Breton ou Kavafis. E no entanto atrevo-me, embora por múltiplas e variadas razões, a apontar os seguintes poetas:(...)
.
.........................La poesia es... - Paco Ibañez


http://sambaquis.blogspot.com/
http://www.cronopios.com.br/site/default.asp
http://www.germinaliteratura.com.br/ecruz.htm

domingo, 1 de março de 2009

PORNOCRACIA

Gustave Courbet (A Origem do Mundo)

Dorme que eu velo
Sedutora imagem
Terna miragem
................................
Nada em mim é risonho
Ou anseia viagem.
Quero-te para sonho
Não para gozo e dor.
.
Tua carne psalma
Fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços
Nem quero ter nos braços
............................................
Dorme, filha, dorme,
Vaga em teu sorrir.
Sonho-te tão bem
Que o corpo me vem
E me venho sem ir.
Mário Cesariny

.....Pedro Abrunhosa & Bandemónio - Talvez Foder

http://jn.sapo.pt/Domingo/Interior.aspx?content_id=1157101

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/cesariny.html

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Distâncias

A geometria do silêncio

Respiro e escrevo silêncio
no acto de escrever e silêncio
até à distância extrema
e na língua o silêncio ferve
a grande terra da garganta branca
lâmina e dedos quase míticos
a líquida frescura dos golfos
onde se renovam os silêncios
sob a cúpula acolhedora do sangue
o excesso do corpo dos mortos
o silêncio que se deixa respirar.
João Rasteiro
.................................Buena Vista Social Club

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

José Afonso - Agora e Sempre !

José Afonso: Aveiro, 2/08/1929 — Setúbal, 23/02/1987
Que amor não me engana
.
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
.
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
.
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
.
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
.
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
.
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
José Afonso

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Poesia Verde

António Ramos Rosa é candidato à 18º edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, um dos galardões literários de maior prestígio no espaço hispânico. Já no ano passado, a SPA apresentara a candidatura de A. Ramos Rosa ao prémio, (facto inédito, a candidatuta dois anos seguidos do mesmo poeta) que tem a dotação pecuniária de 42100 euros. Prémio que apenas foi ganho uma vez por um(a) português(a), Sophia de Mello Breyner Andresen na edição de 2003. Sendo um dos mais prestigiados prémios literários, pretende distinguir o conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor e impacto literário, constitua uma contribuição extremamente relevante para o património literário e cultural, partilhado por toda a comunidade ibero-americana. Poetas como Antonio Gamoneda, Mario Benedetti ou João Cabral de Melo Neto (para além de Sofia) já conquistaram o prémio.
Estou vivo e escrevo sol


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde.
António Ramos Rosa
............................................The Animals - House of the Rising Sun

http://www.triplov.com/poesia/ramos_rosa/index.htm
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1366039&idCanal=14
http://www.ucm.es/info/especulo/numero33/aramosro.html

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PAISAGENS


..........................................Alfredo Luz
O corpo profuso flutua incendiado
como os tendões duros da terra,

eu sigo o eco da maturação perfeita,
um círculo fechado no halo dos enigmas
que ignora a extensão da sua teia púrpura

(...)

Há bocas cheias de secretos signos
que a água não escondeu dentro do fogo
mães rasgando um lento solo sagrado

(...)

Olho os favos de mel da idade inicial
o lugar em que se simula a ressurreição
e as veias são um rastro de estrela.

João Rasteiro - In, Os Cílios Maternos, 2005

............................................Joan Baez - Diamonds & Rust

sábado, 14 de fevereiro de 2009

RAUL PEREZ - "sem título"

Raúl Perez, aqui em amena conversa, comigo e com o pintor Seixas Peixoto, durante a inauguração da exposição "A Voz dos Espelhos", Amadora/08, nasceu em Lovelhe-Minho em 1944. Realizou a sua 1º exposição individual em 1972 a convite de Cruzeiro Seixas. Depois de em 1973 integrar o Movimento Phases, expôs em vários locais, quer em Portugal, quer no estrangeiro, tendo ao longo dos anos integrado algumas das mais importantes exposições do surrealismo internacional, mesmo recusando-se a integrar explicitamente um movimento artístico, partido, clube ou religião. A sua pintura, ditada essencialmente pelo automatismo, cria uma imagética organicista e contagiante de seres híbridos, de contornos moles e ondulantes, em áridas arquitecturas e crepusculares ambientes metafísicos (Gonçalves & Cuadrado, 2004). É sem dúvida hoje, um dos mais importantes pintores portugueses contemporâneos.
O Museu Colecção Berardo apresenta a maior exposição de sempre do pintor Raúl Perez - Cerca de 90 desenhos e pinturas criadas entre 1960 e 2008 por Raúl Perez vão ser apresentados segunda-feira no Museu Colecção Berardo, naquela que é a maior exposição de sempre dedicada ao universo plástico deste artista português."Raúl Perez - Desenho e Pintura" será apresentada em colaboração com a Fundação Cupertino de Miranda, com sede em Famalicão, onde, em 2006, o pintor de 64 anos apresentou uma outra exposição com cerca de setenta obras. Foi a partir dessa exposição que decidiu fazer uma mais alargada, com uma selecção de obras "mais apurada", totalmente dedicada a uma fase iniciada a partir dos anos 1960, explicou Raúl Perez em entrevista à Lusa a poucos dias da inauguração. (In, Público).
Em sua homenagem, um poema de Mário Cesariny, um pintor e poeta que sempre admirou.
"Eu, Sempre..."
.
Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
Mário Cesariny
.........................................Madredeus - "Silêncio"

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1365058&idCanal=14

http://www.timeout.pt/news.asp?id_news=3017

http://www.museuberardo.com/

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A idade do homem


Crateras de pedra acesa
...........................A Jesús Hilário Tundidor

Deves ser a derradeira cidade
dos primitivos animais doirados
que aspergiam a pedra do interior dos pulmões
as bárbaras vísceras do Minotauro
na polpa crua que se adoça em minha fronte,
.
como o seixo que se desabrocha puro
do âmago corrompido da terra
trepando para beber a sede irada do Tormes
e em seu flanco esperar pelo sol que fulge o fogo.
.
Procuras a deflagração ao centro,
um modo de te amar as crias dentro do tempo
aonde se ampara o precipício imediato da sílaba.
.............................................João Rasteiro
.
JOSÉ CARRERAS - GLORIA (MISA CRIOLLA)

.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Salamanca
http://images.google.pt/images?hl=pt-PT&q=salamanca&um=1&ie=UTF-8&ei=VzmTSYX1F5WN-gaqxemJCw&sa=X&oi=image_result_group&resnum=5&ct=title

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os dias do amor

Foi editada recentemente a antologia "Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano", 365 poemas de amor escritos por 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares. A recolha, selecção e organização foi efectuada pela Inês Ramos e inclui prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. A obra conta com nomes variados, portugueses e estrangeiros, poetas com obra e nome já "feito" e também com poetas menos reconhecidos, ou menos visíveis, mas que no seu conjunto contribuem para um belo livro de poesia. A antologia conta com nomes como, António Ramos Rosa (Portugal), Affonso Romano de Sant'Anna (Brasil), Luís de Camões (Portugal), Almeida Garrett (Portugal), Al-Mu’tamid (Alandalus), Bocage (Portugal), D. Dinis (Portugal), Daniel Faria (Portugal), Dante Alighieri (Florença), Emily Dickinson (EUA), Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal), Nuno Júdice (Portugal), Gabriela Rocha Martins (Portugal), etc. E é da Gabriela R. Martins o poema que se segue e incluido na antologia, até porque sem falso pudor, me sinto bastante lisonjeado por o poema me ser dedicado.
-O Caçador.Cativo
............................ao João Rasteiro
.
haviam.se em vão procurado nas cidades
.
percorrera continentes
quando desistira
encontrara.se solto no ritmo lento
de uma valsa
dançada em contra.mão
.
desintegrado
.
sentira as ondulações das cearas
que cearara em dança lenta
regressara estranho às recordações de antanho
antanho era a linguagem de seus avós
.
havia crescido junto à terra gretada
pela fome das manhãs abertas
desde cedo havia sentido a boca
apagada de desejo de terra pão
fustigada pelo vento
.
havia pulado a cerca
construída sobre os dias
como as copas das árvores que
costumava ouvir à noite entregue
aos seus passos de caçador furtivo
fora numa dessas deambulações que a encontrara
solta
aproximou.se
ela a medo levantou as asas
no voo ferido
.
soltou os cães
ficou suspenso à dança do animal
em voo
primeiro raso
depois mais alto
arribando em direcção ao mundo
em tons de mel
engrossou o batimento das asas
ao som da pressa
do homem / caçador / cativo
daquele voar
enquanto filados
os cães esperavam a voz de comando
.
ele muito aquém da aventura
seguia.lhe o volteio
o silêncio da terra era o elo que os unia
.
ele o caçador cativo
ela solta à migração
.
o desejo deixava.os sob um manto de horas
semeadas a esmo
que estranho aquele olhar que
se projectava na mira do caçador
tornando.a vulnerável ao cúmplice
jogo do agarra e foge
ele o enfabulador
regressava caçador
ela de asas fechadas
pronta a deixar.se prender
olhou.o
ele viu.se
projectado no olhar em flash
.
uma ave / dona.
Gabriela Rocha Martins
.............................."Dancemos no Mundo" - Sérgio Godinho

http://porosidade-eterea.blogspot.com/

http://porosidade-eterea.blogspot.com/search/label/Lan%C3%A7amentos

http://cantochao.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

LIVRE para fracassar...

Hilda Hilst: n.21/04/1930 - m.04/02/2004

"Hilda Hilst, uma das maiores escritoras brasileiras e falo escritor, do porte de uma Clarice Lispector sem desmerecer Guimarães Rosa , foi uma mulher muito injustiçada. Dona de um estilo único, ela nunca teve no grande público a repercussão que merecia (...)Morreu na solidão e morreu na incompreensão.". - Ignácio de Loyola Brandão
da morte. odes mínimas
.
Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.
.
Morte , teu nome.
Um quase chegar perto.
Um pouco mais (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mais, tu O terias visto.
.
Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.
.
Árias Pequenas. Para Bandolim
.
Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
.
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
.
Via Vazia VIII
.
Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

Hilda Hilst - A sublime Senhora H. - Música de Mallu Magalhães

http://hildahilst.cjb.net/

http://www.youtube.com/watch?v=f06OE-1_R8E&feature=related

http://www.hildahilst.com.br/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst

http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2004/not20040204p4461.htm

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Repto

Respondendo ao excelente repto da Gabriela Rocha Martins (Blogue: .canto.chão.), transcrevo a 6º linha, da página 161 da obra "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, 3º Edição, 1970, a partir da qual "saiu" o poema que se segue - "Pequena oração para uma geografia familiar". Eu também irei lançar os meus reptos.
.
........"Era uma velha mãe em fundo de jarrão verde com (...)"


Pequena oração para uma geografia familiar

Esperava cobrir a terra novamente de júbilo
ser oferenda madura como uma tâmara
imitando a densa voracidade de uma velha mãe
que intransigente é o arco de si própria
mas tu estarás pomar em fundo de jarrão verde
dobrado sobre a dilatação das casas acesas
anteriores ao fogo louco da sílaba.
.
E sei que há um silêncio de primaveras negras
e digo que todo o amor é uma abóbada
de pequenos vulcões que adormecem junto ao barro
morrendo entre lírios e chuva regeneradora
e vejo o odor maternal fundir barro e cor
corpos metidos em conchas verdes sob o coração.
.
Mas tu, ó relâmpago que esmagas a prumo fundo
a luz arrancada das ciladas nocturnas,
ó cometa obscuro atravessado por dentro do milagre?
.
Do lugar circunscrito às talhas espero a obra
cega no segredo da traqueia das mulheres que criam
nas cisternas mais fundas sob o verde puro da laranjeira
uma ave-maria como uma desmesurada boca viva
uma velha geografia - a força magnética da criação
dobrada em si mesma por doces lágrimas envelhecidas.
João Rasteiro
..............................Pink Floyd - Mother

http://cantochao.blogspot.com/

http://sulmoura.blogspot.com/

http://romadevidro.blogspot.com/